A Lenda de Espírito Protetor Parte3
1 Capítulo 3
15 anos depois, eu, Janeth Wells, nome dado por meus pais que jamais sonhara serem adotivos, corria em direção à floresta.
Carregava a culpa em meu coração após os sonhos que me atormentaram à noite... Em meu sonho havia uma montanha congelada. A lua quase que envolvia essa montanha, de tão grande no horizonte. Eu ví uma loba cinza. Não sei como, mas eu sabia que era uma mulher. Ela começara a subir a montanha até parar, de frente à lua. Ela uivava um uivo triste...lamentoso, como se fosse um choro. A lua se tornava vermelha e ela virava para mim com o rosto humano... MEU ROSTO! Era eu! Mas... não era eu. Continuava sendo uma loba, mas eu sentia que era parte de mim... vestida de índia. Um chumaço de penas amarradas ao pêlo. De repente gotas de sangue caíam desde a lua, desta lua vermelha, clareando-a, moldando o rosto de uma mulher, que antes que eu pudesse vê-la me chamava... Espírito! Então eu acordava. Foi assim por muitas noites, eu não aguentava mais. Tinha que descobrir o porque. Outra coisa estranha acontecia. Os garotos da vila... eles sempre judiavam dos índios da região, até então eu nem me importava... até que os sonhos começaram e eu começei também a sentir nojo do que eles faziam. Eles pegaram mais um naquele dia e eu sentia que algo iria acontecer. Meu estômago se revirava e estava agora vazio, depois de imaginar o que eles poderiam fazer a ele. E os garotos estavam bem dispostos desde a manhã... Meu coração batia apressadamente. David havia me procurado naquela manhã. Disse que iria me impressionar. Meu estômago doía desde que acordei dos sonhos naquela noite e não dei muita importância ao que ele tagarelava lá de baixo. Fechei a janela e tratei de ir jogar uma água no rosto para me sentir melhor. Ele disse que iria pegar mais um pele-vermelha e queimá-lo diante de todos na vila para que os outros índios se afastassem daquelas terras para sempre. Os índios atacavam os lenhadores que tentavam retirar a madeira da região; os lenhadores diziam que eles vestiam peles de animais, peles de lobos, para os atacarem sem serem reconhecidos, mas eles sabiam que eram os índios, desde que uma grande empresa madeireira chegou à região, ela vem pagando os homens da vila para caçar os índios e conter sua insatisfação com o mundo civilizado... a empresa trouxe um pequeno mercado para cá e desde então as coisas mudaram drásticamente... Os índios tem atacado a madeireira. Eles não querem a floresta derrubada. Acho que eles tem certa razão... a água do rio vêm baixando e está ficando turva. Mamãe disse que isso é invenção da minha cabeça, mas sinto a água mais pesada agora. A comida da vendinha também tem um gosto estranho, mas, posso estar enganada, pode ser o sonho, não venho comendo bem desde que ele começou a 15, 20 dias atrás, a comida não para mais em meu estômago, a não ser que esteja ainda crua. O pouco que eu consigo manter dentro de mim é o que ainda me mantém viva, de pé. Só não entendo essa vontade na qual estou correndo na direção da floresta agora. Sem comer bem como eu estou já era para ter caído ou ao menos desistído. Nunca corrí tão rápido em toda a minha vida...mas eu já sinto o cheiro... é fogo! Meu Deus... que não seja tarde. Paro e escuto os sons ao meu redor, sons de dor... fumaça se eleva no ar... Posso ouvir cada barulho, cada grito abafado... meu corpo dói, como se as agressões fossem nele mesmo. Cerro os olhos lacrimejados de pavor e tensão e volto a correr na direção dos sons. É quando os vejo; David e seus três amigos. Eles capturaram um dos índios, um guerreiro jovem com mais ou menos 20 anos, estavam espancando ele, que estava amarrado à uma árvore. David gritava: — Vamos prove um pouco do que essa sua raça imunda mereçe, índio! — então o espancava. Eu não acreditava no que via. A face de David desfigurada, parecia deformada com dentes pontiagudos, uma boca enorme e desforme. Seus olhos eram negros e grandes. Balancei minha cabeça e esfreguei meus olhos... alucinações da fome... ele estava de volta ao normal e me viu. -Venha Janeth, venha bater nesse índio imundo também! Eu olhei para o índio, em silêncio ele me observava com o olhar firme, suportando as dores que sentia por alguma razão. Com seu olhar ele parecia falar comigo e eu não conseguia desviar meu olhar do dele de forma alguma...então uma palavra veio à minha mente... fúria...eu balancei a cabeça. Os garotos riam: -você vai morrer, sua peste! hahahahah! -Vamos, vamos levar ele na frente da vila inteira! Então eu não aguento mais, caio de joelhos e grito; os ólhos vertendo lágrimas, o coração tomado por dor e compaixão por aquele ser humano, como eu: — Párem! Deixem ele em paz!!!! David se aproxima de mim raivoso: -O que foi Janeth, não me diga que agora está do lado deles?!? — Então, furioso, ele me acerta com um chute violento, me tirando do caminho para o mal que pretendia fazer ao jovem índio. Eu estava fraca e o chute que ele me deu, eu ainda de joelhos, me mandou longe. Eu pude ouvir a conversa das pessoas que se aproximavam, meu pai estava entre os que chegavam e logo que me viu correu na minha direção, me ajudando a levantar.
-Filha, tudo bem??? — Meu estômago doía, eu estava com fome... meu pai continuou: -David, o que pensa que está fazendo com ela? Vamos, filha, levante-se, está melhor? David fala:-Ela estava no caminho, vamos chacinar esse índio maldito, velho. -Faça o que quiser com ele, só não toque mais em minha filha, rapaz... Ódio surge em meu coração. Em meio à noite que havia acabado de se abater sobre nós eu encarei meu pai, meus olhos ardiam com a chama da fúria, assim como as chamas das tochas carregadas por aqueles assassinos. Eu ouvia um tambor bater em meu interior, e o medo nos olhos de meu pai, diante do ódio que via dentro de mim fez a fome aumentar... eu me virei na direção do índio, ele ainda olhava para mim, direto em meus olhos, ele podia me ver além do ódio que eu carregava e falou comigo, com uma linguagem que nunca havia ouvido antes, mas que eu compreendí. Ele me dizia: -O grande wendigo está te dando seu poder... Ao olhar para o lado ví uma criatura azulada correndo através da neve, ela tinha a carne congelada, os dentes de gelo pontiagudos e cascos, como os animais da floresta. A criatura pulou sobre mim, me derrubando no chão, ela enfiou suas garras em meu peito e arrancou meu coração que ainda batia vermelho em suas mãos congeladas. Ele comeu meu coração diante de meus olhos e eu não estava morta, apenas desmaiei.Eu acordo. Estou na montanha, a velha montanha do sonho. Olho prá mim, não estou com quatro patas, não sou uma loba. Mas a lua está lá, radiante, enorme, na minha frente... eu ouço uma voz: -Espiritooooo... Estou aquí! Olho ao meu redor, procuro pela dona de voz tão melodiosa e pergunto: -Quem é espírito? A voz recomeça: — Espírito Protetor... — Então eu vejo algo; na lua; parece a face de uma mulher. Ela fala comigo: — Venha até mim, minha filha. E eu olho para a face que se forma: — Mãe? Porque sua voz está tão diferente? Ouço a voz mais uma vez: — Espírito Protetor, honre a herança que ganhou de mim. A lua inunda tudo com sua luz prateada, eu levo a mão diante dos meus olhos para evitar ser cegada, então... acordo.Quando abrí meus olhos, a neve estava vermelha. Mesmo com as tochas todas apagadas, apenas com o reflatir da lua, eu podia enxergar perfeitamente. Todos da vila jaziam a meus pés. Todos eles. Mortos. Até que os ví: -P-pai! Mãe! Não.... O que houve aquí, meu Deus? Que gosto estranho é esse na minha boca? Minhas mãos, meus braços, meu corpo todo estava coberto de ... sangue! As lágrimas que escorrem lavam meu rosto daquele sangue. Me lembro da criatura da floresta... Toco meu peito, meu coração ainda está lá. Eu tento me lembrar do que aconteceu, mesmo confusa eu me lembro da criatura de gelo matando todas as pessoas... Está muito frio, a lua, cheia, sobre mim está vermelha, como em meu sonho... é quando escuto: -N´gautissokae... Me viro. O índio era o único que ainda estava vivo em meio a tudo aquilo. Então me dei conta de que estava completamente nua. Eu me cobrí com uma jaqueta rasgada e manchada de sangue, que era de meu pai. Me levantei e desamarrei-o. -Você está bem? — Pergunto ao índio. O rosto dele estava inchado, o braço parecia estar quebrado, assim como as costelas no lado esquerdo. -Ma-mawê. — Ele diz, enquanto vem na minha direção. Eu dou um passo prá trás, assustada, enquanto alguma coisa atinge minha cabeça por trás...Acordo algum tempo depois, numa estranha cabana cheia de objetos que nunca havia visto antes. Minha cabeça dói um pouco, mas não há sinal de nenhum ferimento profundo. Eu acho isso estranho, afinal, tenho certeza de que levei um golpe muito forte com algum objeto. Olho para mim, não estou mais nua. Me vestiram com roupas indígenas, não fosse minha pele e cabelos claros poderia ser considerada membro de uma tribo norte-americana. Era o que me faltava. Além de minha família ter sido morta por um monstro eu tinha sido sequestrada pelos índios. Chorei. Chorei muito ao lembrar que nunca mais veria meus pais. Chorei por minha mãe, que havia me ensinado tudo o que eu sabia até aquele momento, pelo amor que ela me deu e que eu nunca mais teria. Chorei por meu pai, que era rude, mas me protegeu até o último instante de sua vida. Eles faziam parte de mim e meu coração estava partido. Me encolhí na cama improvisada, feita com peles de animais e que ficava no chão. Chorei até não ter mais lágrimas dentro de mim. Eu mal imaginava o que aconteceria comigo em meio àquele caos. Um velho índio entrou na cabana e eu me assustei com a presença dele, mas não tinha para onde escapar, ele se colocou exatamente diante da única passagem daquela cabana. Eu arregalei os olhos enquanto segurava parte da pele com a qual me cobria, tentando me proteger de alguma maneira. Ele simplesmente sorriu e falou na minha língua: -Vejo que está melhor! Isso é bom! -Eu... O que aconteceu? Minha família está toda morta... o que eu vou fazer? — Dizia chorando compulsivamente, enquanto tampava o rosto com as mãos, segurando as lágrimas que pensava terem se acabado. -Calma, criança. Calma. Hoje não é um dia para tristezas e sim para alegrias. — Disse o índio se aproximando de onde eu estava e se sentando ao meu lado. Ele continuou: — Os wassixú que te criaram não podem ser trazidos de volta, mas veja; você voltou para casa! — disse ele, colocando uma mão em meu ombro num claro sinal de satisfação e orgulho. Qual não foi minha surpresa ao ver que alguém familiar surgiu na entrada da cabana. Era o jovem índio que ajudei a salvar. O mais incrível é que ele não tinha nenhum dos ferimentos que eu ví claramente espalhados por seu corpo. Ele olhava fixamente para mim, com uma expressão de agradecimento estampada no rosto. Ao lado dele estava uma índiazinha de uns 12 anos de idade. Ela usava roupas iguais às minhas. -Entrem, meus filhos. — disse o velho índio — Conheçam sua irmã! — Continuou. Assustada, minha única reação foi murmurar: -Irmã? — Sim, minha filha, de hoje em diante serei seu pai. Não tive parentes da raça garou e você será como se fosse uma filha verdadeira para mim. — Falou o índio, trazendo os dois outros jovens para junto de sí. Eu fui abraçada por ambos e minha \"irmã\" menor enfeitou-me com algumas penas de águia. Eu não estava entendendo aquela situação direito. Então interví: — Mas, senhor. Filha? Eu? Eu não me pareço com vocês. E agora tem essa coisa de garou, que eu não tenho idéia do que seja, estou confusa, minha família; eu. O que está acontecendo? O que houve comigo? Porque eu me sinto diferente? — Você é uma garou. — Disse o velho índio. — Eu sou garou também, como você. Sou Águia Caçadora. Esses são meus filhos, seus parentes: Neve do Inverno, minha filha mais jovem e Águia Pequena, meu filho mais velho, bravo guerreiro e caçador; mas não nasceu com o sangue do grande Wendigo, assim como nós. — Completou, referindo-se a mim e a ele. — Bem, eu me chamo Janeth. Janeth Wells. — Disse meio sem jeito. — Não. — Interrompeu Águia Caçadora. — Esse não é seu nome verdadeiro. Os manitus a trouxeram até aquí para salvar seu irmão mais velho. Ganhará seu nome por ter feito esse ato de bravura. Espírito Protetor, esse será seu nome na sua língua.— Espírito Protetor? — Me lembrei — Sim, nos meus sonhos, eu ouvia a voz de uma mulher me chamando e ela me chamava exatamente assim. Ela me chamava enquanto a luz da lua me cegava. — Disse. — Era sua mãe. Sokta, também conhecida como Luna. Ou lua, na sua língua. — Falou o índio. Eu caí na risada. Eu, filha da Lua? Então a história que me contaram do Espírito Santo não era tão irreal quanto eu imaginei. — Espere, Águia Caçadora — tentava ponderar — como eu posso ser filha da Lua? Desculpe, mas está ficando louco? Águia Caçadora respirou fundo e pediu para os seus filhos se retirarem pois queria falar a sós comigo. Eles obedeceram prontamente, fechando a entrada da cabana assim que passaram. -Veja bem, minha filha. Você é uma garou. Um dos lobos espíritos, trazidos ao mundo pela grande avó e por sua mãe, Luna. — Falou ele. — Agora que eu não entendí mesmo, eu tenho duas mães? Ou melhor, uma avó e uma mãe? Ai,... — Não. — Águia respirou fundo. — Você teve um pai, a muitos invernos atrás. Pouco antes de você nascer ele se foi. Era um de nós e seu nome era Vento que Ruge. Ele era um do povo Wendigo, como eu, como você. Você herdou dele a coragem dos guerreiros e essa é sua lua. Você é uma Ahroun como seu pai, uma guerreira, uma lua cheia.
— Quer dizer que eu sou filha de um índio? Você deve estar enganado! Meu pai era lenhador e minha mãe cuidava da costura de toda a vila. Não tem como eu ser parente de vocês! — Disse apontando minhas características físicas. — Você herdou a aparência de Sokta, de sua mãe, por isso não se parece como nós, índios. Eu deixei você próximo da casa daqueles que a criaram para sua proteção. Os outros não iriam aceitar alguém diferente em meio à tribo e um campeador a vigiaria até a primeira mudança. — Disse o índio. — Primeira mudança? Campeador? Eu sou adotada, é isso? Fui abandonada? Porque? Gradualmente, eu ví o velho índio começando a mudar de forma. Ele ficou cada vez mais alto e forte. Pelos foram aparecendo por todo o seu corpo coberto de cicatrizes. Garras e presas enormes surgiram de seus dedos e boca. Estranhamente eu não estava com medo disso. Estava surpresa sim, mas, não com medo. Com uma voz gutural ele disse: -Vê, criança? Isso é ser garou. De olhos arregalados eu não conseguia mais do que acenar positivamente com a cabeça.
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