A Lenda de Yuuki - Livro 1: Medos
1 Capítulo 1 - Incapaz
Ainda me lembro bem da primeira vez que me adentrei no mundo espiritual. Eu era jovem, e procurava maneiras de fugir da minha dura realidade, e os espíritos me ajudaram com isso.
– Vejam, vejam! Um humano, de novo...
– Poxa, bem que todo esse brilho de antes poderia ter sido alguém mais emocionante, mas é só uma garotinha.
As reações foram das mais diversas, um simples olhar, ou uma saudação alegre, não importava, pois eu finalmente estava em lugar em que eu sentia a paz. Claro que isso não durou muito tempo, em poucos minutos, lá estava eu, encolhida dentro do meu próprio armário, torcendo para que aquilo não tivesse sido um sonho, e que o monstro não mais me encontrasse.
Tudo em vão.
[CRACK]
Uma mão havia perfurado a porta do armário, me agarrando pelo colarinho. Lágrimas escorriam pelo meu rosto, enquanto eu permanecia paralisada.
– Você sabe que não pode se esconder de mim! Você é uma decepção para toda a nossa família! Por que você não é capaz de dobrar, como seus irmãos?! Inaceitável! – A mulher esbravejava palavras de ódio e decepção, enquanto me segurava no alto. Em seguida, me arremessou contra a parede.
Sangue. Nosso fluido vital que nos mantém vivos. Já não sei quanto eu perdi desde que tudo isso começou.
– Amanhã mandaremos você novamente para o mestre Kiao, e espero que volte para casa dominando a dobra de fogo. – Disse a mulher, deixando o quarto – Se você não conseguir, considere-se nada mais do que uma simples criança abandonada nessas ruas escuras.
[SLAM]
Finalmente. Ela havia ido embora.
Entretanto, ela voltou, mais furiosa, quando retornei do treinamento malsucedido com o mestre Kiao.
– Eu quero você fora dessa casa antes do amanhecer. Se não sair, eu mesma a irei expulsar.
Essas foram as últimas palavras que ouvi da minha própria mãe, nunca mais a vi depois disso. Passei boa parte da minha infância vivendo nas ruas, até que um dia, encontrei um dominador do ar.
– EI! Devolva meu dinheiro! – Ao proferir essas palavras, uma espécie de parede de ar se formou ao meu redor, impedindo que eu fugisse. O dominador então pegou seu dinheiro de volta, e perguntou – Por que você rouba, pequena?
– Para sobreviver – o respondi.
– Onde estão seus pais?
– Não tenho – sussurrei.
O dominador de ar arregalou os olhos quando os mesmos se encontram com os meus, então ele se abaixou e pôs as mãos em meus ombros, dizendo:
– Sinto uma energia espiritual muito forte em você, por acaso você já entrou no mundo espiritual alguma vez? – Ele perguntou, surpreso.
Abaixei minha cabeça, e disse, envergonhada:
– S-sim... eu já fui lá, sem querer.
O homem se levantou e virou as costas para mim, dizendo:
– Você tem uma forte conexão com os espíritos, e precisará de ajuda para desenvolvê-lo – suspirou – se você quiser, poderá vir comigo ao templo do ar mais próximo, lá lhe ensinarei a entrar em contato com os espíritos, e com o mundo espiritual.
Meus olhos brilharam, só de pensar que eu poderia entrar naquele mundo incrível, e quando eu quisesse! A minha resposta naquele momento foi instantânea, afinal para uma criança abandonada qualquer coisa era melhor do que a rua.
E naquele dia, passei a viajar com o mestre Nazai, um dominador do ar extremamente habilidoso e sábio. Durante nossas viagens, fui aprendendo sobre o mundo espiritual e sobre a cultura dos nômades do ar. Aprendi um pouco sobre o que era a felicidade.
Dez anos se passaram, e hoje, sou proficiente na arte espiritual. Nunca me senti tão conectada espiritualmente com o mundo como me sinto hoje.
– Vamos lá.
Me sentei na câmara de meditação, e em seguida, entrei no mundo espiritual.
– Lindo como sempre. Ah, olá Junji!
– Como você está hoje, Yuuki?
Junji foi o primeiro espírito a me guiar pelo mundo espiritual, e foi com ele que formei um laço de amizade. Ele tinha uma aparência de um cogumelo voador, meio estranho, pelo menos para os meus padrões, mas isso nunca afetou nossa conexão.
– Eu estou muito bem, Junji! Hoje eu estava pensando em uma coisa...
– Deixa eu adivinhar! Pular nas gramas fofinhas de novo! Eu adoro isso!
Sim, pular nas gramas fofinhas é demais! Não, espera, não é isso que quero dizer para ele!
– Não, não é isso! Estive pensando sobre o que aconteceu com o Avatar. Sabe, já fazem vinte anos desde que o Avatar Soushiro, da república da Terra, se foi. Pensei que alguém aqui no mundo espiritual pudesse saber sobre isso.
Junji começou a me rodear, flutuando, como se estivesse pensando.
– Hm... Agora que você falou no assunto, faz bastante tempo que não vejo o Avatar por essas bandas.
– Só agora que você notou?! – Exclamei.
– É que diferente de você, vinte anos para mim é bem rápido. Fora que você tomou todo meu tempo ultimamente! – Parou de me rodear – Mas a gente podia falar com o velhote.
– Que velhote?
– Iron...? Não, Ito, eu acho...? Ilho...?
– O grande General Iroh vive no mundo espiritual?! – Fiquei surpresa e ansiosa ao ouvir o que o Junji disse.
– Isso! É esse o nome! Ele fica toda hora tomando chá por aí, não é difícil achar ele se souber onde procurar.
– Então vamos lá, Junji! – Comecei a correr, porém Junji ficou parado.
Ele então chegou bem perto de mim, agarrou minhas bochechas com suas asinhas, e perguntou:
– Por que você quer saber do Avatar?
– Nazai me disse que o mundo voltou a cair no caos e em guerras quando o Avatar Soushiro morreu. E eu consegui perceber que houve um aumento significativo de espíritos que voltaram para cá, se continuar assim, os esforços em manter ambos os mundos em harmonia terão sido em vão, não é?! – Esses eram os meus mais sinceros sentimentos diante tal situação que assola o mundo.
Junji me largou.
– Ah, certo! Só vou te levar lá porque suas intenções são nobres, eu acho. Você nunca me deixou na mão mesmo, hehe!
Junji começou a voar na minha frente, mostrando o caminho para o suposto General Iroh. Ele não parava de falar nunca, e era por isso que eu gostava tanto dele. Enquanto caminhávamos, Junji perguntou mais outra vez:
– Como é que você conhece o velhote? Sabe, o Iron.
– Não é Iron, é Iroh – retifiquei – e todos na Nação do Fogo o conhecem.
– Espera, você é da Nação do Fogo?! Como você não me disse isso antes! – Junji esbravejou enquanto voava descontrolado.
– Mas essa foi a primeira pergunta que você me fez quando eu entrei no mundo espiritual...
Ele parou por um instante e só após alguns segundos que ele pensou em responder:
– É mesmo... você devia usar roupas da Nação do Fogo, se não vou me confundir pensando que você é uma nômade do Ar.
– Mas eu vivo no templo do ar junto com o Nazai, isso não me faz uma Nômade do Ar?
– Ah!! Para de me confundir!
O silencio caiu, mas rapidamente se transformou em gargalhadas.
– Junji, você é demais.
– É eu sei.
Andamos por mais alguns minutos até finalmente chegarmos na frente de uma árvore gigante.
– É aqui que o velhote está. Vou ficar aqui fora te esperando.
– Tudo bem, Junji, já volto.
Entrei em uma fissura que me levava para dentro da árvore. Lá dentro haviam uma mesa com um bule de chá, duas xicaras, e um tabuleiro de Paichou. Sem sinal do General Ir-
– Olá, Yuuki.
Uma voz vinda na direção oposta ao meu olhar me pegou de surpresa. Decidi me virar, e para a minha surpresa, era o General Iroh.
– General Iroh!
– Não me chame mais de General, pode me chamar de Iroh – ele disse enquanto balançava o dedo em negação – gostaria de uma xicara de chá, ou então uma partida de paichou?
– Aceito o chá, pois não sei jogar paichou, hehe...
Iroh derramou o chá nas xicaras e fez um gesto me incitando a sentar em uma cadeira.
– Então, pequena Yuuki, o que lhe traz aqui na minha humilde árvore? – Perguntou enquanto bebia o seu chá.
– Vim perguntar o porquê de o Avatar ainda não ter retornado. A última vez que demorou tanto para o Avatar reaparecer foi no ciclo do Avatar Aang. O mundo está entrando novamente em caos, e até os espíritos estão ficando incomodados.
Iroh tornou a olhar para mim com um olhar surpreso. Em seguida colocou a xícara de chá no pirex.
– Como assim a Avatar não voltou ainda?
– “A Avatar”? Por acaso o próximo Avatar é uma mulher?
– Sim, estranho você não saber disso, tendo em vista que você é o novo Avatar...
De repente um barulho de coisas caindo no chão, era o Junji.
– A YUUKI É O AVATAR???!!! YUUKI POR QUE VOCÊ NUNCA ME DISSE ISSO?! – Junji entrou no modo maluco dele, voando e derrubando tudo que via pelo caminho enquanto fazia um escândalo.
– E-eu... não posso ser a Avatar, sr. Iroh. – disse a ele de cabeça baixa, lágrimas escorriam do meu rosto.
– Por que não, pequena Yuuki?
– É por que não, Yuuki?
Junji e Iroh me perguntaram, ambos confusos com a minha afirmação.
– Eu... não sou uma dobradora. Eu... fui um fracasso ao tentar dobrar o fogo, e Nazai tentou me ensinar o Ar. Tudo em vão!
Levantei da cadeira e sai correndo da árvore-casa do Iroh.
– É velhote, acho que você errou dessa vez. Como que uma não-dobradora é o Avatar?
– Existem coisas nesse universo que são apenas mal explicadas. Daremos tempo ao tempo, pois só ele fará com que tudo se resolva no fim.
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