A Lenda de Agaran Vangloise
1 Capítulo Único
Notas iniciais
“Ou você morre como herói ou vive o bastante para se tornar o vilão” — Batman, o Cavaleiro das Trevas.
Há muito tempo atrás, Atrídia, uma Deusa, criou um lar, seu próprio mundo, seu planeta utilizando as relíquias primordiais: as Essências da Água, fogo, terra, ar, luz, trevas e tempo. Unidas todas em uma só, transformando-se na Essência da Vida, Atrídia foi capaz de criar os animais e as plantas e, por fim, criou aqueles semelhantes à ela, dando a cada uma das espécies uma função no planeta, para mantê-lo em funcionamento.
Vampiros, os Zeladores da Noite. Kitsunes, guardiões de Esdra, o mundo espiritual. Aquari, protetores dos oceanos e por fim, os Atrins. Estes últimos ficaram encarregados do equilíbrio e da harmonia das raças e do crescimento tecnológico. Mais tarde, por causa de eventos inesperados, a partir dos Atrins surgiram os Draconianos, que a Deusa os acolheu e entregou a função de proteger a fauna.
Os Kalfar e os Ashen foram as raças criadas pelas filhas de Atrídia, respectivamente Ange e Zarin’a. Os Kalfar passaram a cuidar das florestas e os Ashen, por causa de sua natureza distinta, ficaram encarregados da tarefa mais difícil. O dever de conter o Marui, o mana sombrio, uma energia parasita e maligna do planeta, na qual nem mesmo a Deusa sabe de onde surgiu e como impedir que ela consuma tudo.
A história que será contada, é sobre uma época em que as raças viviam em paz. Uma época onde haviam descoberto onde era a fonte de todo o mal, uma época pós-Atrídia, onde a Bruxa do Vazio surgiu e enviava suas tropas de Cavaleiros do Vazio, demônios que devoravam os sentimentos ruins das pessoas e da maldade do mundo para se fortalecer.
Agaran Vangloise , um Desbravador misterioso e extremamente poderoso. Alguns dizem que ele é caçador de recompensas, outros um mercenário, outros um grande herói andarilho. Suas façanhas eram contadas em todos os cantos do mundo pelos bardos e isso inspirou muitos escritores e músicos em suas obras.
A Rainha dos Draconianos ficou fascinada pelo herói misterioso quando o viu em ação, protegendo Drádomos, a Capital dos Draconianos de um ataque do exército do Vazio. Ela então o contratou para eliminar a Bruxa do Vazio, pois com o poder que ele possuía, talvez fosse aquele que traria paz ao mundo. Agaran concordou com os termos dela e com as recompensas, então partiria para Nothzio, o castelo sombrio, o covil da Bruxa.
—--***---
Agaran partiria em alguns dias. Ele preparou seu melhor equipamento para aquela missão. A armadura de Acanium, uma relíquia antiga que era ao mesmo tempo uma ferramenta de ataque e defesa, porém dependia exclusivamente da habilidade combate do usuário.
Pegou apenas duas de suas runas de mascote que possuía, aquilo seria o suficiente para a viagem. Suprimentos, muita comida, água e tudo que precisaria para viagem e claro, não podia faltar sua bolsa inventário, um item mágico que criava uma dimensão compacta para objetos, algo essencial para colocar todas suas ferramentas que talvez precisaria e toda aquela comida.
Ele estava pronto. O grande momento era aquele. Ele se olhava no espelho uma última vez, guardando a visão de si mesmo antes daquele desafio. Um Atrin de 1,78, com cabelo longo e castanho de mechas vermelhas, preso com um rabo de cavalo. Seus tendões mágicos, uma característica marcante daqueles de sua raça ficavam mais a mostra no seu pescoço e um pouco acima de seus olhos escuros, calmos e concentrados, ao lado a cicatriz dupla atravessando seu olho esquerdo o deixava sempre com uma cara de ameaçadora, mesmo ele estando sempre calmo.
— Esta é minha redenção. Livrarei o mundo do mal, então... Poderei me juntar à eles. – disse Agaran, imaginado duas pessoas ao seu lado no reflexo: sua antiga esposa, segurando sua filha de apenas duas primaveras.
—--***---
Agaran cruzou os oceanos pelos céus, montado em seu fiel e poderoso grifo-das-neves, Asueon. Após voar por dias, ele finalmente estava chegando onde queria. O miasma daquela Ilha deixava uma névoa roxa e fria em volta, possibilitando apenas aqueles com alguma magia ocular visualizar onde estava indo.
Agaran segurou firme as rédeas de Asueon, concentrando-se e fechando os olhos ao mesmo tempo que os tendões mágicos dos olhos brilhavam. Ao abri-los novamente, sua íris passou a se ter uma coloração verde clara e brilhante. A ilha podia ser vista novamente, consequentemente, o castelo gigantesco também.
Asueon estava inquieto, haviam asas batendo ao deles no céu. Agaran apontou sua mão direita na direção do som e uma energia vermelha e densa envolvia seu punho. O poder aumentava cada vez mais, iluminando tudo ao arredor e mostrando a face de grandes mortos-vivos, meio termo entre um homem e pássaro, porém suas asas eram gigantescos e de ferro, com dentes extremamente afiados e grandes.
Agaran sequer hesitou pela aparência delas. A energia vermelha cresceu em seu braço, formando uma lâmina gigantesca que com alguns simples movimentos e manobras com o grifo, cortava sem esforço aquelas criaturas, fazendo-as gritar de dor e agonia enquanto seus corpos eram dilacerados e seus restos caiam em direção ao mar. Aqueles que ainda se aproximavam de frente, montaria disparava uma baforada gélida que os congelava instantaneamente, fazendo-os cair no mar também.
Isso é o que lhe diferenciava Agaran dos outros. Ele nasceu com um brasão mágico ancestral e único. Um dom e uma maldição. Agaran tinha o poder da Destruição, a Magia Vermelha, ou como ele próprio batizou o brasão: Caosnergia. Ele pousou em frente a uma floresta cujas árvores eram negras e tinham a folhagem roxa. A Terra era cinza e continha rachaduras onde o mana sombrio circulava, uma luz roxa.
Aquela Ilha com certeza era a fonte do Marui no mundo todo, Agaran nunca viu uma floresta inteira vivendo e se alimentando do Marui. Será que existiam animais que cresceram moldados pelo mana sombrio naquele lugar? Mas o mais importante, como a vida pode existir dessa forma? Apenas os Ashen podem absorver e sobreviver com o Marui, afinal eles foram criados para isso. Agaran acariciava o pescoço de Asueon, que estava inquieto, com medo.
— Quer voltar para runa, amigão? Foi uma longa viagem. — disse retirando algumas frutas de sua bolsa mágica e alimentando o animal.
Asueon engolia aquelas coisas rapidamente. Ele sacudia e cabeça, abria as asas e em seguida esfregava sua cabeça no peitoral do homem.
— Você ainda está com fome, eu sei. Teremos um banquete de Reis quando voltarmos e isso será apenas o começo. — disse Agaran retirando uma pedra azul da bolsa.
Ele tocava a cabeça do animal com aquilo e Asueon começava a desaparecer aos poucos, tornando-se apenas uma silhueta azul que se desfazia em poeira, sendo absorvido pela rocha. No final do processo, uma escrita aparecia na rocha, brilhando.
— Descanse. — disse Agaran guardando a pedra e agora retirando outra da cor laranja.
O processo inverso acontecia. A poeira era liberada da pedra, em seguida uma silhueta de um animal grande quatro patas era formada e por fim, a matéria ganhava vida: um lobo gigante cujas patas e cauda pegavam fogo. Ele esticava seu corpo, espreguiçando-se e em seguida abaixava para que o homem pudesse montar em suas costas, na sela.
— Vamos lá, Phien? Em direção ao Castelo. — disse Agaran passando a mão na cabeça do lobo, em seguida este começava a correr floresta adentro.
Estranhamente, eles não tiveram problemas no caminho entre as árvores. Mesmo ele sentindo a presença de criaturas próximas, nenhuma mostrou sinal de agressividade e se mantiveram numa distância segura deles, apenas observando-os. Ao final, se deparavam com um imenso portão negro, com vários cristais e raios sombrios circulando-o. Uma barreira feita de Marui envolvia todo o castelo, formando uma cúpula quase invisível acima dos gigantescos muros de uma estranha rocha escura e densa. Aquilo seria difícil, mas Agaran sabia que conseguiria passar.
Ele descia do lobo, em seguida tocava no portão de ferro ao mesmo tempo que os tendões mágicos de seu corpo iluminavam-se. O Marui começava percorrer seu corpo como eletricidade, porém o expelia de volta para o portão, em seguida rachaduras vermelhas percorriam, empurrando o mana sombrio do aço. Antes que ele pudesse terminar seu feitiço, o portão era aberto, lhe causando uma certa indignação.
Havia centenas de Cavaleiros do Vazio do lado de dentro. Cada um com uma arma diferente, porém todos eles usando armaduras roxas e fitando-o com o olhar sem vida de seu rosto feito de puro mana sombrio. Agaran deu um passo para trás por reflexo, mas em seguida percebia que nenhum dos cavaleiros mostravam intenções de lhe atacar e também abriam caminho para a alguém.
Uma mulher se aproximava, usando um vestido negro e longo que se parecia que ela estava vestindo uma sombra viva. Seus cabelos também negros enrolados de forma elegante, com algumas mechas roxas. Sua pele era parda, suas orelhas pontudas e seus olhos lilás não pareciam normais. Uma bela mulher, com uma presença esmagadora e poderosa, cujo olhar agora penetravam os olhos de Agaran, vasculhando sua alma.
— Eu estava à sua espera, Herói. — disse a mulher.
— Bruxa do Vazio. — disse Agaran batendo os punhos, em seguida duas manoplas de Acanium crescia nos punhos e seguia até o antebraço, ao mesmo tempo sua bota era encoberta também, até os joelhos.
— Guerreiros de todos os tipos vieram até mim, heróis, exércitos, mas todos foram derrotados. Ninguém conseguiu me derrotar e a cada dia eu estou cada vez mais forte. O que o faz pensar que será diferente? Por que acha que pode comigo?
— A diferença, é que eu não mais nada a perder. — disse Agaran correndo na direção da Bruxa.
Ela sorria sarcasticamente ao mesmo tempo que seu vestido se transformava numa armadura que cobria seu corpo inteiro, com um capacete de chifres que deixava apenas seus olhos a mostra. Agaran era rápido, num piscar de olhos parou de correr normalmente e de repente estava próximo da Bruxa, preparando para desferir um soco enquanto uma lâmina vermelha saia de seu antebraço.
A Bruxa defendia o soco defletindo com uma espada de uma energia que parecia ser o próprio reflexo do espaço sideral, a energia do vazio, em seguida preparava para estocar a guarda aberta de Agaran com outra espada do vazio. Ele segura a espada com a manopla esquerda, em seguida defende o corte vertical que vinha na direção de sua cabeça. Ambos estavam travados, disputando forças enquanto estavam olho a olho.
O exército de Cavaleiros do Vazio desaparecia, dando mais espaço para a batalha. Agaran usa seu poder para destruir a espada do vazio que segurava, em seguida aproveitava para atingir o elmo da Bruxa com um poderoso soco explosivo. Ela era empurrada para trás alguns metros e seu capacete estava despedaçado do lado esquerdo, revelando seu rosto.
O homem aproveitava a distância para conjurar um feitiço, espalhando sua magia pelo solo, tornando-o cheio de rachaduras vermelhas. De repente, espadas etéreas eram erguidas, centenas delas, mirando na Bruxa.
— O poder ancestral... — murmurou a mulher, retirando o capacete em pedaços, fazendo seus cabelos enrolados caírem em suas costas e ombros.
Com um grito de fúria, as espadas eram lançadas na direção dela. A bruxa junta as mãos e em seguida as abre lentamente, formando uma esfera de energia que se expandia ao arredor de seu corpo. As espadas vermelhas colidiam-se com a barreira, ficando presas ao arredor, quase atravessando-a.
Agaran criava mais espadas, mandando mais outras centenas delas na direção da mulher fazendo a barreira criar rachaduras aos poucos, quase cedendo. O homem invocava ainda mais poder em seguida canalizava tudo em seu punho direito, socando o chão a sua frente e fazendo uma cadeia de explosões que seguiam na direção da bruxa.
Um gigantesco pilar explosivo era libertado abaixo dela, empurrando sua esfera para o alto enquanto as milhares de espadas voavam na mesma direção. Agaran subia numa espada gigante para se aproximar e quando estava próximo, segurava na mesma, girava enquanto a lâmina se tornava gigantesca e atingia a barreira da mulher, dessa vez fazendo-a se quebrar como um vidro estilhaçado.
A bruxa desaparecia, desviando do golpe e das milhares de espadas e explosão. Agaran sentia a presença dela atrás de si, mas era tarde demais. Uma mão gigante feita de energia do vazio o agarrava. Ela segurava Agaran enquanto batia suas asas negras como as de um corvo e o fitava com um olhar sério e sombrio, apertando-o cada vez mais enquanto sua armadura estralava e se quebrava lentamente.
— Seu fim está próximo. — disse a bruxa enquanto canalizava uma esfera escura que era até mesmo difícil de enxergá-la, parecia que a realidade em volta estava distorcida.
— Ainda não! — disse Agaran enquanto seu corpo era tomado por rachaduras vermelhas e seu cabelo mudava de cor de castanho para um vermelho escarlate.
Liberando uma imensa explosão destrutiva de seu corpo, o vazio era banido e a bruxa perdia o controle do voo pela onda de choque.
No ar, em cima de uma espada gigante ele canalizava seu poder como nunca havia feito. Porém, antes que pudesse terminar o feitiço a bruxa aparecia próximo de si, encostando uma esfera em seu peito que o engolia ao se tornar gigantesca anomalia.
Dentro daquela coisa, era um breu total. Nada chegava ali, luz, som, ar. Não havia nada lá, apenas o vácuo, um vazio de escuridão e Agaran logo estaria fazendo parte disso. Sua armadura de Acanium estilhaçada começava a se desintegrar, em seguida seu manto e por último, sua pele começava a sumir.
— Esse é o destino daqueles que cruzam meu caminho... — disse a voz da Bruxa ecoando. — Todos são devorados pelo vazio, nada pode detê-lo, nem mesmo uma magia ancestral...
— Não...— pensou Agaran, não aceitando terminar daquele jeito, ainda não tinha liberado todo seu potencial, ele ainda podia fazer mais, não precisava mais se segurar, aquele seria seu ato para libertar aquele mundo cruel, onde ninguém mais teria que passar pelo o que passou.
— O Vazio é o início e o fim de tudo. Ele surgiu antes da Magia Ancestral, antes mesmo do universo. — disse a bruxa.
Agaran perdeu tudo por causa de sua magia, por ter sido dominado pelo Marui. O que muitos consideram um dom, uma dádiva, para ele era uma maldição. Mesmo tentando se redimir, mesmo tentando fazer coisas boas para compensar o que fizera no passado, no fim ele destruía tudo, até mesmo as pessoas inocentes. Matar a bruxa era a única forma de fazer algo realmente bom para o mundo, aquela era sua redenção, ele não podia falhar.
Com um olhar determinado, mesmo com o corpo extremamente machucado, com várias feridas e alguns locais com o esqueleto a mostra, ele ficava de pé, aumentando a aura envolta de si, impedindo o vazio de lhe engolir.
— Essa é minha redenção...! — disse enquanto seu corpo emanava ainda mais poder até que sua pele e roupas eram substituídos pela densa magia vermelha, tornando-se puro poder. A esfera que lhe envolvia era explodida e Agaran permanecia no ar, flutuando.
— Então você não veio até aqui em busca de mais glória... — disse a bruxa, fitando aquele ser de puro poder.
— Eu quero fazer algo bom antes de partir para Aurislium, algo realmente bom, e só então estarei em paz. Eu tirei a vida de minha família por causa dessa magia, por não ter adquirido o equilíbrio. Mas, esta mesma magia que considero uma maldição, será a chave para libertar o mundo. — disse Agaran, com sua voz tão grave que estava quase irreconhecível.
— Você caminha nas sombras, mas não foi consumido por ela. Eu vi tudo dentro de seu coração, de sua alma. Naquele dia, quando tentou proteger sua família e acabou os matando, você poderia ter se revoltado, poderia ter se tornando um monstro, mas não... Você conseguiu manter sua essência. Você adquiriu equilíbrio, aceitando a escuridão dentro de si.
— O que quer dizer? Que eu deveria ter me entregado à loucura e destruído tudo em meu caminho pela raiva? Ter me entregado ao Marui como você fez?! O Equilíbrio é a chave de tudo. — disse Agaran disparando uma gigantesca rajada de energia.
A bruxa arranhava o ar a sua frente com a mão direita e de repente uma fenda dimensional era criada. Toda a energia de Agaran era sugada por aquela fenda, que aumentava de tamanho cada vez mais.
— Eu nunca me entreguei ao Marui, Agaran. — disse ela.
Agaran cessava sua rajada de energia e partia para cima da bruxa num piscar de olhos, atingindo-a em cheio e destruindo sua armadura em pedaços, em seguida avançava com uma rajada de socos tão velozes e potentes que a única coisa que podia ser vista eram explosões.
— Morra! — disse acertando um chute no rosto dela, arremessando-a para longe.
Ele voava novamente para continuar os golpes, porém dessa vez a bruxa voltava para sua direção, segurando seus punhos, dando apenas um soco em seu estômago que fazia todo seu poder desaparecer por alguns segundos, em seguida reacendia. Agaran tentava um contra ataque, porém a Bruxa segura os punhos dele, em seguida o arremessa para o solo tanta força que criava uma imensa explosão ao colidir-se. Como se um meteoro tivesse caído, destruindo tudo em volta dele. Quando estava prestes a se levantar, a Bruxa pisa em seu peito, prensando-o no chão.
— Você não pode me derrotar, nem mesmo nessa forma de Arconte, puro poder e equilíbrio, nada pode me derrotar enquanto eu estiver nesta Ilha... — ela drenava todo o poder que envolvia Agaran, criando uma pequena esfera em sua mão e em seguida desaparecia.
Agaran levantava com dificuldade, com apenas alguns trapos de roupa e suas manoplas, botas de Arcanium inteiras e sem ferimento algum agora, aquela energia o havia curado de alguma forma. Ele olhava o alto e era impossível não ficar boquiaberto. Estava tudo escuro e a Bruxa segurava na mão esquerda, uma esfera gigantesca de Caosnegia, tão grande, densa e destrutiva que poderia destruir um continente inteiro se fosse liberada.
Na outra mão, uma esfera negra como a noite, como se estivesse olhando para o próprio espaço sideral, aquilo era pura escuridão, puro vazio, uma estrela negra que devoraria tudo se fosse liberada.
Era o fim. Agaran estava sem poderes, estava exausto, estava em seu limite. A Bruxa, estava brincando com ele o tempo todo. Ele nunca teve a menor chance contra ela. Seja lá o que aquela mulher fosse, talvez pudesse destruir a própria Deusa que criou aquele planeta se quisesse.
O Homem se ajoelhou, de cabeça erguida e fechando os olhos, aceitando a derrota a morte iminente. A única coisa que passava em sua mente agora era que havia falhado. Não se juntaria a sua família, provavelmente morreria no frio eterno de Sohora, o mundo inferior. Esse era seu destino, ele já podia sentir o frio queimando sua pele e quebrando-o. Estava tudo acabado.
—Agaran. — disse a Bruxa, se aproximando dele, dessa vez usando seu vestido de sombras novamente.
Ele olhava para ela, mas não respondia.
— Venha comigo. — disse ela estendendo a mão para o homem.
— Por quanto tempo continuará me humilhando? Me mate de uma vez. — disse furioso, olhando para os olhos cheios de compaixão da Bruxa, deixando-o confuso.
— Sua hora ainda não chegou. — disse ela tocando a cabeça de Agaran.
De repente, algo atingia sua mente como um choque. Milhões de imagens, sons, cheiros e sensação eram recebidos por ele. Um caos, porém... Aos poucos as coisas ficavam mais nítidas e agora, tudo fazia sentido.
— Você... É uma remanescente... De um universo antigo, antes desse. — disse Agaran, passando a mão na sua cabeça que estava latejando. — Atrídia lhe achou. Para que ela não exterminasse todos aqueles iguais a você, você prometeu cuidar do Marui.
— Isso foi a milênios atrás, quando eu era Zarin’a. Todos aqueles iguais a mim já partiram deste mundo, porém por causa da influência do Marui eu fui mudando minha forma até se parecer com aqueles que povoam este planeta.
— Por que Atrídia não destruiu o Marui? Por que ela deixou que o mana sombrio se espalhasse pelo planeta?
— Se ela destruísse o Marui, destruiria tudo no processo. O universo é composto pelo bem e mal em equilíbrio constante. Se ela destruir o mal, o Marui, não existirá vida, não existirá mais nada.
— Então... Nós lutamos uma guerra sem fim, onde nunca poderemos vencer.
— Não exatamente. Atrídia se foi, mas seu poder está escondido nos cantos do mundo. As Essências juntas dão o poder ilimitado e com elas, podemos reconstruir este mundo, criar um novo onde não existirá maldade, um sistema da vida onde o mal não existirá.
— “Podemos?” O que dizer?
— Eu não posso sair desta Ilha. Eu sou a Guardiã deste lugar. Ao mesmo tempo que posso apenas viver aqui, eu também devo proteger o mundo do grande mal que adormece. — Ela toca na cabeça de Agaran novamente, lhe entregando memórias e sabedoria.
— Entendo... O mal ganhou vida, Atrídia descobriu sua fonte, mas não pode matá-lo. Se as pessoas souberam o que tem aí, eles o temerão e a “coisa” ficará mais forte.
— Eu carrego o fardo de ser o grande mal deste mundo, então as pessoas não alimentam o que adormece aqui dentro com seu ódio, medo e tudo que há de ruim, ao contrário, elas me alimentam e assim posso proteger o mundo.
— Como consegue? Você carrega o ódio de todos neste mundo. Como ainda consegue se manter sã? Como?
— Antigamente era fácil, minha espécie não tinha emoções, eu podia suportar com tranquilidade todo o poder e o ódio, toda a maldade não fazia diferença para mim. Mas agora... — ela cerrava os punhos. — Estou cada vez mais conectada com este mundo. Eu sinto raiva, medo, tristeza... — disse a bruxa com os olhos cheios de lágrimas. — Mas é meu dever, eu não posso falhar, pelo bem de todos.
Agaran não conseguiu esconder suas emoções naquele momento, ele ficou tocado pela compaixão e determinação da bruxa. Ela era a vilã, ela era o mal do mundo, todos a odiavam, mas na verdade ela está lutando a todo momento para o bem de todos.
— O que eu posso fazer... Isso é injusto...
De repente, ambos estavam em outro lugar. Uma sala cuja a magia estava impregnada no ar, paredes, em tudo. Havia milhares de runas das quais Agaran nunca vira e que não fazia ideia do que fazia. Ele ficava de pé, analisando a sala em seguida voltava seu olhar para a mulher na frente de uma porta, na qual não conseguia se aproximar pelo tanto de miasma e mana sombrio que emanava, porém a mulher tocava a porta, reforçando uma runa quase apagada e murmurando algo baixo.
— É aqui? Neste lugar está selado o grande mal?
— Sim. Esta porta é onde está o que restou do antigo universo. E é deste lugar que se esconde o Marui encarnado.
— Entendo... — disse Agaran cerrando os punhos, sem notar a aproximação da mulher. Ela esticava a mão para ele, em seguida suas roupas voltavam intactas.
— Se eu recusar te ajudar, o que fará comigo? — perguntou fitando o olhar triste da bruxa.
— Irei apagar sua memória, você estará livre, não se lembrará de nada do que viu, apenas que foi derrotado por mim.
— É isso que você fez com todos que vieram aqui?
— Não. Você é único que veio até aqui que pode suportar viver com o Marui dentro de si, carregando o mal, mantendo-se em equilíbrio constante e não se corromper. Você é o único que deixei aproximar deste lugar, eu só precisava comprovar se era tão forte que os rumores diziam.
— Como ouviu falar de mim?
— Se eu quiser, posso ver o mundo através do Marui.
Talvez aquela fosse a oportunidade que Agaran estivera procurando em toda sua vida. Ele viajou pelo mundo inteiro, tentando fazer a diferença, mas sempre errava em algo, sempre acabava ferindo os outros, matando pessoas inocentes no processo. Mas agora, ele poderia realmente fazer a diferença, ele poderia consertar o mundo, poderia criar uma vida nova a todos, um lugar para que ninguém sofresse mais, nunca mais. Muitas pessoas irão morrer, muito sangue será derramado, mas... Será para um bem maior.
Ele soltava suas manoplas e suas botas de arcanium, dando um passo para a Bruxa e em seguida se curvava de joelhos.
— A partir de hoje, serei sua espada. Dedicarei minha vida ao bem maior, assim como você.
— Não, levante-se. — disse a bruxa, enquanto ele se levantava, sem entender.
— Faremos isso juntos, eu não preciso de um servo, preciso de um amigo. — disse ela estendendo a mão e sorrindo.
Agaran não soube explicar o que sentia naquele momento. Uma fagulha acendia em seu peito, tão leve e discreta que não sabia bem o que era, mas o havia deixado feliz. O sorriso e o olhar da bruxa, eram... Como uma luz na escuridão.
— Tudo bem. — disse ele apertando a mão dela com firmeza. — Qual é seu nome? — A bruxa soltou a mão dele, dessa vez entristecendo o sorriso, desviando o olhar.
— Eu já fui Zarin’a, a uma Deusa. Mas atualmente, não sou mais. Eu não tenho mais nome, nem uma identidade definida.
Agaran não sabia como reagir aquilo, não sabia como deveria agir na presença dela. Eles eram “amigos” agora, mas... Eles acabaram de se conhecer, ainda não eram exatamente amigos.
— Venha, vou te mostrar o castelo. — disse ela tomando a dianteira.
—--***---
Alguns dias depois, Agaran já havia se acomodado em Nothzio, mas trocara poucas palavras com a Bruxa, mesmo ela sendo sempre atenciosa perguntando se ele precisava de algo ou se estava se sentindo bem. Ele decidiu então fazer o contrário, procurar por ela, saber o que ela faz, antes dela vir lhe procurar.
Agaran passou por salões vazios do castelo, havia muitos quartos, todos arrumados e espaçosos, prontos para receber hóspedes se fosse preciso. Talvez... Naquele lugar moravam os semelhantes à bruxa, aqueles quartos talvez fossem deles.
O lugar não era tão sombrio e macabro quanto o lado de fora. Pelo contrário, tinha uma decoração alegre e bonita, cores fortes, runas, flores e vários quadros com pinturas abstratas e livros. Por ele passava havia livros em estantes pelos corredores.
Ao ouvir uma música, ele a seguia até encontrar sua fonte. A bruxa estava tocando um órgão, uma música calma e relaxante de se ouvir. Aquele lugar era grande, era um salão de festas talvez, mas parecia mais um deposito/biblioteca. Havia vários livros espalhados por várias estantes.
— Você está bem? — perguntou a mulher, usando um vestido lilás simples.
— Sim... — ao dizer isso, ela sorria e voltava a tocar.
Agaran encostava na parede, ouvindo a música, observando a Bruxa enquanto ela tocava. No início, a melodia era alegre a calma, porém conforme prosseguia ela começava a ficar triste e mais alta, em seguida, no final terminava apenas triste e lenta.
— A canção é bonita. É sobre uma tragédia?
— Sim. — respondeu a mulher, simplesmente.
— Seus quadros também são bonitos, mas tristes. A maioria retrata a solidão, medo e raiva.
— Através da arte eu consigo me expressar. É uma das coisas mais belas criadas pelas pessoas. — disse a bruxa, enquanto Agaran se aproximava do órgão.
Ele ficava ao lado dela, tocando algumas teclas aleatórias.
— Eu sei tocar piano, mas não faço ideia de como se essa coisa, tem tantas teclas, tantos acordes.
— Se quiser, posso lhe ensinar.
Agaran sorria apenas ao ver a os olhos dela empolgados.
— Sim, eu adoraria.
E então, a bruxa passou a ensinar Agaran todas as manhãs. Ele pegou o jeito rapidamente, então dar aulas não era mais preciso, porém isso os aproximou bastante, se tornaram verdadeiros amigos e ao mesmo tempo, aquela fagulha que havia acendido no peito de Agaran, sem que notasse, havia se transformado numa grande labareda.
Eles estavam dançando. A agaran havia encantando os instrumentos para que lhe ensinar a valsa para a bruxa. Ela estava muito feliz, adorava dançar e fazia milênios que não dançava com alguém antes.
— Sabe, não quer mais se chamar de Zarin’a. Você não tem um nome agora, certo? — perguntou no ouvido dela, já que a mesma estava deitada sobre seu peito enquanto balançavam de um lado para o outro naquela melodia.
— Não...
— E se eu te der um novo nome, representando o que você é agora?
— Me dar um nome? E qual seria? — perguntou a bruxa fitando-o da mesma forma que sempre fazia, olhando dentro de sua alma, aumentando ainda mais a chama de Agaran.
— Luthine.
— Luthine? O que significa?
— No dialeto dos Kalfar, significa “Noite estrelada”.
Ela sorria, assentindo.
— Que meigo... Eu adorei.
— Luthine... — disse Agaran, acariciando o rosto da mulher, retirando as mexas negras e onduladas que desciam no rosto dela. — Eu te amo.
Luthine se afastava dele, segurando ambas as mãos na região de seu coração, ofegante.
— O que... – Luthine ficava sem reação. Já ouviu aquela palavra antes, mas nunca entendeu seu significado . -O que isso significa?
— Significa que você é meu mundo, minha felicidade, é tudo para mim.
Luthine há tempos sentia-se diferente perto de Agaran, mas... Agora finalmente tudo fazia sentido. Era apenas Agaran, apenas aquela pessoa que a fazia se sentir da forma. Um sentimento que sempre ouvia falar, mas não fazia ideia do que era.
— Você é meu mundo também, Agaran. Você é minha felicidade. — disse Luthine.
Agaran se aproximava, segurando o rosto dela com ambas as mãos e beijando-a. Ele segurava na cintura dela, trazendo-a para mais perto de si enquanto os beijos eram cada vez mais longos e quentes. Ela o puxava para trás, na direção do piano próximo.
Agaran usava seu encantamento para abaixar a tampa do piano e levantava Luthine, sentando-a em cima dele enquanto beijava desde sua orelha até o pescoço. Luthine não sabia exatamente o que estava fazendo, estava agindo por instinto, ela se sentia cada vez mais quente por dentro e de alguma forma queria se aproximar mais de Agaran, então se deixou na maior parte do tempo ser guiada por ele.
Ele retirava sua camiseta, em seguida Luthine acariciava seu corpo definido e com cicatrizes. Ela então beijava seu pescoço, em seguida dando uma leve mordida em sua orelha, arrancando um suspiro doce que a excitava e a fazia querer ouvir mais aqueles sons dele, mas antes que pudesse fazer algo mais, Agaran fazia o mesmo consigo...
O homem mordia de leve a longa orelha pontuda de Luthine, em seguida ia beijando o pescoço dela ao mesmo tempo que subia a mão até seu busto. Os beijos iam de encontro com suas mãos e ao chegar onde elas tocavam, tornava-se extremamente mais prazeroso para ela ao sentir o toque dos lábios e de sua língua naquela região sensível, porém o que lhe fez sentir ainda mais prazer foi o toque suave num ponto entre suas pernas... Agaran começava a descer mais os beijos e Luthine não via a hora dele finalmente tocar ali com seus lábios, era quase uma tortura, porém quando finalmente chegou, seu corpo estremeceu.
Agaran ficava cada vez mais excitado ao saber que estava fazendo Luthine se sentir tão bem e continuaria ali até que ela mandasse parar ou quando ela "chegasse lá". Ou os dois. Pela reação de Luthine, ela havia chegado lá. Seu corpo ficou tremulo por um tempo e sua respiração bagunçada, ofegante ao mesmo tempo que ela acabava o segurando com as pernas e tentando segurar o próprio corpo com suas mãos.
Mesmo após o orgasmo ela ainda não estava satisfeita, ainda queria mais e também queria agradá-lo de alguma forma. Luthine se levantava e lentamente e empurrava Agaran para o tapete do piano, com ambos mantendo os olhares fixos no outro, como se estivesse se comunicando apenas pelo pensamento. Ele se sentava e em seguida ela montava em cima dele, envolvendo os braços em volta de seu pescoço, enquanto o homem envolvia os braços pela cintura, apoiando as mãos na bunda dela, ajudando-a e se movimentar de cima para baixo junto com os movimentos de seu próprio quadril ao mesmo tempo que trocavam beijos lentos e molhados, que aos poucos tornavam mais rápidos e fogosos, junto com o movimento de seus corpos, onde no fim acabavam chegando juntos a um clímax.
Uma luz na escuridão. Era o que viam nos olhos do outro agora. Um Amor... Puro amor, sincero e intenso. Desejando apenas um ao outro, conectados com seus corpos, com suas mentes e com suas almas. Eles eram um só naquele momento, um único amor, uma única luz em meio a toda aquela escuridão que cada vez mais tomava conta do lugar, mas isso não importava, ambos precisavam apenas um do outro, para sempre e até o fim.
— Eu te amo... — disseram ambos ao mesmo tempo.
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Anos depois, Luthine descobriu a localização de uma das Essências, uma das relíquias antigas que juntas podem mudar o mundo, elas finalmente foram despertadas. Não seria uma tarefa fácil, afinal... As Essências iriam despertar apenas quando o mundo estivesse em crise e de fato estava. Uma Guerra entre as várias raças eclodiu e a única salvação eram os escolhidos de uma profecia de Atrídia, os “Ascendentes”.
Aqueles com a marca divina deveriam se unir, procurar as essências e acabar com a guerra do planeta antes que ele fosse destruído, antes que o Marui consuma tudo. Agaran seria o inimigo deles, afinal... Ele juntaria as Essências, mas iria destruir o mundo e recriá-lo, junto com Luthine.
— Agaran... Meu amor. — disse Luthine, chamando a atenção do homem que seguia na direção de Asueon.
— Sim? O que houve? — disse voltando na direção dela, beijando sua testa. — Não se preocupe. Eu voltarei para você, Noite Estrelada. Os Ascendentes não irão nos impedir. — Ele a beijava pela última vez, em seguida caminhava em direção Asueon.
Suas manoplas e botas de Arcanium apareciam, em seguida tomavam uma coloração negra, junto com o resto da armadura que formava em seu corpo. Ao montar no grifo, uma armadura negra era encoberta em algumas partes do animal e por fim, levantava voo.
Um capacete negro com chifres encobria seu rosto ao mesmo tempo que Cavaleiros do Vazio seguiam pelos céus com cavalos mortos-vivos, seguindo a liderança de seu General.
— Você é Agaran Vangloise, o herói lendário, meu mundo, minha felicidade, mas para o outros... Você será Darkar, A Calamidade, o Emissário do Vazio. — disse Luthine.
Ela o observava desaparecer em meio a escuridão do Miasma da ilha, caminhando entre as sombras, porém mantendo sua luz intacta dentro de si. O amor de sua vida, seu amigo e seu parceiro, juntos em uma missão maligna, por um bem maior.
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