A Lenda de Kaito

5 Capítulo 4 – A Batalha de Zaofu


Notas iniciais
Desculpem a demora XD

O brado das sirenes rasgou o ar de Zaofu. Era um som alto, ríspido, como ferro arranhando pedra.


Logo em seguida, o domo de metal que protegia o Anel 7 começou a se mover. As engrenagens rangeram pesado sob a terra, um tremor ritmado que sacudiu a sola das botas de Kaito. Painéis imensos de aço deslizaram pelo céu azul, se fechando aos poucos, engolindo a luz do sol. O horizonte foi desaparecendo em um abraço frio de metal prateado.


Na rua de pedra, o pânico tomou conta de tudo em segundos.


Um carrinho de frutas tombou e ameixas rolaram para todos os lados, esmagadas pelas botas de pessoas correndo. Uma mãe puxou o braço da filha, arrastando a menina para longe da rua principal. Não havia para onde ir. O som das dobradiças do domo ecoava cada vez mais alto, abafando os gritos. A cidade inteira parecia estar prendendo a respiração.


Então, uma explosão bateu no chão.


Não foi longe. O som oco e violento estourou do outro lado da quadra. O impacto fez a calçada balançar. A vitrine de uma loja perto dali quebrou, estilhaçando vidro nas costas das pessoas. Nia não esperou Kaito falar. Ela olhou para a direita, onde a fumaça subia mais densa.


— Kaito! Para o prédio branco! — Ela ordenou, a voz cortando o pânico da rua.


Ela avançou com passos metálicos pesados do exoesqueleto que sustentava seu corpo, as placas de aço batendo contra a calçada. Kaito correu atrás dela.


No segundo andar de um prédio espremido na esquina, a parede da frente já estava ruindo. As pedras se soltavam, uma a uma. Um casal tentava descer pela escada externa de ferro, mas os degraus cederam e ficaram balançando soltos no ar. A fumaça escura começava a engolir a janela, e eles gritavam por ajuda.


Nia não hesitou. Ela ergueu os braços, os músculos tensos, e girou os pulsos. A escada quebrada torceu e esticou, como se fosse de borracha, encostando de volta no balcão e criando uma rampa.


— Desçam! Agora! — Nia gritou, segurando a estrutura tremendo no ar. O casal escorregou pela rampa de ferro e caiu no chão tossindo.


Outro estrondo. Dessa vez, mais forte. O chão estremeceu, e a base de uma casa de pedra do outro lado da rua rachou de ponta a ponta. A estrutura rangeu e inclinou perigosamente para a esquerda, bem em cima de três vizinhos que tentavam tirar algumas caixas de casa.


Kaito não pensou. O medo que travava as costas dele sumiu, empurrado por puro instinto. Ele correu na direção da casa, fincou os dois pés no chão com força e cravou as mãos para cima. A terra bruta respondeu na mesma hora. A terra sob o asfalto cedeu e subiu em um pilar grosso, batendo direto contra a base rachada da casa e forçando a estrutura de volta para o lugar. O peso esmagou os braços de Kaito. O rosto dele ficou vermelho, os dentes rangendo enquanto ele tentava não dobrar os joelhos.


— Saiam logo! — Kaito gritou, com a voz esganiçada. A parede rangeu alto em cima dele.


As pessoas não esperaram um segundo a mais. Eles largaram as caixas e correram para o meio da rua. Assim que o último vizinho passou, Kaito perdeu o controle. Ele abaixou os braços e rolou para o lado, cobrindo a cabeça.


O pilar de terra desabou. A casa inteira veio abaixo com um estrondo violento, levantando uma nuvem gigante de poeira e pedras que cobriu a rua inteira de cinza. Kaito levantou tossindo e limpou a terra dos olhos. A fumaça clareou um pouco e uma mulher ofegante correu até ele, agarrando o braço dele.


— Dobrador! Moço, por favor! — A mulher apontou para uma praça de terra batida perto dali. — A gente precisa entrar! Cavar alguma coisa! Não dá tempo de correr pro centro!


Kaito engoliu seco. Mais uma explosão estourou longe, balançando a rua. O domo de metal não ia aguentar fechar a tempo se algo batesse ali agora. Ele acenou com a cabeça e correu até a praça. Ele jogou as duas mãos no chão e puxou a terra para as laterais, abrindo um buraco grande e fundo, levantando paredes de pedra nas bordas para segurar as laterais.


— Entrem! — Ele gritou, ajudando uma senhora e duas crianças a escorregar para dentro do buraco.


A mulher que pediu ajuda entrou logo depois. Kaito estava prestes a puxar a terra para fechar um teto improvisado quando um som de botas marchando pesado cortou o barulho das pessoas chorando.


Um grupo de cinco policiais de Zaofu correu em formação, segurando os cabos de metal e cobrindo os rostos com os capacetes prateados. O líder deles parou assim que bateu o olho em Nia, que andava rápido na direção do filho. Os policiais travaram no lugar e bateram continência.


— Coronel Nia! — O capitão falou, a voz abafada pelo capacete.


Nia não retribuiu a saudação. Ela apontou para o buraco que Kaito tinha acabado de fazer.


— Cubram a praça inteira com as placas da rua! Façam um teto de aço! Reforcem as paredes. Tem gente lá dentro e aquele garoto dobrou terra mole demais.


Kaito franziu a testa, ofendido, mas não teve tempo de falar nada.


Um rugido colossal cortou o céu. Não foi uma sirene nem uma explosão. Foi um trovão vivo e selvagem, um barulho absurdo que fez o chão vibrar e os ossos de Kaito gelarem. Todo mundo na rua parou. Kaito olhou para cima. Nia também. Os policiais levantaram as cabeças, e o capitão deixou a mão cair do capacete, paralisado.


A fumaça sobre Zaofu abriu. O fogo longe parou de crescer. Uma Sombra imensa deslizou por cima da abertura no domo de metal, obscurecendo a luz do sol como um eclipse. O vento mudou de direção rápido, e o cheiro de enxofre e metal queimado desceu na rua. Entre as labaredas que subiam da cidade, as asas gigantescas se abriram. As escamas negras brilharam sob as explosões.


— Um dragão... — Kaito sussurrou, sentindo a perna tremer.


E no pescoço da fera, um vulto encapuzado observava a cidade com olhos vermelhos como fogo puro. A Sombra que o visitou no pântano agora estava no céu. E ele estava rindo.

O vulto caiu do céu sem fazer barulho. Ele despencou das costas do dragão como uma pedra, mas os pés descalços tocaram o concreto de Zaofu com um impacto maciço que rachou a calçada inteira. A poeira cinza subiu em uma nuvem ao redor dele. O manto negro estava intacto. O rosto escondido pelas Sombras do capuz, exceto por dois pontos vermelhos que ardiam no meio da neblina. Ele olhou para a rua, avaliando o caos.

Nia não deu tempo para ele respirar.

O exoesqueleto de aço nas pernas dela gemeu. Ela não corria, ela se projetava. Com um impulso brutal dos pistões improvisados nas coxas, Nia saltou na direção da Sombra. O braço direito dela rasgou o ar e uma placa solta de um poste se partiu ao meio, voando direto para a mão dela. O metal se dobrou, esticou e formou uma lâmina afiada em um piscar de olhos.

Nia girou o corpo no ar e desceu a lâmina direto no pescoço do invasor.

A Sombra nem olhou. Ele ergueu o punho.

Uma rajada de fogo negro e espesso explodiu da mão dele, bloqueando o golpe. O calor bateu no rosto de Nia como um soco. A força da explosão a jogou para trás, as botas de metal arrastando pelo concreto e deixando duas trilhas fundas no chão até ela conseguir frear.

O cheiro de carne queimada encheu a rua.

A Sombra baixou a mão. O fogo negro sumiu, mas o calor absurdo continuava ali, ondulando o ar. Ele deu um passo para frente, saindo do buraco na calçada. Nia apertou o cabo da lâmina de aço. Os músculos do maxilar dela estavam travados. Ela olhou para a pele pálida do pulso do monstro, cheia de cicatrizes de queimadura antigas.

A Sombra parou. Os olhos vermelhos dele desceram lentamente. Ele não olhou para o rosto da Nia. Ele olhou para as pernas de aço dela. O silêncio esticou entre os dois, cortado apenas pelas sirenes de Zaofu ao longe.

— Você passou anos presa a essas pernas inúteis. — A voz da Sombra ecoou grave e seca. A frase bateu em Nia com a precisão de um atirador de elite.

O ódio puro explodiu nos olhos dela. A placa de metal no poste do lado dele começou a ranger e torcer sozinha, respondendo à fúria dela.

— Não fale do que você não sabe. — Nia rosnou, o punho tremendo.

A Sombra deu outro passo. Calmo. Sem postura de luta.

— Eu sei. — O monstro cruzou os braços, os olhos vermelhos fixos nos pistões de aço nas pernas dela. — Eu sei exatamente como é acordar todos os dias desejando que o seu corpo fosse diferente. E sei o que é ter que se reconstruir do zero só para conseguir ficar em pé.

Nia apertou os dentes. As lâminas ao redor dela começaram a levitar.

— Eu posso devolver isso a você. — A voz da Sombra baixou um tom apontando para as pernas dela. Não era uma ameaça. Era uma oferta macabra.

Nia travou. O metal ao redor dela parou de tremer.

— Posso fazer você andar de novo. Sentir as suas pernas, sem precisar dessas muletas de metal. — A Sombra inclinou a cabeça. E então, foi direto na garganta. — Se quiser posso te devolver até seu marido...

A frase atingiu Nia como uma facada no meio das costelas. A respiração dela falhou. O mundo ao redor sumiu. As sirenes, a fumaça, Kaito escondido no buraco lá atrás. Tudo apagou. Só sobrou aquela voz e a promessa impossível batendo no ouvido dela. Ela não respondeu. Não conseguiu. A boca dela abriu, mas o som não saiu. A Sombra percebeu o choque. Ele sorriu por baixo do capuz, sabendo que tinha rasgado o ponto fraco dela.

— Você passou quatorze anos fingindo que não queria isso. — A Sombra sussurrou, a crueldade afiada na voz.

— Cale a boca. — A voz de Nia saiu fraca, engasgada com a dor de um luto que nunca cicatrizou.

— Mas você quer... — Ele deu mais um passo, devagar, como um predador encurralando a presa. — Você quer acordar sem dor. Quer sentir as suas pernas de novo. Quer abraçar o seu marido. Quer que o seu filho, aquele moleque ali atrás, conheça o homem que deveria ter criado ele.

O peito de Nia subia e descia rápido demais. A visão dela embaçou com as primeiras lágrimas, mas as mãos continuaram firmes segurando as lâminas.

— Eu posso te dar tudo isso.

A Sombra abriu as mãos de lado, as palmas pálidas e marcadas viradas para cima. A oferta estava ali. Clara. Perfeita. Absoluta. Ele fez uma pausa, o som do fogo crepitando na cidade preenchendo o silêncio.

— Só me entregue o Totem.

Nia franziu a testa. A confusão cortou o transe emocional dela de uma vez só. As lágrimas pararam nos olhos. O ódio substituiu a dor, rápido como um estalo.

— Que Totem?

A resposta saiu dura. Seca. Verdadeira.

A Sombra parou. Os braços dele caíram na lateral do corpo. O sorriso sumiu. Ele olhou fundo nos olhos da Nia por um longo segundo. Ele viu a revolta e a ignorância pura. Ela realmente não sabia.

A atmosfera mudou na mesma hora. O calor sufocante da rua sumiu, sugado por uma energia fria e estática que fez os pelos dos braços de Nia arrepiarem.

A Sombra não falou mais nada. A frustração desapareceu da postura dele, trocada por uma frieza absoluta. Ele separou os pés na calçada e respirou fundo. Com os braços, fez um movimento circular e fluido, perfeito e letal, separando as energias ao redor. O ar começou a estalar pesado, carregado com um cheiro forte de ozônio puro.

Sem nenhuma pressa, ele esticou o braço direito, uniu o dedo indicador e o médio, e apontou direto para o peito de Nia.

A energia colidiu.

Um relâmpago laranja, espesso e rasgante, estourou das pontas dos dedos pálidos. O clarão alaranjado cegou a rua inteira, rasgando o espaço com o estrondo de um trovão rápido demais para qualquer pessoa reagir.

Nia não teve tempo de erguer as mãos. Mas o impacto nunca chegou.

O chão de concreto explodiu. Um pilar massivo de pedra subiu da rua como um muro grosso e cravou na frente dela. O raio bateu na rocha com um estampido ensurdecedor. A eletricidade laranja correu pelas rachaduras da pedra e morreu ali, levantando uma nuvem grossa de fumaça cinza e poeira.

A Sombra abaixou a mão devagar. Uma fumaça fina ainda saía das pontas dos dedos dele. Os olhos vermelhos semicerraram, tentando enxergar do outro lado da barreira quebrada.

Atrás do muro de pedra destruído, Kaito estava parado do lado da mãe. Ele estava ofegante, com os braços esticados para frente e as mãos fechadas em punhos, o suor escorrendo pela testa suja de cinzas. Os pés fincados no chão. Ele não estava tremendo mais.

O olhar da Sombra cruzou com o do garoto no meio da poeira. O vulto encapuzado tombou a cabeça para o lado. O sorriso macabro e cansado voltou ao rosto pálido.

— Finalmente te encontrei.

O rugido colossal cortou o céu, esmagando os gritos das pessoas na rua. O dragão deslizou pelos prédios do Anel 7, as asas negras enormes bloqueando a luz do sol. O som do vento rasgando nas escamas. No chão, o capitão da polícia não hesitou.

— Cabos de aço! Prendam a fera! — Ele gritou, levantando a mão.

Os cinco policiais avançaram correndo. Eles puxaram cordões grossos de aço dos cintos e giraram os pulsos. As cordas metálicas voaram cruzando o ar como chicotes em direção às patas traseiras e asas do monstro. O dragão rosnou, o som tremendo os vidros que ainda estavam inteiros na rua. A boca do animal se abriu e uma labareda de fogo negro e espesso jorrou para baixo.

Dois policiais frearam e fincaram o pé no chão. Eles ergueram os braços com força e uma placa massiva de concreto subiu do asfalto, fechando como um escudo sobre as cabeças deles. O fogo negro bateu na pedra com um chiado aterrorizante, derretendo a borda do concreto em segundos, mas dando o tempo que eles precisavam.

Um terceiro policial balançou o braço. Um cabo de aço chicoteou pelo ar e enrolou apertado em volta do focinho da fera. O dragão tentou puxar a cabeça, mas os outros quatro policiais fincaram os cabos nas patas e asas.

— Puxem! — O capitão gritou, os músculos das costas travando.

Eles dobraram o metal ao mesmo tempo. O baque foi absurdo. O dragão despencou do ar e bateu na calçada. O impacto fez a rua inteira pular. O chão cedeu sob o peso, abrindo uma cratera no asfalto. Antes que a fera tentasse levantar, os policiais cravaram blocos de pedra por cima das patas e pregaram estacas de metal pelo corpo dele, fixando os cabos no chão. O monstro rosnou, mas estava preso.

Kaito encarou os olhos vermelhos que ardiam debaixo do capuz. O formigamento no peito dele voltou, tão forte que queimava. Aquele era a Sombra. O vulto que sonhou no pântano. Kaito deu um passo irritado para a frente, fechando as mãos em punhos. Nia jogou o braço na frente dele, empurrando o filho pelo peito de volta para trás.

— Fique atrás de mim. — Ela sussurrou, os olhos cravados na Sombra.

Kaito cedeu um passo, mas não desviou o olhar.

— Mãe. Era ele no meu sonho.

— Eu imaginei que fosse. — O maxilar de Nia estava travado. As placas de aço ao redor das pernas dela rangeram.

— Kaito... — A voz de Nia perdeu a firmeza por um segundo. A respiração dela saiu curta. — Foi ele quem matou seu pai. E a Avatar Korra.

O choque foi direto. Kaito piscou. E depois do choque, veio a fúria. O peito dele não formigou mais. Ele esquentou. Uma raiva quente e violenta correu pelas veias dele, subindo para a cabeça. O chão tremeu sob os pés dele. Sem que ele fizesse nenhum movimento com as mãos, pequenas rochas e pedaços de asfalto se soltaram da rua destruída. O cascalho começou a flutuar ao redor das pernas de Kaito, vibrando no ar pesado em pura resposta à energia bruta que transbordava do corpo dele.

— Ele tem que pagar por isso. — Kaito respondeu, a voz embargada.

— Sim. Ele vai. — Nia segurou o braço do filho com força. — Mas você não fará nada. Ele é absurdamente poderoso, Kaito. E é inteligente. Fique onde está.

A Sombra ouviu e endireitou o corpo, ignorando os policiais ao lado do dragão preso. Os olhos vermelhos cortaram a poeira e focaram direto no garoto. Ele começou a caminhar devagar na direção deles. Ele não levantou a voz, mas cada palavra cortou o caos da rua.

— Você quer seu pai.

Kaito congelou no lugar. A Sombra deu mais um passo, o olhar parecia perfurar o peito do garoto. Ele estava sentindo o buraco espiritual. A ferida que Kaito carregava no escuro.

— Você quer saber quem ele era de verdade. — A Sombra tombou a cabeça. — Quer que ele estivesse vivo para te contar as coisas.

Kaito apertou a mandíbula, não respondendo. A Sombra deu outro passo. As chamas crepitavam nas casas vizinhas.

— Quer que Zaofu volte a ser a cidade segura que sempre foi.

Mais perto.

— Quer conseguir dobrar metal, provar o seu valor sem precisar lutar por cada migalha de ferro inútil.

Kaito engoliu seco, olhando para as próprias mãos suadas de terra. A vergonha da Academia voltou queimando. E então, o sorriso por baixo do capuz voltou, afiado como uma faca.

— Quer que sua mãe volte a andar. Sozinha. Sem o aço enferrujado prendendo a carne dela.

Kaito perdeu a razão na mesma hora.

— Não fala dela! — Ele gritou, a voz esganiçada, dando um passo brutal para frente. A terra vibrou sob os pés dele.

A Sombra parou e sorriu mais largo.

— Eu posso te dar tudo isso. — O vulto falou, abrindo as mãos pálidas e com as marcas de queimadura. — Seu pai de volta. Sua cidade em paz. As pernas da sua mãe sãs. Sua dobra de metal.

A Sombra respirou fundo.

— Tudo.

O silêncio engoliu a rua inteira por um segundo. Kaito olhou para a Sombra. O ódio brigava com o desejo absurdo de que aquelas promessas fossem reais.

— Em troca de quê? — O garoto perguntou, os dentes cerrados.

Nia olha para Kaito incrédula e a Sombra não hesitou.

— Do Totem.

Kaito franziu a testa. A raiva quebrou. Ele virou o rosto para Nia, completamente confuso. Nia olhou de volta para o filho com a mesma expressão de absoluta ignorância. Nenhum dos dois fazia a menor ideia do que diabos ele estava falando. A Sombra acompanhou a troca de olhares. O sorriso morreu na mesma hora. A Sombra apertou os olhos vermelhos. Aquilo não era um blefe. Eles realmente não sabiam onde o Totem estava. A oferta inútil irritou a criatura no fundo da alma.

Ele não perdeu mais tempo.

Com um movimento cortante das mãos, o monstro girou e esticou os dedos na direção de Kaito. Um relâmpago laranja rasgou o ar. Foi rápido demais. Kaito só viu o clarão engolindo a visão dele.

Mas Nia foi mais rápida.

Com um reflexo puro e brutal, ela arremessou o próprio corpo para o lado e cravou uma grossa barra de aço no asfalto com força. O relâmpago laranja bateu no metal com um estrondo explosivo e correu pela barra direto para a terra. A eletricidade se dissipou no chão, deixando um cheiro de ozônio no ar.

Mas a Sombra era muito rapida. O segundo ataque veio num piscar de olhos. Sem perder o embalo, o invasor levantou o pé e cravou um chute lateral cortando o ar. Uma rajada grossa de fogo negro explodiu do calcanhar dele direto para a lateral de Nia.

Ela não teve como puxar o metal de volta. O fogo bateu com violência no ombro esquerdo dela. O exoesqueleto rangeu, a placa de aço amassou e esquentou num segundo. O impacto arremessou Nia direto contra as pedras da calçada com um baque surdo e pesado.

— Mãe! — Kaito gritou em desespero, largando a postura.

Ele abaixou correndo para tentar ajudar ela a levantar. Mas o som do asfalto quebrando o fez virar o rosto rápido. A Sombra já estava correndo direto para ele.

A Sombra chegou nele num piscar de olhos. Antes que Kaito pudesse puxar a terra ou levantar as mãos para se defender, a mão pálida agarrou o braço esquerdo dele.

O calor subiu na hora. Não era apenas quente, era um incêndio concentrado direto na pele. Kaito gritou. O cheiro de tecido queimado e carne chamuscada invadiu o nariz dele. Ele puxou o braço com todo o peso do corpo, mas a Sombra parecia uma estátua de chumbo. Cego de dor, Kaito fechou a mão direita e jogou um soco direto no rosto do invasor. A Sombra apenas inclinou a cabeça para o lado. O soco passou no vazio.

— Você é fraco garoto — A voz grave ecoou seca.

As veias das mãos e do pescoço da Sombra ficaram pretas, escuras como carvão. Kaito arregalou os olhos. Ele sentiu o puxão no fundo do peito, a mesma sensação do pântano. Uma energia densa e brilhante começou a brotar bem da queimadura no braço dele, sendo sugada direto para a pele do invasor.

Mas a reação não foi a que a Sombra esperava.

Os olhos vermelhos do encapuzado se abriram ao máximo. Um choque pareceu atravessar o corpo dele de dentro para fora. A Sombra soltou Kaito de uma vez, cambaleando meio passo para trás como se tivesse encostado em ferro fervendo. Kaito caiu de joelhos no asfalto, agarrando o braço queimado e puxando o ar com força.

— Olha que surpresa... — A Sombra murmurou. Ele olhava para a própria mão tremendo e depois cravou os olhos na figura caída no chão. — Raava está aí dentro de você.

Raava. O nome voltou a ecoar na cabeça do garoto, batendo nas têmporas. A Sombra deu um passo para frente, ignorando o caos da rua, a fumaça e as sirenes. Ele abaixou a cabeça, encarando o fundo dos olhos verdes de Kaito.

— Então você é o Avatar?

Kaito piscou, a dor latejante no braço brigando com a confusão absoluta.

— O que? Avatar? — Ele sussurrou, sem entender nada.

Foi o segundo de distração que Nia precisava.

Ela não tinha ficado no chão. Nia se levantou sem fazer barulho, apoiada nas pernas de aço tortas e amassadas pelo fogo negro. Sem gritar, sem hesitar, ela avançou por trás e cravou uma espada grossa de metal direto nas costas da Sombra. A força do golpe foi absurda. A lâmina rasgou o manto, quebrou as costelas e passou varando o corpo inteiro. A ponta afiada, suja de sangue escuro, saiu rasgando a barriga do encapuzado.

A Sombra engasgou. Os olhos vermelhos arregalaram de dor pura. Ele olhou de relance por cima do ombro, vendo o ódio absoluto no rosto da mãe.

Mas ele não caiu.

O ar ao redor da Sombra ondulou. A temperatura subiu a um nível infernal. Kaito teve que cobrir o rosto com o braço são para não torrar a própria pele. O pedaço da lâmina de aço que estava atravessado na barriga do invasor começou a brilhar em laranja, depois branco. O metal ferveu e derreteu como água, pingando em gotas líquidas no asfalto.

A Sombra virou o corpo num giro rápido e agarrou os dois braços de Nia. As mãos pálidas dele viraram brasas vivas. O metal da armadura de Nia esquentou instantaneamente, fritando a pele dela por baixo até virar carne viva. Ela soltou um grito rasgado e agonizante, a dor sufocando os pulmões dela.

Mas o golpe da espada cobrou o preço do invasor.

A Sombra tossiu grosso. Um jorro de sangue escuro saiu da boca dele, manchando o próprio queixo. O corpo esguio perdeu o equilíbrio. Puxando as últimas forças, o encapuzado chutou Nia direto no peito, jogando ela para longe. A mãe de Kaito bateu no chão e rolou entre os escombros, imóvel. A perna do invasor cedeu. A Sombra caiu pesado de joelhos na rua destruída, com as duas mãos apertando o buraco latejante na barriga.

Dirigíveis pairavam sobre Zaofu como Sombras de aço. Os holofotes brancos cortavam a fumaça grossa que cobria as ruas, cruzando o céu em desespero. O alarme da cidade continuava uivando. No meio da rua destruída, o dragão negro se debatia contra o chão esmagado. Dois cabos de aço grossos estouraram com um chicoteio violento, mas os policiais de Zaofu puxaram as cordas, mantendo a fera presa sob as rochas.

Kaito viu a mãe caída longe nos escombros. Ele ignorou a Sombra, ignorou o calor que fritava o ar, e correu até ela. Mas a Sombra foi mais rápido. A mão pálida agarrou a gola do uniforme de Kaito, puxando o garoto para trás com um solavanco brutal. Kaito bateu as costas no asfalto com força, o ar sumindo dos pulmões. A Sombra, ainda sangrando grosso pelo buraco na barriga, estendeu a mão na direção do pescoço dele.

O barulho de metal rasgando engoliu o grito de Kaito.

Nia estava de pé. As pernas de aço tremiam, amassadas e escurecidas pelo fogo negro, mas ela mantinha os braços erguidos. Com um puxão violento das mãos, ela arrancou do chão um carro capotado na calçada e jogou o veículo inteiro pelo ar, voando direto na cabeça da Sombra.

A Sombra soltou Kaito. Ele não recuou um milímetro. O capuz rasgado revelou a testa branca, onde a pele se contraiu e uma tatuagem de terceiro olho escuro se abriu. O ar em volta sugou para dentro. E então, explodiu.

Um estampido ensurdecedor, seco e absurdo, rachou o céu. O ataque de combustão bateu no carro no meio do ar. O veículo virou uma bola de fogo e estilhaços na mesma hora, chovendo metal derretido e pedaços de pneu derretido na calçada.

Nia não parou para olhar. Ela avançou mancando pesado, puxando placas de aço da rua com as mãos. A Sombra encarou ela e disparou mais duas explosões. Nia se jogou para o lado, rolando no asfalto quente. O chão virou uma cratera onde ela estava um segundo antes. Ela levantou o braço direito de uma vez e atirou uma tira grossa de metal como se fosse um chicote.

O aço voou no meio da fumaça e enrolou apertado na cabeça da Sombra, fechando com força bem por cima do terceiro olho, travando a visão dele como uma mordaça de ferro. Ele cambaleou para trás, grunhindo. O poder de combustão foi anulado.

Irritado, ele esticou a mão direita. O ar ferveu com cheiro de ozônio, e um relâmpago laranja rasgou o espaço, indo direto para o peito de Nia.

Ela não tentou desviar. Nia bateu a mão na própria coxa esquerda. Ela arrancou a placa mestra de contenção da própria perna e cravou a haste de aço fundo no concreto. O relâmpago laranja chocou contra a barra e afundou na terra com um estampido de trovão. Faíscas pularam queimando a rua.

Sem o suporte do exoesqueleto na perna esquerda, Nia perdeu o equilíbrio e caiu de joelhos. O fôlego dela estava no fim. A Sombra abaixou a mão, a respiração pesada e ofegante. O sangue manchava toda a roupa negra dele. Ele olhou para a mulher ajoelhada.

— Você é muito talentosa. — A voz grave do monstro saiu arrastada, pingando escárnio. — É um desperdício ter que te matar.

Nia puxou o cabo de uma lâmina de aço e forçou o corpo para levantar. A Sombra não deu chance. Ele saltou encurtando a distância e acertou um chute direto no pulso dela. A lâmina voou longe. Com o mesmo movimento fluido, o monstro pisou firme em cima da perna direita de Nia, a única que ainda tinha a armadura de aço presa.

A temperatura em volta deles subiu num pico absurdo. O pé da Sombra brilhou em brasa viva. A armadura na perna de Nia esquentou instantaneamente até o metal ficar vermelho luminoso. A pele dela começou a fritar por baixo do aço.

Nia soltou um grito rasgado, puro desespero e dor, a voz arranhando a garganta. A Sombra ergueu a mão pálida. O relâmpago laranja começou a crepitar de novo entre os dedos sujos de sangue.

— Você vai ver o seu marido agora. — O monstro sussurrou.

Nia parou de gritar. Os olhos verdes dela, cheios de lágrimas, encontraram os de Kaito jogado no chão a alguns metros dali.

Ela não tentou fugir. Com um tranco violento do próprio corpo e um giro de punho, Nia quebrou a própria armadura derretida e fez o aço vermelho enrolar feito uma cobra na canela da Sombra, travando o pé dele no asfalto.

A Sombra disparou o raio pelo susto, mas o tranco tirou a mira. A descarga explodiu no chão, bem no meio dos dois. O clarão alaranjado cegou a rua. A energia jogou o monstro para trás com violência, mas a perna dele continuou fincada no chão, presa pelo aço.

Antes que a poeira baixasse, Nia puxou o resto de metal da rua. Uma lâmina fina subiu em um estalo e cravou no meio do peito da Sombra, furando o osso. A rua inteira pareceu perder o som. O fogo crepitava longe. A Sombra arfou pesado. O sangue escuro desceu reto pelo peito, chiando e evaporando ao encostar na lâmina quente. Ele olhou para a espada cravada nele. O canto da boca pálida puxou um sorriso quebrado, os dentes sujos de vermelho.

— Você foi a pessoa que chegou mais perto de me matar — Ele engasgou.

Nia apertou os dentes, tremendo inteira de exaustão, as mãos caindo sem força.

— Morre logo desgraçado.

A Sombra soltou uma risada seca, o som vazio e oco.

— Isso não acaba aqui.

A tira de metal em volta da cabeça dele começou a inchar e brilhar em laranja vivo. O calor chegou a um limite insuportável. A Sombra não tentou tirar o aço. Ele forçou o próprio poder de combustão por baixo do bloqueio, concentrando a explosão no próprio corpo.

Tudo aconteceu em um piscar de olhos.

O clarão rasgou o mundo. Não foi só fogo. Foi uma onda de choque densa, um trovão compacto que partiu as fundações da rua inteira. O impacto atirou pedras e placas de metal para o alto como se fossem grãos de poeira. Kaito foi arremessado longe, batendo as costas contra uma parede de concreto. O chão rugiu de forma monstruosa.

E depois... sobrou apenas o silêncio. Um silêncio mortal.

A poeira subiu em uma parede grossa, sufocando a quadra. As chamas em volta perderam a força. O tempo pareceu parar.

Kaito rolou no chão, a cabeça zumbindo. Ele tossiu, puxando o ar misturado com cinzas, sentindo o gosto de sangue na boca. Aos poucos, ele se apoiou na parede e levantou, cambaleando. Ele jogou os dois braços para frente, balançando tentando dissipar a fumaça.

O cenário apareceu devagar, como o fim de um pesadelo.

No centro da rua, a calçada inteira tinha evaporado. Uma cratera gigantesca e fumegante abria um buraco negro no concreto. A Sombra não estava lá. Mas, na beirada da cratera, no meio das pedras quebradas, o corpo de Nia jazia completamente imóvel.

Notas finais
Espero que tenham gostado.