A Lenda da Raposa de Higanbana

52 51: Nas tramas de raposas estão enredados


Notas iniciais
Olá! Esse capítulo quase que não sai hoje, mas aqui estamos! Pode ser um pouco nas pressas, então me avisem se houver algum erro...

Kakeru acordou sobressaltado com o som de algo caindo, podia ter sido apenas um dos seus gatos aprontando novamente — especialmente porque nenhum deles estava ali embora costumassem passar a noite dormindo aconchegados nele —, mas ainda assim achou melhor ir verificar, por isso lentamente se levantou e esticou a mão para o taco de beisebol no canto do quarto.

Desde que ele se mudara para lá, Higanbana sempre fora uma cidade bem pacata, onde seus habitantes podiam dormir com as janelas abertas no verão e nunca se preocupavam em trancar as portas… mas ela vinha estado um pouco mais agitada nos últimos tempos, há apenas alguns dias um dos vizinhos de Kakeru tivera todas as janelas da casa quebradas simultaneamente por uma chuva misteriosa de pedras, então cuidado nunca era demais.

Acendendo as luzes, ele saiu do quarto na ponta dos pés, ouvindo os sons que vinham da cozinha… realmente parecia que havia alguém na casa, mexendo em sua geladeira para ser mais específico.

—Seja quem for que estiver aí… — sua voz soou surpreendentemente alta no silêncio da noite — É melhor ir embora porque eu já chamei a polícia…!

Na verdade ele não havia chamado, mas tentou se confortar com o fato de que estava tudo tão quieto que se gritasse um pouco mais alto havia uma boa chance de os vizinhos o ouvirem e realmente chamarem a polícia afinal… mas fosse lá quem fosse que estivesse em sua cozinha, não deu a menor atenção ao aviso dele e continuou mexendo — a julgar pelo barulho — na geladeira como se estivesse em sua própria casa.

Talvez fossem mesmo apenas seus gatos, Kakeru realmente não ficaria surpreso se algum deles — Tsuki — houvesse realmente aprendido a abrir a geladeira…

—Eu estou avisando…! — ele abriu a porta da cozinha com uma mão empunhando o taco de beisebol com a outra…!

Kakeru não conseguia ver nada no escuro, mas identificou o que parecia ser um par de olhos brilhando na escuridão, poderia ser um de seus gatos, é claro… se ele estivesse voando a mais de um metro do chão!

Além disse, havia uma espécie de estranho brilho prateado também, algo como uma cortina iridescente… talvez um efeito do luar entrando pela janela, mas conforme seus olhos se adaptavam à escuridão, ele notou também a silhueta de um corpo emoldurado por aquele brilho prateado.

—Yo Kakeru. — a silhueta no meio da cozinha escura o cumprimentou — Acordei você?

—Gintsune-sama?! — Kakeru acendeu a luz e piscou com a claridade.

Ele deu um passo a frente, mas se deteve quando seu pé direito pisou em uma poça no chão, deixando sua meia de repente molhada, gelada e pegajosa.

Olhando para baixo, viu Hana bebendo de algo amarelo e espumante no chão, ao percebê-lo, a gata olhou para cima e lhe deu um miado amistoso de cumprimento.

—É cerveja. — Gintsune-sama o avisou sentando-se sobre a mesa com um pote de picles em conserva — Eu trouxe alguns pacotes da loja de conveniência para bebermos juntos, mas acho que bebi todos.

Ele parecia bastante desgrenhado com círculos escuros debaixo dos olhos, cabelos despenteados e descalço, vestindo apenas um par de calças moletom, o que fez Kakeru imaginar por quais tipos de lugares Gintsune-sama havia estado… mas ele também não havia deixado a cozinha em um estado muito melhor.

Na verdade, a cozinha estava um caos, os armários estavam todos revirados e havia vasilhas, latas e potes de comida espalhados por todo lugar junto com restos de comida e manchas gordurosas não identificadas, além de várias e várias latas de cerveja amassadas e vazias.

Ele viu Yuki e Tsuki em baixo da mesa comendo os restos do jantar dele e que seria o almoço do dia seguinte… aparentemente ele teria que se virar com um almoço pronto da loja de conveniências… se é que ainda existia uma loja de conveniências para onde ir.

—Parece que comeu tudo sem mim também… — comentou.

—Eu preciso me alimentar o máximo possível para recuperar as forças, acelerar a desintoxicação e poder estrangular aquele moleque o quanto antes. — Gintsune-sama respondeu comendo o último picles do pote e então o virando para beber todo o líquido ali.

—Estrangular?! — Kakeru se assustou — Como assim estrangular?! Quem você pretende…?!

—A propósito, você ficou sem comida. — Gintsune-sama o interrompeu casualmente limpando a boca com as costas da mão — Exceto pelo leite na geladeira, esse eu deixei intocado, não me submeteria a ingerir essa coisa a menos que fosse caso de vida ou morte! — ele levantou-se trôpego, apoiando-se na mesa — Mas fica difícil recuperar as forças quando tudo o que como se revolta no meu estômago e quer voltar…!

Gintsune-sama cobriu a boca com a mão e, incapaz de se manter de pé por mais tempo, cambaleou até uma cadeira deixando-se cair pesadamente ali.

Ele estava bêbado? Kakeru já o havia visto bebendo frequentemente quantidades absurdas de álcool, mas será que já o havia visto bêbado alguma vez?

Ele achava que não.

Foi quando Gintsune-sama pressionou a lateral da barriga enquanto continha um grunhido e estendia a mão livre para pegar outra lata de cerveja sobre a mesa, que Kakeru percebeu que ele não estava bêbado, estava ferido: havia um grande talho vermelho cortando a lateral de sua barriga!

Mas que tipo de criatura seria capaz de causar danos a uma raposa?! Ele arregalou os olhos.

—O que foi que a…?!

—Mesmo depois de todo esse tempo, Yukari não te disse que eu já estava de volta. Não é? — Gintsune-sama voltou a falar, virando a lata de cerveja sem nem perceber que o interrompera — Acho que ela só fez o necessário para protegê-lo… mas quando sou eu quem oculta informações para protegê-la…!

Ele amassou a lata de cerveja vazia e a jogou para longe.

—Então já faz tempo que você voltou à cidade e Shibya-chan sabia? — ele achava que o retorno de Gintsune-sama era recente, mas é claro que todos aqueles incidentes não poderiam ser simples coincidência, mas pelo bem de sua sanidade Kakeru havia escolhido acreditar em Shibuya-chan quando ela negara o envolvimento de Gintsune-sama neles — Isso significa que aquele poltergest na escola foi obra sua?!

—Eu não faço ideia do que você está falando, mas com certeza foi obra do fedelho. — Gintsune-Sama respondeu despreocupado.

—Quem?

O sorriso de Gintsune-sama pareceu amargo e cruel.

—Surpresa professor: agora vocês têm três raposas à solta em Higanbana. — soltou — Nem eu mesmo sabia até pouco tempo, mas meus pais tiveram um terceiro filhote, e agora o meu irmãozinho está à solta na cidade e causando todo tipo de transtorno por pura diversão, não só aos humanos, mas a mim também… e acredite, um filhote descontrolado como aquele pode ser muito mais perigoso do que uma raposa adulta e perfeitamente razoável como eu. Quando eu pegá-lo…

Isso o fez se lembrar do dia anterior, quando viu Gintsune-sama perseguindo uma criança na ponte, Kakeru olhou nervosamente para o grande ferimento exposto de Gintsune-sama.

—Foi… ele quem fez isso? — perguntou temeroso.

—Hã? — Gintsune-sama baixou o olhar como se tivesse se esquecido daquilo — Ah sim, eu o estava carregando debaixo do braço assim… quando de repente ele sacou uma lâmina envenenada e a enterrou na minha barriga, o pequeno pivete!… Não é grave, provavelmente, mas é uma coisa muito incomoda, me sinto tão fraco que nem consigo explodir as coisas, e minha regeneração está muito afetada também! Está demorando demais a cicatrizar e volto a sangrar se me mexo demais! Mas ainda assim é muito difícil que uma coisinha dessas me deixe uma cicatriz… Além disso, estou com náuseas e… — ele tocou a própria testa — Veja! Estou suando! Cheguei a delirar que estava derretendo! E não posso aparecer na frente da minha linda irmã nesse estado… ela é tão delicada, ficaria morta de preocupação, e ela já tem que cuidar do fedelho…

Se esse “fedelho” estava causando tantos problemas, então talvez a irmã não estivesse se ocupando tanto assim de tomar conta dele, mas, dando uma segunda olhada no ferimento de Gintsune-sama, Kakeru resolveu guardar esse pensamento para si mesmo, pois embora reclamasse bastante, o youkai não parecia de forma alguma tão fraco quanto alegava…

—Então esse seu irmão mais novo… — começou incerto.

—É uma praga! E além de tudo é um tremendo bocudo! Quando encontrá-lo eu vou costurar aquela boca enorme dele! — Gintsune-sama exaltou-se instantaneamente — Acredita que ele está causando todo tipo de acidente e explosão por aí, enquanto eu estava apenas fazendo o necessário para nos manter em segurança, mas foi comigo que Yukari se zangou?! Ela me chamou de desgraçado, me expulsou do quarto dela e disse que nunca mais quer me ver na vida! Acredita nisso? Quando foi que a boca dela ficou tão suja?!

Shibuya-chan era realmente corajosa, Kakeru pensou impressionado, ou, no mínimo, sem noção alguma do perigo, como um bebê que tentava brincar com um escorpião.

—Você estava no quarto dela…? — Kakeru balançou a cabeça — Não, mais importante, Shibuya-chan está bem?

—Sim, ela está bem por enquanto. — Gintsune-sama respondeu fazendo uma careta — Acho que no momento eu sou o único realmente ferido aqui, não que alguém se importe…

De repente ele calou-se e, levando a mão à boca, levantou-se e correu para a pia, onde se curvou agarrando-se às bordas e começou a vomitar vertiginosamente aparentemente toda a comida e bebida que havia ingerido nas últimas horas.

—Ah… — grunhiu ligando a torneira para lavar a boca — Viu o que eu disse? Como posso acelerar minha recuperação se sequer consigo manter qualquer coisa no estômago? Eu acho que poderia me sair melhor se, ao invés de tentar me recuperar apenas com comida física, tentasse absorver um pouco de essência vital por aí… mas algo me diz que ela ficaria ainda mais furiosa com isso, então está fora de questão. — ele estava de costas, então com certeza não conseguia ver como o rosto de Kakeru empalidecera com suas palavras e como agora, com os joelhos fracos, ele quase sentia vontade de se ajoelhar e agradecer à santa Shibuya por de alguma forma conter aquela raposa, mesmo de longe, então Gintsune-sama continuou casualmente: — Além de tudo acho que aquele moleque adicionou cedro japonês à toxina!

Quando ele soltou a pia para agarrar novamente a lateral da barriga, pois o esforço havia feito o ferimento voltar a abrir e sangrar, Kakeru notou as marcas dos dedos de Gintsune-sama no metal amassado, mas no momento não poderia se importar menos com isso.

—O que você quer dizer com “ela está bem por enquanto”? — perguntou aflito.

Puxando a mangueira da pia de cozinha, Gintsune-sama a ligou e apontou o jato para sua boca aberta durante vários segundos antes de fazer um bochecho e cuspir.

—Que durante toda a vida ela ignorou instintivamente todos os sinais do outro plano que seus olhos captavam, e eu também tentei protegê-la a mantendo no escuro tanto quanto possível, não que ela seja grata à minha gentileza, é claro, mas agora, graças àquele fedelho bocudo, ela parece pronta para se jogar de cabeça! Mas guarde minhas palavras Kakeru, eu até preferia que não fosse assim e Yukari pode não querer sequer ver minha cara agora, mas enquanto eu puder proteger a mim e a minha família e impedi-la de se afogar, vou sacrificar qualquer estúpido humano que seja! Mesmo que ela me odeie para sempre depois disso!

As palavras repentinamente violentas de Gintsune-sama sobressaltaram Kakeru, e quanto àquela história de “algo me diz que ela ficaria ainda mais furiosa com isso, então está fora de questão”?! Mas a essa altura ele parecia estar intoxicado para além da racionalidade, ou então aquela era apenas a verdadeira natureza monstruosa que ele gostava de esconder por trás de sorrisos despreocupados, e isso fez o professor se questionar seriamente sobre o tipo de problema em que Shibuya-chan estava se metendo, quanto controle ela realmente tinha ali e quanto tempo ele duraria…

—Gintsune-sama… — chamou temeroso — Pode me dizer exatamente o que está acontecendo…?

—Ah, eu realmente preciso me deitar um pouco. — Gintsune reclamou parecendo, por um momento, que iria vomitar de novo — Ouça Kakeru, eu não tenho certeza do que pode acontecer, mas só por segurança é melhor não deixar os seus gatos entrarem em contato com o meu sangue…

Avisou ignorando a pergunta do professor ao sair cambaleando da cozinha, deixando um leve rastro de sangue pelo caminho, e apoiando uma mão no ombro de Kakeru ao passar por ele.

—Espera! O que?! — Kakeru sobressaltou-se, mas Gintsune-sama afastou-se pelo corredor sem dar maiores explicações, e quando o professor virou-se novamente, um de seus gatos já estava perigosamente perto de uma das manchas de sangue no chão, farejando-a com curiosidade — Yuki! Não!

—Yuki! Yukari! — Gintsune-sama gemeu enquanto se arrastava pelo corredor — Mulher com neve no nome e gelo no coração, tudo seria tão mais simples se ela apenas entendesse que só fiz o necessário pela nossa segurança, mas por que ela tem essa irritante ética altruísta humana…

A voz dele foi cortada pelo som de uma porta se fechando, mas infelizmente não parecia ser a da porta da frente.

Kakeru passou o resto da noite limpando a bagunça e tendo que ficar de olho nos gatos para garantir que eles não se aproximassem das manchas de sangue espalhas pelo chão antes que ele as limpasse — infelizmente o rastro levava direto para seu quarto —, mas ele próprio não parava de tremer enquanto imaginava se aquelas luvas de borracha seriam o suficiente para protegê-lo.

Quando terminou, o dia já estava raiando e Kakeru deu graças por ser domingo e não precisar ir trabalhar, mas tudo estava tão silencioso que ficou imaginando se Gintsune-Sama já não havia ido embora… afinal não era como se ele realmente precisasse passar pela porta para sair… mas esse pensamento só durou até que Kakeru voltasse para o quarto.

Deitado ali em seu futon estava uma imensa raposa prateada adormecida, com seus três gatos aconchegados junto à fera.

O professor suspirou, bem, ao menos imaginava que se Gintsune-sama estava dormindo ali, então Kakeru não teria que se preocupar de ele estar por aí… sacrificando humanos.

Estremeceu, ele teria que tomar seus medicamentos antes de sair e comprar o almoço… e também precisava falar de qualquer maneira com Shibuya-chan para descobrir o que estava acontecendo… talvez precisasse de uma nova receita de calmantes também.

Obviamente não seria de surpreender o fato que Kakeru não foi a única pessoa a passar a noite em claro por causa de Gintsune…

De alguma forma Yukari não ficou surpresa quando passou mais uma noite em claro, afinal como ela podia dormir estando ciente de que Aoi-chan poderia se tornar uma casca vazia sem qualquer sonho ou sentimento a qualquer instante? E tudo porque ela, sendo uma péssima amiga, havia ignorado seus sintomas acreditando que mais tarde eles iriam melhorar sozinhos simplesmente por estar mais preocupada com aquele desgraçado egoísta!

Passou toda a noite pesquisando sobre bakus na internet, mas obviamente não havia nenhuma instrução útil sobre “o que fazer se estiver possuída por um baku muito guloso”, apenas pequenos recortes de lendas de sua origem e poderes e indicações de alguns templos da região e até uma música ou outra… ah, talvez visitar um templo não fosse má ideia, afinal os bakus não eram originalmente malignos, certo? Talvez se Yukari visitasse o templo de um baku junto com Aoi-chan, isso poderia pará-lo…?

Ou talvez ela também pudesse perguntar a Anko, ele havia dito alguma coisa sobre sua mãe, que havia contado a ele sobre os bakus, já ter lidado com alguns também… mas como faria para chamá-lo?

Não era como se pudesse simplesmente correr para a próxima cena de catástrofe na cidade esperando encontrá-lo… ou podia?

—Ah, mas no que estou pensando?! — reclamou consigo mesma levando as mãos à cabeça e então lançando um olhar zangado à raposa de pelúcia sobre sua cama — Eu queria poder socar sua fuça, sabia?!

Yukari tinha chamas protetoras consigo que queimavam insetos, certo? Talvez se abraçasse Aoi, o baku fosse queimado… no entanto, como Gintsune nunca lhe dizia nada, ela não tinha ideia de como aquelas chamas funcionavam… não sabia se elas seriam de fato efetivas contra o youkai dos sonhos, ou sequer se tentariam queimá-lo apenas por ela estar próxima dele mesmo não sendo sua vítima direta, ou pior, e se de algum jeito ela acabasse queimando Aoi-chan?!

Então era a isso que Izumi se referia naquela vez quando disse a Yukari para comprar um amuleto para Aoi… por que ele não falou de uma vez o que estava acontecendo? Se ao menos Yukari houvesse ido mais fundo e perguntado… mas não, algo no fundo da mente dela sempre dizia para ignorar, para não fazer perguntas, para manter distância… se ao menos ela tivesse seguido esse instinto primordial naquele verão na casa de banhos… suspirou aborrecida.

Seja como fosse, não havia como voltar no tempo e nem como buscar ajuda de Izumi agora, buscar por respostas na internet também não estava sendo útil.

Por isso tudo o que restava agora era encontrar algum meio de entrar em contato com Anko novamente.

Correr atrás de cenas de acidentes e se expor a calotas voadoras de carros e explosivos seria perigoso demais, decidiu, então talvez ela devesse começar procurando pelos cemitérios, Gintsune dissera que eles estavam ficando em um… só esperava que Momiji não a fulminasse no instante em que ela cruzasse o portão.

Apenas por precaução levaria algumas guloseimas também.

*.*.*.*

Certamente em meio á batalha contra as raposas o mestre dragão não tivera tempo para delimitar um alvo específico quando iniciou o incêndio, e agora o fogo crescia e rugia descontroladamente devorando o castelo sem que ninguém conseguisse contê-lo.

O fogo sobrenatural era algo muito incômodo de lidar, Satoshi — cuja vila foi atormentada durante décadas por uma raposa de fogo entediada — provavelmente sabia disso melhor do que ninguém: era praticamente impossível apagar as chamas, e elas por si mesmas só se extinguiam quando seus alvos já haviam sido consumidos, ou quando o mestre das chamas decidia encerrá-las ou ele próprio estava muito debilitado — ou morto — para continuar a queimá-las.

E chamas de dragão eram com certeza muito mais problemática do que chamas de raposa.

Por isso era com certeza ótimo e terrível que as chamas de Ryosuke-sama ainda estivessem devorando o castelo todo, mesmo que não houvesse sinal dele em parte alguma, porque isso significava que, a menos que combatessem o fogo com métodos igualmente sobrenaturais, seria impossível apagá-lo, mas também que, embora não soubessem o que havia acontecido com ele, ao menos sabiam que não estava morto e que ainda estava em algum lugar por perto.

Kanji foi rápido em coordenar os habitantes do castelo, ordenando às ami-onnas da casa de banhos que invocassem toda a chuva que conseguissem, aos seus ajudantes que ajudassem a evacuar todas as criaturas mais frágeis para longe do fogo e a outros tantos que buscassem ajuda na cidade.

—Vocês! Onde estavam?! — gritou em meio ao caos quando avistou Satoshi e Akira — Os tengus são feras que dominam o vento, não é? Então ajudem Ronin para que o fogo não se espalhe ainda mais!

Ele mesmo já havia perdido tantas penas das asas que mesmo que se transformasse não seria capaz de controlar nem mesmo uma corrente de ar.

—Primeiro tínhamos que deixar minha mãe em um lugar seguro! — Akira respondeu, e com isso ele quis dizer que ele e o pai trancaram Mayu e o bebê em um quarto distante e deixaram Akihiko a protegendo/vigiando, porque se Mayu pudesse agir por si mesma, ela certamente tentaria correr para o meio do campo de batalha, convencida de que “poderia chamar Furin-sama de volta à razão” — E quem é Ronin?

—É o kamaitachi mestre de combate que treina vocês e a Mayu. — Satoshi respondeu aceitando os leques de folhas que um dos ajudantes de Kanji lhe estendia e entregando um ao filho. — Como não sabe o nome dele?

Akira observou o leque o virando de um lado para o outro, e claro que tengus podiam dominar o vento como raposas dominavam o fogo e a eletricidade e serpentes dominavam a água, mas a verdade é que nem ele e nem o irmão nunca haviam tentado nada parecido — eles nunca sequer viram o pai usar essa habilidade — além de que ambos possuíam sangue humano, então nem sabiam se realmente eram capazes de dominar o ar como aquele grou estava mandando.

No entanto, seu orgulho não o deixava demonstrar nenhuma daquelas dúvidas.

—Vamos. — o pai o chamou manifestando suas asas e voando.

Akira acenou o seguindo, segurando o leque de folhas bem firme no punho fechado.

Nenhum dos dois se deu conta da figura pálida que passou correndo pelo mesmo local onde antes estiveram momentos antes em direção às chamas verdes.

—Pare sua tola! — Kanji gritou segurando a tsurara-onna que, inconsequentemente, tentava se atirar direto nas chamas — Se você entrar ali irá derreter e desaparecer para sempre! Primeiro nós precisamos apagar o fogo! Mesmo se você puder invocar uma nevasca ou criar colunas de gelo, não irá sobreviver ao calor!

—Mas Ryosuke-sama está lá! — a mulher de gelo protestou debatendo-se e tentando se soltar das mãos de Kanji — Não posso deixá-lo lá dessa forma!

—Pare com as tolices mulher! — Kanji puxou-a para trás — Ryosuke-sama é imune ao fogo, ao contrário do castelo e de nós! Por isso temos que cuidar do incêndio antes! Ryosuke-sama ficará bem!

—Não! — a youkai o empurrou, lutando para se libertar — Ryosuke-sama pode estar ferido ou pior! Se Ryosuke-sama estivesse bem, nem teríamos um incêndio! Nós não sabemos o que aquelas raposas perversas fizeram ao mestre, quando conseguimos apagar o fogo pode já ser tarde demais! Ryosuke-sama!

Em desespero, a tsurara-onna agarrou a mão do grou que a segurava e congelou-o até o ombro obrigando-o a libertá-la e então correu o mais depressa que pôde.

—Argh! — Kanji grunhiu agarrando o braço congelado — Não Fuyumi! Pare!

Mas completamente surda à razão e a qualquer apelo, Fuyumi correu em direção ao incêndio, deixando para trás os tamancos altos de madeira que calçava e trazendo consigo uma forte corrente de ar que erguia neve e granizo e congelava qualquer um que tentasse detê-la.

Era como estar no inferno, Fuyumi não conseguia respirar com toda aquela fumaça, seus olhos ardiam e lágrimas geladas escorriam incessantemente por seu rosto.

—Ryosuke-sama! — tentou chamá-lo por cima do rugido das chamas.

De repente ela gritou invocando colunas de gelo para evitar que o teto desabasse sobre si antes de voltar a correr chamando por seu mestre, mas não importava quantas correntes de ar gélido soprasse, ou quanto gelo invocasse as labaredas que baixavam por apenas um breve momento logo voltavam a se erguer ainda mais furiosas, como se tivessem vida própria.

Mesmo que só vivesse ali durante os poucos meses por ano que sua natureza frágil e itinerante lhe permitia, Fuyumi achava que conhecia o castelo como a palma de sua mão, mas no momento tudo aquilo havia se tornado em um labirinto de fogo e ela não sabia para onde estava indo e tampouco para qual direção ficava o pátio.

De repente algo agarrou a manga de seu quimono e Fuyumi virou-se acreditando que ficara presa em algum prego, mas se surpreendeu ao ver Yuri-chan ali.

—Yuri-chan?! — exclamou de lhos arregalados — O que faz aqui? Precisa sair rápido!

Ela interrompeu-se se curvando para frente e tossindo gelo e água, que chiaram ao encontrar as chamas, e Yuri-chan a amparou com as mãos em volta de seu corpo, ao contrário dela, a pequena oni parecia completamente bem em meio ao foco, despida de todas as roupas exceto por uma tanga, ela não tinha nem mesmo as pontas dos cabelos chamuscadas e, na verdade, já nem parecia tão pequena assim… desde quando Yuri-chan tinha praticamente a sua altura?!

—O mestre dragão está por aqui. — ela a chamou puxando-lhe a manga do quimono novamente — Rápido!

Guiada — ou melhor, arrastada — por Yuri-chan, Fuyumi atravessou cômodos e corredores engolidos pelo fogo e prestes a desabar até finalmente chegarem ao pátio onde Ryosuke-sama lutara e o incêndio havia começado.

—Ryosuke-sama!

O chamou enquanto Yuri-chan a guiava cada vez mais para o centro do pátio, estranhamente Fuyumi sentia o solo gelado e pegajoso ali, apesar de todo o calor em torno delas e tinha a nítida impressão de que Yuri-chan estava crescendo a cada passo delas.

Fuyumi lutava para acompanhar a jovem oni puxando para cima a barra do quimono na qual tropeçava continuamente, os tamancos que ela costumava usar eram tão altos que ela nunca havia se dado conta que o quimono era tão longo, quando de repente Yuri-chan a deteve antes que ela caísse dentro de uma cratera.

—Lá! — exclamou apontando para o interior do buraco.

Cega pela fumaça e lágrimas geladas, inicialmente Fuyumi não viu nada mesmo quando se inclinou e voltou a chamar pelo mestre, e então ela viu: no fundo da cratera havia um disco de pedra esculpido no formato de uma cobra enroscada sobre si mesma.

Primeiro achou que fosse apenas algum ornamento do castelo que se desmoronou com o incêndio, mas de repente seus olhos se arregalaram ao perceber que não era uma cobra esculpida em pedra, era um dragão!

—Ryosuke-sama! — gritou pulando sem pensar dentro da cratera.

A pedra quente chiou contra a pele gelada da tsurara-onna a fazendo morder os lábios e fechar os olhos com força, mas não lhe restava dúvida que aquele era Ryosuke-sama e ainda que estivesse no inferno, Fuyumi jamais abandonaria ao seu mestre, comovida, ela o abraçou, pressionando contra o peito sem se importar em como a pedra quente derretia sua carne e afundava em seu peito… ah.

Só então ela se deu conta: aquele tempo todo não eram apenas lágrimas correndo por seu rosto, nem o chão que estava pegajoso e gelado, ou seu quimono que estava comprido demais, tampouco era Yuri-chan quem estava crescendo…

Poucas horas após o amanhecer, o incêndio finalmente recuara até restar apenas umas poucas e escassas labaredas que logo se extinguiriam por si mesmas, então, sob as ordens de Kanji, buscas se iniciaram para avaliar os danos da área afetada e procurar por possíveis vítimas entre os escombros.

Descalço e com as roupas chamuscadas e sujas de fuligem, Satoshi adentrou o pátio chutando alguns escombros para longe até finalmente alcançar a borda da cratera e se inclinar para olhar ali.

Suas sobrancelhas se arquearam.

—Tem alguém aqui! Venham! — chamou por cima do ombro.

Yuri-chan estava de pé incólume no fundo da cratera, em suas mãos ela segurava um disco de pedra esculpido como um dragão enroscado e aos seus pés estava o quimono de Fuyumi, que jazia em uma poça de água.

*.*.*.*

A bicicleta de seu avô havia estado guardada no velho galpão desde a morte dele, Yukari ainda se lembrava do verão, depois do último dia de aula antes das férias, quando ela ainda cursava o primário e o avô foi buscá-la com aquela mesma bicicleta, determinado a fazê-la aprender a andar de bicicleta e a nadar em menos de uma semana — e ela não tinha ideia do por que do prazo ridículo.

—Avô, eu já consigo andar de bicicleta e posso nadar razoavelmente bem, podemos parar e ir para casa agora? — ela reclamou no sétimo dia embrulhada em uma toalha às margens da nascente onde ele estava dando suas aulas. — De qualquer forma posso ir andando para a escola e não acho que vamos ter aula de natação também…

—Por que você fala exatamente igual ao Daisuke na sua idade? Não sei a quem ele puxou! — o avô reclamou — Seja uma criança! Pule na água! Rale o joelho andando de bicicleta!

Yukari olhou para a água, mas não gostou da idéia de voltar a se molhar, ela franziu o cenho.

—Eu preciso mesmo?

—Não. — o avô suspirou. — Você tem razão, já aprendeu, então vamos para casa.

Agora Yukari sentia falta daqueles tempos com seu avô…

—Os freios parecem em bom estado. — murmurou consigo mesma, testando o mecanismo e pisando em um dos pedais, ela rangia um pouco, mas isso já era esperado… de repente Yukari ergueu a cabeça e olhou por cima do ombro — É você quem está aí?

Perguntou ao galpão vazio, mas obviamente não houve nenhuma resposta, Yukari balançou a cabeça e empurrou à bicicleta para fora do galpão, ela estava um pouco tensa, isso é tudo, não apenas o assunto de Aoi-chan não a deixara dormir a noite inteira, como também seu pai não havia ficado nada satisfeito com o pedido de folga dela naquele dia, além de que aquele galpão sempre teve o poder de deixá-la desconfortável.

Sim, o melhor era sair dali o mais rápido possível.

Acenando determinada Yukari montou na bicicleta e deu o primeiro impulso, só esperava que aquela história de “nunca se esquece de como se anda de bicicleta” fosse mesmo verdade…

Se esgueirando cuidadosamente para fora do depósito, o Zashiki Warashi observou como a filha do Daisuke se afastava com a bicicleta do avô e mordeu o lábio inferior, ele havia dado uma pequena benção à bicicleta, mas não conseguiu tocar diretamente a garota para fazer o mesmo por ela, pois ela estava alerta demais… só esperava que isso não lhe atraísse problemas demais.

Yukari diminuiu um pouco a velocidade ao passar pela loja de conveniência no final da sua rua onde um carro de polícia estava parado com as luzes acessas e um par de policias conversava com um funcionário na entrada, lá dentro as luzes piscavam e as prateleiras estavam todas reviradas, aparentemente uma das máquinas de venda havia sido arremessada pela entrada também, suspirou, será que aquele garoto havia se irritado porque as máquinas não lhe davam os doces que queria?

Provavelmente aqueles policiais não seriam de grande ajuda, assim como não foram no caso das carpas desaparecidas de sua avó, e aquilo só viraria mais um relatório na delegacia e outra notícia para o jornal local.

Ela estava pensando em comprar sanduíches de morango, mas as outras duas lojas de conveniência estavam em um estado de desastre exatamente igual ao da primeira, de forma que não lhe restou opção exceto pedalar até o Raposa encantada…

—Realmente não entendo o que aconteceu. — ouviu o proprietário da lavanderia pública no bairro comercial comentar junto a um de seus vizinhos, ambos olhando para uma máquina de lavar caída de lado na calçada — Olhe essa marca aqui! Parece até que alguém a chutou desde a lavanderia do outro lado da rua…

—Mas realmente não roubaram nada? — o vizinho se surpreendeu — Ainda assim, essa cidade está ficando cada vez mais perigosa…!

Yukari freou e olhou para trás com o cenho franzido. Como se não bastasse a criança, será que aquele canalha nunca parava de causar problemas também?! A essa altura ela já estava começando a achar que a volúvel irmã deles era o menor dos problemas de Higanbana!

Mas faria uma coisa de cada vez, por agora o mais importante era descobrir como ajudar Aoi-chan.

De alguma forma ela não ficou surpresa em descobrir que o café fofo da cidade continuava tão movimentado como sempre, cheio de casais e garotas adolescentes que aproveitavam suas sobremesas, Higanbana era uma cidade turística, e se eles podiam atrair clientes com lendas antigas e fontes termais ou desastres e boatos — não tão fantasiosos — sobre a cidade estar assombrada… então eles continuariam funcionando. Só era um pouco frustrante ter que esperar na fila do lado de fora mesmo quando pretendia pedir para viagem.

Suspirou. Pelo menos ainda era cedo o bastante para o tempo da fila ali fora ser estimado em apenas vinte ou trinta minutos… ela olhou para o lado de dentro do recinto através da vidraça embaçada, quem sabe se tivesse sorte o irmão de Gintsune não estaria ali agora mesmo? Ela sabia que ele já havia frequentado o lugar com os irmãos antes…

Mas Yukari não teve sorte. Quarenta minutos depois ela saiu do café carregando sua caixa de doces sem ter encontrado nenhuma raposa ali e resignada ao seu plano original, ao menos não havia tantos cemitérios na cidade assim, pensou de volta ao seu lado da cidade enquanto cruzava a praça com a estátua reformada da Raposa de Higanbana, havia afinal seus prós e contras em seu morar em uma pequena cidade de fim de mundo.

Ironicamente ela talvez não fosse a única fazendo aquele percurso pelos cemitérios, pois até mesmo nesses lugares as lendas da cidade residiam e Yukari se lembrava de mais de uma vez já ter fornecido informações e direções a turistas que vinham para ver os cemitérios.

Começou pelo maior de todos, próximo do templo de Ebisu, onde a família Shibuya e outras famílias com negócios na região tinham seus túmulos, embora ela não tivesse certeza se o fundador da pousada Shibuya — da época em que era chamada pousada Kobayashi — também descansava ali ou apenas aqueles a partir de Ume Shibuya, mas bastou um olhar para que ela entendesse que não havia nenhuma raposa lá, ainda assim achou que foi um grande descaso de sua parte passar por ali sem ter sequer cumprimentado o avô, então prometeu a si mesma que em breve voltaria com mais calma e lhe prestaria os devidos respeitos.

O cemitério seguinte foi aquele que se dizia ser o mais antigo da região, aquele próximo ao templo de Inari e, segundo o professor Haruna, onde supostamente estava o túmulo do homem que lacrou a raposa de Higanbana — Kobayashi Akio — e Yukari nem sequer precisava ter olhos aguçados para saber que estava no lugar certo: sobre o muro do cemitério estavam enfileirados dúzias de pequenos e deformados bonecos de neve exatamente iguais aqueles que apareciam espalhados em lugares aleatórios da cidade e que quase pareciam gritar “perigo! Não se aproxime” dentro da mente dela.

Yukari já deveria saber: é claro que as raposas haviam se abrigado próximo da deusa deles, suspirou desmontando da bicicleta e a empurrando lentamente para dentro do terreno, pois seria muito desrespeitoso entrar pedalando na moradia dos outros, especialmente na moradia dos falecidos.

Já no primeiro passo ela paralisou. Suas pernas não queriam se mover e precisou de todas as forças para não recuar e ir para casa naquele exato instante, apertou o guidom da bicicleta se forçando a frente, ela conhecia aquela sensação opressora, era a mesma de quando havia jantado com Gintsune e a irmã, mas muito mais esmagadora e sem o parco consolo de ter um para-raios ao seu lado.

—Olá? — forçou sua voz a sair, embora se sentisse um pouco tola por estar falando sozinha. — Você está aí Anko… sama? Tem algo que quero lhe perguntar…

Parou ajeitando o cachecol por sobre a boca e o nariz, suas pernas tremiam, ela sentia um calafrio na espinha e os pelos de sua nuca estavam todos eriçados, mas agarrando-se à bicicleta continuou a força-se cada vez mais para dentro do terreno, tão tensa que nem sequer tinha certeza se estava ou não sendo observada.

Obviamente ela não podia ver nem sequer escutar as minúsculas raposinhas brancas que se escondiam por entre as lápides para espiá-la.

—Essa é a mulher que tem a atenção do jovem mestre? — uma delas perguntou — Aquela que a jovem dama odeia?

—Essa é a mulher que o segundo jovem mestre quer quebrar. — a segunda concordou — Afogá-la!

—Por que ela está aqui? — a primeira kudakitsune se contorceu — Veio à procura do jovem mestre?

—O que devemos fazer? — a segunda se esgueirou para a lápide seguinte — O jovem mestre não está aqui! E nem a jovem dama!

—Se a expulsarmos, os jovens mestres ficarão bravos… Nós deveríamos deixá-la entrar? — ponderou a primeira — Ela é preciosa para o jovem mestre, e o segundo jovem mestre quer brincar com ela e quebrá-la…

—Se a jovem dama voltar e a vir, vai fulminá-la! — a segunda raposinha estremeceu — O jovem mestre ficará chateado se ela morrer!

—Ela tem doces. — a primeira raposa tubo se esticou sobre a lápide — O segundo jovem mestre gosta de doces… e ele está com fome.

—A jovem dama foi em busca de comida, porque o jovem mestre não tem aparecido desde ontem. — a primeira kudakistune a relembrou.

—Mas o segundo jovem mestre ficaria muito chateado se perdesse os doces! — a segunda protestou.

Raspando as pequenas garras na pedra lisa, a segunda raposa tubo disse:

—A jovem dama nos disse para não deixar o segundo jovem mestre sair… e se roubássemos os doces e depois a expulsássemos?!

Os pequenos criados vibraram com essa expectativa, mas então estremeceram ao se lembrar de algo:

—As chamas do jovem mestre!

Simplesmente não havia como roubarem seus doces e a expulsarem, ou simplesmente se aproximarem dela, enquanto aquela mulher fosse protegida pelas chamas do jovem mestre.

Então o que fariam…?

Em todo caso eles eram apenas criados, e não lhes cabia tomar decisões quando não havia ordens específicas sobre o que fazer, e naquele momento a única ordem que tinham era a de não deixar o segundo jovem mestre sair até o retorno da jovem dama, então se alguém poderia decidir sobre o que fazer ou não com aquela mulher, esse alguém era…

Yukari parou subitamente e olhou ao redor, essencialmente o cemitério parecia ser exatamente o mesmo, mas havia algo muito errado ali… e de repente ela entendeu: por mais silencioso que o cemitério estivesse agora o silêncio era completamente ensurdecedor, sem sequer um rastro de um carro passando a distância os quaisquer sons da cidade, como se o mundo todo houvesse se calado e aquilo que era mais inacreditável, o queixo de Yukari caiu quando se deu conta: o céu!

De repente todo o céu estava tingindo com tons vívidos de laranja e carmesim, como se o sol estivesse se pondo, mas… isso era impossível! Mal passava das 10h, como o céu já podia…?!

Algo se moveu em sua visão periférica.

Um pequeno filhote de pelagem escura e brilhantes olhos dourados a espreitava por detrás de uma sepultura partida ao meio onde ainda era possível ler o nome “Kobayashi”, Yukari piscou, e quando percebeu que havia sido avistado, o filhote se aproximou regougando e rosnando, sempre a encarando diretamente nos olhos até sentar-se bem diante dos pés dela.

Ele estava usando uma espécie de colar — ou seria uma coleira? — feita de fios pretos e prateados entrelaçados no pescoço e era um animalzinho muito fofo, na verdade, e se ele não estivesse se mexendo e fazendo sons, Yukari o teria confundido com um animal de pelúcia.

—O que…?

Risadinhas finas ecoaram quando algo passou voando próximo aos seus ouvidos, um par de pequenas criaturas brancas zumbiram em volta do filhote escuro, ela tinham corpos esguios como cobras com não mais do que 10cm no máximo, mas suas cabeças se pareciam com… raposas!

—A mulher humana não pode entendê-lo jovem mestre! — as pequenas criaturinhas riram, fazendo Yukari arregalar os olhos e recuar um passo agarrada ao guidom da bicicleta, aquelas coisas falavam?! — Os humanos só podem falar a língua humana, o jovem mestre precisa falar como os humanos se quiser ser entendido!

Saltando e rosnando o filhote tentou atacar as pequenas criaturas com suas garras e presas as fazendo se afastarem rapidamente, para Yukari ele se parecia bastante com um pequeno filhote de gato que tentava parecer feroz, mas só conseguia se mostrar adorável…

—Anko-sama. — o chamou quando pareceu que o filhote de raposa já havia se esquecido da presença dela e estava prestes a perseguir aquelas criaturinhas para longe — Será que eu poderia lhe fazer algumas perguntas?

Retornando sua atenção a ela o filhote virou-se se espreguiçando e alongando-se até que assumiu a forma de um garoto com cabelos pretos e compridos e roupas escuras, ainda com aquele mesmo colar de fios entrelaçados em volta do pescoço, que se sentou no chão, embora ainda tivesse mantido as orelhas e cauda de raposa.

—Você é mesmo um tipo muito irritante, sabia mulher? — perguntou asperamente enquanto apoiava o queixo sobre um joelho dobrado — Minha mãe disse que, dependendo do quão bem constituído é o território, a maioria dos humanos e até alguns youkais podem levar horas para perceberem que adentraram em um mundo de raposa! Alguns otários não percebem nunca inclusive, mas você percebeu de cara! Que mulher entediante!

—Seria meio difícil não perceber… — Yukari comentou olhando para o céu carmesim.

—Afinal o que você quer mulher? — Anko quis saber impaciente — Os criados me disseram que você não está aqui por acaso, que estava me chamando, e só existem dois tipos de humanos que ativamente vão atrás de youkais: os idiotas que sabem com o que estão lidando e os estúpidos que não fazem a menor ideia do perigo. Qual dos dois é você?

—Provavelmente o segundo. — respondeu sem titubear.

—Com certeza o segundo! — Anko gargalhou. — Se a ane-san estivesse aqui, você teria sido fulminada assim que cruzou o portão! Sabia disso?

Yukari estremeceu e engoliu em seco agarrando o guidom da bicicleta ainda mais forte, por que Momiji-sama a odiava tanto? Será que ela tinha alguma noção de que Yukari conhecia seu verdadeiro nome…? Não, se fosse assim ela já a teria fulminado há muito tempo, tinha certeza.

—Por isso que é melhor o jovem mestre pegar logo os doces e expulsá-la! — as criaturinhas as quais Anko se referia como criados o alertaram voltando a zumbir próximo às suas orelhas — Será ruim se a jovem dama voltar e a encontrar aqui! Muito ruim!

Olhando-os atentamente, Yukari tinha a nítida impressão que já os conhecia, embora nunca tivesse os encontrado antes… era com eles que Anko falava quando parecia estar falando sozinho?

Mas por que eles estavam se mostrando diante dela agora? Afinal não era a primeira vez que ela estava “a sós” com aquela criança…

Enquanto isso, alheio aos pensamentos de Yukari, Anko, rebelde como era, se recusava a ouvir os conselhos de meros criados e sacudiu uma mão para espantá-los para longe.

—Calados, não me digam o que fazer seus estúpidos! — reclamou — A ane-san diz que você é uma reles humana vulgar, mas que pode ser mais astuta do que parece com essa sua aparência entediante.

Ele parecia ser incapaz de falar uma frase completa sem ofender Yukari ao menos uma vez, ainda assim o tempo de Yukari parecia ser escasso, então ela decidiu se adiantar:

—Anko-sama, por favor, há algo que eu realmente preciso saber. — afirmou puxando o descanso da bicicleta e tirando da cesta a primeira sacola de doces do Raposa Encantada e a oferecendo ao garoto.

Anko a olhou de forma desconfiada, mas sua cauda agitou-se por de trás dele e as orelhas se moveram para frente, demonstrando que ele estava interessado.

—O que é? — perguntou se levantando com um salto e bruscamente puxando a sacola das mãos dela.

Yukari não tinha certeza se ele estava perguntando sobre o conteúdo da sacola ou o motivo de ela estar ali, mas decidiu seguir adiante:

—Você pode me contar mais sobre o baku que mencionou antes? Aquele que está assombrando minha amiga… preciso descobrir uma forma de ajudá-la.

Anko a escutou enquanto abria a caixa de cupcakes e devorava um deles avidamente, só para sorrir com escárnio depois.

—A ane-san acha que você pode ser algum tipo de onmyouji secretamente, sabia? — ele mudou completamente de assunto — Porque nosso irmão está fixado em você e você ainda tem aquele moleque sortudo na sua retaguarda. — comentou praticamente enfiando o segundo cupcake inteiro na boca de uma só vez enquanto apontava para a bicicleta. — Mas obviamente qualquer um saberia que ela só está buscando desculpas para poder te eliminar sem que o idiota fique tão chateado, aquele cara é um otário que se deixou ser cativado por uma mulher sem graça e você é tão inútil que não sabe nem sequer uma coisa tão simples dessas e só teve a sorte de nascer em uma família que por acaso é guardada por um zashiki warashi.

Yukari tirou a segunda sacola do Raposa Encantada da cestinha e a entregou ao garoto.

—Então livrar-se do baku é uma coisa simples? — quis se certificar, ignorando todo o resto do que ele dissera.

—Bakus em geral não são criaturas poderosas, na verdade eles são bem patéticos. — ele replicou se detendo quando encheu a boca com os dois últimos bolinhos o suficiente para não conseguir mais continuar falando.

Se ele se engasgasse, será que seus criados sabiam como fazer a manobra de Heimlich? Mas quando Yukari deu uma olhada neles, as criaturinhas estavam muito ocupadas fuçando a segunda sacola para prestar atenção aos arredores.

—Você ao menos sente o gosto? — Yukari franziu o cenho. — Não importa, só tome cuidado para não se engasgar, e como faço para me livrar do baku?

Anko abriu uma caixa de macarons e colocou um inteiro na boca, ele não sabia morder pedaços pequenos?

—Se livrar daquele cara é fácil, em geral eles partem assim que comem os pesadelos ou quando o humano estúpido que os convocou encerra o contrato, em todo caso, se o parasita se aferrou demais ao hospedeiro, então um amuleto simples deve resolver… o problema é alcançar a criatura, elas não vivem no mesmo plano que nós, então minha mãe disse que nessas horas os humanos feiticeiros usam shikigamis.

Anko explicou enquanto empilhava três macarons e os analisava atentamente abrindo ligeiramente a boca de tempos em tempos, como se estivesse avaliando quantos deles conseguiria comer de uma só vez.

—Um… plano diferente? — Yukari não sabia se havia compreendido direito.

Por fim, Anko resolveu enfiar apenas dois macarons na boca.

—Há muito mais do que esses seus patéticos olhos humanos podem ver, mulher estúpida. — argumentou traçando no chão duas linhas paralelas — Preste atenção, os humanos e tudo que os cerca vivem aqui, no plano físico. — ele colocou um macarom no chão, abaixo da primeira linha — Mas a maioria dos youkais vive aqui: no plano espiritual. — explicou colocando um segundo macarom acima do primeiro, entre a primeira e a segunda linha — Alguns youkais podem interferir ou transitar livremente entre os planos, assim como há alguns humanos que podem enxergar o plano espiritual e interferir com ele às vezes… mas o baku não está nem aqui nem lá, ele vive na psique humana, pulando de sonho em sonho, basicamente ele está, assim como nós agora, em uma espécie de plano próprio entre os planos, praticamente inalcançável a quem não souber exatamente como invadir.

Finalizou colocando um terceiro macaron exatamente sobre a primeira linha, franzindo o cenho Yukari se abaixou para olhar aquela rústica demonstração mais de perto.

—Estamos entre os planos? — perguntou sem compreender.

—Eu tenho que explicar tudo? Humanos são criaturas muito estúpidas, por isso se afogam tão fácil! — Anko girou os olhos comendo o último macaron da caixa e então apontando para aquele que deixara sobre a linha — Estamos em um mundo de raposa agora, ele não é exatamente o cemitério real onde você entrou, mas sim uma réplica além dele… porém ainda não exatamente dentro do mundo espiritual, pense nisso como um bolsão de ar ou o limiar entre os dois mundos, é por isso que aqui você vê esses caras. — indicou com o polegar as pequenas raposas que os observavam de dentro da sacola de doces — Porque aqui não existe divisão entre o físico e o espiritual, mas se eles não a tivessem deixado entrar você nunca nos encontraria, nem mesmo humanos com a Visão poderiam nos encontrar. É impossível nos alcançar ou sair daqui se não souber como fazer ou tiver o poder para tal… a menos que houvesse uma porta dos fundos, mas a ane-san nunca daria uma coisa dessas.

—É por isso que o segundo jovem mestre está preso aqui até que a jovem dama retorne e abra caminho para ele. — os criados riram.

—Ora calem-se seus estúpidos! — Anko se estressou tentando agarrar os criados, mas eles imediatamente voaram para longe e sumiram entre as lápides.

Yukari os seguiu com o olhar, mas se foram eles quem permitiram a entrada dela ali e Anko era incapaz de abrir a passagem por si mesmo, isso significava que eles eram mais poderosos que aquele garoto?

—Então o baku criou seu próprio território inalcançável…? — perguntou voltando sua atenção novamente para ele.

Anko estava agora recolhendo os macarons do chão e comendo um a um para o horror de Yukari.

—É basicamente a mesma ideia, eles podem ser expulsos com amuletos simples, mas alcançá-los pode não ser tão simples, minha mãe dizia que ela preferia só expulsá-los ao invés de matá-los, porque alguns são cultuados em templos. — deu de ombros puxando a segunda sacola de doces para si — Eu poderia lhe mostrar como fazer o amuleto, mas isso e até a questão de como você o alcançaria depois seriam apenas a parte mais simples da coisa.

Yukari mordeu o lábio inferior.

—E… qual seria a parte complicada?

Tirando de dentro da sacola uma delicada caixa de papelão que guardava duas fatias de bolo de limão, Anko sorriu-lhe cruelmente.

—Ora, que nada disso irá garantir a segurança da sua amiga idiota ou sequer que ela saia viva ao final!

Falando de forma tão alegre e despreocupada sobre a morte de alguém. É claro que aquele menino não era uma criança comum, apesar de seu rosto fofo ele era um youkai, e raposas, inclusive seus filhotes, podiam realmente ser seres muito cruéis e egoístas, elas não se importavam com humanos e tendiam até a se divertir com seu sofrimento… mas às vezes, muito raramente, uma humana era capaz de se instalar no coração de uma raposa, ainda que fosse a mais egoísta delas.

Gintsune não sabia por quanto tempo havia dormido, podiam ter sido minutos ou dias, mas quando despertou Yukari automaticamente desapareceu e ele gemeu lamentando a perda, uma cauda felina se balançou próxima ao seu focinho e ele virou-se deitando de barriga para cima, reassumindo sua forma humana e ouvindo as reclamações do trio de gatos em seu entorno.

Isso o fez soltar um breve riso de escárnio de si mesmo.

Anteriormente ele gostava de aproveitar suas noites e esvaziar sua mente cercado de bebidas caras e amantes ocasionais, e agora se encontrava caído cercado de gatos depois de ter se enchido de cerveja barata de loja de conveniência? Patético!

Mas não havia nada que podia ser feito a esse respeito, pois agora o único corpo ao qual desejava era o daquela mulher.

—O que aquela mulher fez comigo? — lamentou cobrindo os olhos com o antebraço enquanto os gatos se afastavam incomodados. — Eu a toquei, provei de seu cheiro, seu corpo e sua pele, eu já não posso simplesmente me abster dela agora… mas ela me afasta assim?! — virando-se ele abraçou o dorso desnudo e dobrou-se trazendo os joelhos para junto do peito — O que faço… o que terei que fazer… para ter essa mulher? — Deitado em posição fetal Gintsune pensou em Yukari, em seu cheiro e sua voz, e na dor quase física de seus desejos não saciados e pensou em como uma mulher que a primeira vista parecia tão tediosa e simples… poderia tê-lo enredado daquela maneira. — Eu a desejo… — admitiu encolhido no futon sem nada que o cobrisse exceto pelas calças que vestia — Eu a quero dolorosamente… mas o que preciso fazer… para possuir essa mulher?

Ele ouviu a porta sendo aberta, mas ainda assim não se mexeu.

—Gintsune-sama, está acordado? — Kakeru o chamou — Eu preciso sair agora para comprar algumas coisas, tem algo que queira?

Yukari era o que ele queria. Ainda sem fazer qualquer movimento para se levantar, Gintsune esticou o pescoço e viu os pés de Kakeru parados à porta, dois gatos — Hana e Tsuki — se esfregavam aos calcanhares dele pedindo por comida, mas Yuki não se via em canto algum.

Gintsune não sabia se Kakeru o havia escutado ou não, mas decidiu ignorar esse fato.

—Kakeru me empreste algumas roupas. — pediu e finalmente fez algum movimento para ergue-se, apoiando-se sobre os cotovelos e arrastando-se para fora do futon — E sapatos, não posso simplesmente sair usando apenas calças afinal.

Na verdade ele até podia, o frio e os olhares humanos não eram capazes de incomodá-lo afinal, só não queria.

Ainda não se sentia completamente recuperado, mas a essa altura o corte em sua barriga havia parado de sangrar e se fechado deixando para trás apenas uma fina cicatriz que provavelmente já teria desaparecido até a manhã seguinte, a febre havia desaparecido e já não sentia tanta vertigem e o estômago revirado a cada movimento seu, o que indicava que talvez aquela última crise de vômito houvesse expurgado de uma vez o restante do veneno que seu corpo ainda não fora capaz absorver e que no fim da tarde ele já estaria completamente preparado para dar uma surra naquele pirralho atrevido e bocudo… tudo o que precisava agora era de um conjunto de roupas.

Mas quando vestiu as roupas emprestadas por Kakeru, quase mudou de ideia.

—Suas roupas são baratas e sem graça Kakeru. — reclamou fechando o zíper do casaco bege — Você e Yukari fazem compras no mesmo lugar por acaso?!

Além disso, as calças e as mangas do casaco ficavam muito curtas, o deixando com uma aparência idiota, mas Gintsune se recusava a diminuir sua altura, e os sapatos estavam apertados!

—Eu recebo um salário de professor em uma pequena cidade do interior, o que se esperava? — Kakeru deu de ombros sem se incomodar com as ofensas. — Mas… tem certeza que quer sair agora Gintsune-sama…? Eu o ouvi gemendo, o seu corte…

Então ele o havia escutado afinal…

—Estou perfeitamente bem, exceto por estar parecendo um professor de escola primaria do interior. — Gintsune estalou a língua e tomou a dianteira em direção à porta — Vamos logo, quero encontrar mais bebida, e você não tem comida alguma em casa também.

E de quem era a culpa que agora a única coisa em sua casa era comida para gatos e leite?! Kakeru suspirou o seguindo resignado.

—Ah é. — Gintsune-sama soltou distraidamente quando pararam diante da loja de conveniência mais próxima, que estava fechada e destruída — Isso pode ser um problema, eu realmente queria comprar algumas cervejas e cigarros… — admitiu esfregando a parte de trás do pescoço e olhando a volta — Quantas foram ontem à noite? Duas ou doze?

—V-você disse doze?! — Kakeru virou-se horrorizado.

Isso significava praticamente todas as lojas de conveniência da cidade, não é?! Como ele podia ter feito tanto caos no estado em que estava?!

—Ou podem ter sido apenas duas. — Gintsune deu de ombros afastando-se com as mãos nos bolsos — Não foi minha culpa, que tipo de loja de conveniência não fica aberta 24h?

—Em Higanbana nada fica aberto 24h! — Kakeru o seguiu aos tropeços.

—Em Tóquio há lojas de conveniência. — Gintsune reclamou olhando em volta para a cidade por onde apenas alguns carros cruzavam a rua, e essa era a época de alto movimento! — Eu nunca me perguntei sobre isso antes, mas aqui há algum bar?

—Um bar?

—Sim, você sabe, são aqueles recintos que se dedicam a servir bebidas alcoólicas, é claro que eu não espero nada como o País das Maravilhas, mas ainda assim deve haver algo do tipo por aqui, certo?

Kakeru coçou a cabeça, ele não tinha muita certeza sobre o que Gintsune-sama queria dizer com “País das Maravilhas”, mas ainda assim respondeu:

—Deve haver alguns pequenos bares nas ruelas do centro comercial, e há também outros dois maiores por lá… eu acho, mas o Higan é o mais antigo e clássico… ele não fica no centro comercial, no entanto, pertence a uma das famílias antigas de Higanbana e diz a lenda…

—Então há bares afinal! — Gintsune se entusiasmou o interrompendo.

—Mas nenhum que esteja aberto a essas horas do dia! — Kakeru salientou. — Se tudo o que quer é um pouco de cerveja e alguns cigarros, a Tenda de Maki-chan deve estar aberta, ela fica subindo aquelas escadarias…

De repente ele avistou outra loja de conveniência destruída e entrou em pânico ao se dar conta de que poderia ter deixado os comerciantes de bebida da região em sérios problemas!

—Não, naquela rua ali eu não entro. — Gintsune respondeu seriamente, antes de virar-se para Kakeru com um sorriso despreocupado: — Façamos o seguinte então Kakeru: você vai até lá e me compra um pacote de cervejas e um maço de cigarros, não me importa a marca, mas não compre os mais baratos como faz com suas roupas, e eu te espero lá no centro comercial, no Raposa Encantada.

—O que? — piscou surpreso.

Mas Gintsune se limitou a acenar-lhe distraidamente por cima do ombro e seguiu se afastando despreocupadamente não lançando mais do que um breve olhar carrancudo às escadarias que levavam à rua da tenda de Maki-chan… sua linda irmã gostava do ambiente do Raposa Encantada e havia apreciado muito o chá de rosas especial da temporada do dia dos namorados que estavam servindo ali, então quem sabe ele não poderia encontrá-la por ali ou até comprar uma doce para ela?

Afinal se Gintsune continuasse a evitando por muito mais tempo para não preocupá-la, isso seria exatamente o que aconteceria… além de que aparecer de mãos vazias depois de dois dias teria parecido muito antinatural.

E também, agora que pensava nisso, o Raposa encantada oferecia ótimas tortas de chesecakes, ele podia comprar uma ou duas fatias para Yukari, e talvez isso a acalmasse um pouco e a fizesse ver as coisas pelo seu lado, afinal ele não tinha feito nada de errado… certo, até parece.

Como se um pedaço idiota de torta fosse realmente capaz de fazer Yukari enxergar as coisas de forma mais racional e entender que era completamente ilógico ficar com raiva dele quando ele só havia feito o necessário para proteger sua família… e a ela também! Que mulher mais ingrata!

—Ah Yousuke, você realmente ficou mais de uma hora nesse frio só para me conseguir esse chesecake? — uma voz melosa falou próximo dele.

—Bem Hina, você estava tão brava que eu me senti na obrigação de fazer algo para compensar…

Descendo a rua na direção oposta a dele vinha um casal todo grudento e agarradinho, com a garota se agarrando ao braço do rapaz que, sorrindo igual a um idiota enquanto segurava na outra mão uma caixa com o emblema do Raposa Encantada… ah, que irritantes, Gintsune trincou os dentes.

—Sim, mas você não precisa se desculpar Yousuke, eu sinto muito, eu estava errada, eu devia ter escutado o seu l…

Aquela mulher grudenta e melosa estava dizendo quando Gintsune por acaso esbarrou no namorado ridículo dela ao passar e o fez derrubar o embrulho com as fatias de torta e, ops, pisou em cima também.

—Poxa, que desastrado eu sou. — sorriu cinicamente ainda com ambos os pés em cima do pacote amassado.

—Oi! Qual o seu problema?! — aquele homem, Yousuke irritou-se.

—Foi um acidente, a culpa não foi minha, a rua é muito estreita e vocês estavam aí ocupando tanto espaço… — deu de ombros cruzando os braços atrás da cabeça e desviando o olhar para longe. — Eu já pedi desculpas, não pedi?

—Não pediu!

—Não pedi? — olhou-os de lado com um sorriso de escárnio — Falha minha, mas meus sapatos ficaram sujos estão vendo? É verdade que são umas coisas baratas, mas acho que isso nos deixa quite então.

Deu de ombros mais uma vez e virou-se já se afastando de ambos… mas Yousuke o agarrou pelo braço.

—Espere um pouco aí! Eu trabalhei duro para conseguir essa torta para Hina, você tem que nos compens… ah! — suas reclamações foram interrompidas por um grito de surpresa. — AAAAAAAAAAH! MINHAS CALÇAS!

—Yousuke!

Hina gritou em pânico o empurrando no chão em uma tentativa desesperada de apagar as chamas espontâneas que haviam acendido em suas calças enquanto Gintsune saía assoviando despreocupadamente com as mãos nos bolsos.

Mas infelizmente aqueles não eram os únicos, percebeu com desgostos instantes depois, para onde quer que ele olhasse havia casais passeando pelo centro comercial, todos andando grudadinhos e melosos. Que irritantes.

—Dá licença, estou passando. — reclamou enfiando ambas as mãos entre um casal que andava junto demais e deliberadamente forçando sua passagem entre eles — Tenham um pouco mais de decoro, sim? Nós estamos em uma via pública!

Casais idiotas e irritantes, por que eles ficavam andando assim coladinhos na rua e dizendo coisas melosas enquanto Yukari nem o deixava se aproximar dela em seu quarto a sós… e a situação estava ainda pior naquela cafeteria cheia de coisas fofas!

—Perdão senhor, mas estamos lotados! — uma garçonete vestida de maneira fofa correu para interceptá-lo assim que Gintsune passou pela porta, depois de ignorar toda a gigantesca fila lá fora.

—Estão mesmo? — ele sorriu-lhe encantador tocando-lhe o rosto delicadamente — Por que acho que aquela mesa ali acabou de desocupar…

Indicou uma mesa de onde um casal — outro maldito casal — acabava de se levantar. A garçonete corou.

—Sim, é verdade, mas… temos uma fila de espera lá fora, o tempo estimado é…

Gintsune inclinou-se para se aproximar um pouco mais da orelha dela.

—E não está tudo bem? Eu não vou demorar… só quero comprar alguns cafés e bolinhos para a viagem querida…

E assim ele foi guiado para uma mesa recém liberada por uma garçonete de pernas bambas que quase havia derretido nos braços dele momentos antes. Por que com Yukari não podia ser simples assim? Suspirou sentando-se. Afinal por que ele teria que ficar lá fora esperando no frio por um tempo longo e indeterminado só para depois entrar e passar mais tempo ainda de pé na frente do balcão enquanto todos aqueles casais ridículos ficavam ali dentro aquecidos e confortáveis trocando carícias em suas respectivas mesas?

—Então querida, eu gostaria de um café frappé e uma dúzia de mufins de sabores vaiados para a viagem, e não economize no chantilly. — pediu entrelaçando seus dedos com os dela — Também quero um pouco daquele chá de rosas especial.

Que um casal ficasse esperando mais trinta ou quarenta minutos lá fora não iria matá-los!

—Chesecake de morango… — ele murmurou consigo mesmo lendo o cardápio enquanto aguardava — Limões combinariam mais com aquela mulher.

Reclamou estalando a língua e deixando o cardápio de lado, foi quando notou que uma mulher estava o observando, mesmo que o namorado estivesse bem diante dela falando uma torrente de bobagens que ela sequer parecia estar escutando.

Gintsune fixou seus olhos nela apoiando o rosto sobre a mão e sorriu-lhe, isso bastou para fazê-la sorrir de volta com uma expressão desconcertada e corar muito levemente… o que fez o companheiro dela de repente calar-se e virar-se para ver o que tinha lhe chamado a atenção daquela forma, deparando-se com Gintsune ali.

—Riko, o que está fazendo?! Eu estou bem aqui! — ele reclamou automaticamente.

Como se saindo de um transe, Riko se sobressaltou.

—O que quer dizer Jun?

—Você está aí encarando aquele sujeito bem na minha frente!

Pega em fragrante, Riko corou.

—E-eu não! — negou, embora seus olhos continuassem a ser atraídos para Gintsune, que ainda lhe sorria — Eu só estava pensando que… estou com um pouco de pena dele.

A expressão de Gintsune se fechou. Pena?

—Pena? — o namorado repetiu intrigado.

E então abaixando o tom de voz para que as outras mesas — inclusive a de Gintsune — não os ouvissem ela confidenciou:

—Sim, afinal ele é o único sozinho aqui e eu fiquei pensando… talvez ele tenha levado um bolo ou sido largado?

Mas é claro que Gintsune ouviu. Que mulher mais atrevida!

Se a situação fosse outra ele poderia ter se divertindo a seduzindo, ou seduzindo ambos, e depois assistindo o relacionamento deles implodir… na verdade poderia fazer isso com vários casais de uma vez, mas isso foi antes, agora ele e Yukari tinham um acordo de exclusividade até que um cansasse do outro, independente se ela o havia enxotado de novo, Gintsune não estava cansado dela, portanto Yukari não poderia escapar tão facilmente assim dele.

Na verdade, mesmo se não houvesse o acordo, ele não sentia a mínima vontade de ter brinquedos agora… tudo o que ele queria era aquela mulher ranzinza com coração de gelo.

Gintsune desviou o olhar, mas não importava para onde olhasse, aquela mulher, Riko, tinha razão: todas as mesas estavam ocupadas por casais irritantes que falavam e trocavam carícias segurando as mãos nauseantes por cima da mesa, como se quisessem esfregar seus relacionamentos na cara de todos. Queria ir embora dali o quanto antes.

—Querido cliente. — a garçonete estava de volta com um saco de papel e dois copos descartáveis com tampa — Seu pedido está pronto.

—Ah sim, muito obrigada. — agradeceu a pagando com um par de folhas encantadas e uma piscadela.

No entanto, ele não pôde sair daquele lugar sem deixar de ouvir aquele patético namorado enciumado dizer à sua namorada Riko enquanto passava:

—Obviamente tem algo errado com ele Riko, quem viria a esse lugar sozinho nessa época do ano? Ele deve ser um babaca que foi largado pela namorada e…

—Shhhh, Jun, ele pode ouvi-lo! — a namorada implorou com um olhar de urgência que variava entre o namorado e Gintsune que se aproximava.

Havia uma xícara de chocolate quente diante dele na mesa — e que só talvez tenha começado a borbulhar se aquecendo ainda mais com a aproximação da raposa —, mas infelizmente o lugar estava tão cheio que ao passar por eles Gintsune acabou esbarrando na mesa e fazendo com que a xícara de chocolate fumegante caísse toda sobre as calças do paspalho.

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—Quente! — ele gritou às costas de Gintsune — I-isso queima! Argh!

Justo quando estava com uma mão na porta para sair, Gintsune virou-se e viu o escarcéu que aquele sujeito estava fazendo pegando vários guardanapos de papel e os esfregando na virilha manchada e fumegante. Sorriu. Ao menos tinha certeza que ele não iria se divertir naquela noite.

Mas então ele prestou atenção nos outros casais presente: todos haviam parado suas conversas e flertes triviais para assistir a cena. Mas e depois? Eles seguiriam com seu dia feliz de pombinhos irritantes e grudentos?

Gintsune estalou a língua e de repente todos os detectores de fumaça do lugar dispararam e água começou a jorrar sobre as pessoas, as fazendo gritarem surpreendidas e começarem a ficarem rapidamente encharcadas.

Foi uma estádia bem curta e irritante, mas ao fim Gintsune saiu para o ar frio do lado de fora com um grande sorriso. Esperava que todos pegassem pneumonia!

—O que houve ali?

Kakeru perguntou confuso quando o encontrou do outro lado da rua ainda assistindo o caos que se instalara na cafeteria.

—Quem sabe? — Gintsune deu de ombros tomando um gole de seu café frappé — Você trouxe meus cigarros?

—Ah… sim, claro. — Kakeru tinha dificuldades de desviar o olhar da cena — E também as cervejas, embora isso não faça bem à minha imagem…

—Ótimo, coloque um na minha boca e acenda. — Gintsune o interrompeu sem se importar com as queixas do professor enquanto usava a mão livre para pegar a sacola que ele trazia.

Sem muitas opções, Kakeru o obedeceu.

—Eu preciso levar isso para a minha linda irmã enquanto ainda está quente… — Gintsune fechou os olhos e tragou profundamente — Então talvez enquanto ela estiver distraída eu possa pegar o fedelho e…

Ele abriu os olhos de repente, as chamas de Yukari haviam se acendido!

*.*.*.*

Um par de serpentes, uma vermelha e uma azul, estavam enroscadas em torno dos quadris e peito da jakotsu-baba quando ela avaliou o disco de pedra batendo-lhe duas vezes com o cachimbo.

—Hum. — murmurou virando-o de um lado para o outro — Esse aqui é um lacre muito bem confeccionado, que trama detalhada, é nítido que isso se trata do trabalho de uma feiticeira experiente. — declarou deixando o disco de pedra sobre a mesa enquanto o par de serpentes se enroscavam em seu pescoço e sibilavam — É verdade que o mestre tem se envolvido em muitas lutas pela nossa segurança ultimamente, ainda assim todos nós aqui na cidade ficamos muito assustados quando aquela contenda começou sobre nossas cabeças! E quando o incêndio começou, nós não sabíamos o que estava acontecendo — ela tragou o cachimbo observando o disco de pedra — Isso foi obra das raposas? Nós avisamos ao mestre que elas estavam causando muitos problemas na floresta, embora a maior parte fossem apenas pegadinhas.

Sim, bondoso demais para o próprio bem e de todos ao seu redor na verdade, essa era a natureza de Ryosuke-sama.

Kanji retorceu as mãos nervosamente.

—Elas haviam dado suas palavras de que não causariam problemas… graves. — tossiu — E que sua estadia aqui seria pacífica.

Apesar de que ele mesmo havia alertado ao mestre sobre a periculosidade daquelas raposas traiçoeiras por diversas vezes.

—Humpt! Deram sua palavra, pois sim! — a bruxa desdenhou bufando — Somente youkais fracos demais para se protegerem sozinhos e aqueles que dedicaram sua lealdade se comprometem a viver em comunidades como essa, e aquelas raposas não eram nenhuma dessas coisas, é óbvio que elas trariam calamidade, o mestre foi um ingênuo! Afinal no que ele estava pensando quando não as expulsou de uma vez?!

—As raposas… perderam seus filhotes. — Kanji tentou justificar o injustificável.

—Eu soube que houve um massacre na floresta também, mas é claro que os sobrevivente, se houveram sobreviventes, serão compreensivos, certo? As raposas perderam seus pobres filhotinhos. — a velha bruxa comentou como se não fosse nada, tamborilando na mesa com os dedos ossudos da mão esquerda enquanto a cobra vermelha deslizava por seu braço. — E agora que já não contamos com a proteção do mestre, quantos mais massacres virão? O mestre se responsabilizará por isso? Alguns já começaram a deixar a cidade, eu deveria fazer o mesmo!

De repente Kanji foi ao chão, ajoelhando-se e curvando-se até que a testa ficasse colada ao tatame.

—Não, por favor, avó, não nos abandone quando mais precisamos de sua sabedoria! — suplicou — Diga-nos o que podemos fazer por Ryosuke-sama…! Algo… ainda pode ser feito por ele… certo…?

A serpente azul arrastou-se pelo chão e sibilou junto ao rosto de Kanji, tocando-o com sua língua fria, mas ele não se moveu.

—É claro que sim, acalme-se, nem tudo são más notícias, Kanji-san, se Ryosuke-sama foi selado isso significa que as raposas não conseguiram finalizá-lo e que ele ainda estava em condições suficiente para ser um risco a elas, mas esse é um feitiço delicado, o dragão preso em pedra… que mulher astuta e cruel é aquela raposa, se a pedra se quebrar… o mestre pode ser perdido para sempre. — a bruxa semicerrou os olhos cruzando os braços — Selos podem ser sortilégios muito complexos e difíceis de quebrar, mas o mestre provavelmente será capaz de quebrá-lo e escapar por conta própria. — a velha youkai determinou tragando o cachimbo, mas antes que Kanji pudesse suspirar aliviado e erguer a cabeça, ela completou: — Em um ou dois séculos.

—Um ou dois séculos?! — Kanji espantou-se se levantando boquiaberto — Mas isso é tempo demais!

—Eu concordo, nesse meio tempo não restará nada além de uma terra desolada da nossa cidade. — avó soprou a fumaça — Mas se Ryosuke-sama não levasse a prática de feitiçaria apenas como um passatempo, e se aplicasse mais, talvez ele pudesse escapar em uns cinquenta anos.

—Mas isso ainda seria tempo demais avó, por favor! — Kanji implorou — Realmente não há nada que se possa fazer?!

Deslizando pelo chão o par de serpentes se enroscou aos tornozelos e pulsos do grou, mas ele nem sequer pareceu se dar conta.

—Claro que isso são apenas hipóteses de casos em que Ryosuke-sama tentaria escapar de seu selo, o que, dada a sua natureza excessivamente gentil, eu duvido muito que ocorra. — a velha bruxa seguiu falando como se estivesse em um monólogo e lançou um olhar de pena ao disco de pedra — Temo que se o deixarmos como está, nem em mil anos o mestre tentará escapar.

—I-isso é impossível! — Kanji assustou-se, finalmente ergueu a cabeça — Por que o mestre não tentaria se libertar?!

A bruxa tocou o disco de pedra com o cachimbo.

—Nesse momento o mestre está completamente desconectado de nosso mundo, ele não pode ouvir e nem ver nada do que acontece aqui fora, ou seja, se ele usasse seu poder para tentar quebrar o lacre ele provavelmente não conseguiria fugir de primeira, mas o seu poder certamente escaparia… e o que você acha que aconteceria então Kanji-dono? — quando o grou não emitiu resposta alguma, a velha bruxa suspirou exalando a fumaça do kiseru — Todos nós aqui seríamos incinerados é claro, e você sabe o quando chamas de dragão são problemáticas de serem apagadas. — Ao ouvir as palavras da bruxa, a serpente vermelha ergueu-se sobre o abdômen e sibilou com força — Sim, você sobreviveria sem problemas, mas realmente valeria a pena sem eu e sua irmã aqui? — e então se voltando para Kanji novamente completou — Então, caro grou, quantas vidas você acha que se perderiam com as sucessivas tentativas de Ryosuke-sama de quebrar o selo até ele conseguir escapar? Que feiticeira mais astuta e cruel… não é um selo que seja impossível para o mestre escapar em cem ou duzentos anos, mas ela sabe que ele jamais tentará algo… ela o condenou a uma prisão eterna por sua própria bondade.

Tremendo Kanji sentiu as lágrimas descendo pelo rosto.

—Então não há nada que possamos fazer pelo mestre?

—Eu não disse isso. — a bruxa retrucou levantando-se com dificuldade — O jeito mais simples seria pedir para a feiticeira que ela retirasse o feitiço, mas isso obviamente é impossível.

—Obviamente. —Ainda sem conter as lágrimas Kanji mordeu o lábio inferior até que sangrasse.

Deslizando por cima da mesa a cobra azul abriu a boca até que ela parecesse ter três vezes o tamanho da sua cabeça enquanto se aproximava do disco de pedra…

—Por isso levarei o disco comigo. — a bruxa determinou — Não é um lacre impossível de se romper, eu lhe garanto, mas a trama é muito intricada, então pode ser que demore uma ou duas estações até lá… isso basta para você?

—Sim, por favor, avó. — Kanji suplicou voltando a se curvar e colar a testa ao tatame, o manchando com suas lágrimas e sangue — Faça o que for preciso, mas liberte nosso mestre!

A jakotusu-baba o olhou em silêncio por um longo momento.

—A gratidão e a lealdade devem estar entranhadas em seu sangue, foi sua mãe quem uma vez se apaixonou por um homem humano que a salvou, e por ele sacrificou quase todas as próprias penas em um tear, não é mesmo?

—Minha avó. — Kanji a corrigiu sem erguer o rosto — Minha mãe era a filha deles, embora ela nunca tenha conhecido o pai humano e tampouco ele soubesse d existência dela.

—Sim, isso mesmo, aquele homem traiu a confiança do grou e a espiou quando ela disse para não olhar, vendo-a em sua verdadeira forma, então por mais que o amasse depois dessa traição ela partiu sem olhar para trás, todos conhecem bem essa história… bem, não se preocupe pequeno grou, não vou exigir as penas que lhe restaram por esse serviço… afinal este que foi selado em pedra também é o meu mestre. — observando a cobra azul engolir o disco de pedra, a velha bruxa acenou tragando o cachimbo e estendeu o braço para que a serpente pudesse subir por ele — Eu trarei nosso mestre dragão de volta.

Jurou.

Kanji não tinha palavras para exprimir sua gratidão, mas continuou a murmurá-las infinitamente enquanto a serpente vermelha deslizava por cima de seu corpo e subia de volta pelas pernas da bruxa.

Nenhum deles percebeu as pequenas criaturas que os espiavam pelas frestas do telhado:

—Eles devem estar zangados com os mestres. — uma kudakitsune sussurrou a outra.

—Temos que ser rápidas então. — a segunda kudakitsune concordou se afastando — Os mestres disseram que estão de partida…

—Mas antes a mestra precisa costurar o mestre. — uma terceira raposinha uniu-se a elas entre risadinhas — E nós precisamos encontrar o aquilo que viemos buscar.

—Sim. — as outras duas contiveram suas risadinhas, não querendo ser encontradas — Afinal como a mestra poderia partir, sem levar consigo sua querida amiga humana?

Assim, rindo e se contorcendo as pequenas raposas tubo se dispersaram em direções diferentes.

Afinal elas precisavam encontra a humana que sua mestra tanto estimava!


Notas finais
Você que chegou até aqui, muito obrigada. <3 Glossário: Jakotsu-baba: é uma yokai que aparece como uma velha acompanhada por duas cobras grandes. Na mão direita, ela tem uma cobra azul que controla gelo, enquanto na mão esquerda ela segura uma cobra vermelha que controla fogo. As cobras se movem de acordo com os comandos dela, como se fossem seus próprios membros Onmyouji: Historicamente, o termo designava oficiais do antigo sistema de tribunais japoneses, responsáveis por funções divinatórias. Na ficção, especialmente em animes e mangás "onmyouji" é frequentemente usado para descrever exorcistas ou magos que lutam contra demônios.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.