A Lenda de Cristal
48 Capítulo 47
Notas iniciais
~*~
Mondo olhou para o relógio na parede, tornando a roer as unhas. A madrugada estava passando e ficar sozinho ali o deixava agoniado.
Olhou o celular, verificando se o sinal e os dados móveis continuavam a funcionar. Sim. Mas nenhuma mensagem de Buson. E de Dômino muito menos.
Não havia tv ali para verificar se algum noticiário já estava cobrindo o que quer que estivesse acontecendo no Templo Ancestral e buscar informações nas redes sociais não adiantaria muita coisa que não deixá-lo mais ansioso. O que deveria fazer?
Mondo parou de roer as unhas e decidiu fazer um chá.
Assim, enquanto esperava a água ferver, olhou novamente pela janela. Aquele chalé que servia de base improvisada ficava longe do centro da cidade e mal dava para ver a cidade de Snowpoint, exceto pelas luzes que seu astigmatismo não permitia que visse de forma nítida.
**~~**
Após terem comido fartamente as guloseimas variadas adquiridas na padaria (e pagas com um dos cartões vinculados a conta da Equipe Rocket) e aguardado até que os primeiros flocos de neve tarde da noite começassem a cair, Lugia falou, decidido.
— Estamos indo ao Templo Ancestral. Dê-me o rastreador de cristais.
— ...como assim?
Dômino estava sentada diante de dois monitores, realizando uma varredura de dados e analisando dados de uma planilha quando Lugia falou aquilo, parando ao seu lado.
— Você ouviu. Eu e minhas irmãs iremos ao Templo.
— Não hoje. – resmungou Dômino. – Não terminamos de configurar as coisas para a base aqui por causa do péssimo sinal devido a cadeia montanhosa. E está nevando. Vamos colocar o plano em prática como dito na reunião lá no QG. Amanhã pela manhã, as nove. É quando o templo abre para visitação. Como já temos a planta do local, poderemos transitar ali como meros turistas e ás onze horas damos início a operação.
— Mas neste horário toda a cidade vai estar funcionando, muita gente visitando o templo e os arredores. – lembrou Moltres.
— É alta temporada aqui e isso é bom para darmos início a missão nesse horário. – Dômino se recostou na cadeira. – É muito mais eficaz para agirmos em meio a muita gente, para nossas ações terem mais chances de passarem despercebidas, E as chances de nos depararmos com algum pokémon selvagem milenar “guardando” o local dos cristais é bem grande, já que nas outras três vezes foi assim.
Dômino tinha interesse em saber mais sobre como Lugia fora encontrado. Quem sabe jogando um “verde” conseguiria obter alguma informação que Igni não lhe dizia.
Mas Lugia se manteve impassível.
— Está nos dizendo que é vantajoso a possibilidade de um pokémon lendário surgir no meio de uma cidade turística em plena luz do dia causando caos e destruição ao mesmo tempo em que coloca a vida de inúmeras pessoas em risco em prol da eficácia da missão de busca?
— É. – Dômino respondeu a pergunta de Articuno com naturalidade. – Uma confusão generalizada facilita que atuemos com mais facilidade sem chamar atenção. A prioridade que temos é encontrar e pegar os tais cristais. É isso que vocês querem e o que importa.
Articuno ficou incrédula. Aquela garota era realmente insensível.
Se levantou, vestindo o casaco azul que deixara sob o braço do sofá.
— Vamos ao templo agora. – falou, tendo uma concordância imediata de Moltres.
— Está esfriando muito lá fora e a previsão é que a neve seja densa. – avisou Dômino.
— O frio não me incomoda.
Dômino inspirou para responder a resposta da mulher, mas quando Lugia praticamente arrancou o rastreador do suporte ligado na tomada para carregar a bateria do mesmo e já seguindo em direção á porta, a garota se irritou..
— EI!! O que pensa que está fazendo?!
— Já lhe disse, estamos indo ao Templo buscar os cristais.
— Mas eu acabei de falar que iniciaremos a missão amanhã, vocês não podem...
Lugia parou, virando-se para ela.
— Achei que havia sido bem claro na conversa que tivemos ao chegar nesta cidade. Eu não obedecerei ninguém. Muitos menos uma subalterna da organização. Se você se lembra bem, Igni disse que você deveria me auxiliar e me obedecer. Não o contrário.
Dômino cerrou os punhos com força, pensando não como deveria argumentar, mas se deveria tentar argumentar. Porém, antes que pudesse decidir, Lugia e suas irmãs já haviam aberto a porta e saído na noite fria.
Mondo olhou da porta para Dômino e viu bem o olhar de ódio da garota antes dela largar o que estava fazendo e ir em direção ao outro cômodo, batendo a porta com violência atrás de si. E não deve ter passado mais do que dez minutos para ela novamente sair pela porta, vestir o casaco e sair do chalé, sem falar absolutamente nada.
**~~**
A chaleira apitou e Mondo saiu de suas recentes lembranças enquanto desligava o fogo. Abriu a delicada valise em forma de Oddish, a qual carregava o seu Kit-Chá, com os itens devidamente organizados. O apetrecho contava com uma pequena chaleira, uma caneca e colher, um estojinho com coador e medidor, caixinha com divisórias para saquinhos de chá, alguns potinhos que se encaixavam em um compartimento da valise para guardar folhinhas de chá e dois pequenos cilindros para se colocar açúcar e adoçante. E no bolso superior, guardava-se uma pequena toalha e alguns guardanapos.
Aquela valise era o seu xodó. Como apreciador de chás, ela lhe foi um desejo de consumo desde que vira a pré-venda no PokéMart. Obviamente cara por ser uma edição limitada, ainda assim Mondo queria ter. Dômino sugeriu que ele roubasse uma (afinal era algo que Rockets faziam) e Wendy sugeriu que ele comprasse falsificado por ser mais barato (mas a falsificação tinha acabamento péssimo). Mas Mondo queria ter a valise do jeito certo.
Então, parcelou o valor em 12 vezes no carnê, não atrasando nenhuma parcela. Quando chegou na Equipe Rocket com a valise Oddish, Wendy achou que era falsificada e Dômino achou que era roubada. Mondo confirmou ambas coisas para cada uma e estava de consciência tranquila.
Com a água fervida colocada na caneca, preparou um chá de Cherrin* e sentou-se no sofá, tentando acalmar a própria ansiedade. No silêncio do chalé, ao se concentrar, pôde ouvir o som de sirenes vindo da cidade.
Obviamente estava acontecendo alguma coisa e certamente no Templo Ancestral. Lugia e suas irmãs haviam conseguido os cristais? Havia algum pokémon antigo ali? Estaria acontecendo uma batalha? Será que a suposição induzida por Igni, de que haveria algum membro da Elite4 era verdadeira? Estaria Dômino e Buson batalhando? E ele? O que deveria fazer? Continuar ali sentado tomando chá?
“Mas se eu for até lá, o que vai adiantar? Eu não tenho pokémon pra batalhar. E deve estar tudo uma confusão, é bem capaz que eu não encontre ninguém...”
Respirou profundamente e bebeu outro gole de chá, procurando pensar em algo para distrair a mente. E então se lembrou da conversa recente.
**~~**
- Se eu contar...você não vai acreditar.
Foi o que Mondo disse quando Buson sentou-se praticamente colado a si, se inclinando em sua direção e ordenando que lhe falasse o que sabia sobre Lugia e as irmãs. Assuntos considerados segredos e de conhecimento exclusivo do Alto Conselho e de pouquíssimos e específicos agentes Rockets.
— Vamos ver se acredito ou não...desembucha!
— E-eu...eu não posso!
Buson pegou o rosto de Mondo entre suas mãos, aproximando ainda mais seu rosto do dele. O garoto sentiu todo seu corpo estremecer e revolver e por um momento, ao olhar nos olhos do loiro. E quando ele falou, a mente do garoto quase entrou em pane.
— Cê tá ligado que eu posso te fazer abrir a boca e contar tudinho, né?
“ Não é só a minha boca que você pode abrir...ai que vergonha, Arceus do Céu!”
— Me...me desculpa.. – murmurou Mondo com a voz fraca. – Eu sei que você pode e consegue, mas por favor...não me obriga a ter que contar porque é sigiloso demais! Se o senhor Igni ficar sabendo que eu contei o que sei e a gente sabe que ele descobre, vou sofrer as consequências! – Mondo inspirou e tomou coragem. – E você, Buson, pode ser intimidador, mas o Igni é mau. Então eu prefiro não falar porque posso me ferrar de forma muito pior com ele depois!
Buson o encarou por alguns segundos e então largou seu rosto, fazendo um rápido cafuné no topo da cabeça do garoto.
— Relaxa que eu não vou te obrigar a falar e te causar problemas com aquele desgraçado. Um dia eu ainda quebro a cara daquele gigolô!
Buson se levantou e pareceu pensar por alguns minutos antes de falar.
— Eu vou atrás da famílinha misteriosa. A missão pode ter sido abandonada pela Dômino então isso faz de mim o novo líder dela agora porque eu não vou aceitar que o tal Lugia fique dando ordens como se fosse autoridade na Equipe Rocket. – ele encarou Mondo. – Tu fica aqui pro caso da Dômino aparecer ou mesmo a familinha. Se qualquer um deles voltar, você me liga!
Mondo tentou retrucar, dizer que iria junto, que não queria ficar sozinho ali, mas Buson foi impositivo e o garoto se limitou a obedecer.
E poucos minutos depois, estava ele completamente sozinho em uma chalé afastado da cidade durante uma noite fria de neve, apenas podendo pensar no que estaria acontecendo de preocupante com os envolvidos naquela missão.
Talvez devesse fazer um chá.
**~~**
Mondo sentiu seu celular vibrar e olhou rapidamente a notificação. Mensagem de Igni.
Seu estômago revirou de ansiedade, mas controlou o ímpeto de abri-la e ler e também de retornar a ligação perdida. Se fizesse isso, teria que responde-lo, era uma ordem.
“Sempre que eu o contatar, me responda o mais imediatamente possível.”
Mas teria que fazê-lo, mais cedo ou mais tarde. Ouviu o clique da porta sendo aberta e para seu alívio, Dômino surgiu.
— Ah, que bom! Eu já estava ficando paranóico aqui! – Mondo falou, se levantando do sofá. – O que está acontecendo na cidade?! Você encontrou o Lugia? O Buson saiu e...
Mas Dômino o ignorou, assim como parecia estar ignorando qualquer coisa á volta dela, se limitando a tirar as botas e o casaco de forma mecânica. Feito isso, atravessou a sala e entrou no segundo cômodo, fechando a porta atrás de si.
Em outras ocasiões, Mondo teria deixado pra lá, esperado o tempo que fosse preciso ou até mesmo preparar um chá e levar até a amiga, mas a situação atual, como um todo, não permitiria. Sentiu o celular vibrar novamente em sua mão e notou que era mais uma mensagem de Igni. Suspirou, sabendo que precisava que Dômino lhe dissesse o que fazer.
Bateu de leve na porta e a abriu, entrando no quarto. Dômino estava sentada na beirada da cama mal cuidada, enrolando e puxando as duas pontas do cabelo que ela costumava prender naquele seu típico penteado de chiquinhas.
Ele sabia que aquilo era indicativo de que ela estava nervosa. Sabia por serem gestos de ansiedade e irritação extrema. Quando notou que uma das puxadas que ela fazia arrancou alguns fios enrolados em seus dedos, ele tratou de se aproximar.
— Se ficar fazendo isso, vai acabar com falhas no couro cabeludo!
Dômino o encarou e parou o que fazia, emburrada.
— Você já conseguiu falar com o Igni?
— Pra ouvir esporro duas vezes? – ela resmungou. – Melhor só aguentar um quando encontrá-lo pessoalmente. Já vou ter que ouvir muita coisa mesmo.
— Ás vezes acho que é melhor falar com o Igni quando ele está de cabeça quente do que depois, quando ele já pensou no que fazer...
O garoto teve um leve estremecimento ao lembrar de uma das atitudes que já vira Igni ter após um momento de punir alguém. Dar tempo a alguém como ele para pensar e planejar era algo que tendia a gerar um resultado...vil.
— Te garanto que o Igni agindo por emoção pode ser bem...desconfortável.
Dômino levou a mão até seu braço, apertando-o por se lembrar.
— Eu entendo que você está frustrada por essa missão não estar saindo bem como o planejado, mas não está sendo de todo um fracasso.
— Diz isso porque não foi você quem ficou responsável de chefiar essa missão!
Havia sarcasmo e irritação na voz dela e Mondo sabia que ela era o tipo de agente orgulhosa, que gostava de mostrar ser uma excelente agente Rocket com alto status de pontuações e missões concluídas. Quando ele havia entrado na Equipe Rocket e feito amizade, Dômino já era uma agente de elite e por isso, a “queridinha de Giovanni”.
— Bom eu não acho que uma missão falha vai afetar o seu status. Tipo, você tem um currículo invejável como agente. Então, tente não se preocupar tanto com isso.
— Não é esse o meu problema!
Mondo se calou diante da resposta ríspida da amiga. E ao perceber, Dômino afrouxou um pouco o semblante.
Estava irritada e frustrada. A mente no turbilhão de recentes emoções tempestivas que dificultavam o pensamento racional.
E o reflexo desse seu turbilhão emocional se refletisse nas suas ações nervosas e ansiosas, como enrolar a ponta dos cabelos nos dedos novamente, o que não passou despercebido por Mondo.
-...hum...você quer...conversar sobre o que for?
Sim, Dômino queria. Sentia uma angústia, raiva, fraqueza...queria falar. Mas não achava que deveria. Por mais que confiasse em Mondo, que ele soubesse dessa história...falar sobre o que acontecera, o que havia revivido...
— Você encontrou o mestre Lance?
Mondo fizera a pergunta baixinho ao sentar-se do seu lado.
— Eu sei que costumo ser meio tapado... – falou, constrangido. – Mas tem coisas que eu percebo quando envolvem sentimentos, principalmente de amor.
Dômino deixou transparecer uma expressão de dor procurando algo no quarto ao qual pudesse focar para que seus olhos não denunciassem o que estava sentindo.
— Não diga isso...foi há anos que senti, já não...
— O fato de ter passado anos não significa que não sinta nada. Ainda mais quando e da forma que aconteceu o término de vocês...
Dômino não esboçou reação. Sentiu o nariz arder. Ah, não.
“Vamos embora daqui, Lance.”
— Ás vezes basta vermos a pessoa que tudo o que temos guardado acreditando que já não sentimos, volta com tudo.
— ...quem dera eu só o tivesse visto.
— Vocês conversaram?
Dômino não queria reviver tudo aquilo. Não agora, não ali. Mas alguma parte de si queria pelo menos mostrar que havia muito mais.
— Foram várias coisas...tão...impulsivo, intenso, inesperado...tá tudo igual aqui dentro de mim e eu não quero pensar nisso! Eu não posso pensar porque aí vou admitir e isso me assusta!
Assim que percebeu que havia deixado escapar, se arrependeu. Mas não fez objeção quando Mondo esticou o braço em volta de seus ombros, confortando-a.
— Você ainda gosta muito dele, né.
Se era uma pergunta ou afirmação, não importava. Dômino apenas suspirou e Mondo respeitou o silêncio. A conhecia bem o suficiente para saber que mesmo não falando e aceitando palavras de consolo, ela apreciava que o garoto ficasse ali.
Afinal, ele era uma das únicas pessoas que sabia do relacionamento intenso que Dômino tivera com o mestre Lance e nenhum deles realmente colocara um ponto final naquela relação.
— Acho que agora eu entendo.
— ...o quê? – Dômino perguntou, confusa.
— O por quê você não quer falar com o Igni agora. Não...vai ser bom se o Igni suspeitar que você e o mestre Lance se encontraram.
Dômino conteve um suspiro de irritação. Mondo realmente tinha essa interpretação sobre a situação? Ah, romântico e inocente Mondo.
Que ele achasse e acreditasse que Igni pudesse sentir genuíno ciúmes ou se considerar “ameaçado romanticamente” pelo fato de sua amante Dômino ainda estar apaixonada pelo ex namorado famoso. Sendo que fora o próprio Igni que a induzira a desenvolver tal relacionamento com o mestre anos atrás.
Podia até ouvi-lo dizer, daquele jeito lânguido caso soubesse do reencontro carnal entra ela e Lance, que ela deveria investir em reatar com ele, pois seria muito útil para a Equipe Rocket.
“Não. Eu não vou me sujeitar a fazer isso de novo...Foco, Dominique! Sou uma Rocket de elite, não cheguei até onde estou por deixar as emoções sentimentalóides me comandando! Posso não ser uma sociopata como Igni, mas sou racional e egoísta. O importante é resolver a situação aqui sem acabar gerando mais problemas.”
- Amiga...a gente precisa decidir o que fazer.
— ...sobre o quê? A cidade tá meio caótica, tá começando a chegar imprensa como se saíssem do bueiro.
— ...o Lugia...
— Eles não voltaram?
— Não...e o Buson também saiu, disse que ia atrás deles e de você.
Ao ouvir, Dômino bufou, irritada. Nem tempo para poder ficar remoendo e lidando com seus próprios sentimentos tinha.
— Vamos á cidade procurar esses desgraçados! Do jeito que estão as coisas por lá, com a imprensa chegando, pode dar merda!
— M-mas...e as coisas aqui...
— Na volta a gente arruma e sai da cidade.
Mondo assentiu, ansioso e aliviado por finalmente não ficar mais sozinho ali.
Dômino estava irritada e ansiosa por ter que sair e dar continuidade a uma missão que já nem mais existia porém o que mais a deixava assim era a obrigação de ter que voltar ao local, correndo o risco de se deparar novamente com Lance. Havia grandes chances de ele estar ali, ajudando a controlar o caos causado pela batalha de Lugia no Templo Ancestral.
Por mais que uma parte de si gostaria de vê-lo novamente, sua razão alertava do risco de se deparar com alguém ainda mais de encarar.
E diante desse “alguém” Dômino, que não era religiosa, ainda assim fez uma silenciosa prece.
“Que Arceus jamais permita que eu e ela nos encontremos...”
~*~
Ele observou o crepitar do fogo na pequena fogueira por certo tempo, entretido ao ruído dos gravetos se queimando em meio as labaredas que se moviam feito uma dança soltando diminutos pontos de luz que piscavam na fumaça que se despendia do calor.
Lembrava-se de que Flâmia costumava passar períodos olhando as chamas, fossem ela da lareira ou de fogueiras em noites específicas.
Agora mesmo, imagem dela, sentada diante do fogo encoberta pela penumbra, lhe vinha a mente. O longo vestido vermelho espalhado ao seu redor, as mãos pousadas no colo, os cabelos brilhantes caindo em cascatas por seus ombros e costas, o delicado rosto iluminado pelo fogo que ela fitava silenciosamente.
Ela sempre olhava o fogo em certas ocasiões, contemplando e prescrutando. Mas vez ou outra, a ouvia cantarolar baixinho, sem mover os lábios.
“No que está pensando?”
Lugia saiu de suas lembranças diante daquela pergunta. Ergueu um pouco os olhos a fim de ver melhor o que estava do outro lado da pequena fogueira. O Pokémon se mantinha de cócoras, olhando para ele. Sua pele pálida e a forma humanoide e animalesca o faziam parecer uma criatura de um antigo conto de horror antigo ou um conto de horror futurista.
Lugia sabia que precisava continuar agindo com cautela e prudência.
— O fogo...me fez lembrar de alguém do passado. Ela costumava olhar as chamas nas fogueiras em silêncio. Certa vez, lhe perguntei o por que fazia isso e ela me respondeu que era...”para ver”. Nunca entendi o que ela queria dizer. – pensou um pouco antes de continuar. – Talvez, eu nunca tenha sido capaz de compreender muitas coisas sobre ela.
Tentou não se deixar levar por seus questionamentos do passado pois a criatura lhe encarava fixamente, lhe causando certa tensão desconfortável.
Tudo o que se seguiu, do momento em que Lugia chegara desnorteado na pequena ilha e voltou a consciência humana junto a sua transformação e se deparou com aquele ser, foi uma sucessão de ações estranhas e desconcertantes.
Por mais que em sua mente se referisse a ele (apesar de não ter genitais aparentes, sabia que era um espécime macho) como “criatura”, era um Pokémon. Mas não conhecia tal espécie. Não que Lugia conhecesse todos os Pokémon existentes, mas era capaz de identificar os Pokémon nativos da região de Kanto, Johto e vários de outras regiões. E os que não conhecia, estava conhecendo aos poucos, através de estudos, as espécies de Pokémon que não eram conhecidas em sua época.
Não acreditava que tal Pokémon fosse de uma espécie desconhecida. Aquele era “diferente” demais e podia se comunicar na língua dos humanos. Não com a voz, mas com a mente. Era muito inteligente.
E perigoso.
Porém, Lugia percebia que, além da aura ameaçadora que o Pokémon parecia emanar, ele também se mostrava curioso com a sua existência.
Por conta disso, Lugia decidiu não puxar assunto, por mais que estivesse interessado no Pokémon. Com exceção do agradecimento que proferiu quando o Pokémon lhe entregou seu longo e pesado manto que ele mesmo vestia como uma pessoa vestiria, para que Lugia se envolvesse a fim de não ficar inteiramente nu. Em seguida, o Pokémon o conduziu até uma pequena caverna próxima para que pudessem se abrigar da chuva e ventania que começara na ilha. Após a ventania inicial, a chuva que seguia era calma e espessa, daquele tipo que demora para acabar.
E o som da chuva junto ao crepitar aconchegante do fogo, eram uma atrativa armadilha para o sono. Sentia-se exausto. Não apenas pela transformação que, quando voltava, lhe fazia sentir-se quase sem forças. Quanto tempo havia voado? A chuva não permitia que pudesse ter uma percepção em qual momento do dia estava.
Mas não podia adormecer ali. Não com quele Pokémon diante de si. Ele poderia ter sido gentil ao abrigá-lo, mas sabia que diante de um ser inteligente como aquele, é preciso ter cautela.
Olhou para a pequena fogueira que crepitava. Ela já estava acesa quando eles chegaram na caverna e pela forma como o pokémon parecia habituado a ela, ao ponto de jogar alguns gravetos para alimentá-la e atiçar o fogo, indicando que ele se sentasse diante da mesma, fez Lugia ter a atordoante percepção de que aquele pokémon é quem havia acendido a fogueira e sabia como mantê-la.
Aquele pokémon estava em um grau evolutivo acima de qualquer outro pokémon.
“ O que é você?”
Lugia queria ter feito essa pergunta para o pokémon, mas ele a fizera antes. E ele continuava a falar, daquela forma telepática, que ecoava em sua mente.
“Você chegou até aqui sendo um Pokémon e se tornou rapidamente humano. Você é um Pokémon que se torna humano ou um humano que se torna pokémon?”
Lugia demorou um pouco para responder.
— ...nasci e cresci como humano. Então, durante muito tempo fiquei sendo um Pokémon. Durante muito tempo fiquei assim. Tanto tempo que quase me esqueci completamente que sou humano. Mas agora...sou as duas coisas. Sinto, embora não saiba explicar com certeza, que posso escolher quando quero ser um ou outro. Mas agora, eu sou ambos.
“Como isso é possível?”
Lugia engoliu em seco. Era difícil tentar explicar sem contar a parte que guardava pra si e também ele próprio tinha dificuldade em entender.
— Eu tenho especulações, mas nenhuma delas é certeza definitiva ainda. Eu fiquei tanto tempo na forma de um pokémon selvagem que ao voltar a ser humano e pensar como um, minhas lembranças e sensações ficaram borradas, descontroladas e confusas. Levei um tempo para compreender, mas ainda há...lacunas vazias em minhas lembranças. A verdade, pelo menos a verdade que acredito junto das informações que tenho até o momento é a de que...alguém fez isso comigo.
“Também é um fruto de experiências realizadas por humanos.”
- ...experiências, não. Não há ciência no que me tornou assim. É magia. E magia profunda.
A criatura o observou em silêncio por um tempo. Lugia sentia que o pokémon parecia tentar prescrutá-lo, talvez tentando ler a sua mente. E diante desse temor, procurou se concentrar para não permitir que ele conseguisse.
“Quando foi que a sua existência começou?”
— ...há muito tempo. Quem eu sei que fui e os registros históricos que me fizeram descobrir entre o tempo que vivi como humano e o tempo em que fiquei preso na forma de pokémon, passou-se muito tempo que até temo de encontrar a data precisa. Mas digamos que...quando eu era humano, o meio de transporte mais utilizado eram carroças e quando “acordei novamente” após ser o pokémon que você viu, a humanidade já havia feito viagens espaciais.
E isso ao mesmo tempo que me é incrível, me é assustador.
“Como algo assim é possível? Como um humano pode viver tanto tempo assim?”
Lugia deu de ombros.
— Magia. Magia Antiga, profunda e muito poderosa.
“Eu sei um pouco sobre o que significa magia. Que é algo complexo e multifacetado, um conjunto de práticas e crenças que humanos acreditam ter poder para manipular forças naturais e sobrenaturais. Estou errado?”
- É uma boa e assertiva definição.
Lugia estava admirado com aquele pokémon. O quanto ele não era apenas inteligente, mas sábio. Não como um ser mítico de sabedoria milenar, mas um ser que buscava aprender, com interesse em conhecer. Se não o estivesse vendo diante de si, acreditaria que ele era um humano.
“Mas eu não acredito que a magia seja real.”
— Por quê?
“A magia é apenas uma fantasia antiga criada por humanos antes de compreenderem a ciência. Para explicar e fazer coisas. Justificar o que querem descobrir e realizar.”
Lugia encarou a criatura, interessado. Aquele ser era muito inteligente. Mais do que qualquer pokémon, mais que muitos humanos. Interessante.
— É um bom comparativo. – concordou. – Hoje, a magia neste mundo é praticamente inexistente. A ciência explica, a ciência realiza. Mas eu creio no poder da magia.
“Por quê?”
Lugia sorriu como se aquela pergunta tivesse uma resposta óbvia.
— Eu sou um humano que se tornou capaz de se transformar em um pokémon lendário. E posso alternar entre a forma humana e a forma de fera quando eu quiser. Sobre como eu me tornei o que sou e o que foi feito de mim, ciência alguma é capaz de explicar. Porque quando isso me aconteceu, a magia era real, inda poderosa e presente no mundo. Não há poder na ciência capaz de fazer algo assim. Eu vi magia sendo feita várias vezes e ao final, também me tornei uma prova do poder dela. – falou, olhando para as próprias mãos. — Prova de uma magia profunda e há muito perdida, pertencente aos Deuses Ancestrais.
“Você se considera então, um deus?”
A pergunta feita pelo pokémon fez Lugia sentir sua consciência anuviar, em uma sensação de compreensivo temor.
— Eu não sou um deus. Sou apenas...algo afetado pela magia.
“Eu não considero que deva crer que a magia seja real como a ciência.”
— Por quê? – Lugia perguntou. – Você é um pokémon.
“Por que o fato de eu ser um pokémon obrigatoriamente me faria ter que crer em magia?”
— Bom, pokémon são criaturas mágicas, que possuem poderes ligados a elementos na natureza e também sobrenaturais. Eu venho de uma época em que diversos pokémon eram cultuados como deuses e muitos outros reverenciados por serem seres com habilidades incríveis, que evoluem envoltos em luz. Possuem uma ligação íntima e poderosa com a natureza e as forças dela. Pra mim, pokémon são seres de magia.
Após falar aquilo, Lugia notou que o pokémon escutara-o atentamente. Ainda mantinha um semblante desconfiado e até ameaçador, mas Lugia notou um sutil brilho e mudança no seu semblante enquanto falava sobre o que pensava sobre os pokémon.
Mas esse sutil brilho, tão rápido surgiu, desapareceu e ele tornou a falar daquela forma telepática.
“Eu sou um pokémon que não nasceu, que não provém da natureza. Eu sou um pokémon que a ciência humana criou. Eu não nasci de um ovo como um pokémon e tampouco fui gerado dentro de um ventre como um humano. Fui criado em tubos de ensaio através de um engenhoso processo genético.
Sou fruto de um capricho ganancioso dos humanos. Entende porque mesmo eu sendo um pokémon, não posso crer na magia? Não sou um ser mágico e sim uma aberração da ciência. Uma aberração única.”
Aquela confissão deixou Lugia atônito. Queria dizer algo, mas não sabia o que poderia dizer então, apenas permitiu que deixasse fluir o que realmente pensava.
— Eu sou um humano capaz de me tornar um pokémon lendário e posso alternar entre essas duas formas como eu quiser. Isso é algo anormal e até o momento não se tem qualquer registro que já tenha acontecido antes. Então, eu posso afirmar que também sou uma aberração.
“Você não parece nem um pouco uma aberração. Nem como humano e muito menos como pokémon.”
— É mesmo? – Lugia encarou o pokémon com um semblante compreensivo. — Pois você também não me parece nem um pouco com uma aberração. Você é como eu...um ser único...e especial.
O pokémon encarou fixamente o homem ao ouvir aquelas palavras. E Lugia notou, mais uma vez, um sutil brilho de interesse nos olhos dele.
Aquela criatura diante de si era simplesmente intrigante e deslumbrante em sua forma, em sua inteligência e agora em sua origem.
Do que mais seria capaz?
— Eu acho... – disse, olhando para o pokémon. – Que poderemos ter uma longa e interessante conversa. Mas antes, gostaria que fizéssemos uma coisa.
“ O quê?”
— Nos apresentarmos. Eu sou... Lugia de Além-Mar. – disse, estendendo a mão em um gesto para cumprimentar. — Qual o seu nome?
O pokémon o encarou com certa desconfiança, sem se mover. Quando Lugia recolheu a mão levemente constrangido, o nome, dito pela criatura ecoou em sua mente.
Naquele momento, Lugia percebeu que uma conexão interessante entre ele e aquele pokémon, poderia estar começando a se formar.
~*~
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