A Lenda de Espírito Protetor Parte4
1 Capítulo 4
Após me recuperar — de certa forma — de tantos choques na minha vida: a morte de todos que eu conhecia, de meus pais, de tudo o que aquele povo estava passando nas mãos dos brancos e de toda aquela conversa sobre Luna, garou, mundo espiritual; fora minhas tentativas de aprender a cultura daquele povo e da aversão que a maioria dos peles vermelhas tinha de mim devido ao preconceito pelo que passavam, eu relativamente estava bem, havia me recuperado da pancada na cabeça de forma muito rápida. Estava nova em folha.
Me contaram lendas sobre o Wendigo, me disseram que ele era um protetor das terras puras, um manitu muito poderoso, que era uma força poderosa mas descontrolada. Quer dizer que ele é mau? Perguntei ao velho Águia-Caçadora. Não, ele respondeu, mas nós, como seus filhos, devemos ter respeito e não chamá-lo quando não for necessário. Eu ouvia tudo atentamente e até comecei a gostar daquele monte de lendas e histórias. Comecei a me acostumar com a comida, com as reuniões ao redor da fogueira e com a movimentação daquelas pessoas tão diferentes. Ouvi sobre meu pai, Vento-que-Ruge e sobre os augúrios, ou fases da lua sob a qual um homem-lobo pode nascer e como isso faz ele se tornar um xamã, ou um guerreiro. Passei a chamar Àguia-Caçadora de pai, afinal ele disse que seria uma forma de justificar minha presença na tribo, mesmo assim, todos — menos meus \"irmãos\" — me olhavam torto, embora suportassem minha estadia ali devido a meu pai que era o índio mais velho. Enfim, agora eu tinha uma nova família; Águia-Caçadora, Águia-Pequena, Neve do Inverno e Espírito Protetor. Eu não sabia, mas, meu nome iria se firmar ainda mais diante da nação garou após passar pelo Ritual de Passagem, mas eu nem fazia idéia disso. A noite chegou. Um enorme evento estava para acontecer e todos se reuniram para os preparativos. Lenha foi recolhida para formar uma imensa fogueira. Meu pai e todos os xamãs da tribo acenderam seus cachimbos e cantaram canções para atrair os espíritos bons da região. Uma grande coruja branca, o animal totem do caern onde estávamos, apareceu imponente em meio à fumaça que se desprendia da lenha ardente e olhou a todos com seus olhos enormes e brilhantes. Águia-Caçadora percebeu um sinal dado por ela e então começou a falar: — Irmãos. Nos reunimos hoje nesse local para o rito de passagem dos filhotes que alcançaram a idade e a oportunidade de se tornarem verdadeiros garou. Hoje eu vou incluir uma pessoa nesse rito de passagem, alguém que tomo como minha filha — todos se entreolham nesse instante, parando seus olhos sobre mim; alguns com curiosidade, outros com ódio, outros indiferentes ou comentando maldosamente entre si; minha não aceitação era clara — alguém que chegou até nós através de Águia-Pequena, filha de Vento-que-Ruge e de nossa tão amada Luna. Aproxime-se pequena. — Diz ele estendendo a mão na minha direção. Ele continua: -Hoje passará por uma prova difícil e deverá voltar até aqui com os que lhe acompanharão como uma vitoriosa e verdadeira garou. — Ele olha ao redor e todos cessam seus cochichos, então ele convoca: — Apresentem-se jovens garous. Quatro jovens saem da multidão. Todos homens. Eles vêm em silêncio até perto de onde estamos. Águia — Caçadora passa o cachimbo a cada um deles, que oferecem o fumo à grande coruja. Eu tento fazer o mesmo, mas nunca havia fumado, portanto me engasgo e tusso mais do que fumo para deleite dos meus críticos que se seguram para não rir ou comentar de mim naquele momento. Meu pai olha em desaprovação para eles, que logo cessam os risos abafados e então continua: -Oh, grande coruja, veja esses cinco jovens valorosos que estão à sua frente. Eles descobriram sua verdadeira vida e agora querem se firmar como verdadeiros defensores de N´gahauttissookae. Ofereço minha própria crença a você, grande espírito guia para que os leve em segurança e traga-os de volta para nós. A coruja emite um piado alto como se concordasse com o que ele disse e com a gnose que ofereceu a ela. Satisfeito ele olha para a lua, que tinha acabado de nascer no horizonte e volta seu olhar para nós. -Transformem-se, sigam a grande coruja, ela irá leva-los para onde devem estar. Fico nervosa, afinal não sei bem como mudar. Os outros filhotes assumem a forma de batalha e olham para mim, esperando eu fazer o mesmo. Meu pai percebe minha apreensão e vem em meu socorro, dizendo palavras no meu ouvido: -Filha, você consegue. Lembre-se do que te fez mudar. Lembre-se de como se sentiu e sinta o lobo que vive em você. Deixe-o sair de dentro do seu coração. Sinta a força dele, sinta seu faro, seus ouvidos, as garras, os dentes. Mude. Mude, minha filha. Eu fechei os olhos. Lembrei-me de Águia-Pequena, de como fiquei triste com o que iriam fazer com ele, dos sonhos que tive. Procurei ouvir os sussurros dentro de mim novamente e em pouco tempo comecei a me sentir como na noite em que me transformei. Senti o coração bater mais rápido, senti o frio se afastando e o barulho do meu coração nos meus ouvidos. Podia sentir o cheiro de tudo ao meu redor até abrir meus olhos novamente e perceber que eu havia mudado.
-Muito bem. — Sorriu o velho xamã, me indicando com a mão para onde deveria ir. Eu corri pela neve facilmente, seguindo os rastros dos outros garous que me esperavam à beira do rio. Um deles, o mais alto, falou assim que me aproximei: -Vou guiá-los até o mundo espiritual, segurem-se em mim. — Logo depois voltou seu olhar para o reflexo no rio e todos, inclusive eu, fizeram o mesmo. Senti meu estômago embrulhar. Seja lá o que estivesse acontecendo era desconfortável para mim. As coisas pareciam se mover ao meu redor. As árvores, o rio, as nuvens no céu dançavam e modificavam-se, como se eu estivesse vendo reflexos na água do rio. Esfreguei os olhos com as costas das patas enormes e pisquei algumas vezes. Tudo ao meu redor estava diferente, mas eu reconhecia o lugar. A floresta era mais viva, o rio era translúcido, o céu era limpo e as estrelas pareciam se mover livremente, como vaga-lumes. Imponente, sobre nossas cabeças, estava Luna, nos observando atentamente e iluminando nosso caminho naquele lugar sombrio. Vários espíritos de animais nos olhavam curiosamente e vez ou outra sumiam e reapareciam entre os pinheiros, como se brincassem conosco. -Hei, vamos. — Chamou um dos garous. Eu ia pedir desculpas por ter me distraído, mas achei melhor ficar calada e não atrapalhar ainda mais. Os segui de perto. O líder acompanhava a coruja mais à frente e parecia conseguir conversar com ela, mas eu só ouvia seus piados. Andamos até um lugar onde pudemos ver uma espécie de ponte luminosa que cortava o céu. Ela era formada de um raio de luar e se estendia até onde a vista alcançava. A coruja deu um piado agudo e logo o garou que liderava tomou a direção daquela ponte de luz. Nós o seguimos e a coruja continuou nos acompanhando durante todo o percurso. Quando deixamos aquela estrada luminosa, uma imensa floresta tropical surgiu à nossa frente. -Fiquem juntos. — Disse um dos garous. Começamos a explorar as imediações e não percebi que os quatro seguiram por um caminho diferente do que o que eu estava indo. Percebi uma batida de tambores que vinha de dentro da floresta: tum, tum, tum, tum... Eu segui o som, alheia aos acontecimentos ao meu redor, me embrenhando mata adentro atrás do som interminável dos tambores, que ficava cada vez mais alto. De repente o som simplesmente parou. Olhei ao meu redor e só via árvores, nada dos outros garous. Senti que alguma coisa se enrolava na minha perna, quando olhei para baixo ví que eram cipós. Tentei tirar minha perna, mas era tarde, cipós se enrolaram em ambas e também em meus braços e no meu pescoço. Vou morrer! Pensava, enquanto ia sendo apertada pela planta, que me suspendeu no ar, um lobisomem de quase três metros e uns 250 Kg. Com a garganta sendo sufocada não podia gritar por socorro e minhas esperanças quase terminaram. Eu havia sido enganada pelo som de um tambor. Dois pequenos tentáculos batiam contra uma das folhas da planta, que havia me pegado para o jantar. Eu iria morrer se não fizesse nada. A dor da garganta sendo esmagada, assim como os braços e pernas me fizeram reagir e consegui libertar um dos braços, rasgando as amarras que me deixavam sem ar. Novos cipós vieram de encontro a mim, mas eu tentei me livrar deles antes que me prendessem novamente. A mesma fúria que havia experimentado semanas atrás no acampamento tomou conta de mim e eu acordei minutos depois dentro de uma caverna escura, a boca com um gosto horrível de seiva vegetal. -O que estou fazendo nesse lugar? — me perguntava, enquanto me levantava do chão. Nem um sinal dos outros. Estava perdida, sozinha, dentro de um buraco escuro... Até o som de algo enorme se arrastando atrás de mim cortar meus pensamentos. Meus pelos se eriçaram ao pressentir o perigo e eu logo corri dali. Senti que algo tentava me agarrar enquanto corria. Assim que encontrei a saída dali pude ver os outros garous mais acima, nas terras mais altas daquela caverna. -Onde você estava? — Gritou um deles. Não tive tempo de responder. Para minha sorte a criatura, parecida com um caranguejo gigante era grande demais para passar pela abertura e eu fiquei prensada entre a parede do despenhadeiro e a sua enorme pinça que tentava me alcançar. -Me ajudem, vocês aí! — Gritava apavorada enquanto os outros me olhavam lá do alto. Eles não sabiam bem o que fazer ali do alto, mas eu, de certa forma, tinha uma visão privilegiada de onde estava e logo percebi que as pedras acima da caverna estavam mais soltas então gritei para eles pularem e as derrubarem sobre o monstro, eu seria a isca e permaneceria ali para que a criatura ficasse no lugar correto. Os quatro garous se atiraram sobre as pedras, forçando-as até que a caverna desmoronou sobre a criatura que morreu se contorcendo sobre as rochas. Por sorte meu plano havia dado certo e ninguém havia se machucado no processo. A coruja nos encontrou após sairmos do buraco com dificuldade. Os garous pegaram partes da criatura e levaram com eles para provarem que lutaram bravamente. Eu só queria sair dali, por isso não me preocupei e logo segui pelo caminho que a coruja indicou, satisfeita pelo simples fato de estar viva. Retornamos até a parte do rio e o garou nos levou de volta para o mundo real. Todos foram recebidos com muita festa e tivemos nossos nomes garous reconhecidos ao redor da fogueira. Eu deixei com que eles comemorassem o quanto quisessem, não queria causar mais conflitos. Peguei um pouco de comida e bebida e me sentei longe da festa deles. Depois fui para a cabana de meu pai onde procurei descansar e recobrar parte de minha sanidade depois de um dia daqueles... ---xxx---xxx--- Algum tempo se passou. O milho foi plantado, cresceu e foi colhido, foi nesse momento da colheita que tive minha primeira desavença com Ursa-Pequena, uma Ahroun como eu. Estava na plantação ajudando minha irmã Neve do Inverno a colher o milho e estava me divertindo ao fazer companhia a ela; foi quando Ursa se aproximou e me empurrou para longe, me fazendo cair sentada na neve, dizendo que eu jamais seria um deles. Logo, uma roda se formou e todos acompanhavam o conflito, apreensivos. -Se não fosse por Águia-Caçadora eu acabava com você agora mesmo Wassixú. — Rosnou ela, apontando seu dedo na minha direção. -O que foi que eu te fiz? — Falei, como ela, na linguagem garou enquanto me levantava do chão. -Deixe nossa irmã em paz Ursa-Pequena, ela não lhe fez nada. — Gritou Neve do inverno. -Eu deixo, basta ela não cruzar meu caminho. — Falou a garou, retirando-se do lugar onde estávamos. Estática, só pude deixar com que meus olhos se enchessem d´água com aquela agressão. Minha irmã me pegou pelos ombros e me levou embora dali, na direção do riacho próximo onde conversamos por algum tempo até eu me acalmar. — Eu nunca serei aceita, irmã. — Você é nossa irmã, Espírito Protetor. Nosso pai conheceu Vento-que-Ruge e ele saberá o que fazer. Não se preocupe com Ursa-Pequena, ela é grande guerreira e tem coração bom. — Mas ela e os outros não gostam da minha presença, você vê como falam sobre mim, como riem de mim, Neve do Inverno. -Tudo isso vai mudar, irmã, quando descobrirem seu verdadeiro valor. Eu abracei a menina. Realmente tinha uma família. Logo Águia-Pequena nos encontrou e nos chamou para irmos até nosso pai. Conversamos muito naquela tarde, brincamos, rimos, contei sobre meu rito de passagem para eles e meu pai me contou mais lendas sobre o povo puro. Eu estava voltando a ser feliz.
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