A Lenda de Kaito
1 PRÓLOGO
Notas iniciais
O Mundo Espiritual estava sufocado. Korra corria. Aos setenta e poucos anos, o fôlego pesava, mas ela não parava. O céu mudava de azul para roxo. Árvores brilhantes flutuavam ao redor. Tudo irreal. Mas o ar pesava como chumbo. Tinha um cheiro de cinzas e algo podre. Algo faminto.
Um frio subiu pela espinha dela. O vulto estava logo atrás. A fumaça negra rodava viva em volta do corpo, rasgando o ar, mas o rosto sobrava no meio da escuridão. Pele pálida demais. Doente. Cabelos brancos e soltos caíam por cima do rosto, quase escondendo o que queimava por baixo. Olhos vermelhos cravados nas costas dela. Onde o pé dele pisava, o mato espiritual secava até virar pó. Ele engolia a luz. Queria tudo.
Korra não estava fugindo de medo. Precisava de espaço. O totem de Raava brilhava firme na mão dela.
O artefato pesava. A base cilíndrica e grossa encaixava perfeito na palma da mão, feita para segurar apertado. A madeira branca subia reta e abria de uma vez no topo largo e achatado. Bem no centro da peça, fendas profundas formavam o desenho de um losango. Um olho cravado na madeira. Redemoinhos acompanhavam o desenho principal, rasgando a superfície como ondas. Nas laterais de cima, duas pontas curvadas desciam afiadas.
Energia espiritual pura vazava dessas pontas. Uma névoa de luz vibrante que também escapava pela base e pela borda no alto da madeira. Um cofre. A fechadura da luz no meio de todo aquele caos. Ela apertou os dedos contra os redemoinhos esculpidos. Sentiu a energia pulsar quente contra a pele. Ela cravou o pé no meio de uma planície flutuante. A sombra alcançou ela. A grama murchou, sugada. Korra escondeu o totem. Respirou fundo.
O ar estalou. Korra jogou os braços para frente e uma rajada imensa de água explodiu contra o inimigo. A sombra não recuou como um monstro qualquer. Ele firmou a base. Uma postura de combate perfeita. Antiga. Ele revidou com fogo negro direto do punho. O choque clareou o céu inteiro.
Ela socou o chão. Um pilar de pedra estourou debaixo dele. O vulto desviou no ar com um salto milimetricamente calculado. As chamas negras vieram para cima dela como garras. Korra congelou o ar na hora. Levantou uma parede grossa de gelo e travou o impacto. Quebrou o gelo e mandou milhares de estilhaços afiados de volta. A sombra girou no próprio eixo. Um movimento limpo de defesa. Um escudo de fogo escuro derreteu tudo em vapor.
— Quem é você? — Korra gritou mas ficou sem resposta.
Korra saltou. Desceu rasgando o vapor com um chute de vento. A sombra voou para trás. Mas antes de cair, disparou fogo negro pelos pés. Pegou impulso no ar e voltou como um meteoro faminto. O choque fez a terra flutuante tremer e rachar ao meio. Ela recuperou o equilíbrio. Os olhos brilharam com o Estado Avatar. Fogo dourado engoliu os braços dela.
— Chega!
Ela avançou. Socou o ar e o chão cedeu. Fogo e vento varreram o campo. Ele não recuou. Canalizou o escuro no peito e disparou uma labareda de fogo negro tão absurda que o ar perdeu o oxigênio. Korra puxou uma parede de pedra grossa do chão. O impacto estourou a rocha. Pedaços de ilha flutuante viraram poeira.
Korra gritou. Juntou água e fogo. Criou um ciclone imenso que engoliu ele. A luz clareou tudo. Mas a sombra estourou a tempestade de dentro para fora. Chamas negras arrastaram Korra pelo chão. Ela rolou pesada. Bateu as costas na pedra. Tossiu fumaça e se levantou.
— Vocês, Avatares, sempre confundem poder com autoridade. Atiram fogo, terra, água e ar contra tudo que não entendem... e chamam isso de equilíbrio.— A voz dele soou dobrada, um eco antigo afogando o tom humano por baixo. — Mas eu sei o que vocês querem... eu sei o que você quer Korra...
Ele deu um passo lento. A fumaça preta girou em volta das pernas dele.
— Me dê o Totem e eu posso devolver o que o tempo roubou... — A Sombra abriu a mão pálida. — Eu tiro a dor desses seus ossos velhos. Devolvo a sua juventude...
Korra continuou de joelhos. A respiração pesada, puxando o ar com força. Ela apertou os dedos nos redemoinhos esculpidos da madeira. Não disse nada.
A Sombra inclinou a cabeça. O sorriso doentio rasgou o rosto quase escondido pelos cabelos brancos. Quando ele falou de novo, o eco escuro e demoníaco sumiu por completo. A voz saiu suave. Doce. Um timbre que Korra conhecia melhor que a própria batida do coração.
— Eu posso devolver todos eles... Aang... Roku... Kyoshi... Kuruk... — a voz dele era como um sussurro bem vindo nos ouvidos de Korra — Você atravessou o Mundo Espiritual atrás dos seus antigos “eus”. Mas sabe muito bem quem gostaria de encontrar de verdade.
O sangue da velha Avatar gelou. O ar sumiu dos pulmões.
— Korra... — Ele deu mais um passo, estendendo a mão descarnada. A voz da Asami soava perfeita, ecoando no vazio espiritual. Um veneno doce e cruel. — Eu senti tanto sua falta, vem ficar comigo... entrega o Totem e vamos ficar juntas novamente.
Por um segundo de silêncio absoluto, o corpo da Avatar tremeu. Os olhos dela encheram de lagrima. O desejo bateu tão forte no peito que doeu fisicamente. Era tudo o que ela mais queria. O buraco no peito dela gritou para aceitar. O aperto no Totem quase rachou a madeira. Korra engoliu seco. A lágrima escorreu, quente, e misturou com o sangue no queixo dela. O choro morreu ali.
— Você não tem o direito de usar a voz dela.
Ela cuspiu o sangue grosso na pedra do chão. O fundo dos olhos piscou. Azul e letal.
— A Asami se foi e levou um pedaço meu com ela. — A voz de Korra saiu rasgando a garganta. — Quem é o covarde escondido nesse capuz?
O sorriso sumiu. A Sombra baixou o centro de gravidade. Os pés deslizaram na pedra. Postura perfeita de um mestre. E então ele avançou. Rápido demais. Cirúrgico. Não eram só socos. Ele queria arrancar pedaços. Korra cruzou os braços na frente do rosto e defendeu. O impacto estalou os ossos dela. Cada soco que batia na pele puxava o calor para fora. Mas Korra cravou a bota no chão. Não recuou um milímetro.
A troca de golpes travou em um bloqueio duplo. O braço do inimigo tremeu. A fumaça raleou com o choque. O fogo negro queimava a própria pele pálida dele. Korra encarou o abismo vermelho naqueles olhos. Tinha raiva ali. Mas também tinha desespero. O corpo humano não aguentava o peso do espírito.
— Quem é você por baixo disso tudo? — Korra forçou o peso contra ele. — O que quer com o Totem?
Ele não piscou. O sorriso doentio repuxou o rosto marcado pelas chamas.
— Você não precisa morrer velha Avatar, somente devolva o que é meu... — O eco demoníaco engoliu a voz humana.
O fogo negro estourou direto da palma dele. À queima-roupa. Pegou em cheio no braço esquerdo de Korra. Ela berrou. A dor derreteu os nervos e jogou ela de joelhos na mesma hora. O cheiro de carne frita subiu no ar frio. A energia dela vazava pelo ferimento como água escorrendo pelo ralo. Korra puxou o ar, tremendo. A dor latejava forte. Ela esmagou o totem contra o lado bom do peito.
— Pode me queimar viva. — Ela levantou o rosto sujo de poeira e suor. — Você não encosta nisso aqui.
Ele deu um passo lento. A fumaça recuou na perna dele. Mostrou um tecido vermelho escuro. Fios de ouro rasgados nas bordas. Roupa antiga da Nação do Fogo.
— Você poderia ter tudo Avatar estupida... — A sombra esticou os dedos longos. Fumaça preta escorria pelas unhas sujas. — Mas você é teimosa e vai morrer por isso.
O suor ardia nos cortes do rosto de Korra. O olhar devolvia o fogo. Ela não pensou, só agiu. Puxou a umidade do ar e lançou uma onda maciça de água com toda a força contra o inimigo. Um simples gesto da sombra evaporou a água antes mesmo de bater nele. O vapor subiu fervendo e criou uma nuvem densa, cegando os dois lados.
— Você ainda não entende, não é? — A voz dele cortou a neblina, carregada de nojo. — Voce não pode me vencer... Eu sou tudo aquilo que você deseja.
Korra apertou o totem. Apertou até os nós dos dedos ficarem brancos.
— Fale o que quiser. Mas você não sai daqui com esse Totem.
A fumaça abriu. A sombra estava parada, o sorriso rasgando os dentes de forma animalesca.
— Hoje será sua morte Avatar!
Korra gritou. O som rasgou a garganta dela junto com o resto da energia que ainda tinha no corpo. A aura do Estado Avatar explodiu. A luz dourada e azul varreu a fumaça de uma vez só. O chão flutuante tremeu. O Mundo Espiritual inteiro pesou com a presença de Raava.
O vento girou violento ao redor de Korra. Pedras, água e chamas subiram e começaram a orbitar o corpo dela em harmonia. A sombra recuou um passo, pega de surpresa. Uma onda de choque estourou de Korra e jogou o inimigo para trás. Ele bateu com tudo no chão de pedra, quebrando o solo.
— Chega! — A voz dela ecoou junto com a de Raava.
Korra abriu os braços. Desenhou um círculo perfeito no ar. A umidade do Mundo Espiritual obedeceu e subiu em fitas largas. A água já não era transparente. Brilhava com um dourado intenso e quente. Pura energia espiritual. Ela empurrou as mãos para frente. A água o envolveu. As espirais líquidas engoliram a sombra, cruzando e girando rápido em volta do corpo dele. Uma gaiola de luz prendendo a escuridão.
Era a técnica de purificação. O brilho da água forçou caminho contra a fumaça negra. Um zumbido grave e constante começou a vibrar no chão. A luz tentava penetrar nos poros dele, tentando rasgar a conexão entre o humano e o espírito, forçando o equilíbrio goela abaixo para lavar a podridão de dentro daquela carne.
Mas um rosnado grave subiu do meio da água. Chamas negras estouraram das mãos dele. O fogo rasgou o redemoinho de dentro para fora e secou a água inteira em um segundo. O vapor subiu grosso. O calor sufocou o campo de batalha de novo.
Korra apertou os olhos contra a fumaça quente.
— Essa técnica não funciona em mim... — Ele falou rindo. Labaredas de trevas pulsavam no peito dele como um coração doente.
Korra respirou fundo. O peito doía, mas a luz nos olhos dela não vacilou.
— Se eu não posso purificar você... — O vento ao redor dela parou. A voz baixou. — Então vou deter você.
O vento parou. Korra fechou os olhos no meio da fumaça e buscou a conexão. Raava. A presença da luz subiu pela espinha dela, morna e firme, ancorando a velha Avatar no chão de pedra.
— Raava... o que ele é? Tem algo a ver com Vaatu? — A voz mental de Korra saiu tensa.
A resposta ecoou na alma dela. Grave. Ancestral.
— “Não. Vaatu continua preso. Ele não pode agir.”
A luz de Raava tremeu. Uma hesitação rara.
— “Isso é diferente, Korra. Ele não é caos, é desejo. Nós já o enfrentamos milênios atras em uma de suas vidas. Mas agora ele está diferente, parece que o humano e o espírito se fundiram perfeitamente. Ele não era assim...”
O estômago de Korra gelou. Ela abriu os olhos. Encarou o monstro que rasgava a fumaça na direção dela. Se não era Vaatu, o mundo estava lidando com um pesadelo totalmente novo. E pela primeira vez em décadas, a Avatar sentiu medo. Medo real.
— Avise Jinora. — Korra ordenou na própria mente, puxando o ar com força. — Avisa a Cidade República. Agora.
Raava pulsou em concordância. O sinal espiritual foi disparado no mesmo instante.
Korra não esperou. Juntou todo o fogo que ainda restava no corpo velho e disparou. Uma rajada grossa de chamas douradas rasgou o campo de batalha. O fogo puro do Estado Avatar rugiu e iluminou o Mundo Espiritual inteiro. O jato pegou a sombra em cheio. Engoliu a fumaça e a carne em um clarão ofuscante.
O silêncio caiu pesado. Korra continuou de pé, ofegante. O olhar cravado nas cinzas levantando no ar. O cheiro de queimado subiu rápido demais. Um estalo seco. Um relâmpago laranja rasgou a fumaça antes que ela pudesse piscar. Pegou o peito dela em cheio.
A dor não era humana. A eletricidade fritou os nervos, atravessando músculo e osso em fração de segundo. O coração da Avatar falhou uma batida. A visão apagou e o ar fugiu do pulmão. Korra caiu de joelhos. O chão flutuante rachou com o impacto do choque descendo pelo corpo dela até a pedra.
Ela botou a mão no peito queimado. O corpo inteiro tremia. A luz no fundo dos olhos dela piscava, lutando contra o apagão iminente.
— Eu não vou... morrer no Estado Avatar.
A voz saiu mastigada. Ela cerrou os dentes, engolindo o gosto de sangue. Desligou a força de propósito. A luz dourada sumiu dos olhos. Ela ia apanhar como uma mulher comum, mas a Raava estaria a salvo.
— Você não vai... quebrar o ciclo.
A sombra saiu das cinzas. Ilesa. A fumaça escorrendo pelos ombros como um manto sujo. O sorriso doentio repuxou a pele pálida de novo. Ele andou devagar. Saboreando cada passo.
— O seu ciclo já está apodrecendo, velha Avatar. E ninguém vai salvar você hoje.
O ar do Mundo Espiritual esfriou. A névoa cinza engoliu tudo ao redor. Mas Korra não abaixou a cabeça. Respirando curto, ela devolveu o olhar. O corpo estava quebrado, mas a vontade não. Ele ergueu a mão. Pele branca demais, quase transparente. Cicatrizes pretas corriam pelos dedos longos como veias podres. A palma da mão rachada brilhava com uma luz suja e escura. Pura fome.
A mão desceu na direção da ferida aberta no ombro de Korra. Ela prendeu a respiração. Não recuou. Num bote seco, puxou uma adaga fina da manga e cravou no antebraço do inimigo. O metal rasgou carne e bateu no osso. O grunhido de dor dele rasgou o silêncio. Surpresa. Ódio.
Sangue escuro escorreu na lâmina. Korra sentiu um alívio cruel. Ele sangrava. Era humano por baixo de tudo aquilo. Podia morrer. O alívio não durou dois segundos. Ele levantou o braço, com o metal ainda preso. O fogo negro engoliu a adaga. O metal derreteu como cera velha. Gotas de aço fervente pingaram na pedra antes da lâmina sumir inteira.
A rachadura na palma da mão dele abriu. A Sombra agarrou a queimadura no ombro de Korra. O choque térmico foi absurdo. O que antes queimava de calor, agora rasgava de frio. Gelo podre e afiado infiltrando na pele. Korra berrou alto. O som quebrou o silêncio do lugar.
Fios de luz dourada vazaram da pele dela. A energia vital da Avatar subindo direto para a mão rachada do monstro. A luz tentou resistir, tremendo no ar, mas a força de sucção era bruta. Ele puxou tudo para dentro. O brilho escuro na mão dele pulsou forte. Alimentado.
Korra engasgou. Algo quebrou no peito dela. Não foi costela. Foi a própria essência.
“Ele está sugando a sua luz...” — Raava soou fraca na mente dela. — “Uma parte de mim.”
Um buraco negro se abriu no estômago de Korra. Ela abriu os olhos, ofegante. O corpo inteiro falhando. A sombra ergueu o braço ferido. O corte profundo da adaga tinha sumido. Somente uma cicatriz sobrou. Pele grossa e escura, curada com a luz que ele acabou de roubar.
Ele inclinou a cabeça. O vermelho dos olhos brilhava aliviado. Era o rosto de alguém que acabou de comer depois de dias passando fome. A sombra virou o rosto para o peito da Avatar. Ele esticou os dedos longos na direção da madeira esculpida. A fumaça escura vazou pelas unhas sujas, louca para cobrir o Totem de Raava. Louca para devorar o prato principal.
Um assobio metálico rasgou o ar. A lâmina cortou a distância e cravou no ombro direito da sombra. O impacto jogou o monstro para trás, derrubando ele de joelhos na pedra.
— Se afaste da Avatar! — A voz bateu firme.
Gao saiu da névoa. O uniforme do Lótus Branco pesava no corpo, prático e escuro, marcado pela faixa azul marinho e placas de metal fosco no peito. O rosto dele era rocha pura. Cabelo raspado, uma cicatriz cruzando a sobrancelha e um olhar que não piscava. E nas mãos, duas espadas curtas já estavam prontas para matar de novo.
Quatro guerreiros apareceram atrás dele. Sincronia absoluta. Dois dobradores de terra bateram o pé, erguendo blocos que esmagaram os braços da sombra contra o chão. Os outros dois puxaram a umidade do ar e congelaram as pernas do monstro em blocos grossos de gelo.
Korra respirou fundo, colando o totem no peito. O corpo inteiro tremia de dor.
— Leva isso pra longe, Gao. — Ela mandou, a voz falhando. — Ele não pode ter isso.
— Eu não vou deixar você. — Ele não desviou o olho do inimigo.
A sombra não tentou se soltar. Preso no gelo e na pedra, com a lâmina afundada no ombro, a sombra inclinou a cabeça. O sorriso doentio voltou ao rosto pálido.
— Você cheira a esperança, soldado. — A voz dupla arranhou o ar, ecoando dentro da cabeça de Gao. — E a medo. Muito medo.
Gao apertou os cabos das espadas. Os nós dos dedos ficaram brancos.
— Me entrega o Totem... — A sombra sussurrou, os olhos vermelhos cravados no líder do Lótus Branco. — E eu deixo você voltar pra Zaofu vivo. Deixo você ver o seu filho nascer. Deixo você segurar o menino e ser o pai que ele tanto vai precisar.
O ar congelou. Gao travou. O maxilar dele apertou tanto que os dentes rangeram. Como ele sabia? O olhar do guerreiro vacilou por uma fração de segundo, o pensamento voando direto para a esposa grávida em casa.
— A escolha é sua. — A Sombra riu baixo. — A morte... ou o seu garoto.
Korra tentou levantar, mas os joelhos cederam. Ela olhou para Gao. O soldado respirou fundo. O olhar dele endureceu de novo, mais frio do que o gelo no chão.
— O meu garoto vai nascer num mundo com a Avatar. — Diz se preparando para a batalha e guardando o totem em um compartimento em seu uniforme.
Gao chutou o chão, transformando a terra debaixo da sombra em areia movediça para afundar o desgraçado. Mas o inimigo foi mais rápido. Uma tatuagem de terceiro olho apareceu na testa da sombra. Um corte carmesim e pulsante.
— Dobra de combustão! — Gao gritou. — Protejam a Avatar!
O ar foi sugado para dentro do terceiro olho. A explosão não foi de fogo comum, foi de pura força bruta. O chão derreteu na hora. As pedras viraram pó e o gelo evaporou.
A sombra se soltou e levantou as mãos, disparando esferas de lava incandescente. Os guerreiros do Lótus Branco levantaram paredes de terra, mas a explosão rasgou a defesa como papel. O fogo espirrou. Gritos cortaram o silêncio quando a lava derreteu as vestes e a pele dos soldados. Caíram um por um.
Gao viu os irmãos da Ordem morrerem. A fúria engoliu o luto. Ele puxou a terra, ergueu uma rocha gigante e arremessou com tudo contra a sombra. O monstro nem desviou. Juntou dois dedos e disparou um relâmpago laranja que estourou a pedra no meio do ar. A poeira subiu grossa. A sombra não perdeu o ritmo. O terceiro olho brilhou de novo, focando direto em Korra, que ainda tentava ficar de pé. O raio incandescente cortou a poeira como um míssil.
— Não! — Gao rugiu.
Ele bateu o pé com toda a força da alma. Um pilar colossal de rocha subiu do chão bem na frente da Avatar, no exato milésimo de segundo em que a explosão bateu. O impacto ensurdeceu tudo. A muralha absorveu o raio, mas não aguentou. A pedra estilhaçou. Korra protegeu o rosto com os braços, sentindo lascas afiadas cortarem as bochechas e os ombros.
E então, o barulho seco. O som de algo quebrando que não era pedra.
Korra abriu os olhos. O pilar tinha salvado ela, mas o pedaço mais maciço da rocha tinha pegado Gao em cheio. O corpo do guerreiro foi arremessado longe, batendo contra o chão de terra com um baque pesado.
— Gao! — O grito de Korra rasgou a garganta.
A poeira baixou. O líder do Lótus Branco estava jogado nos destroços. A armadura afundada no peito, o sangue escuro escorrendo pelo metal fosco. Ele não se mexia. O rosto, no entanto, estava calmo. O sacrifício estava feito. Ele garantiu o futuro do filho do único jeito que um soldado sabia fazer. O coração de Korra quebrou junto com a pedra. A fúria subiu, engolindo o luto de uma vez só. Ela caiu de joelhos, o peso da morte de Gao esmagando o peito dela. Mas então...
— “Korra... se levante.” A voz de Raava soou na mente dela. Firme.“Essa vai ser a última vez. O seu coração não aguenta mais.”
Korra fechou os olhos. Deixou uma única lágrima suja de pó cair no chão. E se levantou.
O ar em volta dela zumbiu. O corpo velho acendeu com uma luz tão forte que o Mundo Espiritual inteiro pareceu recuar. A aura do Estado Avatar estourou em ondas azuis e douradas. Cada batida daquela luz era uma promessa: Gao não vai ser esquecido. A sombra deu um passo para trás. O sorriso doentio sumiu.
— Você não vai a lugar nenhum. — A voz de Korra reverberou dupla, esmagadora.
Ela bateu o pé. O mundo tremeu. Rochas flutuantes desabaram no horizonte e um furacão fechou ao redor dela. A sombra perdeu o equilíbrio, mas explodiu chamas negras e raios laranjas pelos pés, subindo pro céu como um cometa.
Korra não esperou. Envolta em fogo e vento, ela se lançou atrás dele.
Os dois bateram de frente no alto. Olho no olho. A sombra girou rasgando o ar, e Korra respondeu com um tornado que engoliu ele e o jogou para baixo. Enquanto caía em espiral, a Sombra olhou para os guerreiros do Lotus Branco que ainda estavam vivos caídos lá embaixo. Eles ainda tentavam apagar o fogo das próprias roupas. O terceiro olho na testa da sombra acendeu. Pura malícia.
— Não! — Korra esticou a mão e disparou uma rajada de ar.
A rajada detonou o ataque antes de bater no chão. Mas Korra percebeu tarde demais. Era uma armadilha. A luz laranja rasgou o céu num arco cego. O relâmpago avançou rápido demais. Korra sentiu o arrepio antes mesmo de ver o perigo. Ela forçou a mente. Desligou o Estado Avatar num solavanco. E o raio pegou ela em cheio.
A dor era imensa. O trovão rasgou a alma dela em mil pedaços. Cada músculo travou em agonia pura. Um grito seco escapou da garganta enquanto a aura dourada apagava de vez, salvando o ciclo. Ela sentiu o corpo ceder. O céu desmoronou.
O vento batia frio. Ela estava caindo em queda livre. Não como uma guerreira que perdeu, mas como alguém que já tinha entregado tudo. A mente virou um caos de memórias girando rápido. Rostos. Vozes. Risadas. Tudo servia de âncora contra o abismo.
"Não se prenda ao que é passageiro e ilusório."
A voz de Mestre Tenzin cruzou a mente dela. Calma. Firme. Um eco que atravessava o tempo.
"Viva com gratidão, compaixão e sabedoria. Quanto à morte... encare-a como uma transição inevitável, não como um fim absoluto, mas como parte do ciclo da existência."
As palavras do mestre espalharam uma paz gelada no peito dela. O medo sumiu. A queda não era um castigo, era só o próximo passo. O chão se aproximava rápido, mas Korra sentiu um silêncio absoluto tomar conta dela. Aceitação. O fim não era o inimigo. Era só uma nova jornada.
Como um último suspiro antes do escuro, o coração dela esquentou. Ela lembrou de quem estendeu a mão quando ela achou que estava perdida. Um sorriso fraco quebrou os lábios sujos de sangue. E um nome escapou, guardado como o maior segredo do mundo até aquele último segundo.
— Asami...
Foi um sussurro. Uma oração cheia de amor e despedida. A última faísca de luz antes do céu apagar. Antes do impacto, Korra não sentiu medo. Sentiu que estava voltando pra casa. O corpo bateu no chão com um baque surdo. Um suspiro final entregue à terra. A escuridão engoliu tudo. Mas no meio do escuro, a essência dela não apagou. A energia subiu, pura e forte, costurando luz e sombra num ciclo que não tem fim.
Longe dali. No mundo físico. Na periferia de Zaofu, no coração do Reino da Terra, um vento frio varreu os prédios de metal. A terra respirou fundo no meio da noite. Naquela calmaria absoluta, uma centelha brilhou invisível.
A essência do Avatar tocou o chão de novo. Não como um fantasma do passado, mas como uma promessa de futuro. A força de todas as vidas passadas pulsava ali, silenciosa. O mundo continuava girando. E no meio do silêncio de Zaofu, o choro estridente de um bebê carregava a luz de Raava.
Fale com o autor