A Lenda das Bruxas Vol I - O Início da Lenda
5 Capitulo 4
Notas iniciais

Quase todos os alunos estavam no pátio. Apinhados, acotovelando-se por espaço. A conversa fervia, mas só aos sussurros. Ninguém sabia quem morreu, mas os boatos apontam para Amy Lang. Os professores mandaram todo mundo para casa, mas estava evidente que ninguém ia embora antes que retirassem o corpo.
O cadáver. Aisha sentiu um calafrio. Ela e Sam estavam no portão principal. Ele atrás dela, envolvendo-a nos braços.
— Prometa que nunca acontecerá nada com você – Pediu ela, baixinho.
— Prometo – Respondeu ele, e a beijou na bochecha.
Às vezes Aisha ainda custava acreditar que eles estavam juntos. Sam sempre foi o garoto mais popular do colégio. Aquele cujo nome as meninas escreviam várias vezes na margem do caderno. Aisha já foi uma dessas meninas, mas nunca achou que ele fosse nota-la. Ela nunca se destacou, nunca foi especial em nada. Era como se a certeza de que nunca conseguiria nada com Sam lhe passasse certa segurança. Astro do futebol local. Um ano mais velho. Bonito como um ator de Hollywood e quase tão inalcançável quanto.
Mas então, no baile do oitavo ano, tudo mudou. Eles se beijaram. Uma semana depois, na noite seguinte ao fim do semestre, beijaram-se de novo. Aisha tinha tomado duas garrafas de cerveja e estava bêbada o suficiente para ter a coragem para perguntar:
— Nós estamos namorando?
— Claro que sim! – Respondeu ele, com aquele sorriso tão lindo – Claro que estamos!
Durante o verão, a vida dela mudou totalmente. Agora todos sabiam quem era Aisha. Mas, acima de tudo, ela mudou. Tornou-se tão dependente de Sam que chegava a se assustar. Ele era tão lindo. Não havia como cansar de olhar para ele, nem dos beijos.
O que a deixava mais aflita era ter se tornado “alguém”. Era como se seu tapete pudesse ser puxado a qualquer momento.
Um suspiro coletivo atravessou a multidão de estudantes quando as portas do colégio se abriram e os paramédicos surgiram levando uma maca coberta. Enquanto passavam rumo à ambulância, a multidão se fechou atrás deles. Alunos esticavam o pescoço tentando ver de relance quem estava embaixo do lençol. Os paramédicos ergueram a maca, a colocaram dentro da ambulância e fecharam a porta. Então seguiram com toda a calma até a frente do veiculo e entraram. As sirenes gemeram. Deve ser para tirar as pessoas do caminho, pensou Aisha. Não havia por que ter pressa quando se carregava um corpo.
— É ela – Disse uma voz ofegante.
Beverly Helstrom estava acompanhada de suas sombras, Aria e Felícia. Juntas elas formavam uma versão louca de Huguinho, Zezinho e Luisinho.
— É Amy Lang – Continuou Beverly.
— Como você sabe? – Perguntou Sam.
— Nós ouvimos os professores conversando – Respondeu Aria.
Beverly lançou um olhar assassino a Aria, claramente chateada por ter sido interrompida. Aquele era o momento dela. Beverly olhou para Sam com olhos de cachorrinho pidão.
— Triste, não é?
Antes de Aisha e Sam começarem a namorar, Beverly a tratava como se ela não existisse. No dia seguinte ao fim das aulas, ela ligou para Aisha e a convidou para nadar no Lago Danson. Como se fossem amigas por toda uma vida. Embora Aisha percebesse o absurdo da situação, não ousou recuar, porque Beverly a deixava apavorada.
— Não entendo como alguém pode se matar – Murmurou Felícia.
Beverly concordou.
— É tão egoísta. Quer dizer, imagine como os pais dela estão.
— Ela devia estar com depressão – Disse Aisha, sentindo uma vontade enorme de se socar por parecer tão banal.
— É óbvio que ela estava deprimida – Respondeu Beverly – Mas todo mundo tem problemas. Não precisa se matar. Se todo mundo sentisse tanta pena de si mesmo, não sobraria ninguém.
— Eu acho que ela era lésbica – Declarou Felícia.
— É, eu li que as lésbicas são de se suicidar – Acrescentou Aria.
— Pelo amor de Deus, ela estava sofrendo bullying – Interrompeu Sam.
Beverly fixou os olhos nos dele e lança seu sorriso mais encantador.
— Eu sei, Sammy...
Aisha se esforçou para não fazer cara feia “Sammy” era um apelido que Beverly inventou. Mais ninguém usava.
— Mas, é sério – Continuou ela –, ninguém obrigava Amy a se vestir daquele jeito, nem a usar aquela maquiagem gótica para vir ao colégio – Aria e Felícia concordaram e Beverly prosseguiu, incentivada pelo apoio das sombras – Quer dizer, ela podia ter se esforçado mais para se enturmar, para parecer mais normal. Não estou dizendo que o bullying era culpa dela, mas ela também não fez nada para evitar.
Aisha encarou Beverly, que mantinha o olho em Sam como se esperasse uma reação.
— Nossa, Beverly – Disse ele – Você nunca se cansa de ser tão vadia? Tire uma folga de vez em quando.
Os cílios de Beverly tremeram. Então ela soltou uma risada forçada.
— Meus Deus, como você é engraçado, Sammy – Ela se virou para Aria e Felícia, que se encaravam, sem saber como reagir – Os homens têm um senso de humor tão mordaz.
Aisha agarrou a mão de Sam. Estava orgulhosa, mas se mordendo por dentro por ela mesma não ter respondido.
¤¤¤
Skye e Effy estavam na sala da diretora, sentadas no sofá verde-escuro e puído. A diretora estava na sala ao lado, onde costumava ficar seu assistente, e conversava com um policial fardado.
Effy olhava o celular como se estivesse esperando uma ligação. Skye tentava não olhar para ela. A postura de Effy já dizia em alto e bom som que ela não queria ser incomodada.
A sala era incrivelmente pequena. Havia uma prateleira cheia de pastas coloridas. Na janela, vasinhos de plantas pareciam esquecidos. As cortinas em xadrez branco e verde estavam manchadas, e as janelas precisavam ser lavadas. Os papeis na mesa estavam dispostos em pilhas bem organizadas, próximo a um computador velho. A cadeira era feia, mas com certeza ergonômica. O único objeto que se destacava era uma luminária com cúpula de mosaico de libélula.
Era a primeira vez que Skye entrava na sala da diretora. As pessoas só iam ali quando se metiam em confusão ou quando algo terrível acontecia.
Quando Skye estava no ensino fundamental, ela costumava sonhar acordada com algum acontecimento dramático, como a escola pegando fogo ou todo mundo virando refém de algum ladrão de banco fugindo da policia. Quanto mais velha ficava, mais percebia como era infantil. Mas só agora ela percebeu o quão fora da realidade eram suas fantasias. As coisas horríveis que aconteciam na vida real não são nada parecidas com as coisas que são horríveis nos filmes. Não havia emoção. Havia apenas medo, horror e nojo. E pior de tudo era que não dava para desligar. Skye já sabia que a imagem de Amy ia assombrá-la pelo resto da vida.
Se pelo menos eu tivesse fechado os olhos, pensou ela.
— Eu já tinha visto uma pessoa morta – Declarou Effy de repente.
Seus olhos estavam fixos no celular, que ela girava entres os dedos sujos de tinta. Cada unha estava impecavelmente pintada de preto.
— Quem? – Perguntou Skye.
— Não sei o nome dela. Era uma velha. Uma bêbada. Teve um ataque cardíaco e morreu. Assim, de repente. Acho que tinha uns cinco anos.
Skye não sabia o que dizer. Era algo muito distante de sua realidade.
— Não dá para esquecer uma coisa dessas – Balbuciou Effy.
Sua maquiagem estava horrível. Skye percebeu que ela mesma não chorou. Effy devia acha-la a pessoa mais insensível do mundo. Mas Effy simplesmente a encarava.
— Nós estudamos juntas no sétimo ano, não foi?
Skye fez que sim com a cabeça.
— Como você se chama mesmo, Skretch?
— Skye.
Effy não faz questão de se apresentar. Ou ela nem se dava o trabalho ou achava óbvio que Skye já a conhecesse. E como é que não ia conhecer? Todo mundo sempre falava de Effy Wall.
— Meninas – Surgiu a voz da diretora, fazendo Skye erguer o olhar. As feições harmoniosas de Regina Rivers não transmitiam nenhum sinal de emoção – A policia que falar com vocês.
Skye olhava para cima de relance e ficou chocada ao perceber o ódio no olhar de Effy para a senhora Rivers.
A diretora também parecia ter notado, pois se interrompeu e falou:
— Você era amiga de Amy, não era?
Effy a encarou em silêncio até que a diretora se virou e sussurrou para o policial que entrasse na sala.
— Pode ficar – Disse ele, e elas se sentam.
O policial, que Skye reconhece como o padrasto de Vanessa Lopez, não consegue achar uma posição confortável na cadeira de plástico. Por fim, acabou cruzando uma perna sobre a outra, com o pé apoiado no joelho. Não era uma posição muito digna.
— Meu nome é Nick Carson. Primeiro preciso anotar os nomes de vocês duas.
Ele puxou um bloquinho e um lápis. Skye notou a ponta mastigada. Um policial que mordia o lápis. Um roedor fardado.
— Skye Madsen.
— Entendido. Você eu já conheço – Disse ele para Effy.
A intensão dele poderia ter sido amigável, mas não pareceu. Skye ficou tensa ao ver Effy apertar o celular até os nós dos seus dedos ficarem brancos.
Não diga nada, pensou ela. Por favor, Effy, não faça nenhuma bobagem. Só vai piorar a situação.
— Entendo que essa situação seja horrível para vocês – Disse Nick, que voltava ao papel de policial simpático –, e dispomos de acompanhamento psicológico.
— Estamos trazendo uma equipe de psicológicos – Acrescentou a diretora – Vocês podem falar com um deles imediatamente.
— Eu já tenho psicólogo – Respondeu Effy.
— Entendi. Que bom – Disse o policial – Você conhecia Amy?
— Não – Balbuciou Skye.
Nick olhava para Effy. Era óbvio que ele estava tentando disfarçar o desdém que sentia pela menina de cabelos lisos e negros com o delinear falhado.
— Mas vocês duas eram amigas? – Perguntou ele.
— Sim – Respondeu Effy, abaixando os olhos.
— Ouvi dizer que Amy tinha alguns problemas.
Um aceno positivo com a cabeça é a única resposta.
— E que ela já havia tentado cometer suicídio.
— Uma vez – Disse Effy, em um tom que é pouco mais que um sussurro.
— Entendo – Disse o policial – Então acho que não temos mais nada a conversar. É claro que o legista vai examiná-la, mas parece que a situação é bastante óbvia.
Havia algo de tão condescendente na voz do policial que Skye teve vontade de gritar. Se Amy foi assassinada e o assassino armou a cena para parecer suicídio, a policia nem iria notar. Porque as coisas eram assim naquela cidade idiota. Você só era o que as pessoas achavam que você era.
— Entendo – Repetiu o policial, e levantou-se – Vocês tem como ir para casa?
Skye não havia pensado nisso.
— Vou ligar para minha mãe – Disse ela.
— E você? – Perguntou a diretora para Effy.
— Eu me viro.
Mas a diretora ainda não encerrara a conversa. Skye percebeu que ela está procurando as palavras certas. Mesmo antes de a diretora começar, Skye sabia que ela iria falar sobre Amy, e que seria um equivoco terrível.
— Effy – Começou a diretora –, sinto muito pelo que aconteceu com Amy. Ele parecia ser uma pessoa muito especial.
Quando Effy respondeu, sua voz saiu rouca e nervosa:
— E por que você não falou isso para ela?
A diretora travou. A boca ficou semiaberta, mas nada saiu.
— Que tal a gente manter a calma, hein? – Sugeriu o policial, olhando para a diretora e demonstrando estar a postos para protegê-la.
Effy se levantou e saiu da sala sem dizer nada.
Skye olhou para a diretora sem saber o que fazer.
— Você pode ir – Disse a Senhora Rivers.
¤¤¤
Skye voltou à sala de aula para buscar a mochila. As carteiras estavam todas arrumadas. Partículas de poeira rodopiavam na luz que se projetava das janelas. Ela foi até sua carteira, mas a mochila não estava lá.
— Skye.
Ela se virou.
Mikael estava à porta, com a mochila.
— Guardei para você.
— Obrigada.
Quando ele estendeu a mochila, as mãos dos dois roçaram, e ela quase deixa a mochila cair no chão. Seus braços estavam fracos de novo.
Como é que eu consigo ficar assim depois de uma situação tão horrível?, pensou Skye.
— Como você está? – Perguntou Mikael em tom delicado.
— Não sei – Respondeu Skye, surpresa pela sinceridade da resposta dada sem esforço.
Ele concordou com a cabeça, em tom compreensivo.
— Quando eu tinha a sua idade, uma pessoa próxima de mim cometeu suicídio.
Sua voz estava calma, mas ele cerra o punho.
— Há dores que nunca vão embora.
— Eu não conhecia Amy – Disse Skye – Mas Effy conhecia.
De repente ela sentiu a mão de Mikael em seu ombro. O calor atravessou o tecido da camiseta.
— Se quiser conversar – Sugeriu ele –, você sabe onde me encontrar.
— Certo.
Ela não ousou dizer mais nada. Não sabia se ia conseguir segurar a voz.
— Sinto muito mesmo. Ninguém deveria ver o que você viu. Se cuide, hein? – Declarou ele, e apertou o ombro dela antes de tirar a mão.
De repente Skye percebeu que estava tremendo. O pânico assumiu o controle, enfiando as garras em seu peito, dificultando a respiração.
— Eu preciso ir – Disse ela – Obrigada.
Skye saiu com pressa da sala de aula e desceu as escadas. A luz do sol a cegou quando ela abriu as portas que davam para o pátio. Effy estava sentada com as pernas cruzadas, fumando, perto da entrada.
O coração de Skye bateu forte, e ela estava tão sem fôlego que teve dificuldade para falar. Olhou para a rua e enxergou o carro vermelho da mãe. Conseguia ver o perfil dela através do vidro.
— Quer carona? – Conseguiu dizer Skye finalmente.
— Não.
— Tem certeza?
— Por que você está correndo disso?
— Eu... Eu não sei.
Effy jogou o cigarro fora.
— Ela não se matou – Disse Effy.
— Como assim?
— Eu falei com ela pouco antes de acontecer. Ela ia passar lá em casa na mesma noite. Ela queria conversar... – Ela parou – A gente tinha brigado. Mas não... Ela queria me contar alguma coisa... Ela não ia simplesmente... – Effy não terminou a frase.
Ela não aceita que a melhor amiga a tenha abandonado, pensou Skye.
— Porque você não disse nada para a polícia.
— A policia.
Effy bufou. De repente seu olhar ficou pesado, mais forte.
— É, você não devia contar para eles? – Continuou Skye.
— Você acha que entende alguma coisa, é? Sempre teve um lar feliz com sua família feliz.
Skye percebeu o olhar dela. Ela sentiu vergonha, porque é verdade. Ao mesmo tempo, pensou que a verdade de Effy talvez não fosse a única verdade. Se Skye só passou pelo lado bom da vida, Effy só passou pelo ruim. Um é mais verdadeiro que o outro?
Effy sorriu com desprezo.
— Não vai correr para a mamãe?
Skye sentiu um acesso repentino de raiva.
— Sabe de uma coisa, tenho pena de você – Disse ela, e foi para o carro.
— Então pare de ter – Sussurrou Effy em resposta.
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