A Lenda da Raposa de Higanbana
25 24: As flores do verão.
Notas iniciais
No primeiro dia das férias de verão Yukari havia sido obrigada pela mãe a passar todo o dia com ela pondo os futons da pousada para tomar sol, e desde então aquela garota estava num humor daqueles.
—Opa! Cuidado! — Gintsune exclamou quando ela deixou a jarra e os copos com a bebida com tanta brusquidão sobre a mesa, que parte do líquido cor de rosa respingou… cor de rosa? Gintsune pegou um copo farejando-o — Que tipo de chá é esse?
—Não é chá nenhum. — Yukari puxou o lugar à sua frente e sentou-se — É limonada.
—Limonada…?
Ela girou os olhos.
—Uma bebida feita a partir de limões.
Ele olhou-a surpreso.
—Existem limões cor de rosa?!
—Claro que não. — Yukari franziu o cenho.
—Mas então… por que a bebida é rosa?
—Esqueça a cor da limonada. — suspirou e, inclinando-se para frente sussurrou com urgência: — Que ideia foi essa de aparecer na frente da minha avó assim, depois de todo o trabalho que já tive para fazê-la parar de tocar nesse assunto?!
—Foi um acidente, tá bem? — defendeu-se — Até eu me descuido às vezes.
Bebeu um gole da curiosa bebida rosada, era até saborosa.
—É o cachimbo? — Yukari perguntou — Ainda não achou?
—Não. — continuou bebendo.
Naquela manhã Gintsune estivera novamente vasculhando o jardim à procura de seu tesouro perdido, já devia ter desistido daquela área, mas sempre acabava retornando a ela, estava agachado próximo aos arbustos usando o chapéu do tengu para proteger-se do sol quando Tsubaki o avistou.
—Gin… Kun? É você?
Gintsune nem havia reparado que havia de materializado, e quase não teve tempo de escurecer os cabelos quando saltou para ficar de pé.
—Oi…! Vovó Tsubaki, eu não a ouvi chegando.
A idosa aproximou-se.
—O que faz aqui? Foi Yuki quem o deixou vir ao jardim?
—Isso, porque eu queria ver esse belo jardim de novo. — sorriu retirando o chapéu — Ela me disse que podia ficar pelo tempo que quisesse e foi para casa. Estava agora mesmo me lembrando de como suas camélias estavam bonitas no outono.
Estava agora mesmo pensando em arrancar aqueles malditos arbustos e árvores dali para limpar a área de uma vez e encontrar seu cachimbo.
—Aqui nesse calor?! Não, não, entre comigo e venha se refrescar. — convidou-o — Que acha de chá gelado?
E então ali estava ele: bebendo uma bebida cor de rosa feita de limões que não eram cor de rosa, junto com Yukari.
—O que você vai fazer se não encontrá-lo? — ela lhe perguntou.
—Já ouvi falar de youkais que passaram décadas e até séculos vagueando em busca de seus tesouros. — Gintsune deu de ombros. — Não somos uma raça que desiste com muita facilidade, entende? Somos até meio obsessivos, na verdade. Há coisas que deixamos pra lá sem pensar duas vezes, claro — como o mistério de quem chamou meu nome. — Mas na maioria das vezes não conseguimos nos deter.
—Apenas tenha mais cuidado. — a garota suspirou — Papai disse que eram apenas gatos, mas foi você quem eu ouvi no telhado noite passada, não…?
—Sh.
Fez rapidamente, calando-a um segundo antes de Tsubaki retornar à cozinha.
—O dia está tão quente que aposto que até as minhas pobres carpas lá fora estão cozinhando naquele lago! — comentou. Sair para alimentar as carpas, fora a desculpa que usara para deixá-los ali por alguns poucos minutos, mesmo que fosse totalmente desnecessário. — Não são sequer 11h ainda, mas o sol já está tão forte como se já fosse meio dia!
—Aqui vovó, beba um pouco. — Yukari a serviu.
Mas ao pegar o copo, Tsubaki arqueou as sobrancelhas e ficou olhando e girando a bebida rosada ali dentro, até ergue os olhos para Yukari que encolheu os ombros e levantou para continuar a fazer o almoço.
Tomando o assento da neta, Tsubaki explicou a Gintsune:
—Yuki e o avô adoravam limonada rosa, era a bebida favorita deles e eles bebiam o tempo todo, especialmente no verão quando bebiam praticamente como se fosse água, a geladeira quase nunca estava sem uma jarra dessas. — sorriu nostálgica girando a bebida mais uma vez — Mas desde que Yukito faleceu há quatro anos ela nunca mais havia feito.
—Já faz quatro anos? — Yukari perguntou às suas costas com um tom solitário.
—Completou na semana passada, chamei-a para ir ao cemitério comigo, mas você recusou. — Tsubaki respondeu, Gintsune estava se servindo de mais limonada quando a senhora comentou: — Estou feliz que tenha encontrado mais alguém para quem fazer limonada rosa, Yuki.
—Eu fiz para mim, vovó, porque hoje está muito quente e eu estava com vontade.
Tsubaki piscou-lhe por cima do copo e Gintsune sorriu dando de ombros, agora é que o humor de Yukari não iria mesmo melhorar de jeito nenhum!
Quando Gintsune quis ir embora, a vovó Shibuya ainda tentou convencê-lo a ficar para almoçar, mas ele se recusou de forma educada, e embora ela tenha insistido bastante, ele manteve-se firme… precisava tomar mais cuidado com suas materializações.
—Corrija-me se eu estiver errado. — comentou materializando-se com os cabelos escurecidos ao lado de Yukari na recepção da pousada no dia seguinte — Mas Tsubaki parece estar querendo adotar-me como seu neto. Acha que ela ficou encantada com meu belo rosto?
—Isso é porque ela sempre te encontra ou ouve falar de você perto de mim, então acha que está nos ajudando. — suspirou cansada — Vovó sempre fez apenas o que quer.
—Então ela quer me adotar como seu neto. — provocou-a sorrindo.
Com o queixo apoiado sobre a mão Yukari olhou-o de canto.
—Você não tinha um cachimbo para procurar?
Também se inclinando sobre o balcão ele apoiou o queixo em ambas às mãos, o aro prateado brilhou em seu pulso esquerdo.
—Estou dando uma pausa.
—Fumar é um vicio horrível. — Yukari estalou a língua — Mas se realmente está assim tão necessitado, por que não experimenta os cigarros?
—Não quero cigarros, quero meu cachimbo. — olhou-a — Meus pais o fizeram para mim.
Pareceu-lhe que ela estava prestes a dizer-lhe qualquer coisa, mas bem nesse momento alguém chegou e Gintsune abaixou-se rapidamente e sentou-se no chão, puxando os joelhos contra o peito.
—Bem vinda Kaoru. — Yukari a cumprimentou amigavelmente — Você veio tomar banho? Já faz algum tempo.
—Yuki, que bom que está na recepção. — ouviu Kaoru-chan respondendo — Eu vim procurar por você!
—A mim? Por quê?
—Você não atende o celular e nem visualiza as mensagens. — ela estava exatamente do outro lado do balcão agora.
—Ah, eu o desliguei para deixá-lo carregando deve ter um dois dias… e esqueci-me de religá-lo novamente. — contou em tom de desculpas — Tinha alguma coisa que você queria dizer-me?
Gintsune mal estava prestando atenção na conversa agora, ele estava olhando a volta se perguntando se, por acaso, por alguma pegadinho do destino, haveria uma maneira de seu cachimbo ter ido parar na sessão de achados e perdidos dali.
—Você tem algo planejado para o próximo final de semana, Yuki?
—O mesmo de sempre, vou ficar aqui na pousada cuidando da recepção…
As mãos de Kaoru voaram por cima do balcão para agarrar as de Yukari.
—E você não pode pedir uma folguinha?
—Por quê? — Yukari arqueou as sobrancelhas — O que vai acontecer no próximo final de semana?
—Poxa Yuki! É o festival de verão! — Até Gintsune sabia disso, ele cobriu a boca para não rir — E vai coincidir justo com final das aulas de recuperação da Aoi-chan, então pensamos em ir todas juntas para celebrar, estávamos tentando te chamar, mas você não respondia por isso eu vim pessoalmente.
—Ah… ah. — Yukari murmurou sem jeito, Gintsune olhou-a de olhos semicerrados — Kaoru… eu… desculpe-me, mas não acho que eu p-p-p-Ah…! — Ela desvencilhou-se das mãos de Kaoru afastando-se com um pulo, e olhou brava para algo atrás do balcão. — Onde você pensa que estava tocando seu…!
—Na sua perna. — respondeu calmamente uma voz por detrás do balcão, fazendo Kaoru arregalar os olhos surpresa — Não precisa se zangar, afinal eu peguei por cima das roupas e não…
—Esse não é o ponto! — Yukari ergueu a perna fazendo menção de chutar algo.
—O ponto. — disse a voz masculina, que era familiar a Kaoru — É que você estava a ponto de recusar, por isso a impedi.
—E o que é que você tem hav…?!
—Yuki quem é que está aí com você?
Kaoru perguntou dando a volta no balcão, os relembrando de sua presença, mas parou ao deparar-se com Gintsune sentado ali. Ele ergueu a mão para cumprimentá-la:
—Yo!
—Y-Yo. — ergueu a mão hesitante e quase sem perceber.
De repente Yukari agarrou-o pelo quimono e puxou-o tentando fazê-lo se levantar.
—O que é que você está fazendo? — reclamou — Por que é que agora deu pra ficar aparecendo na frente de todo mundo?!
—Ontem foi um acidente, mas hoje você não me deu escolha. — ele colocou-se de pé. — Yukari, até a sua avó sai para se divertir mais que você!
Ela olhou-o ultrajada, mesmo que ele estivesse apenas falando a verdade, mas antes que dissesse qualquer coisa, Kaoru chamou-o:
—Com licença, mas… quem é você? Já nos vimos antes?
Os olhos de Yukari arregalaram-se, teria Kaoru reconhecido algum traço de “Ayaka Shiori” em Gintsune? Mas a raposa, ao contrário dela, agindo muito tranquilamente içou-se para sentar-se sobre o balcão.
—Eu me chamo Gin, creio que nos conhecemos naquele dia de chuva quando fui buscar Yukari na escola. — respondeu — Você é Kaoru, a prima dela, não é?
—Ah, sim! — Kaoru encobriu os lábios com as pontas dos dedos — Sinto muito, eu não…
—Não há pelo que se desculpar, estava chovendo muito naquela vez e meu rosto estava coberto. — sorriu-lhe calmamente, fazendo as bochechas da garota se tornarem vermelhas.
Afinal é óbvio que qualquer um que visse seu belo rosto não seria mais capaz de esquecê-lo ou confundi-lo com qualquer outro… e como se lesse seus pensamentos Yukari o estapeou no ombro.
—Desça já daí! — repreendeu-o.
Gintsune passou as pernas por cima do balcão, girou e saltou para o outro lado.
—É melhor você aceitar esse convite Yukari, ou eu vou invadir seu quarto à noite e sequestrá-la para levá-la ao festival! — afirmou — Você é uma garota jovem e está de férias, precisa sair para se divertir e sorrir um pouco mais ou vai ficar grisalha cedo!
Ele era tão intrometido! Yukari bufou pondo as mãos nos quadris.
—Ele veio aqui tomar banho, mas ficou para matar o tempo depois. — explicou a Kaoru enquanto alisava o próprio quimono.
—E deixou-o ficar atrás do balcão com você? — Kaoru estranhou, pois Yukari era sempre rígida com regras.
Yukari girou os olhos.
—Kaoru, você acabou de vê-lo, acha mesmo que alguém é capaz de impedi-lo de fazer o que quer que seja?
Kaoru apertou os lábios um contra o outro, aquilo não era realmente uma resposta, mas ela sabia que não adiantaria de nada continuar a tentar insistir com Yukari, já que depois daquele dia quando lhes perguntaram sobre o estranho que viera buscá-la na escola ela se recusara a dizer-lhes qualquer coisa além de “é um conhecido da pousada”.
—Yuki, e sobre o festival de verão?
Yukari franziu o cenho.
Ela não pôde garantir à Kaoru que iria ao festival, mas prometeu-lhe que perguntaria a respeito para seus pais e, assim como ela já esperava, o pai não ficou nada contente com o pedido e foi veementemente contra, Shibuya Daisuke vivia apenas para a pousada e acreditava que todos à sua volta deveriam viver da mesma forma, festivais e coisas do tipo não tinham nada haver com eles, essas coisas eram para os turistas — ainda que não houvesse nenhum naquela época do ano —, mas a avó e a mãe intercederam a seu favor.
—Se Yuki quer ir ver os fogos de artifício com as amigas eu não vejo problema algum. — sua mãe comentou.
—Yukari tem que ter responsabilidade, não pode simplesmente sair quando quer para ir aonde bem entende — o pai reclamou.
Não pode simplesmente sair à hora que bem entende!
—Quando bem entende? — a avó arqueou as finas sobrancelhas — A garota passa a vida toda indo de casa para a escola e da escola para casa, a última vez que te pediu permissão para sair foi há seis meses, no aniversário dela, e você negou Daisuke!
—Eu disse que ela podia terminar o expediente mais cedo e chamar as amigas aqui. — o pai defendeu-se.
Posicionando-se às suas costas para massagear-lhe os ombros a mãe falou em tom afável:
—Vamos Daisuke, Yuki está de férias e não há nenhum hóspede na pousada, que mal faz deixá-la ir ao festival?
—E até nos presídios os prisioneiros recebem permissão para um banho de sol diário. — sua avó comentou acidamente.
—Mamãe, minha filha não é uma prisioneira. — o pai respondeu-lhe duramente.
—Ah não? — a avó arqueou-lhe uma sobrancelha — E então?
Ela já estava começando a acreditar que o debate de seu pai contra sua avó e sua mãe se estenderia ainda pelo resto da semana quando ele finalmente deu sua permissão, Yukari odiava discussões, por isso ela sempre evitava pedir coisas dessa natureza, era melhor apenas ficar em casa e evitar brigas…
—Esse não parece o rosto de alguém que acabou de ganhar direito a um regime semiaberto. — Gintsune comentou escorado ao lado da batente da porta de seu quarto com os braços cruzados.
Yukari arregalou os olhos.
—O que está fazendo aqui fora? Ficou louco?! — pegou-o pelo braço e abriu a porta do quarto puxando-o para dentro o mais rápido possível.
—Agora mesmo suas sobrancelhas já eram quase uma só, sabia? — ele perguntou sentando-se na cama.
Por que ele era tão irresponsável e descuidado? Yukari girou os olhos.
—Só estava tentando lembrar-me quando foi a última vez que fui ao festival de verão.
Gintsune observou-a.
—E então?
Voltando a franzir o cenho Yukari passou a mão pelo queixo e andou brevemente de um lado para o outro enquanto refletia:
—Sei que não fui no ano passado, mas não tenho certeza se fui no ano retrasado ou ainda no anterior a esse… mas não fiquei até os fogos de artifício.
—E esse ano ficará?
—Sim. Se puder. — deu de ombros.
—Excelente! — exclamou unindo as palmas nas mãos — E a que horas saímos?
Yukari olhou-o desconfiada.
—“Saímos”? — repetiu.
—Sim, claro. — ele olhou-a de volta, inclinando a cabeça de lado — Eu vou junto.
Ela arregalou os olhos.
—Conosco?!
—É claro.
—De jeito nenhum!
—E por que não?
—Não quero estar contigo a vista de tantas pessoas para que saiam dizendo mais coisas estranhas a meu respeito de novo. — respondeu puxando a cadeira para sentar-se.
—Mas não estaremos a sós, também estarão lá as garotas… talvez seja melhor se eu também for uma garota? — sugeriu dobrando as pernas e cruzando os calcanhares. — Ou uma criança?
Yukari franziu o cenho, um dia ela ainda ia ficar com aquela expressão perpetuamente.
—Também não te quero junto das minhas amigas. — declarou.
Gintsune arqueou uma sobrancelha.
—Isso é ciúme? — questionou.
—Isso é zelo, você claramente não é alguém de confiança.
Ela ainda estava zangada pelo professor?
—Ora vamos, em vários meses nunca fiz nada demais com elas ou fiz? — sorriu-lhe.
—Tomou banho junto delas.
—Esqueça isso. — girou os olhos — E se eu prometer me comportar?
Ela olhou-o cética.
—Ouviu-me dizer que você não é de confiança?
—Mas também quero ir! — protestou.
—Então vá, mas não conosco, oras! Arrume um encontro ou algo assim!
Mas como aquela garota ousava recusar sua companhia assim?! Gintsune olhou-a ofendido.
—Em primeiro lugar, você nem teria cogitado ir se eu não tivesse intervindo! — afirmou ofendido com seu descaso.
—Você agarrou minha perna seu…!
—Eu só peguei a panturrilha e subi até o joelho, não precisa levar tão á sério.
Ela ficou de pé, apertando os punhos ao lado do corpo.
—Você não vai conosco Gintsune!
Ele ergueu o queixo.
—Eu vou sim!
—Eu já disse que não!
Encaram-se assim resolutos e irredutíveis… até que por fim, dias mais tarde, Yukari deu-se por vencida e pegou o celular para avisar às amigas que levaria alguém a mais, ele iria de qualquer forma, melhor deixá-las logo avisadas.
—Não sei por que ainda não fui num templo pegar um amuleto. — resmungou sentando-se na cama enquanto digitava a mensagem.
Na verdade, se realmente quisesse ela poderia bem espantá-lo dali gritando algo como “tem um cachorro vindo”, ou algo assim, mas Gintsune vinha andando na linha e não havia feito mais nada de errado, até onde ela sabia, por isso não foi capaz de fazer algo assim.
—E por que haveria de ser? — Gintsune riu sabidamente deitando a cabeça sobre suas pernas — É óbvio que você já se apegou a mim.
—Por que não se cala um pouco? — sem lhe dar sequer um relance de olhar ela pressionou-lhe o travesseiro contra o rosto, como se quisesse asfixiá-lo.
Se fosse humano bem poderia ter dado certo… mas de qualquer forma, agora lá estava ele esperando pelas garotas no ponto que haviam combinado, olhando a volta e escutando atentamente quando avistou Say-chan, apesar de que era um festival de verão grande parte das pessoas que usavam yukatas eram apenas mulheres, mas a maioria dos homens usavam roupas casuais quaisquer, mas não Say-chan, ele vestia-se com uma refrescante yukata laranja.
Havia apenas alguns momentos que o avistara, quando Say-chan também o viu ali e sorrindo mudou seu curso para vir em sua direção.
—Gin-san, já faz algum tempo, não é? — ele tocou-lhe levemente no antebraço com a mão livre, a outra estava segurando uma maçã do amor ainda intacta — Não o vejo desde que começaram as férias de verão, não é mesmo? Por onde tem andado?
Saykis tinha umas habilidades físicas muito boas para um mero humano e continha em si um forte espírito competitivo, o que o fazia um bom companheiro para jogar e se divertir, certamente a companhia ideal para um festival de verão… mas Gintsune já tinha planos agora, e eles não incluíam o jovem atleta.
—Por aí. — sorriu-lhe. — Veio sozinho ao festival?
—Vim com alguns membros do clube. — respondeu com um dar de ombros, afastando a mão de seu antebraço — Mas me perdi deles.
—Certamente que estão por aí. — garantiu-lhe dando disfarçadamente um passo atrás. — Já eu estou à espera de companhia…
—É mesmo?
Say-chan sorriu-lhe pronto para se aproximar novamente, quando Gintsune completou alegremente:
—Sim, umas garotas com quem marquei aqui!
—Ah… ah! — Saykis exclamou sorrindo desconcertado.
Colocando a mão em seu ombro Gintsune mentiu:
—Na verdade elas já estão atrasadas, então é melhor eu ir procurá-las, você devia ir procurar seus amigos também.
Despediu-se sem maiores preâmbulos e afastou-se dali, Yukari e as amigas ainda não estavam atrasadas, mas seria bom se já tivessem chegado.
O festival estava repleto de odores diversos e novos, no entanto Gintsune passara quase três estações inteiras abrigado no quarto de Yukari envolvido pelo cheiro da colegial, então é claro que não seria uma mera multidão a impedi-lo de encontrá-la, portanto encontrar a ela e as amigas não foi sequer um desafio para ele… mas conter sua indignação quando viu que todos elas estavam em roupas casuais com certeza foi.
—Mas onde é que estão as suas yukatas?! — acabou por dizer indignado.
Yukari suspirou exasperada cobrindo o rosto com a mão, e Aoi-chan recuou um passinho minúsculo para trás, retorcendo as mãos roliças à altura do peito, enquanto Aiha-chan levou uma das mãos aos quadris e com um retorcer de lábios virou-se para a garota de tranças como se ele não estivesse ali:
—Shibuya, você disse que um conhecido seu havia pedido para vir conosco, quando Hongo falou-me dele não consegui entender que interesse um homem adulto teria em andar com um bando de garotinhas em um pequeno festival, mas ele só queria ver-nos em yukatas, é algum tipo de fetiche?
Yukari respondeu com uma mistura de gemido e resmungo que, misturando-se em meio ao burburinho de pessoas que circulavam a volta, foi difícil até mesmo para Gintsune entendê-la claramente: “eu espero sinceramente que não”. Mas o olhar de aviso que ela lhe lançou logo depois foi bastante claro: Comporte-se!
Sorriu-lhe ocultando as mãos dentro das mangas.
—É só que em um festival de verão o mais certo parece ser usar yukatas! Olhem em volta, há um monte de pessoas em yukatas, especialmente mulheres, onde estão as suas?!
Yukari estava massageando as têmporas agora, certamente já arrependida de ter concordado com aquela loucura.
—Kaoru e eu já temos que usar quimonos todos os dias, então dê-nos uma folga. — torceu o canto da boca — E supõe-se que festivais são feitos para relaxarmos e nos divertimos, não é? Essas roupas nos lembram de trabalho.
Agora foi Gintsune quem suspirou cansado levando a mão à testa.
—Mas como é que você pode ser assim tão sem graça, mulher? — reclamou. — E vocês duas?
Aiha-chan estalou a língua.
—A última fez que usei uma yukata foi quando ainda era criança, então mesmo que eu achasse a minha velha yukata agora e ela, por ventura, não tivesse sido completamente destruída pelas traças, duvido muito de que ainda me serviria, mas, falando francamente, não tenho o mínimo interesse em roupas japonesas.
E ela dizia isso mesmo sendo japonesa e estando no Japão?! Gintsune se voltou para a última.
—E quanto a você?!
A menina rechonchuda saltou sobressaltada e arregalou os olhos, torcendo as mãos na altura do peito enquanto abria a boca uma e outra vez até finalmente conseguir produzir sons coesos que formavam palavras, embora ditas tão baixas que, se não fosse sua audição apurada, provavelmente não a teria conseguido escutar no meio daquele movimento todo e ainda assim pareceu-lhe que escutou errado:
—Eu… nunca na vida vesti roupas tradicionais… nem sequer uma yukata de verão.
Inacreditável! Só podia estar ouvindo mal, não é?!
—Nunca? — estava tão incrédulo que, num primeiro momento, pensou que tivesse sido ele próprio a perguntar, mas então se deu conta de que havia sido Kaoru-chan, cobrindo levemente os lábios com as pontas dos dedos — Mas e quando comemorou o shichigosan?
Ela balançou a cabeça.
—Usei um vestido amarelo…
—Mas isso é inaceitável! — Gintsune protestou bufando e levando as mãos aos quadris.
Aquele comentário pareceu deixar a garota ainda mais constrangida e Yukari olhou-o irritada.
—Foi só para isso que veio? — reclamou franzindo o cenho — Deixe-a em paz.
—Não, não, ele tem razão. — Aiha-chan interveio passando a mão pelo queixo enquanto analisava Aoi-chan — Deveria usar quimono ao menos uma vez na vida Nishiwake.
Aoi-chan sorriu-lhe sem jeito.
—S-sim talvez um dia.
—Hoje. — decretou, embora ela mesma tivesse declarado há pouco que não tinha interesse em roupas tradicionais, e virou-se para Kaoru-chan — Hongo, você não mora longe daqui e sua família vende quimonos, não é? Ainda está cedo e o festival mal começou, então se formos rápidas podemos ir até lá pegar uma yukata emprestada.
Kaoru-chan e Yukari arregalaram os olhos.
—Não podemos! — protestou Kaoru-chan erguendo as mãos em tom de desculpas — Se meu avô descobrir…!
—Se é por menos de uma noite e devolvermos intacto não deve ter como ele descobrir! — Gintsune afirmou alegremente.
Também levando as mãos aos quadris e bufando Yukari sacudiu a cabeça e começou a lhe pregar um sermão, apesar de que a ideia não havia sido sua:
—Ouça aqui! Ainda assim isso seria errad…!
—Realmente dessa forma não teria problema. — concordou Aiha-chan, pegando Aoi-chan pelo braço — Então vamos lá?
Ainda houve um ou outro protesto débil por parte das meninas, mas Aiha-chan não era do tipo que aceitava um “não” com facilidade e acabou levando-as da mesma forma enquanto Gintsune as escoltava.
Kaoru-chan morava no bairro comercial em cima de uma pequena e certamente antiga loja de roupas tradicionais, os cinco entraram ali o mais silenciosamente que podiam enquanto Aiha-chan lhes dizia que não ascendessem todas as luzes, mas como nada daquilo não garantia que não seriam pegos Gintsune secretamente colocou uma pequena “armadilha de raposa” temporária na loja, assim como a que colocara no quarto de Yukari, para que ninguém no andar de cima pudesse por ventura escutá-los ali.
—Desse jeito até parecemos um grupo de ladrões. — Yukari reclamou em voz baixa mantendo-se junto a Gintsune num dos cantos mais escuros enquanto Kaoru-chan mostrava as yukatas à Aiha-chan e Aoi-chan, esperando até que elas se afastassem um pouco mais para só então dizer: — Muito bem, diga de uma vez o que você está planejando.
—Exatamente o que eu disse antes: é inaceitável ela nunca ter usado roupas tradicionais antes. — enfiou as mãos nas mangas e olhou-a de canto ao completar: — Deveria usá-las ao menos uma vez na vida, exatamente o quanto da cultura daqueles estrangeiros grandes e barulhentos o país assimilou para ter acabado rejeitando suas próprias raízes assim?
—Não precisa exagerar assim, não estamos rejeitando raiz alguma, e se olhar os livros de história verá que era muito pior antes. — ela suspirou cruzando os braços — É só que essas roupas aqui não são muito praticas e muito menos baratas. — olhou a volta — Certamente o valor de alguma peça aqui poderia ser o suficiente até para financiar um apartamento na cidade grande…
—Shibuya. — Aiha-chan chamou-a com um sussurro balançando em suas mãos uma leve yukata cor de lavanda — Essa aqui parece refrescante, não é?
Assim as duas trocaram de lugar: Yukari se foi com Kaoru-chan para ajudar Aoi-chan a trocar-se no provador e Aiha-chan se posicionou ao seu lado.
—Não vai com elas? — Gintsune perguntou-lhe.
A garota deu de ombros.
—Apenas uma delas já é suficiente para vestir Nishiwake, mas estamos com pressa então foram as duas e eu seria inútil ali, sequer faço ideia de como atar o obi.
—Não sabe sequer atar o…?! — olhou-a incrédulo com a voz sumindo conforme falava.
—A maioria das garotas da minha idade não sabe como vestir quimonos, mas para isso temos cursos que ensinem. — olhou-o — Ainda estou tentando decifrar suas ações se aproximando dessa forma de uma colegial, qual sua relação com a Shibuya afinal?
Gintsune assoviou admirado.
—Direta, não é mesmo?
Ela não desviou o olhar.
—E então? — insistiu.
—Somos amigos, a cara dela quando se irrita é interessante.
A garota ainda ficou olhando-o por algum tempo, como se remoesse o que ele havia dito e obviamente não parecendo acreditar muito, aparentemente não apenas Yukari como também todas as pessoas à sua volta eram naturalmente desconfiadas, mas Gintsune não se incomodou com isso, ele não se importava que as pessoas o olhassem afinal, e ficaram assim até o resto das garotas retornarem.
Yukari e a prima não apenas haviam envolvido Aoi-chan numa yukata, mas também haviam penteado e prendido seu cabelo e lhe dado alguma cor nos lábios e nas bochechas com uso de maquiagem.
Gintsune lhe sorriu.
—É como Aiha-chan aqui disse: essa yukata é refrescante. — elogiou dando uma batidinha na cabeça de Aiha-chan como se ela fosse uma criança pequena.
Enquanto Aoi-chan torcia suas rechonchudas e macias mãos na altura do peito e sorria timidamente agradecendo pelo elogio, Yukari olhou-o com jeito desconfiado por um segundo, mas a amiga estava feliz, então não disse nada.
Meias e sandálias também foram providenciadas para Aoi-chan, logo após o que o grupo apagou as luzes e saiu discretamente da loja enquanto Gintsune retirava sua “armadilha de raposa” para escoltá-las de volta ao festival, apesar de que ele teria gostado se Yukari também houvesse vestido yukata.
—Então o que devemos fazer primeiro? — questionou olhando animado para todas aquelas diversas barracas de jogos e comidas à sua volta.
—Comer. — Aoi-chan respondeu de súbito com as mãos sobre a barriga, mas ao perceber o que acabara de dizer arregalou os olhos corando intensamente e pressionou uma das mãos sobre a boca.
Quando Gintsune não se conteve e soltou uma sonora gargalhada ao ouvir aquilo, é óbvio que Yukari pisaria em seu pé, mas ele simplesmente não conseguiu evitar, e agora Aoi-chan estava encolhida completamente avermelhada cobrindo o rosto com ambas as mãos.
—S-Sim, a comida é muito importante, uma das partes principais do festival com certeza! — Kaoru-chan tentou apoiá-la, colocando a mão em seu ombro.
—Mais é muita coisa. — Aiha-chan estava olhando em volta — Por onde acha que devemos começar?
Aoi-chan não se atreveu a dar outra sugestão, e Yukari lançou um rápido olhar de censura a Gintsune por isso, antes de ela mesma sugerir:
—Eu queria comer banana com chocolate.
—E depois podíamos comprar salsicha empanada? — Kaouru-chan sugeriu.
—Acho que vi uma barraca de takoyaki por aqui… — Aoi-chan comentou um pouco mais timidamente.
—Acho que também estão vendendo algodão doce e maçãs do amor por ali. — Aiha-chan apontou.
As quatro garotas se entreolharam indecisas de onde deveriam ir primeiro, Gintsune estava olhando em volta, farejando os cheiros e também tentando decidir, quando percebeu que as meninas o estavam olhando e arqueou as sobrancelhas.
—O que?
—O que você quer comer? — Aiha-chan indagou impaciente.
—Eu? — passou a mão pelo queixo ainda farejando os arredores — Tem uma barraquinha de Yakitori aqui perto, e há também espetos de lula e… tem milho assado logo ali!
—Você gosta de comida no espeto, não é? — Aoi-chan perguntou-lhe, mesmo que estivesse encarando seus pés.
—É que comidas no espeto você pode comer com ambas as mãos ao mesmo tempo! E o mais importante em festivais é comer tudo o que puder!
Por um segundo Aoi-chan acenou efusivamente com a cabeça, concordando com suas palavras, mas logo depois se conteve, francamente se dependesse de Gintsune ele se multiplicaria e passaria em todas as barraquinhas de uma vez só, começou a olhar a volta novamente.
—Não vamos conseguir nenhuma ajuda para decidir vinda dele. — Yukari o descartou.
—Sim, primeiro temos que decidir o que vamos comer, não acho que temos dinheiro para comprar de tudo. — Kaoru-chan concordou.
—E por onde vamos começar… — Aiha-chan acrescentou.
Aoi-chan ergueu a mão timidamente.
—E se cada um comprasse um prato diferente? — sugeriu. — E então cada um experimentasse um pouco… assim todos poderíamos comer uma variedade maior a um custo mais em conta.
Ela começou a se avermelhar intensamente quando os olhares de todos se demoraram em si e encolhendo-se cobriu o rosto com as mãos, e fingindo não achar graça no constrangimento da garota e nem estar disfarçando o riso, Gintsune soltou fortemente o ar pelo nariz enquanto cobria a boca com o punho, logo antes de perguntar:
—Então quem vai comprar o que?
Gintsune foi designado a comprar yakisoba e todos combinaram de se reencontrar debaixo da árvore onde primeiramente deveriam ter se encontrado antes, embora ele não tenha conseguido se afastar antes de Yukari puxá-lo de volta pela manga e proibi-lo expressamente de tocar na comida antes delas chegarem. Ela realmente não confiava nem um pouco nele, não é mesmo? Riu consigo mesmo.
E só pra contrariá-la e ver que cara ela faria, acabou fazendo exatamente o oposto do que Yukari já esperava dele e se comportando daquela vez, esperando pacientemente até que todos estivessem reunidos novamente.
—Como você pagou pela comida afinal? — ela perguntou-lhe em tom um pouco mais baixo e bastante desconfiado pondo-se ao seu lado ainda segurando duas das três espigas de milho assado que havia comprado.
—Com dinheiro é claro. — segurando-lhe o pulso ele puxou uma das espigas para mais perto e inclinou-se para frente de forma que pudesse comer um pedaço, rindo ao notar o cenho franzido de desconfiança da garota. — Era dinheiro real Yukari.
Garantiu endireitando-se, mesmo estando próxima a eles, Aoi-chan parecia bastante entretida devorando um após o outro dos takoyakis comprados por Kaoru-chan, ao mesmo tempo em que segurava na outra mão uma das maçãs do amor que Aiha-chan trouxera, Kaoru-chan também não parecia prestar muita atenção a eles, conversando com a amiga enquanto comia a lula grelhada que ela lhe dera em troca dos takoyakis… Mas Aiha-chan, revezando-se entre comer o milho assado que tinha numa mão e a maçã do amor que tinha na outra, os olhava fixamente.
—E de onde veio esse dinheiro?
Yukari inquiriu com suspeita, sem notar a sentinela às suas costas, fazendo-o jogar a cabeça para trás numa gargalhada que chamou a atenção do resto das garotas também.
—Agora você está querendo saber demais, não é Yukari? — piscou-lhe comendo uma porção de yakisoba logo antes de empurrar o prato entre suas mãos e tomar-lhe uma das espigas de milho em troca e aproximar-se de seu ouvido — Não foi do caixa da pousada nem da carteira de seu pai, então fique tranquila está bem? — sussurrou logo antes de afastar-se — Ouça Kaoru-chan! Meu milho assado por essa lula grelhada que você tem na mão! O que acha?
Ficaram ali se revezando entre os pratos até que a comida acabasse e só então Gintsune se desse conta de que a nenhum deles ocorrera comprar bebidas.
—Essa é uma das vantagens de ser um homem adulto! — afirmou bebendo um gole de sua cerveja, depois de ter distribuído as latas de refrigerante para as meninas — Claro que eu poderia fazer vista grossa e lhes dar um pouco para experimentar se quisessem. — ofereceu sorrindo — Eu não vou contar para ninguém.
Yukari já estava abrindo a boca, certamente para lhe dar uma bela resposta mal humorada, quando inesperadamente Aiha-chan estendeu a mão em sua direção, aceitando a cerveja.
—Representante! — as garotas exclamaram chocadas.
Estremecendo e fazendo careta Aiha-chan devolveu a lata à Gintsune.
—Credo. — reclamou — Uma vez meu ex me deixou experimentar saquê, o gosto também era horrível, mas era melhor do que esse.
—Eu também prefiro saquê. — concordando bebendo — Mas e então, o que vamos jogar primeiro?
Kaoru-chan ergueu a mão.
—Pescaria! — exclamou na mesma hora.
Que fosse pescaria o primeiro jogo então. Mas enquanto andavam pelo festival já lotado de pessoas, foi impossível para Gintsune não notar a forma dificultosa — e principalmente muito gozada — com a qual Aoi-chan movia-se, mantendo as pernas arqueadas e os pés afastados, pisava pesada e lentamente como um lutador de sumô.
—Aoi-chan você precisa manter uma boa postura com as costas eretas, ou suas roupas vão afrouxar. — aconselhou-a pondo a mão espalmada em suas costas, de tal forma que a garota emitiu um guincho surpreso e quase pulou para fora de suas sandálias, corando quando Gintsune começou a rir — E tente pisar com as pontas dos dedos para se equilibrar melhor.
—A-assim? — ela tentou dar um passo, mas quase caiu quando alguém de passagem a empurrou.
—Quase. — Gintsune riu segurando-lhe o braço — Na verdade por que não me dá o braço?
Se fosse possível ela teria soltado fumaça pelas orelhas como uma chaleira de tanto que seu rosto ferveu naquele momento.
—Não é necessário! — recusou nervosa imediatamente erguendo as mãos.
O humor de Yukari certamente ficaria terrível se alguma de suas amigas se machucasse e o objetivo ali era justamente o oposto — além de que Gintsune tinha certeza que de quebra ela ainda arrumaria uma forma de culpá-lo.
—Vamos, é meio perigoso andar no meio de tanta gente com sapatos que não está acostumada. — ofereceu-lhe o braço — Você pode acabar caindo.
—M-mas e quanto Yukari-chan…?!
Obviamente Tsubaki não era a única a única a confundir as coisas entre eles, mas como é que tantas pessoas conseguiam confundir um homem espetacular como ele e uma garota simples como Yukari com um casal?
—Yukari vai ficar ótima. — garantiu a ponto de rir.
Aoi-chan corou e mordeu o lábio inferior logo antes de acenar timidamente com a cabeça e estender a mão em direção ao seu braço timidamente, mas foi pega repentinamente por uma nova mão que agarrou a sua e puxou-a.
—Não fiquem para trás vocês dois, é fácil se perder. — Aiha-chan advertiu-os segurando a mão de Aoi-chan, enquanto abanava-se com um leque de papel — Nishiwake apoie a mão no meu ombro para na cair!
—S-sim!
—Vamos logo, Hongo e Shibuya estão pescando logo ali.
Tentando pescar, era uma forma melhor de dizer, e fracassando era uma maneira até gentil de descrever como estavam se saindo, as duas já haviam usado quatro redes de papel cada e não chegaram nem perto de pegar um peixinho sequer.
—Isso já é ridículo! — riu enfiando-se entre elas e recolhendo as mangas do quimono — Vão gastar todo o dinheiro nesses peixinhos de nada? Vamos, me digam quais querem.
—Os peixes são para Kaoru. — Yukari girou os olhos.
Mas mesmo assim pagou-lhe uma tentativa e ele pegou três pequenos peixes para Kaoru-chan, é claro que podia pegar mais se pagasse por outra jogada, mas Kaoru-chan afirmou que já estava satisfeita com aqueles, então passaram para os próximos jogos, e Aiha-chan pegou uma particular cisma pelo jogo de tiro ao alvo.
—São ¥50¹ a jogada, cada jogada tem direito a quatro tiros. — explicou o vendedor entregando a espingarda de brinquedo para a garota.
—Muito bem esmaltes personalizados, vocês são meus. — exclamou confiante fazendo mira.
Foram necessários mais ¥50 e um total de sete tiros para conseguir os tais esmaltes.
—Vocês querem alguma coisa? — Gintsune perguntou enquanto comia pipoca.
Kaoru-chan balançou a cabeça.
—Muito obrigada, mas o senhor já me conseguiu esses peixinhos, eu não poderia incomodá-lo ainda mais…
Yukari franziu o cenho.
—Incomodá-lo? Esqueça isso Kaoru, ele só quer se exibir. — ela ergueu a mão e apontou. — Consegue pegar aquele mimikaki?
Um limpador de ouvidos? Gintsune fez uma careta, a tenda estava cheia de cosméticos, doces e coisas fofas, mas é claro que Yukari iria escolher o prêmio mais entediante de todos.
—Consigo. — suspirou — E quanto a vocês duas?
Aoi-chan e Kaoru-chan remexeram-se e olharam para os prêmios e pediram coisas bem mais delicadas e menos entediantes: pedindo respectivamente por uma caixa de trufas e um quite de aquarela.
—Isso não foi o que eu pedi. — ela reclamou recebendo dele o quite de máscara fácil hidratante que ele ganhara para ela.
—Sinto muito, o seu pedido era tão entediante que minha mão escorregou. — desculpou-se escondendo o sorriso cínico por trás da máscara de raposa que conseguira para si.
—Oras você! — ela girou os olhos e afastou-se.
E rindo ele continuou a segui-la. As garotas havia todas se amontoado em volta de uma tenda de acessórios femininos quando o inicio da apresentação de fogos de artifício foi anunciada e as pessoas começaram a se dirigir ao local para apreciar o espetáculo, mas quando Gintsune estava prestes a segui-las, percebeu que Yukari havia ficado para trás.
—O que foi?
—Não quero ouvir comentários de você. — ela o advertiu ranzinza afastando as mãos dos cabelos. — Já sei que não combina comigo.
Uma delicada flor de pétalas cor de rosa com bordas douradas e algumas contas rosadas penduradas destacava-se em seus fios negros.
—Ficou bonito. — afirmou, apesar de ela ter dito que não queria ouvir seus comentários — Mas você podia suavizar as suas expressões de vez em quando.
—O que quer dizer? — ela o olhou de forma desconfiada.
—É exatamente disso que estou falando! — ele riu por detrás da máscara de raposa e estendeu-lhe a mão — Venha, você quer ou não ver os fogos de artifício com suas amigas? Acho que ainda consigo achá-las.
A exibição pirotécnica já havia passado da metade quando o grupo finalmente se reuniu novamente, pois achar as garotas foi um pouco mais complicado do que ele previra — afinal o cheiro delas não lhe era tão familiar quanto o de Yukari — e Yukari largou sua mão assim que as avistou.
—Aí estão vocês. — Aiha-chan comentou — Achei que haviam escapulido para ter mais privacidade.
Yukari franziu o cenho.
—As multidões não me incomodam.
Um dos cantos dos lábios de Aiha-chan se repuxou para baixo e ela parecia prestes a dizer qualquer coisa, quando Gintsune retirou sua máscara e exclamou animado:
—Mas vejam que espetáculo todos esses fogos de artifício! Parecem até flores de fogo explodindo no céu!
“Veja Gintsune-Sama, parecem flores de fogo explodindo no céu!” no fundo de sua mente uma pequena voz infantil exclamou desde os fundos de suas memórias.
—São mesmo! Eles são as flores do verão! — ele respondera aquela altura, para o garotinho alado em seus braços — Seus pais deviam mesmo ter vindo!
O pequeno filhote de tengu agarrou-se à suas roupas.
—Quero mostrar as flores do verão para mamãe e papai! Podemos fazer fogos de artifício quando voltarmos para casa? Podemos Gintsune-Sama, podemos?!
Apesar da expressão furiosa de sua máscara vermelha com nariz imenso de tengu que Gintsune o fizera usar, o garotinho claramente não se cabia em si de tanta animação, enquanto que o mais novo, também usando uma máscara idêntica de tengu, dormia a sono profundo atado às suas costas, era engraçado como ele ainda tinha em si o cheiro de leite materno mesclado ao seu.
—Eu gostaria bastante. — concordou — Mas tenho a impressão de que a sua mãe me acusaria de estar tentando incendiar a montanha caso tentássemos. Mas quem sabe um dia?
Ah… ele havia se esquecido disso, e no fim ele e os pequenos meio tengus nunca haviam soltado fogos de artifício juntos.
—O que estava fazendo durante a exibição de fogos de artifício? — Yukari perguntou-lhe deixando o balneário masculino que acabara de limpar. — Ficou de olhos fechados quase até o fim.
—Eu estava sentindo os cheiros. — respondeu saltando do balcão da recepção onde estivera sentada até então.
—Você conseguia sentir o cheiro da pólvora daquela distância? — perguntou curiosa.
—Não realmente. — ele sorriu-lhe.
Yukari franziu o cenho.
—Então por que tinha os olhos fechados? Achei que queria ver os fogos.
—Eu só estava relembrando. — cruzando os braços e recostando-se ao balcão ele fechou os olhos novamente e aspirou fundo logo antes de dizer: — Acho que já faz quase quarenta anos agora.
—Do que? — indagou.
—Do meu último festival de verão. — contou-lhe com um sorriso brilhante — Embora aquele lá tivesse um cheiro muito diferente.
O cenho de Yukari franziu-se levemente quando ela o pegou em sua mentira.
—Você veio a esse mesmo festival no ano passado. — o acusou severa.
—Não me refiro a isso, é que eu estava sozinho naquele.
—Duvido muito. — ergueu uma sobrancelha.
Ele encobriu os lábios com a mão quando se pôs a rir.
—Oras, você me entendeu. — piscou-lhe.
—Oras, você me entendeu. — piscou-lhe.
Yukari girou os olhos e pegando o balde e o esfregão começou a afastar-se, saindo do salão para ir guardá-los, mas Gintsune a seguiu e recomeçou a falar:
—Eu fui a alguns festivais com as minhas famílias, a família em que nasci e a família que adotei, quero dizer, uma vez o tengu convenceu-me a dar carona a ele e a esposa, acredita?
—Carona?
Gintsune deu de ombros.
—Era muito longe para ir caminhando, precisavam de alguém que os levasse pelo ar.
—Achei que tengus tivessem asas…
—Eles têm, mas o tolo se recusou a mostrá-las para a mulher por quase um século e meio! Acredita? — bufou — Parecia até que tinha medo que ela o deixasse, como se a garota já não soubesse o que ele era desde o dia em que fugiram juntos. De qualquer forma eu os levei, era um festival youkai então tive que praticamente obrigar a garota a por uma máscara com um pouco do cheiro do tengu misturada a ela, e você não acreditaria no quanto ela pode ser enjoada quando quer. — balançou a cabeça — Ela gosta de coisas bonitas sabe? Recusa-se a usar máscaras de hannya, oni, hyottoko e qualquer coisa do tipo… — pegou-se rindo consigo mesmo — Mas naquela época eles eram recém-casados, sequer tinham uma década juntos ainda, então eu obviamente estava sobrando ali.
—E simplesmente o deixou em paz? — ela questionou descrente, obviamente o julgando o completo intrometido que sabia que ele podia ser, e preferindo nem comentar a respeito do que ele considerava ser um “recém-casado”.
—Não os abandonei lá, se é o que quer dizer, eu os reencontrei ao amanhecer para levá-los de volta. — Gintsune mostrou-lhe a língua, seguindo-a para dentro do depósito onde ela deixaria o balde e o esfregão — Houve outros festivais… ah! Uma vez nós três fomos a um festival humano e, mesmo que seja difícil de acreditar, foi incrivelmente mais difícil fazê-la se misturar naquele, porque um cabelo como o dela obviamente não se vê em qualquer camponesa. — Yukari fingiu não reparar o olhar de relance que ele lançou às suas tranças — Eu sou mulher às vezes, mas não faço ideia de como elas fazem para atar os cabelos à moda shimada, e o tengu tão pouco! É claro que ela também não sabia, mulheres nobres sempre usavam os cabelos soltos… nós passamos mais de metade do dia embrenhados em tentar descobrir como prender todo aquele cabelo, até que finalmente ocorreu-me chamar Tama.
—E sua gata cuidou dos cabelos dela? — espantou-se.
—Levou um par de horas, mas sim. — deu de ombros. — E claro que ela não ficou nada satisfeita com isso. No fim quem chamou mais atenção foi o tengu e eu, com nossas cabeças não raspadas e cabelos longos algumas pessoas afastavam-se como se fossemos assassinos cobertos de sangue apesar de nossos lindos rostos!
—Você alguma vez já pensou que pode não ser tão lindo quanto acha que é?
—Nunca. — respondeu sem titubear — No último festival que fui eles não me quiseram acompanhar então eu sequestrei os filhos deles.
—Sequestrou?! — Yukari afastou-se dele como se ela própria estivesse prestes a ser sequestrada naquele momento.
—Pelo menos foi assim que a mãe deles descreveu porque “sumi com eles sem dizer nada”, mas eu continuo dizendo que ela estava exagerando com a histeria! Só levei os meninos para passear um pouco, embora o mais novo fosse tão pequeno que eu tenha precisado mantê-lo atado às minhas costas o tempo todo.
Yukari semicerrou os olhos.
—Por quanto tempo os levou para passear? — perguntou desconfiada.
—Hum… uns três dias?
Céus! Se ela fosse a mãe daquelas crianças, com certeza teria matado Gintsune!
—Era um festival youkai, e youkais gostam de festejar e perdemos a noção do tempo com muita facilidade, por isso posso te garantir que não fiquei tanto tempo fora assim. — continuou Gintsune ainda a acompanhando de volta para o salão de entrada — Acho que um grupo de garotinhas, espíritos das flores creio, me achou particularmente simpático carregando um bebê nas costas e levando outro pela mão. Elas presentearam a mim e aos meninos com coroas de flores durante todo o tempo que estivemos lá.
Quando ele ficou em silêncio por quase um minuto inteiro, Yukari afastou a mão do interruptor e virou-se, Gintsune estava parado no centro do salão com as mãos ocultas nas mangas e um olhar vago e distante.
—Sente falta deles? — perguntou aproximando-se.
Gintsune deu de ombros.
—Só estava pensando… eu sumi sem dizer nada, não acho que eles estejam preocupados, eu sei me cuidar bem sozinho afinal, mas e quanto a eles? E se aquele tengu idiota tiver ido atrás do seu chapéu e deixado a mulher sozinha? E se aqueles filhotes arrumarem briga com quem não devem? O mais velho principalmente é muito esquentado, e eu não estou lá pra mostrar as presas pelas costas deles… se eu ao menos tivesse dito a Tama para ficar de olho neles, não que fosse provável que ela fosse arriscar a pele por qualquer um deles, mas mesmo assim. — suspirou — E eu e os garotos nunca soltamos aqueles fogos de artifícios.
—Oh céus. — resmungou erguendo as mãos e pegando o rosto de Gintsune entre elas, entrelaçando seus dedos aos cabelos prateados e puxando-o levemente para mais perto.
Gintsune arqueou as sobrancelhas olhando-a surpreso, Yukari pretendia consolá-lo com um beijo? Mirando seus lábios e tirando as mãos das mangas ele já se preparava para enlaçar-lhe a cintura e puxá-la de uma vez para si, quando a garota inesperadamente afastou-se escapulindo de suas mãos por um triz sem sequer parecer ter notado seus movimentos.
—Pronto. — ela disse — Sinto muito por ser apenas uma única flor falsa, mas não faço ideia de como trançar uma coroa de flores.
—O que? — perguntou confuso.
—Desligue as luzes quando sair, tá bem? — pediu-lhe já indo embora.
Ainda sem entender o que havia acabado de acontecer Gintsune ergueu a mão até a lateral da cabeça e, rindo, sentiu ali as pétalas de uma presilha de cabelo em forma de flor.
—Mas o que é isso? Yukari não é assim que se consola um homem solitário.
Disse para o salão vazio, ainda aos risos.
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