Notas iniciais

Muitas lendas e contos, mesmo que antigos, são compostos a partir de outras histórias ainda mais remotas e misteriosas. A verdade por trás delas, no final das contas, se torna aos poucos tão opaca quanto um vidro que se suja de lama.
E de que serve uma verdade se está aprisionada, contida por trás de uma muralha? Afinal, no fundo tudo o que nos cerca é uma grande mentira, não? As paredes ao redor sempre guardam segredos dispostos a cair sobre nossas costas quando menos esperamos. Crimes cometidos, dores reprimidas, amores escondidos...
A verdade, no fim, é como fogo. Quando o controlamos podemos iluminar e aquecer, mas basta uma centelha fugir do controle para tudo então fugir do controle. E encravado em nossas mentes está a constante busca pela veracidade, mas quem é que sabe se não é melhor viver na ignorância? Ela causa menos sofrimento, ela protege da dor.
Estamos em devotada luta contra a mentira, mas o que faríamos quando a vencêssemos? Poderíamos suportar os fatos, tenham eles o peso que for? A procura pela verdade, no fim, não passa de garimpo: uma busca por um pequeno flagelo de ouro, sabendo que edificaremos nossas vidas com pedras. Elas são mais estáveis, afinal.
Mas uma lenda não é feita de pedras. Tampouco de ouro. Uma lenda surge delas até que se torna algo maior e ainda mais valioso. Talvez o que vocês leiam agora não seja precioso e puro como o ouro, mas tem seus alicerces lapidados na pedra, incrustados com ouro. Talvez não seja a lenda mais pura e verdadeira, mas afinal, qual delas é?
E aqui começa a lenda das Bruxas...
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