A Lenda da Raposa de Higanbana
35 34: As raposas no festival.
Notas iniciais
Quando Mayu estendeu a mão para o copo de água, ele foi imediatamente arrancado de seu alcance por Furin.
—Não, Mayu não beba água! — ela exclamou, avançando e empurrando seus ombros para trás forçando-a a deitar — Abra a boca, eu tenho que examiná-la!
—Furin-Sama…! Furin-sama…! — Mayu debateu-se tentando tirar a raposa de cima de si.
Furin ergueu-se endireitando as cotas e gritou por cima do ombro:
—Tragam-me água quente e toalhas limpas e quero saber exatamente o que havia naquela tigela! Essa mulher é preciosa para o meu filhote, se ela morrer…!
O caos estava instalado ao seu redor, com youkais correndo para todos os lados, gritando em pânico que haviam matado a amada do mestre (?!).
—Furin-sama… — Mayu suspirou tentando levantar-se.
Mas foi empurrada novamente por Furin.
—Vai ficar tudo bem, querida! — garantiu sem olhá-la, puxando um tubo de bambo de dentro da manga e abrindo-o — Tragam minha maleta de poções agora!
Ordenou para o grupo de raposas tubo que saiu dali.
Ninguém a estava escutando, Mayu suspirou cruzando as mãos sobre a barriga com os olhos fixos no teto, em algum cantou alguém havia começado a chorar desesperadamente, aquilo já havia fugido de controle, mas ainda assim ela tentou dizer:
—O veneno não está me afetando.
Na verdade não achou que alguém a escutaria, mas Furin parou de dar ordens a todos no mesmo instante.
—O que foi que você disse querida? — perguntou piscando.
—O veneno na comida não está me afetando. — repetiu, mas não tentou se levantar uma terceira vez: — Eu não chego a ser imune, mas considerando os padrões humanos eu tenho grande resistência a venenos. — explicou — Há quanto tempo acha que estou nesse mundo, Furin-Sama? Meu corpo já se acostumou a ser constantemente envenenado pelo ar nocivo daqui.
Por um longo momento Furin limitou-se a apenas encará-la em silêncio, enquanto o caos e o desespero reinavam em volta de ambas até que de repente, mesmo entre os gritos e o choro, Furin simplesmente começou a rir.
—Oh querida, você é tão encantadoramente surpreendente! — exclamou entre risadas, cobrindo o rosto com sua máscara de raposa branca — Está tudo bem, tudo bem! Foi um engano! — riu desconcertada — Mas então o que foi aquilo tudo? Estava pregando-me uma peça?
—Nada disso. — Mayu levantou-se cuidadosamente, ainda receosa de ser empurrada novamente — Acontece que me engasguei e isso é tudo.
—Engasgou-se! — repetiu Furin entre risadas — Mas antes fez uma cara tão assustada que eu realmente achei que estivesse morrendo!
—Bem, é óbvio, não é sempre que me pedem meu sangue.
—Ah, foi isso? — Furin retirou a mascara e cobriu os lábios com a ponta dos dedos — Á última vez que vi alguém fazer uma expressão como àquela, foi quando meu raio de sol roubou uma de minhas máscaras e fugiu e eu disse ao meu marido que queria ter outro filhote, por isso a sua cara assustou-me!
Os youkais em volta aos poucos começaram a se dar conta que a mulher raposa, que até poucos instantes atrás estava gritando ordens, agora ria descontraída e alguém inclusive desmaiou de alívio quando percebeu que a humana “se erguera dos mortos”, mas os ânimos ainda não haviam se acalmado por completo quando as portas da casa de chá se abriram repentinamente:
—Onde ela está?! — gritou Satoshi.
Ele entrou correndo no estabelecimento procurando desesperadamente pela esposa.
—Estamos aqui. — Furin chamou-o levantando-se e acenando.
Satoshi foi direto até elas, e abraçou-a apertado contra si.
—Está tudo bem. — Mayu alegou entre risadinhas — Foi só uma tigela de chá de folha de beladona e arroz, você sabe que eu…
Então ele a afastou, segurando-a firmemente pelos ombros.
—Que história é essa de que agora você é a “amada prometida de Ryosuke-sama”?! — perguntou desesperado.
Ah… isso talvez fosse um pouco mais difícil de concertar.
Mayu começou a rir nervosa e desconcertada.
—Eu posso explicar…
E então as kudagintsunes de Furin voltaram com sua mala de poções.
*.*.*.*
O outono estava no fim e quase todas as árvores já estavam despidas da maior parte de seus belos e vibrantes tons de vermelho, dourado e laranja, enquanto a temperatura continuava a cair rapidamente… mas ainda assim um garoto de longos cabelos negros corria nu por aquela floresta, se pendurando, balançando e saltando de galho em galho.
Ficar ao ar livre não era uma de suas atividades favoritas, mas precisava admitir que poder se mover assim de vez em quando era até bem legal, impulsionando-se para frente ele atirou-se no ar e agarrou o galho seguinte, dando um giro de 180° antes de sentar-se ali com uma perna de cada lado. Agora… tinha quase certeza que fora, mas ou menos naquele ponto da estrada que sentira a leve fragrância da última vez, não é?
Fechou os olhos e aspirou fundo, procurando… procurando… procurando… ali estava!
Era muito suave, quase indetectável até, mas estava bem ali, ele inspirou profundamente mais uma vez e saltou do galho, embora estivesse a mais de sete metros do chão e dali ele correu, tal como da última vez, foi muito difícil seguir o perfume, pois ele vivia a todo instante desaparecendo e reaparecendo, suave e fugaz como um sonho, mas se no templo de Inari havia um antigo uchikake de sua querida irmã, teria ela passado por aquela montanha também? E o que ela poderia ter deixado ali?
Sua curiosidade estava atiçada agora, definitivamente ele precisava descobrir…! E novamente seu caminho encerrou-se num barranco.
Gintsune parou estupefato, será que havia errado o caminho de novo?!
Ele andou inquieto de um lado para o outro, tentando captar o rastro daquele suave perfume mais uma vez, até que, por fim, subiu na cerca e tentou ver melhor o que havia além daquele barranco, aquele não podia ser realmente o fim do caminho, não fazia sentido algum! Na outra vez estava sem tempo e preocupado com Yukari, mas agora iria até o fim!
E ali estava novamente o perfume, sorriu fechando os olhos antes de saltar, ele flutuou no ar por alguns instantes e então pousou com leveza sobre um pé só… mas assustou-se e caiu sentado ao abrir os olhos e dar de cara com um horoka!
Por que um horoka teria o perfume de sua querida irmã?!
Se bem que ela também havia deixado o uchikake em um templo… então… Gintsune agachou-se engolindo em seco e aproximou as mãos do pequeno santuário.
—Com a sua licença, eu não estou tentando roubar nada, juro. — murmurou a fosse qual fosse o deus que residisse ali.
Mas tudo o que havia ali dentro era uma máscara lisa e branca. Gintsune piscou desconcertado. E podia até ser bastante tênue, mas ela certamente estava impregnada com o perfume de sua irmã.
—Ora, parece que você encontrou o templo da Deusa Sob o Luar, pequenina. — alguém disse aproximando-se pelas suas costas, uma humana a julgar pelo cheiro — É uma hóspede da pousada?
Gintsune não se incomodou em corrigi-la que, naquele momento, era um garoto.
—Minha irmã e eu estamos passando algum tempo por aqui. — confirmou vagamente. — Quer dizer que a divindade que mora aqui é a Deusa Sob o Luar?
Agachado e com os longos cabelos negros cobrindo-lhe as costas, era impossível para a mulher que se aproximava ver que a criança com a qual falava estava completamente nua.
—Sim, é a deusa dessas montanhas, ela protege os viajantes nas noites escuros, conhece a história?
E quando Gintsune balançou a cabeça a mulher ficou muito contente em poder lhe contar, tão distraída com sua própria história que demorou bastante a dar-se conta da falta de roupas da criança ao seu lado…
Humanos eram tão volúveis! Momiji arqueou as sobrancelhas virando a página do livro, como poderiam ter mudado tanto em tão pouco tempo? Certamente era porque suas vidas eram curtas demais, por isso eram sempre tão inquietos…
—Irmã, eu estou de volta! — Gintsune anunciou alegremente, surgindo por entre os arbustos, ainda sem roupas e com a mesma forma infantil com qual saíra, ele ergueu o braço mostrando as duas aves mortas que vinha segurando pelas pernas — Tenho uma surpresa: vou te preparar faisão na brasa! E também peguei algumas ervas das montanhas.
—Que coisa maravilhosa To-chan, tenho certeza que ficará delicioso. — Momiji baixou o livro sorrindo, mas ficou intrigada com a expressão do irmãozinho — O que foi?
Largando as ervas e as aves, Gintsune correu para o varal improvisado junto do riacho.
—Irmã o que fizestes?!
Momiji olhou-o.
—Lavei suas roupas.
Ele virou-se em choque.
—Por quê?!
—Porque estavam fedidas, por isso você as tirou, lembra? Mas disse que não as jogaria fora…
To-chan corou.
—Sim, eu disse, mas eu não quis dizer, eu… — balbuciou desconcertado — Eu não quis dizer que você deveria lavá-las, irmã, eu sinto muito, mas quando pedi que cuidasse das minhas coisas era só para que o vento não as levasse, eu… eu mesmo iria lavá-las.
—Mas se suas roupas estavam sujas é natural que eu as lave.
—Claro que não! — ele a olhou horrorizado — Você não deve fazer esse tipo de coisas irmã!
Momiji arqueou-lhe a sobrancelha, deixou o livro de lado, junto do chapéu e os outros pertences do irmão e levantou-se.
—Você está com forme To-chan? — questionou indo em direção às aves abatidas.
—Espere irmã! Espere, eu mesmo posso cuidar disso… ah! Não precisa sujar suas mãos por minha causa! — ele gritou correndo em pânico para junto dela.
Por fim ele conseguiu convencê-la de que poderia cuidar das aves e da fogueira sozinho, mas sua irredutível irmã insistiu em cuidar dos vegetais, cobri-lo com um de seus furosodes (embora ele não estivesse com frio) e se recusou a comer até que ele tivesse começado a comer também.
—É importante que você se alimente bem, ontem quando pegou o serau também não o vi comer. — ela insistiu.
—Eu estou me alimentando. — ele argumentou teimoso…
…mas sua irmã arqueou uma sobrancelha e ele comeu uma asa de faisão.
—Ouvi uma história interessante sobre uma deusa aqui nessa montanha. — comentou limpando a boca com as costas da mão — Uma deusa que certa vez, em uma noite enluarada, salvou uma mulher humana que era capaz de ouvir as vozes dos deuses…
Em algum ponto Momiji começou a reconhecer aquela história, mesmo que já não pensasse nela há bastante tempo.
—Eu me lembro daquela mulher. — comentou após terminar a refeição — Sim, eu passei por aqui quando estava a caminho daquele lugar que hoje chamam de Higanbana, mas não eram as vozes dos deuses que ela ouvia, essa montanha costumava ser bem barulhenta no passado, mas todos se calaram quando cheguei… então essa mulher apareceu, era tola, medíocre e imprudente como qualquer reles humana, subiu a montanha correndo gritando pelos deuses, e então caiu, mesmo enquanto morria não parava de gritar, eu iria silenciá-la, mas… quando me aproximei ela tinha uma vida consigo. Um ser pequeno e puro, ainda inocente.
Gintsune sorriu, embrulhando-se um pouco mais com o furisode.
—Você a ajudou, não é irmã?
—Eu encantei a máscara que estava usando naquele dia, um feitiço simples de cura, pelo bebê ainda por nascer… alguns meros humanos valem à pena, a mulher certamente não era um deles, mas talvez o bebê fosse. — confirmou — E para que ela não o pusesse em perigo novamente, selei sua audição sobrenatural.
—Você é muito gentil irmã, e agora os humanos ainda contam histórias suas, puseram as máscara em um horoka e falam sobre uma deusa sob o luar… — comentou sorrindo — É igual à história da Dama da Cerejeira, e daquele uchikake no templo de Inari lá em Higanbana, fico imaginando quantas outras histórias sua gentileza inspirou…
De repente ele parou.
—To-chan? — Momiji o chamou estranhando.
Gintsune colocou-se de pé com um salto, deixando o quimono de sua irmã cair de sobre seus ombros.
—Irmã! — chamou, com aquele seu rosto infantil transbordando animação — Vamos voltar a Higanbana? Tem uma pessoa que quero ver!
Porém aquele talvez não fosse o melhor dos dias para duas raposas estarem de volta a Higanbana, especialmente no colégio Arashino, mas Gintsune já deveria ter desconfiado disso quando não encontraram a pessoa que procuravam em casa, mesmo sendo domingo.
—Agora escutem! — a turma sobressaltou-se quando a representante bateu com uma espada de bambu da parede, causando um alto estrondo — Isso não é um treinamento e não estamos aqui para jogar, é o segundo e último dia de festival, então as coisas ficarão sérias, entenderam?! — pronunciou-se seriamente — Ano passado só conseguimos o primeiro lugar no festival por uma diferença ínfima contra aquele Maid Invertido Café da turma 2-5!
—Ficamos em primeiro lugar no ano passado? — Tadashi Emiko questionou erguendo o olhar de suas unhas bem feitas.
—E esse ano nossa situação está muito ruim! — a representante prosseguiu: — Aquele maldito cassino da sala 2-7 está fazendo um sucesso desgraçado…!
—É uma “casa de diversão” representante. — Kijima Tenji a corrigiu.
—É um cassino e todo mundo aqui sabe! — a representante o fuzilou com os olhos — Enquanto isso ontem nós nem sequer conseguimos completar 40% do que arrecadamos no primeiro dia ano passado!
—Você calculou até isso? — Naruko Fuyuki bocejou…
…mas gritou sobressaltada logo em seguida, quando a ponta da espada de bambu da representante foi parar centímetros de seu rosto, afinal onde ela tinha conseguido aquela coisa mesmo?!
—A coisa é séria aqui, porque alguns de nós fizemos investimentos esperando altos retornos, então hoje essa Casa de Chá Kawaiii tem que ser um sucesso absoluto ou então cabeças irão rolar! — ameaçou praticamente com sangue nos olhos.
Com os olhos arregalados e engolindo em seco, Fuyuki balançou a cabeça para cima e para baixo por repetidas vezes, mal ousando fazer qualquer tipo de som, mas ninguém estava mais assombrado do que os garotos da turma.
Uma mera “Casa de Chás” havia parecido entediante demais e fora somente por insistência deles que o “Kawaiii” havia sido adicionado, e para a “Casa de Chá Kawaiii” todos haviam concordado em usar uniformes semelhantes, as garotas estavam usando camisas sociais pretas, com haoris azuis de estampas florais que faziam par com saias rodadas e bufantes na altura dos joelhos feitas do mesmo tecido e laços também combinando em suas cabeças, terminando o conjunto com meias pretas 3/8, enquanto os garotos usavam o conjunto com bermudas e ao invés de trazerem seus laços na cabeça, os traziam como gravatas em volta do pescoço, e suas meias só iam até logo abaixo do joelhos.
Mas se a representante ainda conseguia parecer à própria encarnação da fúria, mesmo estando em trajes tão fofos, então para o que é que servira tudo aquilo?!
—Kanae-chan, não é para tanto, tente relaxar e se divertir. — Professor Haruna aconselhou-a, sorrindo ao fundo da sala.
Mas quando a representante sorriu de volta para ele, o gesto pareceu mais selvagem do que feliz.
—Melhor?
Ninguém ousou responder.
Na verdade ninguém sabia exatamente porque a representante estava assim tão irritada, embora teorizassem que tivesse alguma coisa haver com o fato de que a primeira proposta da turma — alugar um imenso castelo inflável e cobrar ¥50 a entrada por 15 minutos de diversão — ter sido duramente rechaçada e categorizada pelo conselho estudantil como “uma proposta sem espírito de cooperação estudantil e nenhum propósito óbvio além do lucro descarado”.
Foi quando uma melodia suave soou pelos alto falantes da escola, seguido logo depois pela voz de um dos membros do comitê do festival anunciando calmamente: “O segundo dia do 74° Festival Escolar do Colégio Arashino está começando agora, por favor, estudantes se preparem para receber os convidados, tenham todos um bom dia e divirtam-se”, a transmissão foi encerrada com uma repetição da melodia inicial.
—Muito bem, todos vocês ouviram. — a representante recomeçou, com o sorriso nenhum pouco mais gentil — O festival está começando, e nada de fazerem corpo mole! Hongo! Shibuya…! Ah, espere, Shibuya não está aqui. — deteve-se com um estalar de língua, e olhou uma longa lista que tinha na mão — Que seja Kijima então! Vocês estão no primeiro turno, então ficarão com a divulgação!
É claro que aquela não era a única turma que estava agitada, talvez fosse a mais séria, mas definitivamente não a única a estar agitada, pois o colégio inteiro borbulhava com um crescente ar de animação e empolgação, típico dos festivais, assim como Gintsune logo percebeu.
—Oh, hum… irmã, talvez seja melhor voltarmos outro dia.
—Por quê? — Momiji o olhou — Se já estamos aqui…
—Sim, mas… — Gintsune retirou as mãos dos bolsos, passou-as pelos cabelos e voltou a enfiá-las nos bolsos, umedecendo os lábios — É melhor outro dia, hoje não é adequado. Quem sabe não esperamos Haruna em casa?
—Por que hoje seria inadequado? — Momiji olhou para o prédio do outro lado da rua — Me parece que estão fazendo um festival ali.
—É por isso mesmo…
—Então deveríamos ir. — a irmã sorriu-lhe.
Gintsune engoliu em seco.
—Não acho que seja uma boa ideia. — começou a dizer — Pensar em você no meio de toda aquela balbúrdia…
—To-chan, eu já fui a festivais antes. — ela sorriu-lhe tranquilizadora — Eles são manifestações culturais e artísticas.
—Sim, mas mesmo assim eu não quero…
—Além disso. — Momiji segurou-lhe o braço com ambas as mãos — To-chan sempre fica tão feliz e tem um sorriso tão adorável quando está se divertindo em um festival, eu gostaria de ver isso.
Como Gintsune poderia dizer “não” para um pedido como aquele?
—Tudo bem. — concordou sorrindo distraído. E Momiji enlaçou o braço ao seu, assim como havia visto nos livros que To-chan lhe trouxera. — Mas ouça irmã, não são humanos normais os que estarão lá dentro, são adolescentes. — Gintsune lhe explicou enquanto atravessavam a rua — Eles podem ser incrivelmente terríveis, e hoje é pior ainda porque estão no meio de um festival.
—Não se preocupe To-chan, não vou fulminar ninguém, sou eu que estou adentrando o território deles afinal. — ela lhe prometeu com um sorriso breve e plácido.
Bem, é claro que sim, sua querida irmã era toda uma linda e refinada dama afinal, não haveria maneira de ela não saber como se portar… o que preocupava Gintsune era a reação dos humanos perto de uma presença tão sublime!
—Eu compreendo. — assentiu tocando a mão sobre seu braço — Mas, por favor, não se afaste de mim.
—Tudo bem. — ela anuiu.
E então, já mais tranquilo Gintsune olhou a volta, acenou e chamou por alguém com crachá do comitê do festival para pedir por um itinerário.
—Veja aqui irmã, segundo esse panfleto, há dois lugares onde é mais provável que o Haruna esteja, ah e veja isso: esse ano o clube de teatro está encenando uma peça chamada “Deixe-me entrar”, sabe que ano passado eles encenaram “A raposa de Higanbana”? E eu próprio fui a… — mas quando ergueu os olhos, para seu espanto, a irmã já havia desaparecido — Irmã?!
Ele havia se esquecido de como era desconcertante quando alguém que estava justo ao seu lado simplesmente desaparecia! Especialmente porque geralmente era ele aquele a desaparecer.
—Gin-san? — alguém o chamou parecendo reconhecê-lo — Gin-san é realmente você!
Kaoru vinha se aproximando dele, carregando uma placa de divulgação e um grande sorriso, Gintsune ergueu a mão para acenar para ela, enquanto enfiava o folheto do festival em um dos bolsos da calça.
—Yo Kaoru-chan. — cumprimentou-a — Como tem passado?
—Eu estou bem. — ela parou diante dele, sorrindo radiante, sua placa de divulgação dizia “Casa de Chá Kawaiii 2-3”— Yuki não me contou que você retornou à cidade!
—Ah, na verdade isso é porque ela não sabe, acabo de chegar. — ele moveu o peso do corpo de um pé para o outro e piscou levando o indicador aos lábios, pedindo por segredo.
—Não sabe? — repetiu piscando desconcertada — Ah, entendi! Você quer surpreendê-la? Mas esse ano Yuki não está trabalhando na classe, ela…
—To-chan. — sua irmã chamou-o suavemente, retornando de onde quer que ela houvesse ido, agora com um prato de takoyakis — Experimente isso, eles estão bem quentinhos. — e só quando parou ao seu lado ela reparou em Kaoru-chan ali, e sua voz perdeu todo o calor enquanto passava a mão em torno de seu braço e perguntava: — Quem é essa, uma de suas amantes?
Era fascinante como os humanos ficavam vermelhos com facilidade, de olhos arregalados Kaoru arquejou e recuou automaticamente alguns passos, Gintsune riu e balançou a cabeça.
—De jeito nenhum, essa é uma das amigas de Yukari. — explicou aceitando os takoyakis.
—Ah, aquela garota. — sua irmã não lançou um segundo olhar a Kaoru-chan — Então vamos, To-chan?
Ela apertou seu braço um pouco mais firmemente.
—É claro. — ele concordou já se afastando junto dela, embora quisesse saber o que era um “chá Kawaiii”, mas não sem antes relembrar Kaoru de que ela precisava guardar segredo de Yukari. — Irmã aonde foi? Eu pedi para não se afastar.
—Eu vi essa barraquinha distribuindo takoyakis, e To-chan sempre mostra um rosto muito feliz quando está comendo. — ela explicou-lhe.
—Distribuindo? — ele estranhou comendo um dos bolinhos de polvo — Não vendendo?
Momiji olhou-o.
—Me deram essa porção assim que parei diante deles.
—Ah, claro que sim. — o rosto de Gintsune abriu-se em um sorriso afetuoso. Afinal que mero humano poderia resistir à imagem sublime e encantadora de sua irmã? — Ah, irmã, será que enquanto estamos entre os humanos, você poderia não mencionar meus amantes? Sabe como os humanos são moralistas…
Sua irmã arqueou-lhe uma sobrancelha.
—Está me dizendo que não se relacionou com nenhum humano aqui?
—Está bem, sabe como os humanos são falsos moralistas. — ele cedeu rindo.
E sorriu ao avistar a presidente do clube de astronomia, uma garota alegre a quem Ayaka Shiori havia conhecido muito bem depois do “concurso de príncipes e princesas” no festival do ano passado, ele já estava prestes falar à irmã sobre os possíveis locais onde encontrariam Haruna — e mencionar novamente a peça de teatro — quando, mais uma vez, algo chamou a atenção de sua irmã: uma tenda que anunciava acessórios feitos à mão.
—Sejam bem vindos. — um rapaz com uma máscara de gato os recepcionou, sua camiseta branca dizia “Acessórios Personalizados 2-2”. — Por favor, fiquem à vontade para olhar o que quiserem, todas as nossas peças são exclusivas e feitas à mão.
E indicou com um gesto amplo de mãos os vários conjuntos de pentes, kazashis, colares, brincos, anéis e braceletes ornamentados expostos ali. Eram itens bem baratos, na verdade, e visivelmente de má qualidade, Gintsune fez uma careta pegando um par de brincos com formato de borboletas de asas translúcidas pendendo de fios delicados.
—Que trabalho tão delicado. — sua irmã comentou pegando uma fita de cetim preto da qual pendia um pingente redondo com o que pareciam ser flores de dente de leão em seu interior.
—Ah, essas são flores verdadeiras preservadas em resina! — o rapaz que os atendia animou-se — Na verdade nossas peças com flores em resina estão sendo nossos itens mais populares até agora, e eles foram todos confeccionados por… Nishiwake… — ele começou a olhar de um lado para o outro como se procurasse por alguém — Ah, Nishiwake-chan! Levante, venha aqui!
Ele afastou-se por um instante e pegou pelo braço uma garota que até então Gintsune não havia reparado estar agachada nos fundos da tenda organizando algumas caixas, mas logo que a viu abriu um grande sorriso.
—Aoi-chan! — cumprimentou-a. — Já faz algum tempo, seu cabelo está adorável, sabia?
Comentou divertindo-se ao vê-la ofegar e quase engolir a própria língua quando levou ambas as mãos aos coques espetados com grampos dourados ornamentado no topo de sua cabeça.
—G-Gin-san! — gaguejou com um fiapo de voz — Eu, hum, sim, obrigada.
Seu rosto estava ficando cada vez mais vermelho e ela tinha os olhos de um animalzinho assustado que fora encurralado, Gintsune riu consigo mesmo, sempre tão divertida.
Gintsune passou a mão pelos ombros da irmã e trouxe-a mais para perto para sussurrar-lhe ao ouvido:
—Essa também é outra das amigas de Yukari.
O rosto de sua irmã era tão impassível e belo que parecia feito de porcelana, enquanto o de Aoi-chan estava a ponto de tornar-se uma romã enquanto observava-os.
—Então você é a artesã? — ela indagou em um tom só um pouco mais caloroso do que o sopro do inverno, ainda segurando a fita com o pingente de dentes de leão preservado em resina.
Se bem que eles tinham também alguns itens bem interessantes ali, distraidamente Gintsune pegou entre os dedos um grampo dourado com o formato de uma higanbana vermelha na ponta com pétalas semitransparentes e girou-o de um lado para o outro, havia também um pequeno pedaço de cristal pendendo de uma corrente fina dourada. Sorriu.
—Ar-artesã! — Aoi-chan guinchou praticamente pulando, e Gintsune conseguia ouvir seu companheiro de equipe rindo por detrás da máscara felina, parece que ele não era o único a estar se divertindo ali. — Eu não diria que é para tanto, quer dizer, eu… ah céus… é só um passa tempo…
E em desespero cobriu o rosto com ambas as mãos enquanto Gintsune se perguntava como o sangue dela ainda não havia alcançado o ponto de fervura suficiente para lhe sair fumaça pelos ouvidos. Ela estava usando um bracelete de contas vermelhas e negras intercaladas no pulso direito.
—E essa também é uma das peças que você mesma fez, Aoi-chan…?
Ele entendeu a mão para ela, mas quando as pontas de seus dedos encontraram as contas, um som baixo de brasa em água soou e pego de surpresa Gintsune afastou rapidamente a mão com os olhos arregalados ao sentir-se repelido e derrubou o prato de takoyakis que ainda segurava na outra mão
—O que aconteceu? — Aoi-chan perguntou retirando as mãos do rosto.
Deixando de lado a peça que estivera admirando até então, a irmã pousou a mão sobre seu braço.
—To-chan?
—Não, eu… quem fez esse seu bracelete tão interessante, Aoi-chan? — forçou um sorriso escondendo a mão direita, cujas pontas dos dedos haviam sido queimadas, nas costas.
—Ah, isso? — Aoi-chan fechou a mão pequena e rechonchuda em volta do pulso direito — Isso quem fez foi uma colega de classe.
—Que colega? — insistiu fechando em punho a mão que tinha escondido nas costas, sentindo a ardência na ponta dos dedos.
—Foi Sakura! — o garoto de máscara de gato adiantou-se — E ela pediu especialmente a seu tio que as abençoasse, na verdade essa pulseira faz parte de nossa coleção especial. — ele retirou de debaixo do balcão um grande expositor com várias peças e o colocou sobre o balcão — Agora com a raposa de Higanbana a solta todos precisamos ter cuidado, não é mesmo? Olhe aqui, a pedra desse anel veio diretamente dos destroços da estátua partida… Oi, senhor, está realmente bem?
Ele começou a estender a mão em sua direção, mas rápido como uma centelha, a mão de sua irmã capturou-lhe o braço.
—Não o toque. — avisou baixo e seriamente.
Gintsune ouviu o coração de o pobre rapaz acelerar, e pigarreou tocando o pulso da irmã com dois dedos.
—Acho melhor irmos agora. — pediu suspirando aliviado quando ela soltou o rapaz lentamente e passou a mão em volta de seu braço — Obrigado por tudo e desculpem pela bagunça.
Ele levou a irmã consigo, cuidando para que ela não pisasse nos takoyakis caídos.
Bem, aquilo certamente havia sido surpreendente…
—To-chan. Está realmente tudo bem com você? — sua irmã o chamou, parando em um canto do pátio e passando a mão por seu rosto para que ele a olhasse nos olhos — Deixe-me ver sua mão.
Sorrindo Gintsune afastou-se e estendeu a mão direita para a irmã, com a palma voltada para cima, e desconfiada ela pegou-a e avaliou dedo por dedo, mas mesmo quando os encontrou perfeitamente sãos, inclinou a cabeça levemente para farejar a região.
—Agora irmã. — Gintsune puxou a mão de volta e retirou do bolso o já esquecido folheto com o itinerário do festival — Agora deveríamos procurar Haruna Kakeru, não concorda? Levando em consideração a classe e o clube pelos quais é responsável, ele provavelmente está no Museu Paranormal ou na Casa de Chá Kawaiii. Então aonde que ir primeiro?
Obviamente ela escolheu a casa de chás… embora o “kawaiii” a tenha deixado levemente receosa.
Gintsune se lembrava do festival do ano anterior quando mesmo tendo duas pessoas para recepcionar os clientes na frente da turma, a fila para a atração feita pela turma de Yukari ainda permanecia tão grande que dobrava o corredor e atrapalhava as outras classes também… esse ano nem sequer se podia dizer que havia uma fila.
Graças a isso ele pôde tirar sua irmã do tumulto, e a sala também havia montado um ambiente bem confortável para descansarem, com mesas baixas e almofadas servindo de assentos.
—Sejam bem vindos à Casa de Chá Kawaiii! — Nishitake Keita os recebeu. — Posso lhes mostrar uma…?
—Nishitake, troque comigo. — Aiha ordenou chegando por trás e pondo a mão em seu ombro — Atenda aquela mesa ali, eu fico com esses.
—Ah, como quiser, representante! — ele assentiu se afastando.
Gintsune sorriu para ela.
—Olá Aiha-chan, está adorável, sabia?
Mas Aiha não era uma dessas garotas que coravam por qualquer coisinha, ela também não lhes sorriu como se supunha que uma boa funcionária deveria fazer, ao invés disso cruzou os braços e disse:
—Hongo veio aqui correndo me contar, mas mesmo assim eu não consegui acreditar. Você sumiu por semanas sem dar nenhuma satisfação e agora reaparece do nada no meio do nosso festival de braços dados com uma linda mulher de cabelos prateados?
Gintsune sorriu encantado.
—Ela é a mais linda de todas, não é?
—Mesa para dois? — Aiha perguntou com uma careta.
E sem esperar por resposta virou-se e fez um gesto para que a seguissem.
—Por favor, não se incomode com isso. — Gintsune pediu à irmã, enquanto se dirigiam a uma mesa. — Sabe como são os humanos: me amam ou me odeiam, não há um meio termo.
Momiji anuiu, e permitiu que o irmãozinho a ajudasse a se sentar.
—To-chan, eu sei que me pediu para não mencionar isso, mas essa humana foi uma de suas a…? — ela começou a falar, depois que Aiha já havia se afastado.
—Não, de jeito nenhum. — ele balançou a cabeça rindo — Não duvido que eu faça o tipo de Aiha-chan, mas ela é muito leal aos amigos. Ela é apenas uma das amigas de Yukari.
—Pelo que vejo aquela garota tem muitas amigas. — ela comentou.
—Isso nem de longe. — ele riu mais uma vez.
Aiha estava de volta para servi-lhes água e entregar os cardápios.
—Quando estiverem prontos para fazerem os pedidos, basta me chamarem. — avisou ajoelhada ao lado da mesa.
Aceitando o cardápio, Gintsune apoiou o rosto de lado sobre a mão e observou-a.
—Aiha-chan, encare isso como uma crítica construtiva: a temática desse lugar é Kawaiii, mas seu atendimento conosco não tem sido nada fofo até agora. — comentou antes que ela pudesse se levantar novamente — Se bem que esse jeito tsundere tem lá o seu apelo… e essa espada aí nas suas costas dá o toque final. Onde foi que conseguiu isso afinal?
Segurando a bandeja contra o peito, Aiha girou os olhos.
—Seria custoso demais providenciar roupas tradicionais para todos, além de trabalhoso, muitos não estão habituados com esse tipo de vestimenta, alguns de nós nem sabem como vesti-las. Então adicionamos à temática “Kawaiii” como forma de praticidade. — explicou.
Gintsune precisou rir daquilo, parece que em Higanbana mesmo aqueles que não tinham negócios de família com os quais se preocuparem ainda assim pensavam o tempo todo com uma mente de comerciantes.
Se bem que seria interessante ver Yukari com roupas acima dos joelhos pelo menos uma vez na vida, será que ela estava usando os adereços de cabelo que ele havia lhe dado no festival do ano passado? Eles combinariam bem com aquelas roupas, e até agora ela nunca os havia usado, se bem que todas as garotas ali estavam usando aqueles laços na cabeça, aquilo não combinaria com as trancinhas de Yukari, mas Gintsune não tinha esperanças de vê-la de cabelos soltos… quem sabe se ela enrolasse as trancinhas e amarrasse com as fitinhas…?
—Nem adianta procurá-la, você não vai encontrá-la. — Aiha alertou-o chamando a atenção de Gintsune, que vagava inconscientemente pela sala.
—O que?
—Shibuya não está aqui. — ela esclareceu. — Esse ano ela não está trabalhando na sala porque faz parte do comitê do festival.
—Tanto trabalho e nenhuma diversão, isso é bem a cara da Yukari, o que, na verdade, é também uma constatação bem triste. — Gintsune sorriu de lado. — Mas sinto decepcioná-la, porque não estou aqui procurando Yukari, eu vim atrás do Kakeru. Por acaso saberia onde ele está?
—O professor deve passar logo por aqui para ver como estão as coisas e conseguir alguns doces grátis. — ela respondeu-lhe crispando os lábios.
—Pode trazer-me chá de jasmim e alguns dangos. — sua irmã declarou devolvendo o cardápio.
—Eu quero uma tigela de ocha-zuka. — Gintsune pediu também devolvendo o cardápio — Ou melhor, traga-me cinco! Acho que ficaremos aqui por algum tempo!
Aiha forçou-lhe um sorriso que não era exatamente amistoso e afastou-se.
Talvez alguns pudessem dizer que estar no comitê combinava com Yukari, mas ainda assim não é como se ela houvesse escolhido aquela função, apenas havia ocasionado de que ninguém quisera aquela função e os cargos para o comitê em sua turma terem sido decididos por sorteio esse ano, e ela ter sido sorteada por acaso sem opção de recusa… e agora tinha quase certeza de que estava ouvindo os dentes do presidente do conselho estudantil ranger, mesmo por sobre todo aquele barulho em volta deles.
—Yonekura-san, eu tenho quase certeza de que ontem lhe avisei para dar outras roupas às garotas que não fossem essas indecentes roupas de coelhinhas!
—Fiquem de olho no coringa! De olho no coringa! — alguém dizia animadamente a um canto da sala, por sobre as risadas animadas.
—Você está certo presidente. — concordou o rapaz de óculos, cartola e casaca colorida diante deles com um sorriso deslavado — Você realmente disse, mas onde arrumaríamos outras roupas para todas elas em tão pouco tempo?
Uma garota vestida de coelhinha aproximou-se de Yukari com taças em uma bandeja.
—Está servida? — ofereceu-lhe — É cidra sem álcool!
Yukari arregalou os olhos balançando a cabeça, claro que era sem álcool! Imagine se chegariam ainda ao absurdo de, além de tudo, servirem álcool ali.
—Então que…! — o presidente fez uma pausa, puxando a respiração e soltando-a por entre os dentes, forçando-se a acalmar-se: — Então que usassem os uniformes escolares.
Yonekura fez uma expressão ultrajada.
—E estragar toda a nossa temática divertida da Casa da Diversão?!
E agora Yukari estava começando a ficar com medo de que a qualquer momento aquela artéria pulsando na testa do presidente se rompesse… não que fosse “sem motivo”, pois aquele nome “Casa da diversão” era no mínimo uma chacota cínica e descarada.
Inicialmente o formulário de solicitação de permissão — que fora entregue somente nos últimos minutos do último dia do prazo, e que agora Yukari percebia ter sido apenas mais um ardil de todo aquele estratagema — dizia que a atração da turma 2-7 pretendia ser uma “casa de diversão” com temática de jogos clássicos, no qual os clientes comprariam um ingresso no valor de ¥ 150, para poderem entrar e se divertir com todas as atrações disponíveis por até 45 minutos, nas quais poderiam ganhar ou perder tickets que, ao final, seriam usados para resgatar prêmios e brindes… e então o festival cultural começara e eles se deparavam com um verdadeiro cassino ali com homens de colete e mulheres de coelhinhas!
—Afinal qual o problema, presidente, tem alguma coisa que não esteja nos conformes? — Yonekura perguntou sorrindo cinicamente.
—Não. — o presidente do conselho estudantil respondeu como se estivesse engolindo pedras — Está tudo nos conformes.
—18 preto! 18 preto! — alguém anunciou com entusiasmo, provocado, simultaneamente, gritos de euforia e lamentação.
—Ainda assim estou vendo-o muito tenso, senhor presidente. — provocou Yonekura, levando a mão ao bolso da casaca — Por que não fazemos o seguinte: vou dar duzentos tickets a você e a sua assistente, para que possam se divertir aqui por conta da casa?
—Eu recuso! — o presidente do conselho estudantil bateu o pé no chão, com um intenso tom de vermelho subindo-lhe pelo pescoço — E mande alguém imediatamente para organizar a algazarra que está se formando no corredor!
—Com certeza senhor presidente! — Yonekura gargalhou guardando os tickets novamente.
—Eisuke-kun! — Hanyu Saykis chamou-o em tom choroso aparecendo repentinamente por trás de Yonekura e jogando o braço por sobre seus ombros — Esses tickets grátis ainda estão disponíveis? Eu estou completamente falido aqui!
E de repente o tão sorridente Yonekura ficou tenso.
—Hannyu-senpai, já disse para me chamar de Yonekura e pode, por favor, respeitar meu espaço pessoal? — reclamou se afastando.
—Eisuke-kun, tickets! — Hannyu-senpai implorou choroso se pendurando ainda mais ao pescoço do representante de classe.
Dando as costas àqueles dois, o presidente do conselho estudantil afastou-se com passos firmes.
—Shibuya Yukari, vamos! — chamou ao passar por ela ajeitando os óculos.
O rapaz parado próximo à saída com um relógio de bolso numa das mãos e um sino na outra, esperando finalizarem os quarenta e cinco minutos para os próximos clientes entrarem, sorriu e acenou com a cabeça para eles, mas Yukari só conseguiu franzir o cenho.
—Chequemos agora as turmas do terceiro ano. — o presidente determinou enquanto Yukari corria para alcançá-lo.
Um dos maid cafés do terceiro havia sido interditado com uma bela bagunça, Yukari não fazia ideia do que acontecera ali, mas havia massa de panqueca para todos os cantos e nem de longe materiais de limpeza o suficiente.
—Vocês têm produtos de limpeza o suficiente no armário da sala, mas nós traremos alguns esfregões, panos de chão e baldes extras. — o presidente declarou enquanto Yukari entregava um formulário para o desolado representante de turma — Preencha esse formulário de solicitação de materiais até retornarmos.
O comitê do festival era responsável por fazer rondas distribuindo os itinerários do festival para os visitantes, dar informações, tirar fotos das atrações e dos participantes — algumas das quais seriam selecionadas para serem vendidas como lembranças na semana seguinte do festival e no festival seguinte —, atuar na sessão de achados e perdidos e cuidar dar avisos através do sistema de som da escola, além de ajudar os professores com o que fosse pedido e verificar atração por atração para certificar-se de que tudo estava indo bem e que não precisavam de algum tipo de ajuda, essa última tarefa o presidente do conselho estudantil gostava de fazer pessoalmente, e Yukari, que havia passado o dia anterior atuando no balcão de informações e na sessão de achados e perdidos, havia acabado sendo escolhida como sua assistente pessoal hoje.
Então, ali estavam eles descendo ao porão da escola, um lugar que Yukari sequer sabia que existia, para pegar os materiais necessários.
—É aqui que eles guardam os produtos de reposição. Cuidado onde pisa. — o presidente lhe explicou enquanto desciam — Já que estamos pegando itens emprestados há dois formulários que precisamos preencher: um notificando tudo o que pegamos e outro certificando que os devolvemos. É importante para os professores fazerem o inventário no final do mês.
—Entendi. — Yukari já estava acostumada a fazer inventários, graças ao pai e sua obsessão de ter tudo minimamente registrado.
—É aqui que os materiais de limpeza são guardados. — o presidente avisou-lhe ajeitando os óculos e abrindo a porta de um pequeno depósito.
Yukari entrou junto com ele para ajudá-lo, e enquanto a pegavam os baldes, panos multiuso e esfregões, nenhum dos dois se deu conta da porta se fechando às suas costas, até tentarem sair e perceberem que ela não abria.
Yukari assistiu de cenho franzindo o presidente do conselho estudantil mexer e sacudir por alguns instantes a porta do depósito, até desistir e, com uma expressão imperturbável, virar-se para ela e declarar:
—A porta emperrou, estamos presos aqui.
—O que?! — o coração deu um salto em seu peito.
—Estamos presos. — ele repetiu calmamente ajeitando os óculos. — Eu não trago meu celular para a escola por ser contra as regras, então poderia, por favor, me emprestar o seu para que eu possa ligar para alguém e pedir que venha nos soltar?
Yukari olhou para sua mão estendida, ouvindo o sangue latejar em seus ouvidos e sentindo o rosto empalidecer.
—Então acho que ficaremos aqui por algum tempo. — constatou.
Pela primeira vez o presidente também vacilou.
—C-como disse? — ele olhou-a abismado — Você não está com seu celular?
—É contra as regras! — defendeu-se.
—Mas você é amiga de Aiha! — afirmou em tom praticamente acusatório. Mas quando Yukari levou a mão à cabeça e cambaleou, ele logo se apressou para ampará-la. — Sinto muito, eu me excedi, mas não se preocupe logo alguém vai nos procurar, sente-se um pouco.
Ele retirou o blazer do uniforme e estendeu-o no chão para que Yukari pudesse sentar, ela aceitou a oferta, mas balançou a cabeça sem esperanças.
—Estamos em pleno festival cultural, ficaremos aqui por horas! Mesmo se gritarmos ninguém irá nos escutar, pode ser que ninguém dê por nossa falta até a noite quando não chegarmos em casa, e mesmo assim as chances de só nos encontrarem, com sorte, amanhã, são…
—Nada disso. — o presidente interrompeu-a sentando-se no chão ao seu lado com convicção — Alguém irá nos encontrar em menos uma hora.
—Como pode ter tanta certeza? — ela franziu o cenho.
Ele começou a enumerar suas razões:
—A turma 3-3 ainda precisa daqueles materiais de limpeza, e eu preciso apresentar o concurso de príncipes e princesas no final do festival, mas o principal é que: da última vez que me ausentei por mais de duas horas da sala do conselho, no verão passado, houve um incêndio.
—Como foi que isso aconteceu?! — Yukari arregalou os olhos.
—Bom… foi só um pequeno incêndio na lata de lixo. — o presidente mexeu-se desconfortável. — Parece que algumas cinzas do incenso para insetos caíram dentro da lata de lixo, cheia de papéis secos e lenços molhados de álcool que estavam sendo usados para limpar a lousa branca. De qualquer forma. — pigarreou — Tenho certeza de que logo alguém virá nos procurar.
Yukari engoliu em seco e ergueu os olhos para o balancinho fechado sobre a porta.
—E se o nosso oxigênio já tiver acabado até lá? — ela mordeu o lábio inferior.
No entanto, não foi a necessidade de materiais de limpeza ou de um apresentador para o concurso de beleza do festival e tampouco um pequeno incêndio que despertaram, quase que de imediato, a necessidade de que alguém os procurasse, nada disso, foi o coração acelerado, o sangue pulsando nos ouvidos e toda a apreensão de Yukari, que logo fizeram certa raposa levantar-se praticamente com um pulo de onde estava, antes mesmo de terminar sua quarta tigela de chá com arroz.
—To-chan? — Momiji o chamou, não era natural de seu irmãozinho interrompê-la quando ela estava falando.
—É Yukari, tem alguma coisa acontecendo com ela. — afirmou distraído já se afastando.
Momiji ergueu as sobrancelhas.
—To-chan!
Ele parou e olhou-a hesitante.
—Por favor, espere por mim aqui.
Pediu-lhe antes de, sem sequer lhe dar tempo para uma resposta, sair correndo dali.
Aquilo novamente, Momiji abaixou as mãos e repousou-as sobre as coxas, havia sido a mesma coisa daquela outra vez também: ela e To-chan estavam tendo um momento muito agradável no jardim quando, de repente, ele levantou-se dizendo que tinha ouvido aquela garota chorar, e então se foi sem mais nem menos!
Por que ele sempre precisava sair correndo atrás dela?
—Yukari?
Yukari ergueu a cabeça instantaneamente quando ouviu o seu nome ser chamado, mas… não podia ser ele.
—Gintsune? — estranhou — É realmente você quem está aí?
—Ah, que bom! — o presidente exclamou aliviado, levantando-se e se aproximando da porta — Pode, por favor, chamar um dos professores para que possam vir nos tirar daqui? Parece que a fechadura está com defeito e a porta emperrou.
Houve um barulho abafado, algo como um arfar talvez, e coisas caindo. Depois apenas silêncio.
Ele havia ido embora?! O coração de Yukari começou a acelerar novamente. Ele não os deixaria ali, não é? Talvez tivesse ido mesmo chamar ajuda, mas podia ter falado algo antes.
—Yukari?
—Estou aqui! — ela levantou-se.
—Estamos presos. — o presidente repetiu calmamente — Pode, por favor, buscar ajuda?
Gintsune pareceu ignorá-lo.
—Yukari é realmente você?
—Sou! — impacientou-se — Estou eu e o presidente do conselho estudantil, vá buscar um professor, quero sair já!
—Tem uma fera… um c-cachorro aí com você?
Mas que absurdo era esse agora?!
Yukari franziu o cenho colocando as mãos nos quadris.
—Não tem cachorro nenhum aqui.
—Mas sinto cheiro de cachorro.
Ele tinha ficado louco?!
—Ah. — fez o presidente, cheirando as mangas da camisa — Ás vezes Mimi dorme em cima das minhas roupas, será isso? Mas como ele pode sentir…?
—Já ouviu, não há nenhum cachorro aqui! — Yukari apressou-se.
—Entendi. Nenhum cachorro. — ele fez uma pausa — Vou tirar você daí agora.
E então algo pareceu ter nitidamente sido quebrado, e assim, num passe de mágica, a porta abriu-se e Gintsune estava ali sorrindo descontraído.
—Parece que a fechadura realmente está com defeito, só era possível destrancá-la por fora, mas o que fazem aqui?
—Viemos buscar materiais de limpeza. — o presidente respondeu recolhendo seu blazer do chão e sacudindo-o antes de vesti-lo novamente — Muito obrigado por ter nos encontrado, hã…?
—É Gin. — Gintsune apresentou-se sorrindo e estendeu a mão para Yukari — Está tudo bem com você?
—Eu estou bem. — ela confirmou aceitando sua mão ao sair. — Obrigada.
O presidente olhou de um para o outro por um longo momento e, ajeitando os óculos, pigarreou e disse:
—Sim, Shibuya Yukari sinto muito pelo transtorno, pode deixar que levo essas coisas eu mesmo, por favor, pode começar sua hora de descanso imediatamente. — ele recolheu os materiais de limpeza, olhou uma última vez para o depósito aberto e declarou — Vou enviar um formulário solicitando o concerto dessa porta.
Yukari ainda fez menção de segui-lo, ela precisava ao menos concluir aquela tarefa, mas Gintsune a puxou de volta e tampou sua boca com uma das mãos.
—Yukari relaxe um pouco, você trabalha demais, e não foi exatamente por isso que acabou metida nessa encrenca? — disse às suas costas com ar descontraído.
Yukari deu-lhe uma cotovelada e afastou-se dele.
—Quando foi que você voltou? — perguntou virando-se com o cenho franzido e os braços cruzados.
—Deve ter uma hora… uma hora e meia. — ele respondeu pensativo.
E então tirou a mão das costas, que Yukari não havia percebido que ele estava escondendo até então, e largou bem aos seus pés um pedaço retorcido e pesado de metal: a maçaneta arrancada da porta!
—Gintsune! — ela chiou por entre os dentes, com os olhos arregalados.
—O que? Ele disse que já ia mandar um formulário pedindo para concertarem a porta mesmo. — deu de ombros chutando a maçaneta para longe. — Vamos logo embora daqui… — foi quando ela o abraçou. — Oi? Hã… o que está fazendo?
—Não sei, mas eu já queria fazer isso há algum tempo. — ela afastou-se. — Acho que senti sua falta.
—Como você é fofa Yukari. — ele riu passando a mão em sua cabeça — Parece que sempre que eu sumo por um tempinho você fica meio emotiva. E eu estava preocupado achando que nem iria querer ver a minha cara na sua frente de novo!
—Sim, e odeio isso, então pare de sumir! — ela cruzou os braços chutando-lhe a canela.
A expressão de Gintsune tornou-se séria quando ele enfiou as mãos nos bolsos.
—Se é assim, deveria parar de descartar minha valiosa amizade o tempo todo, isso machuca, sabia? — reclamou.
—Eu…?! — ela ficou sem falas — Foi você quem começou a falar sobre só estar se divertindo as minhas custas e como relações de youkais e humanos são monstruosas e antinaturais e que não podíamos dar certo!
Ela estava socando seu peito, Gintsune segurou-lhe os pulsos.
—E você concordou! — acusou-a — Podia ter me dito para ficar e não ir embora sabia?!
—Como se no segundo seguinte você já tinha desaparecido? Eu só queria que você parasse de destruir a cidade inteira! — estressou-se o chutando novamente, fazendo-o largá-la, ela colocou as mãos nos quadris: — Aonde você foi?!
—Estávamos no ápice do outono, então minha irmã e eu fomos para Kyoto, onde a estação é mais bela. Sabe quanto estão custando às entradas nos templos, Yukari? Um roubo!
—Desde quando pagar algo é problema para você? — Yukari franziu o cenho.
—Bem eu não podia roubar nem passar dinheiro falso em um templo, não é Yukari? Não quero ser desintegrado! — olhou-a como se aquilo fosse a coisa mais óbvia do mundo — Eu tive que ir ao centro conseguir dinheiro com os turistas. — Yukari tinha a nítida impressão de que ele não havia conseguido esse dinheiro por meios lícitos — E também estava caçando para alimentar minha irmã, ela estava bastante faminta. Você já provou cervo sika?
—A caça deles é proibida! — exclamou chocada.
—É? — ele coçou a cabeça — Por isso que havia tantos.
—Seu cretino! — ela estava assombrada, mas sem conseguir saber o porquê simplesmente começou a rir ali, havia sentido falta dele, essa é que era a verdade, quando de repente algo lhe passou pela cabeça e ela empalideceu: — E sua irmã onde está?
—Eu a deixei na casa de chás.
—Em Kyoto?
—Não, na sua classe.
—Na minha classe?! — gritou — Você trouxe a sua irmã até a minha escola e a deixou na minha classe?!
Ele a olhou.
—Foi o que acabei de dizer. — confirmou.
—Como pôde trazê-la até aqui?! — Yukari enrolou as tranças em volta dos punhos e puxou-as.
—Eu sei, eu sei. — Gintsune riu descontraído, balançando a mão próxima ao rosto — No inicio eu também estava preocupado, afinal ela é tão fantástica, e mesmo assim simplesmente se misturar em um ambiente como esse… eu fiquei com medo da reação dos humanos vendo algo tão belo, mas tudo tem sido bem tranqüilo até agora…
—Gintsune você está ficando maluco?! — em frenesi Yukari agarrou a frente de sua camisa com ambas as mãos — Temos que ir buscá-la, agora!
Determinou largando-o e saindo correndo dali mais rápido do que Gintsune já a havia visto se mexer antes, deixando-se ficar para trás por um instante a raposa assoviou admirado.
—Mas o que é que deu nela? — pensou em voz alta.
E então se foi também atrás dela.
Nenhum dos dois percebeu o grampo de cabelo dourado e ornamentado caído em um dos cantos dos degraus da escada.
—Afinal como foi que soube que eu estava lá? — ela perguntou-lhe quando já estavam nos corredores.
Dentro do prédio escolar era proibido correr, por isso ali ela precisou conter-se a uma caminhada rápida de passos largos, embora a lotação nos corredores dificulta-se a tarefa.
—Sabe Yukari, eu estou realmente grato e lisonjeado com a sua genuína preocupação pela minha querida irmã. — Gintsune desconversou caminhando ao seu lado — Mas ela é desnecessária, a minha irmã está bem agora.
—Céus! — Yukari impacientou-se — É óbvio que não estou preocupada com Momiji-san, estou preocupada com os humanos ao redor dela!
—Por quê? — encarou-a ofendido — Minha querida irmã não teria razão alguma para machucar alguém!
—Eu realmente não sei o que aconteceu. — dizia um rapaz de vinte e poucos anos passando por eles no corredor, acompanhado por um amigo e uma garota com crachá do comitê, enquanto segurava a mão junto ao peito — Ela era tão linda e eu pensei que estivesse fazendo algum tipo de cosplay, mas quando tentei pedir para tirar uma foto… foi como se estivesse segurando um cabo desencapado.
Yukari lançou um olhar acusatório para Gintsune, que parou e lançou um olhar semicerrado para o rapaz se afastando.
—Aquele lá… ousou tocar levianamente na minha linda irmã?
Ele fez menção de seguir o atordoado rapaz como para tirar satisfação, mas Yukari pegou-o pela mão e levou-o consigo.
Precisavam correr! Era só uma questão de tempo até alguém acabar igual na lenda da Dama da Cerejeira… e certamente não muito!
A representante estava saindo da sala no momento em que eles chegaram, e não deixou de reparar nas mãos de ambos, mesmo que Shibuya tenha feito um rápido movimento para soltá-las assim que a viu… ou talvez tenha reparado justamente por isso.
—Yo, Shibuya. Está aqui a serviço do comitê de novo? — perguntou apesar de ter reparado na ausência do crachá da outra, enquanto isso, Gintsune passou direto por ela e entrou na sala como se nem a visse — Você esteve na sala 2-7? Como está o movimento por lá? Eu soube que até aquele traidor do Hanyu-senpai estava lá confraternizando com o inimigo, eu disse ao Hiroshin para fechar aquela espelunca, mas ele me disse que aquela raposa ardilosa se aproveitou de todas as brechas e não tem nada que ele…
—Hã, representante. — Yukari interrompeu-a, meio sem jeito. — Na verdade eu não estou aqui a trabalho, nós…
—Onde ela está?! — Gintsune perguntou saindo repentinamente da sala novamente — Eu disse-lhe para me esperar aqui e agora só tem um casal meloso flertando na mesa onde ela estava, e me disseram que não a viram! Nem ninguém aqui do seu pessoal sabe dela também!
Aquele cretino realmente não tinha o menor escrúpulo de dizer na frente de Shibuya que havia vindo acompanhada de outra ao festival! Aiha lançou um olhar de canto à amiga, mas ela estava limitando-se a simplesmente franzir o cenho como sempre fazia.
—Ela provavelmente foi para o clube de literatura. — respondeu colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha.
—O seu clube? Por quê?
—Bem, ela pareceu interessada quando me ouviu comentar que estamos realizando partidas de karuta lá hoje.
As sobrancelhas de Gin se arquearam.
—Isso faz sentido. Obrigado.
Ele virou-lhe as costas e já estava prestes a ir embora, quando Aiha o deteve.
—Um momentinho aí. — disse com a mão no braço dele — A sua acompanhante saiu sem pagar a conta e, por alguma razão inexplicável, nenhum de nós ousou questioná-la. Mas tenho certeza que você honrará o compromisso. Certo?
Girando os olhos com impaciência ele soltou-se de Aiha e colocou a mão no bolso, mas quando estava prestes a lhe entregar uma nota de ¥10.000,00, foi detido por Shibuya que se interpôs entre ambos.
—Em quanto ficou a conta? — ela exigiu saber — Eu vou pagá-la!
Aiha olhou-a com estranheza, havia ouvido dizer que Shibuya havia insistido em pagar uma série de coisas para Gin no ano passado também, mas por que ela queria continuar pagando por ele mesmo sabendo que estava ali acompanhada de outra?
—Shibuya, você não precisa…
—Eu insisto! — afirmou convicta.
Que tipo de lavagem cerebral ela tinha sofrido?!
—Está certo, podemos decidir quem paga o que mais tarde, mas agora será que podemos parar de perder tempo aqui? — Gin reclamou pegando a mão de Shibuya e levando-a embora.
Aiha já estava indo mesmo para o clube de literatura, então os seguiu.
—Agora você parece com pressa para encontrá-la. — ouviu Shibuya comentar irônica.
—É claro que sim! — ele respondeu entusiasmado — Se a minha querida irmã vai jogar karuta, isso é algo que definitivamente não posso perder!
Tropeçando nos degraus, Aiha teria caído das escadas se não houvesse se agarrado ao corrimão bem a tempo.
—Sua irmã?! — repetiu incrédula.
Os dois se viraram para ela do topo da escada.
—Ora, é claro, não percebeu como somos magníficos? — ele perguntou com um sorriso presunçoso brincando entre os lábios — É claro que ela seria minha irmã, quem pensou que fosse?
E, sem esperar por uma resposta, levou Shibuya consigo.
O Clube de Investigação Paranormal e o Clube de Literatura estavam ambos situados no mesmo andar, assim como o Clube de Artes, então era óbvio que aquele corredor estava claramente mais vazio que os outros do colégio.
Aiha suspirou, ano passado a presidente de seu clube havia tido uma ideia genial de teatro interativo, mas ela havia se formado e o novo presidente do clube, obviamente para agradar os dois únicos membros novos do clube esse ano — que só haviam se inscrito no clube de literatura porque costumavam participar de um clube de karuta no ginásio, mas não havia nenhum do tipo ali e aquela foi a forma mais próxima que eles arrumaram para continuar lendo e praticando a memorização dos 100 poemas — propôs realizarem partidas do jogo durante o festival cultural, mesmo que Aiha tenha lhe repetido por inúmeras vezes o quão financeiramente ruim seria aquela ideia.
Que bom que não incluíra o clube na aposta com Yobnekura! Não que sua sala estivesse se saindo muito melhor…
—Uma partida está prestes a começar agora. — Kazuma Akane, uma de suas colegas de clube, dizia aos dois — Então se quiserem jogar precisarão aguardar um pouco, mas caso queiram assistir, por favor, façam silêncio ao entrarem.
—Não se preocupe, não faremos um pio! — Gin prometeu entrando na sala junto com Shibuya.
Assim que a viu, o rosto de Kazuma se iluminou.
—Aiha-chan, que bom! — sussurrou baixinho, unindo as palmas das mãos — Poderia ficar no meu lugar? Eu só tenho mais vinte minutos antes de ter que voltar para a minha classe e queria muito mesmo passar no cassino da turma 2-7 antes disso, estão todos dizendo que lá está incrível!
—Claro. — forçou um sorriso — Mas também ouvi dizer que a fila para entrar está bem grande, então pode ser que vinte minutos não bastem.
—Então me deseje sorte. — Kazuma implorou antes de sair correndo — Você é incrível Aiha-chan, obrigada!
Então Aiha suspirou, cruzou os braços e assumiu seu posto.
Enquanto isso dentro da sala, Gintsune mal ousando respirar, acomodava-se ao lado de Yukari para assistir a irmã e seu adversário, que era um humano jovem e bastante gordo, terminavam de arrumar suas cartas e inclinavam as cabeças cumprimentando um ao outro, quando ela sorriu-lhe por um instante ele retornou o sorriso.
—Então. — o extremamente velho vovô Yamado, bibliotecário e supervisor do clube de literatura, tossiu — Vamos começar.
Quando sua mão trêmula e manchada pairou sobre o notebook ao seu lado, as atenções da irmã e seu adversário imediatamente se focaram totalmente nas cartas diante deles.
Sei que…
Os primeiros versos mal haviam começado a ressoar através das caixas de som acopladas ao notebook e a mão de sua irmã, com um movimento fluído e delicado, mas ainda rápido e preciso como um raio, já havia capturado a carta correspondente, quase sem fazer som algum.
O adversário piscou incrédulo.
…em meu coração meu amor por ti ainda persiste.
És por você que sinto tal confusão…
Aquilo havia sido bastante rápido com certeza, os humanos mal deveriam ter conseguido enxergar o movimento! Sua irmã era mesmo incrível, Gintsune sorriu orgulhosamente enquanto ela depositava a carta capturada ao seu lado.
A segunda e a terceira carta foram apenas uma sequência da primeira, será que aquilo poderia ser realmente chamado de uma competição? Porque aquele rapaz gordo, e agora bastante suado, definitivamente não tinha chance alguma, Gintsune mordeu o lábio inferior se contendo ao máximo para não rir.
Na quarta carta, várias cartas saíram voando de uma vez quando o gordo atirou-se desesperadamente sobre elas, tentando capturar pelo menos uma sequer, mas sua linda irmã já tinha capturado aquela também.
—Ela está usando algum truque? — Yukari sussurrou ao seu lado.
—Obvio que não! — Gintsune sussurrou de volta completamente abismado.
Foi mais ou menos entre a sétima e a oitava carta que aquela balburdia do lado de fora começou:
—Aiha, finalmente te encontrei, por que está ignorando todas as minhas ligações?
—Isao! O que faz aqui? — ouviu Aiha responder surpresa.
Sua irmã havia capturado a sétima carta, e Gintsune voltou-se novamente, surpreso e decepcionado por ter perdido aquilo, aqueles dois no corredor o estavam distraindo! Ele achava que a função de Aiha como sentinela lá fora era justamente evitar esse tipo de coisa.
—Temos que conversar.
—Nós não temos nada… largue-me!
Momiji capturou a oitava carta seguida, isso já era demais, Gintsune suspirou se levantando, mesmo que os dois estivessem falando tão baixo que nenhum dos humanos naquela sala — concentrados na partida de karuta — os estivesse escutando, ele não conseguia se concentrar, e isso era inadmissível!
—Aiha, pare de puxar, você vai se machucar. — o inconveniente patife reclamou enquanto segurava ambos os pulsos de Aiha em uma só mão e a levava claramente a força consigo.
Havia duas daquelas escórias rodeando-lhe, uma delas enrolava-se feito uma serpente em volta do tronco e murmurava-lhe coisas no ouvido direito, a outra sobrevoava sua cabeça como uma minúscula nuvem de tempestade.
—É você quem tem que parar de puxar-me! — ela reclamou baixo e entre dentes, uma de suas sapatilhas havia saído de seus pés e ficado para trás — Se não me soltar agora eu juro que vou g…!
Gintsune pousou a mão no ombro dela.
—Com licença. — chamou calmo e sorridente.
—Hã?
E bem quando o estúpido virou-se, sua cara encontrou-se com o punho fechado de Gintsune, jogando-o no chão.
—Opa, sinto muito. — ele sorriu ao lado de Aiha, ainda com a mão em seu ombro, enquanto estalava os dedos da outra mão. — Mas vocês estavam fazendo tanto barulho que acabei me irritando um pouco, e aí, por um infeliz acidente, o seu rosto irritante ficou bem no caminho do meu punho!
—Seu desgraçado! — o verme gritou se contorcendo no chão com ambas as mãos no rosto, enquanto aquelas criaturas repugnantes sibilavam estupidamente — Você quebrou meu nariz! Eu vou…!
Ele tossiu e gemeu quando Gintsune pisou duramente em seu peito, as criaturas sibilaram e se esconderam dentro de seu corpo.
—Oi. — chamou em tom baixo, enquanto se abaixava e agarrava sua cara, tampando sua boca com a mesma mão com a qual o havia socado antes — Acho que você não me escutou antes, eu disse que isso foi apenas um acidente, certo? Eu me irritei por causa do barulho, entende? Então lhe sugiro que se quiser evitar mais acidentes, é melhor ficar bem caladinho agora.
Levou o indicador da mão livre aos lábios, sem nunca desfazer o sorriso.
—Se eu fosse você calaria a boca. — Aiha comentou às suas costas.
—Oh, Aiha-chan, eu nem tinha notado você aí! — ele piscou inocentemente — Está tudo bem com você?
—Estou melhor que ele, com certeza.
E afastou-se para recuperar a sapatilha perdida.
E então Yukari surgiu bem ali na porta, e o viu: com o pé sobre o tórax daquele amontoado de lixo humano e a mão em sua boca… possivelmente o sufocando e talvez o fazendo engasgar com o próprio sangue.
—O que você está fazendo? — perguntou pálida.
—Ah. — Ele levantou-se e afastou-se sacudindo a mão e espirrando sangue no chão e parede antes de escondê-la às suas costas. — Não foi nada demais, tivemos um pequeno acidente aqui, isso é tudo.
Os olhos dela estavam fixos no traste que, logo ao seu lado, encolhia-se numa bola no chão, grunhindo e tossindo sangue. Ah, então ele havia mesmo se engasgado com sangue.
—Ele me ajudou. — Aiha declarou de repente, enquanto massageava os pulsos.
Então Yukari franziu o cenho e olhou do traste no chão para ele.
—O que está acontecendo aqui? — o velho vovô Yamada chegou trêmulo até a porta.
E agora aquilo ali já estava virando um show! Gintsune girou os olhos… espera.
—Se você está aqui, quem está passando a leitura das cartas? — perguntou com uma careta.
Mas o velho devia ser surdo.
—Esse jovem está sangrando?
—Esse estúpido quebrou meu nariz! — o verme gritou histérico sentando-se no chão ainda com uma das mãos sobre o nariz, a gola de sua camisa estava começando a ficar empapada. — Isso não vai ficar assim, ouviu-me?!
Quem diria que um nariz poderia sangrar tanto assim?
Mas Gintsune não estava mais sorrindo.
—Foi você que veio aqui causar incômodo, e agora interrompeu a partida de karuta da minha linda irmã também. — ele avançou um passo em direção ao sujeito, que arregalou os olhos e afastou-se, arrastando-se sobre os pés e as mãos — Sabe quanto tempo ela tem esperado, só por um pouco de distração? Sabe pelo que ela passou? E mesmo assim aqui está você fazendo todo esse escândalo só por causa de um pouco de sangue pingando do nariz? Ah… eu já disse o quanto a sua voz é irritante? Então por que não cala logo a boca antes que eu acidentalmente também enfie o meu pé no seu…
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!—Já chega! —Yukari o puxou de volta pelo braço. — Pare com isso, agora, já foi o bastante! — ela olhou de cenho franzido para o sujeito — Você já estava indo embora, não é?
O traste ficou calado, olhando-o de olhos arregalados.
Gintsune escutou o som de passos que estava se aproximando pelo corredor, que ótimo, mais plateia?
—O que está acontecendo aqui?!
Haruna? Gintsune rapidamente ergueu os olhos, abrindo um grande sorriso.
—Yo, Kakeru. — cumprimentou acenando para ele, esquecendo-se momentaneamente do sangue em sua mão.
O professor congelou onde estava, e seus óculos escorregaram até a ponta do nariz.
—Gin-san? — balbuciou. — O que você…? Quando foi que…?
—Esse sujeito aqui. — Gintsune apontou. — Acabou de sofrer um acidente, seria melhor levá-lo, antes que ele sofra outro.
Kakeru olhou do sangue na mão de Gintsune para o traste de nariz arruinado e camisa ensangüentada.
—Professor, leve-o, por favor. — o vovô Yamada pediu — Ele precisa de cuidados médicos.
Haruna ainda estava em choque, mas acenou com a cabeça e ajudou o sujeito a levantar-se.
—Ah, e Kakeru! — Gintsune o chamou — Na volta passe por aqui, tenho assuntos a tratar contigo!
O professor concordou, ainda que parecesse meio desnorteado, e assim que eles se foram, Gintsune sorriu e virou-se com as mãos unidas nas costas.
—Que sorte a dele que Aiha-chan não estava com sua espada de bambu aqui, não é? — comentou descontraído — O que acham de voltarmos ao jogo agora?
Aiha suspirou, mas acabou sorrindo de lado ao final.
—Vamos professor. — chamou pegando o vovô Yamada pelo braço e retornando a sala.
E Gintsune já estava prestes a segui-los quando Yukari o deteve.
—O que foi que deu em você? — reclamou de cenho franzido — Não pode agir daquela forma na escola!
—Então se eu tivesse pegado aquele traste e o arrastado até o portão…? — as sobrancelhas de Gintsune se arquearam.
—Não!
Ela bateu o pé no chão, e Gintsune achou graça daquilo.
—Só para saber aquilo não foi violência, se conhecesse o meu velho aí sim você saberia o que é violência de verdade. — garantiu.
As sobrancelhas dela estavam tão unidas que quase se tornavam uma só e, ainda sem soltá-lo, ela levou a mão até a gola de marinheiro do uniforme e retirou dali o lenço vermelho que tinha.
—Pelo menos limpe as mãos antes de entrar.
—Obrigado. — agradeceu aceitando o lenço — Eu lavo antes de devolver… o que foi?
Perguntou ao percebeu a expressão assustada com o qual ela tateava o pescoço.
—Eu perdi meu crachá. — respondeu assombrada, já procurando em volta — Deve ter caído, mas não sei quando…
—Ah. Você quer dizer esse aqui? — Gintsune sorriu inocente, balançando o dito crachá bem diante dos seus olhos, rindo quando Yukari arregalou os olhos e o puxou — Eu só queria garantir que você ia mesmo tirar a sua hora de folga, você tem que relaxar de vez em quando Yukari.
Justificou-se assistindo a colegial recolocar o crachá em volta do pescoço.
—Quando foi que você…?
Ela calou-se subitamente ao perceber Gintsune se inclinando em sua direção.
—Foi quando estávamos abraçados lá no porão. — ele sussurrou-lhe ao ouvido.
E, antes que pudesse conter-se, lhe mordiscou rapidamente o lóbulo da orelha bem de leve, colocando-se imediatamente ereto depois e, ainda rindo da expressão de choque de Yukari que o olhava com a mão sobre a orelha como se ele houvesse tentado arrancá-la, deu-lhe as costas e retornou para a sala.
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