A Lenda da Raposa de Higanbana

18 17: Uma inesperada declaração.


Notas iniciais
Yukari é uma menina estranhamente sincera. ^^' GLOSSÁRIO: Haori: Jaqueta tradicional japonesa, com mangas largas e gola estreita. Jorõ-gumo: Literalmente "noiva enredada" ou "aranha prostituta". Kanabôs: Espécie de porrete japonês, feito de madeira com pontas de metal. Naginata: Alabarda japonesa com tamanho médio em torno de 2m. Rokurokubi: Literalmente “mulher do pescoço longo”. P.S: Caso haja uma palavra que não compreendam avisem-me.

Cortando a imensidão branca da floresta coberta de neve, como uma cicatriz recém-aberta, havia uma vila de bruscas e enormes criaturas com os menores possuindo mais de dois metros de altura, que se movimentavam pesadamente de um lado para outro usando, em sua maioria, apenas tangas de pele, tinham corpos cobertos de cicatrizes, e seus músculos eram como rochas sob peles que variavam em tons de vermelho e azul e um ou outro verde, os maxilares eram maciços e quadrados com grandes caninos inferiores que lhes saiam da boca, e mesmo as fêmeas, consideravelmente mais esguias e menores carregavam armas enormes e pesadas, sendo raros aqueles que preferiam manter uma aparência mais humana em meio àquele bando.

E todos possuíam chifres.

Desde pequenos chifres que despontavam em pares sobre as têmporas, ou solitários no centro da testa, e em muitos pareciam desproporcionais, até grandes chifres curvados ou retos, surgindo da lateral da cabeça ou desde a parte de trás, mas fosse qual fosse o tamanho recusavam-se a ocultá-los mesmo em sua forma humana, afinal tratava-se de uma população de onis.

E toda aquela vila parecera ter nascido e se proliferado em volta de uma imensa rocha negra escarpada, cujas bordas pareciam afiadas como lâminas e cortantes mesmo ao olhar, a qual crescia como um espinho gigante do solo e cujo cume se erguia a mais de quinze metros de altura.

Havia uma caverna no alto daquele espinho negro, e embora a subida até ali pudesse ser penosa e até mortal para qualquer um que não possuísse asas, isso não impedia que uma dupla de onis, imensos e fortes, sempre estivesse ali guardando a entrada da caverna, dispostos a esmagar com seus kanabôs qualquer um que ousasse se aproximar.

No entanto nenhum dos guardas fez qualquer movimento para impedir a entrada de um recém-chegado que terminava naquele momento de subir à rocha, e as diversas cicatrizes em suas mãos, já endurecidas e calejadas, mostrava que já fizera aquela mesma subida por incontáveis vezes antes.

Este também era um oni como eles, porém portava uma aparência quase humana, embora sua pele tivesse um aspecto mais áspero e grosso do que se era esperado de um humano, com finas veias espalhando-se como teias de aranha sobre suas bochechas, ele possuía orelhas pontiagudas e cabelos vermelhos escuros que lhe caiam até pouco acima dos ombros, e tinha as escleras dos olhos avermelhadas e brilhantes iris douradas, a barba avermelhada e por fazer avolumava-se no queixo e ao redor da boca, formando um cavanhaque sem bigode, atravessando seu rosto diagonalmente, desde a bochecha direita, passando-lhe por cima da ponte do nariz e da sobrancelha esquerda até quase alcança-lhe o couro cabeludo havia uma grande cicatriz branca, mas acima de tudo, aquilo que realmente evidenciava a sua procedência não humana eram os chifres. Grandes chifres acinzentados que lhe nasciam desde as laterais da cabeça curvando-se para frente, e cujas pontas erguidas deixavam-lhe um semiarco sobre a fronte.

Havia um imenso e pesado kanabô preso às suas costas, mas diferente do resto dos onis naquele lugar, este não usava uma tanga de pele, e ao invés disso trajava partes de uma armadura feitas de ferro e couro protegendo aos membros inferiores e tinha largas tiras de couro entrecruzadas sobre o tórax nu, prendendo assim a cada ombro uma placa metálica, não havia capacete, pois os chifres jamais permitiriam tal peça... E, no entanto, junto à sua garganta, preso por um fino cordão, havia duas imaculadas penas brancas.

Abandonando a luz do sol, o oni adentrou no interior escuro e frio da caverna, e ajoelhou-se diante de uma longa cortina de bambu ao fundo da caverna, curvando sua cabeça.

—Os inimigos sobre os quais avisou foram derrotados com a primeira luz do amanhecer. — relatou.

Por trás das persianas de bambu uma sombra se moveu.

—Então, tal como previ, estes também falharam em obter o coração da deusa deste lugar. — concluiu a criatura por traz das persianas, em tom deliciado, e tocando levemente o pescoço com as pontas dos dedos perguntou com suavidade: — Oh. E como está o dia hoje? Há neve?

—Neve? — repetiu o oni intrigado — Nevou durante parte da noite, mas já não está mais caindo nenhum floco agora... Você quer sair para...?

—Não, não, não é necessário. — ela recusou delicadamente, enquanto os dedos pareciam brincar com algo em volta de seu pescoço — A neve voltará a cair, ela virá ininterruptamente por quatro dias e três noites, e quando parar e todo o mundo estiver branco e silencioso quero que saiam em patrulha pela floresta, nós... Temos convidados interessantes por vir. Cinco. Não, quatro deles. Tragam-nos a vila, mas não lhes façam dano.

Batendo com o punho sobre o coração o oni inclinou a cabeça.

—Como desejar. — respondeu.

Ele virou-se pronto para, mais uma vez, realizar a penosa descida até a vila, quando novamente foi chamado por aquela que se escondia por trás das persianas ao fundo da caverna:

—Oh, e mais uma coisa. — uma pausa — Os corações dos inimigos que caíram no último ataque... Quero-os servidos a mim esta noite.

Sim, aquela era uma vila de terríveis criaturas, mas a pior de todas residia no interior daquela caverna.

*.*.*.*

Na noite anterior Kakeru havia sonhado com sua aluna Ayaka Shiori — pela terceira vez no espaço de apenas um mês.

No sonho ele caminhava pelos corredores da escola, mas não como um professor e sim como um aluno, o que por si só já era estranho, afinal ele cursara todo o seu colegial — assim como a pré-escola, o fundamental, o ginásio e a faculdade — em Shizuoka e não na pequena Higanbana, mas no sonho isso fazia sentido, assim como as coisas sempre fazem sentido em sonhos, e Ayaka Shiori veio correndo em sua direção acenando-lhe.

—Kakeru-kun! — ela o chamou, e então não havia mais ninguém nos corredores além deles dois — Vamos juntos para casa hoje?

Agora ele não conseguia lembrar o que havia respondido, mas o que quer que tenha dito, a fez sorrir e pendurar-se satisfeita ao seu braço, mostrando-lhe um lindo sorriso ao perguntar:

—E então depois o senhor pode me ajudar com a matéria de hoje professor?

E de repente ele dava-se conta de que não era um aluno, ele era um professor, e Ayaka era sua aluna.

E então ele acordou e não voltou mais a dormir durante o resto da noite.

—Professor? — De repente Ayaka-chan estava a sua frente e os dois estavam na escola, estaria ele sonhando novamente? — Professor está tudo bem?

Era real, ele estava acordado.

—Oh, me desculpe Ayaka-chan. — talvez ele estivesse perto demais dela, deu um passo desconfortável para trás — Você dizia alguma coisa?

Ayaka-chan o olhou de forma preocupada, ele não gostava de vê-la com aquela expressão preferia-a sorrindo, ela tinha um lindo e meigo sorriso... Pare!

—Eu... Não sei se entendi muito bem a lição de hoje. — disse hesitante, ela era uma aluna esforçada, sempre prestava atenção e resolvia os exercícios rapidamente, nas poucas vezes em que não entendia algo, não hesitava em pedir explicações. Kakeru não entendia porque suas notas nas outras matérias eram tão ruins e porque havia tantas reclamações sobre ela. — O senhor pode me ajudar com a matéria de hoje professor? —“E então depois o senhor pode me ajudar com a matéria de hoje professor?”. Kakeru arregalou os olhos de repente. — Professor? Está tudo bem? O senhor parece cansado...

Ela ergueu a mão para tocá-lo... E Kakeru afastou-se como se houvesse levado uma ferroada.

—Me desculpe professor, eu...

A expressão magoada que ela fez... Não, não, não. De jeito nenhum ele queria fazê-la mostrar aquele tipo de cara, o peso em seu peito foi enorme.

—Não Ayaka-chan, está tudo bem. Eu... Só estou um pouco cansado, não dormir direito, a minha cabeça dói um pouco.

Queria acariciar o alto de sua cabeça, mostrar que estava tudo bem, fazia isso com todas as suas alunas, mas então por que com Ayaka-chan estava se segurando tanto?

Falta de sono, era apenas isso.

—Oh, desculpe. Você devia descansar um pouco professor. — ela forçou um sorriso — Eu não queria incomodá-lo.

—Você não está me in... — mas ela já havia saído correndo.

Kakeru suspirou levando a mão à cabeça, talvez ele precisasse mesmo dormir um pouco.

É claro que o professor não fazia ideia do quanto suas reações haviam deixado certa raposa satisfeita e que, já tendo se afastado o suficiente, saltitava feliz de volta à sala de aula, o professor Haruna era sem dúvida um homem de férrea determinação, mas Gintsunte sentia que estava quebrando-o pouco a pouco.

—Ai! — exclamou surpreso quando sua orelha foi repentinamente puxada.

Yukari estava bem ao seu lado agora, fazendo a expressão de uma mãe ranzinza e zangada — não que a mãe dele já houvesse feito uma cara daquelas, no máximo ela fazia um beicinho emburrado e mimado, mas Gintsune já havia irritado mães alheias o suficiente para reconhecê-la.

—O que você fez?! — ela exigiu saber.

Opa.

Do que está falando Yukari? — olhou-a inocentemente.

Tudo bem, ele havia feito muitas coisas, mas não dava para saber de quais delas Yukari poderia estar falando agora.

Yukari soltou-o irritada, e disse em tom baixo:

—Algumas garotas disseram que viram uma sombra na janela do banheiro feminino, e acham que havia alguém espiando.

—Ah. — Gintsune piscou — Não foi um pássaro?

Ela cerrou os olhos.

—Seu...

Gintsune ergueu as mãos.

—Eu sou inocente. Juro. — alegou.

—Ah. — Yukari piscou — Oh certo, me desculpe então.

E simples assim ela virou-se para ir embora, mas não antes que Gintsune pulasse em suas costas e a abraçasse.

—Oh Yukari, você inventou isso só para vir falar comigo porque se sentiu solitária, não é mesmo? — provocou-a. — Eu sei que você senti a minha falta quando não estou por perto.

—Você quer me soltar?! — ela reclamou irritada tentando esquivar-se da raposa.

Tendo sido criada numa pousada tradicional, Yukari foi ensinada desde tenra idade a usar um quimono adequadamente, portar-se com educação, e sempre ter uma postura correta para andar, sentar-se e curvar-se. Mas principalmente: a esconder as emoções.

Não importava o que lhe passasse, mesmo que o mundo desmoronasse à sua volta, era seu dever sempre manter um sorriso gentil e cortês diante dos convidados... Mas infelizmente ela sempre foi péssima nessa lição em particular.

Desde pequena e ainda hoje, a mentira e o fingimento vinham-lhe a muito custo, pois as emoções de Yukari sempre transpareciam de forma cristalina em suas expressões, e muitas vezes, quando lhe perguntavam, os pensamentos também emergiam sem quaisquer artifícios em suas palavras.

É claro que agora ela se arrependia amargamente de tal falha sua:

Um mês atrás Yukari já havia se conformado com a ideia de que a raposa, em fim, fora embora para não voltar mais, afinal fazia-se mais de uma semana que já não dava as caras. E, no entanto, quando ouviu o que duas convidadas diziam no mesmo dia em que a primeira neve do ano caiu...

—... Jardim!

—Sim! — as duas riam cochichando entre si. — No começo achei que fosse uma mulher, pelo cabelo longo...

Yukari afastou-se, pondo-se de lado no corredor para não ficar no caminho delas e curvando-se respeitosamente com sua passagem, mas as duas sequer pareceram notá-la ali. E seguiram falando:

—Mas ele era tão lindo!

—Com certeza! Em que quarto será que está...?

Um belo homem de cabelos compridos no jardim...?

É claro que de forma alguma podia ser ele, pois afinal Yukari estava convencida de que aquela raposa se fora, mas ainda assim ela viu-se correndo desenfreada em direção ao jardim — mesmo que correr fosse altamente proibido dentro da pousada.

Não podia ser ele, de jeito nenhum.

E ainda assim, quando a garota chegou ao jardim, encontrou-o ali observando as carpas nadando no lago, embora estivesse de costas não havia duvidas de que era ele, ainda usava o mesmo cachecol e haori que usava no dia em que o vira pela última vez, o chapéu havia desaparecido, mas os longos cabelos negros erguiam-se com o vento, enquanto os primeiros flocos de neve caiam e derretiam sobre sua cabeça e ombros.

Parecendo dar-se conta de que já não estava mais sozinho, a raposa virou-se com as mãos escondidas dentro das mangas, e ao vê-la ali sorriu:

—Yo. Yukari. — cumprimentou-a como se houvesse visto-a ainda no dia anterior. — Onde está sua outra sandália?

Só então ela deu-se conta que um de seus calçados se perdera na corrida, mas isso de nada lhe importou, arfante e com as faces vermelhas devido à corrida, Yukari levou as mãos ao peito, vendo sua própria respiração condensar-se diante de seu rosto.

—Eu... Eu... Achei que tivesse... — disse ofegante, entre uma puxada de ar e outra — Ido embora...!

—Por que pensou isso? — ele arqueou as sobrancelhas — Eu só saí para dar uma volta. Oh... — um lento sorriso astuto cresceu em seu rosto antes de provocá-la: — Não me diga que sentiu minha falta?

—Eu senti!

A súbita resposta dela calou-o, parecendo por um momento surpreso demais para falar, ele realmente não esperava aquela resposta.

—Oras. — ele disse um instante depois, ainda surpreso — Oh, acabei de lembrar-me, eu trouxe uma lembrancinha da cidade para você.

E tirando as mãos das mangas ele estendeu a ela uma miniatura da Torre de Tóquio, mas é claro que Yukari o recusou, não queria presente roubado algum, o que é claro não impediu o objeto de aparecer em sua escrivaninha naquela mesma noite.

E é óbvio que agora aquela raposa nunca mais a deixaria se esquecer do que, impensavelmente, acabara confessando.

—Me solte, eu já disse! — teve de repetir.

Ele a soltou, mas não deixou de segui-la de volta á sala de aula, e Yukari não precisava olhar para trás para saber que ele estava de novo com aquele sorriso idiota dele.

—Shibuya! — a representante ergueu a mão chamando-a — Onde você foi? Saiu correndo de repente no meio do almoço.

Às suas costas a raposa adiantou-se em responder no seu lugar:

—Não foi nada, a pobre Yukari só teve uma prisão de v...!

Yukari o acertou nas costelas antes que ele pudesse terminar, mas o golpe, obviamente, só o fez rir.

—Desculpe, não foi nada, eu estou bem. — suspirou sentando-se.

E claro que ele puxou uma cadeira e sentou-se também, mesmo sem ter sido convidado, mas nenhuma de suas amigas disse qualquer coisa contra isso, e continuaram a conversar normalmente:

—Mas então, Nishiwake, já teve tempo de pensar em sua resposta?

—Resposta para o que? — a raposa tentou inclui-se na conversa, pegando casualmente um pedaço de frango empanado do almoço de Yukari.

—Ayaka, você conhece aquele café no centro comercial? Ele é o único do tipo na cidade e você já está por aqui há algum tempo então já deve ter, ao menos, ouvido falar.

—Hum... — ele roubou uma cenoura cortada em forma de flor do almoço de Yukari, a garota suspirou — É aquele lugar fofo e cor de rosa que se chama Raposa encantada e que cheira a chocolate?

Era uma descrição estranha, mas ainda assim a representante assentiu sem hesitar:

—Exatamente. Acontece que minha mãe trabalha na parte da cozinha ali, e o dono andava querendo contratar com urgência duas garotas para ajudar a servir às mesas e distribuir panfletos nesse período de maior movimento, por causa da época. É apenas um serviço temporário de duas semanas, com meio expediente por apenas ¥ 50,00 a hora, mas Hongo e Shibuya já estão ocupadas com os negócios de suas famílias.

Uma salsicha foi abduzida do almoço de Kaoru, mas infelizmente todas ali já estavam tão acostumadas com o mau comportamento daquela raposa que ninguém mais se importava.

—Ora, eu não acho que nossa fofa Aoi-chan seja adequada para atendimento ao publico. — ele sorriu — Mas ao que você se refere quando diz “período de maior movimento por causa da época”?

O momento de silêncio que se seguiu durou cerca de cinco segundos, durante o qual Kaoru, Aoi-chan e a representante olharam estupefatas para a raposa ao mesmo tempo em que Yukari seguia comendo seu almoço normalmente e estapeava a mão da raposa quando ele tentou pegar sua caixa de suco.

—Ayakashi-chan, não me diga que não sabe que dia é 14 de fevereiro? — Aoi-chan perguntou baixinho, já corando, mas a raposa olhou-a inexpressiva — É... É... O dia dos namorados.

E corou com as próprias palavras.

—Hum... Dia dos Namorados... — dessa vez a próxima vitima foi um tomate cereja do almoço da representante e, provavelmente lembrando-se sobre algo que Yukari lhe dissera, perguntou — É quase o mesmo que o Natal, não é?

—Acho que sim, ambos são focados em casais. Com casais marcando encontros e se declarando e pessoas solteiras na fossa por todo lado. — a representante deu de ombros — Mas o Dia dos Namorados é mais focado em chocolate.

—Chocolate?

—Sim, nesse dia as garotas fazem ou compram chocolates e presenteiam seus namorados ou caras de quem gostam com eles... E também para agradecer algum por alguma ajuda ou favor que lhe tenha feito, e também a amigos e colegas de trabalho, e a familiares... Basicamente para qualquer um que tiver vontade. — de repente ela voltou-se novamente para Aoi-chan. — Nishiwake sua resposta.

Aoi-chan pareceu levar um susto quando o assunto voltou-se repentinamente para si novamente.

—Eu... Eu... Sinto muito, mas também acho que não sou adequada para atendimento ao público.

—Entendo, que pena. — ela voltou-se novamente para a raposa — E você Ayaka, está disponível?

—Absolutamente não! — Yukari respondeu de repente.

Gintsune deu uma risadinha, ela realmente não confiava nem um pouco nele, não é mesmo?

—Temo que vá ter que declinar também. — respondeu.

—Que pena. — a representante deu de ombros — Shibuya, de que tipo de bolo você gosta?

Ao seu lado Yukari franziu o cenho.

—Não gosto de coisas extremamente doces então... Acho que nada que seja muito confeitado, hum... Na verdade prefiro cheescake.

—Chesecake, entendi. — a representante assentiu.

—Mas por que isso de repente? — Yukari perguntou curiosa.

—Como “por que”? — a representante a olhou — Hongo me disse que daqui a dez dias é seu aniversário, três dias antes do Dia dos Namorados: 11 de fevereiro.

Ao seu lado a raposa conteve uma risada.

—Oh certo. — disse como se houvesse entendido alguma piada — Por isso Yukari é sempre tão fria, ela é uma criança nascida do inverno.

Comentou fazendo o resto de suas amigas o olharem com curiosidade.

—E quanto a você Ayakashi-chan, quando é o seu aniversário? — Kaoru perguntou.

—O meu aniversário? Você quer dizer o dia do meu nascimento? — pensativo ele esticou a mão até o outro lado das mesas e roubou um pedaço de omelete do almoço de Aoi-chan — Antigamente todo mundo apenas acrescentava um ano a mais na sua idade a cada primeiro dia do ano, mas agora todos tem um dia especial só para si, não é? De qualquer forma, eu sou um filhote da primavera.

Ele realmente falava de uma forma muito estranha às vezes, Yukari balançou a cabeça e seguiu comendo, mas então Kaoru começou a rir, uma pequena risadinha contida com a mão sobre a boca, mas que fazia seus ombros balançarem, e logo depois a representante também começou a rir, mais alto e mais abertamente e até mesmo Aoi-chan deu um sorrisinho tímido.

—Ora, mas o que foi isso que você disse agora? — a representante perguntou entre risadas — Ayaka você é realmente uma pessoa singular!

E ainda estavam rindo quando Minori-chan aproximou-se para chamar a raposa, sussurrando ao seu ouvido que “Yonekura Eisuke da sala 1-7 estava ali para vê-la”, algo ao que Yukari só pôde escutar por estar sentada justamente ao seu lado.

—Se me dão licença... — raposa levantou-se e inclinou educadamente a cabeça...

E então roubou rapidamente a caixa de suco de Yukari antes de escapulir-se dali.

Bem, que seja, Yukari resolveu se apressar para terminar de comer logo antes que ele voltasse. E pensou consigo mesma se talvez ela devesse começar a preparar o almoço para a raposa, isso provavelmente seria bem menos problemático.

Eisuke-kun, a quem Gintsune não tinha ideia de quem era — já que não fazia qualquer esforço para memorizar os nomes dos humanos — acabou sendo o atrevido representante de turma que gostava de organizar apostas ilegais nos eventos escolares, e ele estava ali especialmente para oferecer-lhe à “grande oportunidade” de sair com ele… oportunidade a qual ele declinou com um belo sorriso, para sua grande surpresa.

Mesmo que Yukari sempre pensasse nele como um pervertido leviano — tudo bem, ele realmente era —, nem por isso significava que ele simplesmente saia com qualquer um que aparecesse à sua frente, se não havia nada de interessante para ele, não havia porque ele querer sair... Embora certa vez ele houvesse concordado um convite para sair mesmo sem ter qualquer interesse naquilo.

É certo que Gintsune havia concordado em levar o tengu e a esposa ao festival, mas em momento algum ele proferiu algo a respeito de servi-lhes de vela durante a noite inteira.

—É melhor vocês estarem de volta aqui no terceiro badalar antes do amanhecer. — avisou-os cruzando os braços severamente — Ou terão de encontrar outra maneira de voar para casa.

E com isso lançou um olhar significativo ao tengu.

A garota segurou suavemente em sua manga.

—O que está dizendo Gintsune? — e pensar que até uma década atrás ela ainda o chamava “Gintsune-Sama”, humanos eram realmente tão mutáveis. — Você não virá conosco?

Gintsune estalou a língua.

—Não seja tola, para que os Hyoukos possam voar bastam apenas dois! Se eu vim até aqui quero, ao menos, me divertir e não ter que ficar servindo como ama seca pelo resto da noite!

Claramente decepcionada — afinal quem não estaria se perdesse a oportunidade de estar ao lado de alguém tão belo? — ela ainda tentou argumentar:

—Mas...

No entanto o tengu a aquietou segurando sua mão.

—Não arrume confusão. — disse-lhe.

Gintsune sorriu.

—Eu digo o mesmo, mas se vocês se meterem em problemas gritem. — de repente sério ele acrescentou — Sério, gritem. Bem alto. Mesmo. Eu virei voando.

Sorrindo-lhe a esposa do tengu lhe garantiu que os dois ficariam bem e só então eles o deixaram ir — ou ele os deixou ir, tudo dependia da versão de quem você escutava — de qualquer forma eles certamente ficariam bem, pois aquela era uma época quando os dois mundos ainda eram praticamente um e não era raro que humanos acabassem entrando em festivais youkais, se divertissem junto das criaturas sobrenaturais e ao final da noite se fossem sem nunca sequer desconfiarem onde realmente estiveram.

Além do mais, aqueles tipos de festivais geralmente eram feitos por youkais fracos e pacíficos que tinham mais medo dos humanos do que os humanos deles, o próprio tengu os assustava, pois Gintsune não deixou de reparar como o resto dos youkais afastava-se e tentava não fazer contato visual enquanto o tengu e sua esposa passavam — os dois, aliais, pareciam não ter reparado nisso —, afinal tengus eram criaturas beligerantes e de temperamento explosivo e ninguém ali queria provocar a ira fácil de um, embora aquele tengu em especial fosse absurdamente pacifico e gentil.

Ainda assim Gintsune não era tão irresponsável quanto ele geralmente transparecia ser e, para não jogar com a sorte, exigira que a esposa do tengu colocasse uma máscara para ocultar sua identidade humana e fazê-la passar despercebida enquanto estivessem ali, mesmo que só lhe cobrisse a metade superior do rosto, afinal máscaras eram um acessório adorado por youkais, especialmente em festivais.

Os youkais também se afastavam cuidadosamente dele enquanto passeava por ali, embora não parecesse nem de longe tão receosos com ele, pois embora mais poderosas, raposas eram criaturas muito mais astutas do que realmente violentas e em geral não possuíam comportamentos tão explosivos quanto os tengus.

Era engraçado pensar em como as coisas haviam se invertido ali do que geralmente eram em sua cidade, onde todos apenas se afastavam do tengu e sua esposa por estarem sempre imersos em um aterrorizado respeito por Gintsune.

Youkais eram também, em geral, criaturas ébrias e festeiras, dispostas a comemorar por praticamente qualquer coisa, de forma que aquele festival podia bem ser uma saudação aos dias ensolarados depois das chuvas sem fim, a comemoração por uma boa colheita ou porque as estrelas se alinharam, em fim, praticamente tudo era uma razão para dançar, beber e comemorar. E inclusive um palco havia até mesmo sido montado em meio a tudo aquilo para a exibição de um ato musical qualquer, no entanto Gintsune nunca chegou a descobrir que tipo de dança foi encenada ali naquela noite, pois o ato já se finalizara quando chegou a avistar o local, mas foi outro fato que chamou sua atenção naquela direção:

Vestindo as mais finas roupas nas quais estava ricamente pintada uma paisagem primaveril com flores desabrochando, e aves voando sobre um céu azul esverdeado, ela sentava-se modestamente no chão para apreciar o espetáculo entre todos os demais espectadores, embora todos mantivessem uma cuidadosa e respeitosa distancia dela, e quando se levantou os demais se afastaram rapidamente saindo de seu caminho com movimentos nervosos e apressados, por mais singela que fosse, pois era nítido a qualquer um que aquela era uma criatura intocável para além de qualquer um, mas ela sequer pareceu notá-los enquanto punha o grande chapéu de viagem com o longo véu que lhe caia até a altura dos quadris — embora fosse uma noite enluarada — e caminhava para longe dali.

Estava indo embora, apesar de o festival estar apenas no começo, claro, certamente viera apenas para apreciar o espetáculo e enquanto todos se afastavam e abriam caminho para sua passagem, Gintsune correu atrás dela, seguindo-a para além do festival.

Podia ter chamado-a, mas sua natureza travessa o fez querer surpreendê-la.

Certamente ela percebeu que era seguida, mas não reagiria a menos que o outro fizesse o primeiro movimento, ambos já haviam adentrado a floresta quando Gintsune em fim alcançando-a e agarrou-a pelo braço sentindo imediatamente uma pequena corrente elétrica percorre-lhe desde as pontas dos dedos até o cotovelo, e ela virou-se de tal maneira que ele soube que se fosse qualquer outro ali já teria perdido a mão.

No entanto tratava-se dele, portanto a voz que veio por debaixo do véu ao reconhecê-lo era suave e gentil quando perguntou:

—Ora, o que faz aqui?

Fazia mais de três décadas desde a última vez em que ele a vira, e sorrindo ele delicadamente afastou seu véu de lado, o rosto dela ainda era tão belo e elegante quanto ele se lembrava.

—Eu vim para me divertir, é claro. — respondeu.

Com seus lábios rubros ela sorriu-lhe.

—Como sabia que era eu?

—Como? — repetiu surpreso com a pergunta — Porque esteja onde você estiver eu sempre a encontrarei.

Quando Gintsune abriu os olhos, viu que uma silhueta assoma-se sobre si, fazendo-lhe sombra contra a luz do sol.

—Ir...mã? — balbuciou.

Mas então o sol escondeu-se por trás de uma nuvem, permitindo-lhe em fim distinguir os traços do rosto daquela que estava agachada ao seu lado na beira do rio.

—O que você faz dormindo aqui desse jeito? — Yukari questionou.

Na verdade seu rosto estava quase todo encoberto pelo cachecol e o gorro, mas a suave fragrância exalada por ela e as trancinhas de fora eram inconfundíveis. De repente arregalando os olhos, Gintsune sentou-se com tal brusquidão na grama que Yukari surpresa caiu para trás, sentada no chão.

—O que você faz aqui?! — perguntou surpreso, ainda ligeiramente dentro do sonho.

—Para que foi isso?! — ela reclamou de volta, irritada.

Ele estivera dormindo a beira do rio, lembrou-se, Yukari certamente o avistara ali enquanto voltava da escola.

—Você me surpreendeu. — afirmou — Eu só estava tirando um cochilo.

—Sempre reage de maneira tão energética quando é acordado? — ela questionou ranzinza ajeitando o cachecol por sobre a boca, certamente ainda rancorosa da vez em que ele quase lhe arrancara o pé.

—Só quando tocam minha cauda. — sorriu provocando-a.

—Ainda assim você não devia dormir a beira do rio desse jeito, um humano normal já teria morrido congelado. — afirmou lançando-lhe um olhar significativo ao levantar-se.

Afinal a intenção dele não era justamente passar-se por um ser humano?

Mas Yukari estava exagerando, é claro que agora havia uma porção de humanos andando por aí enfiados em casacos, cachecóis e gorros, e as fontes termais estavam muito mais requisitadas também, e o céu estava num constante e pesado tom de cinza e todas as árvores já estavam nuas e a grama completamente marrom, mas fazia quase seis dias desde a última vez que nevara... Além do mais ela não aguentava nem um pouquinho de frio?

—Relaxe um pouco. — ele bocejou — Eu não dormia desde o ano passado.

Ela franziu o cenho, daquele seu jeito tão característico.

—Por quê?

Gintsune abriu a boca, prestes a fazer algum gracejo qualquer como “eu andei ocupado durante as noites” com a única intenção de irritá-la quando, de repente, se deu conta de uma coisa: por um segundo ele havia confundido Yukari com sua bela irmã.

Grunhindo ele curvou-se para frente cobrindo o rosto com ambas as mãos, em um raro e abrupto momento de constrangimento.

—O que foi? — Yukari sobressaltou-se — O que houve? Está com dor?

—Agora mesmo, do que foi que eu a chamei quando acordei?

—Hum... “Irmã”?

Gintsune gemeu.

—Não acredito! — censurou-se — Se ela soubesse disso... — voltou a gemer, encolhendo-se — Se enfureceria comigo certamente.

—Quem...? Oh. — ela pareceu compreender de repente — Está me dizendo que me confundiu com sua irmã?

Gintsune colocou-se subitamente de pé.

—Minha irmã é infinitamente bela, elegante, doce e delicada! — afirmou virando-se e afastando-se dali.

—Não precisa exagerar. — Yukari comentou o seguindo, afinal, mesmo sem perceber, Gintsune começara a fazer seu caminho de volta à pousada Shibuya. — Você por acaso... Não teria algum tipo de complexo de irmã, teria?

Gintsune parou e virou-se.

—O que é isso? — perguntou curioso.

—É quando um irmão se apega de forma exagerada à irmã, admirando-a e enaltecendo-a em tudo o que faz. — respondeu o alcançando.

—Oh. — ele enfiou as mãos nas mangas — Bem, não é como se eu estivesse exagerando, se pudesse conhecê-la você veria como minha irmã é refinada, além de muito amável e cortês, e que ama as coisas belas, e eu sei que é difícil acreditar quando você já me conhece, mas ela consegue ter um rosto ainda mais belo que o meu! Então não é apenas natural que eu a admire um pouco? Você é filha única então não poderia entender, se bem que mesmo se você tivesse uma dúzia de irmãos não poderia compreender porque nenhum humano jamais poderia sequer sonhar em ser tão incrível...

Se ela o empurrasse da ponte será que isso o faria parar de tagarelar?

Yukari suspirou longamente, já arrependida de tê-lo acordado, ainda que fosse contra a lei ela apenas devia tê-lo deixado dormindo a beira do rio até que rolasse para a água e congelasse ou até que a neve começasse a cair e, com sorte, o soterrasse de uma vez até a primavera.

*.*.*.*

Voando o mais velozmente que podiam, Akira e Akihiko apostavam corrida por entre as copas da árvores cheias de neve dando piruetas no ar, enquanto riam por detrás de suas máscaras de bicos de pássaro e puxavam um ao outro.

—Akira! Akihiko! Não voem tão alto! — Satoshi gritou do solo — Não se afastem demais!

Ao seu lado, com um passo mais lento e pesado, Mayu tocou-lhe o braço.

—Deixe os meninos serem livres. — disse — Eles nunca puderam voar assim na cidade ou na sua vila, não é?

—Sim, e foi voando assim tão impetuosamente que Akihiko ficou preso naquela teia de aranha perto da cachoeira há três dias e eu e ele quase fomos comidos vivos por aquela Jorõ-gumo! — Satoshi respondeu preocupado, aquilo foi arriscado, se Akira não houvesse rolado aquele rochedo e esmagado a Jorõ-gumo... — Além do mais não sabemos que outros youkais podemos encontrar nessas terras desconhecidas.

Cobertos por capas e chapéus de palha, ambos pareciam imensos montes de palha ambulante.

—Mas eles estão voando baixo agora, e também não estão se afastando tanto. — Mayu parou um pouco, segurando ao braço do marido — Satoshi, talvez fosse melhor se...

—Parássemos?! — Satoshi antecipou-se a ela, pondo-se imediatamente nervoso — Está cansada? Os pés doem? Estão congelando? Eu sabia que caminhar por toda essa neve seria ruim! Devia ter posto mais peles! É o bebê?! Ele está por vir?! Quer que eu a c...?!

Mayu afastou-se, empurrando-o irritadamente.

—Se você me deixasse carregar a naginata. — concluiu impaciente — Talvez fosse melhor se você me deixasse carregar a naginata.

Satoshi olhou-a espantado.

—Mayu, a naginata é pesada demais para que a carregues durante todo o caminho, e na condição em que está...

—Mas como posso proteger-me se nem sequer me deixa levá-la? — ela suspirou retirando a própria máscara.

Afinal fora com esse objetivo que o marido pusera a lança em sua mão, no principio de tudo.

—Eu a protegerei! — Satoshi afirmou espantado.

—Eu não duvido disso, mas se eu tivesse a naginata quanto Akihiko e você acabaram presos na teia...!

—Teria se posto em risco desnecessário junto com o bebê! — Satoshi a interrompeu — Além disso, é preciso muito treino para empunhar...

—Então me dê o treino!

Se Gintsune não tivesse enchido tanto a cabeça de Satoshi com ideias sobre toda a fragilidade humana! Quando ela o visse novamente iria mostrar-lhe a máscara de um cão!

—Irei treiná-la. — ele prometeu — Mas na condição em que está agora, talvez fosse melhor se eu pudesse apenas carregá-la até...

—Papai! Mamãe! — Akira e Akihiko gritaram do alto.

Sem fazer som algum, alguém vinha aproximando-se por entre as árvores e Mayu apresou-se a recolocar a máscara.

—Alto! — Satoshi estendeu o braço a sua frente, e levou a outra mão ao cabo da espada presa junto ao quadril. — Quem vem lá?!

Cristais de gelo caíram entre eles quando os meninos pousaram em algum galho acima deles, a recém-chegada deteve-se ainda há alguns metros deles e, como Mayu, vestia-se com várias camadas de quimono e ocultava seu rosto sob uma máscara.

Sua máscara era um longo rosto liso e branco, com um ramo de flores azuis descendo-lhe por parte do rosto desde a têmpora direita, e uma linha roxa traçada em arco para simular-lhe a boca, e enxergando através de um único buraco pequeno e redondo do lado esquerdo do rosto ela inclinou a cabeça para trás a fim de ver os meninos no alto.

—Ora, mas o que temos aqui? Dois filhotes de tengu? Que imagem mais rara... Embora eu tenha escutado que esse era um território de onis. — Território de Onis?! — E você? Um espírito tão guerreiro, e unicamente para protegê-la? Será possível...?

De repente, e mais rápido do que os olhos de Mayu podiam sequer ser capazes de acompanhar a cabeça da estranha saltou para frente, atravessando toda a longa distância entre eles com um piscar de olhos, enquanto o corpo permanecia imóvel onde estava com o pescoço alongando-se infinitamente até estar cara a cara com Mayu.

Rokurokubi!

Parecendo estalar a língua por detrás da máscara a rokurokubi afirmou com desgosto:

—Não sinto nenhum tipo de poder em você. — A espada de Satoshi relampejou, traçando um arco no ar, porém tão rápido quando havia se estendido o pescoço do rokurokubi se comprimiu novamente, levando de volta a cabeça ao corpo e escapando incólume da lâmina. — Se não se tratam então da pequena deusazinha e sua guarda, suponho então que também estejam aqui para capturar-lhe o coração? Se for assim por que não nos unimos? Pelo céu e pela terra certamente conseguiríamos capturar o coração.

—Não sabemos de deusazinha alguma! — Satoshi se pronunciou — Somos apenas viajantes de passagem.

—Passando por essas terras? — questionou descrente — Estão perdidos ou mentem descaradamente.

Do alto das árvores os garotos, e até mesmo Mayu, lançaram olhares desconfiados a Satoshi, ele os estava guiando pelas rotas mais isoladas e de menor movimento, para evitarem a todo custa embates desnecessários, mas será que ele tinha realmente alguma noção de por onde os estava levando?

—Só queremos seguir com nossa viagem. — Satoshi afirmou ainda de espada em punho — Então siga com seu caminho que faremos o mesmo.

Os garotos também tinham as mãos pousadas nos cabos de suas espadas, prontas a sacá-las a qualquer instante, a cada dia a mais em que se mantinham naquela jornada, todos se tornavam cada vez mais tensos e cautelosos, como se seus instintos de sobrevivência, há muito adormecidos em função de uma vida tranquila e protegida à sombra de certa raposa irresponsável, estivessem sendo forçadamente despertados agora, embora ainda houvesse alguns escassos momentos de distração, como o voo livre dos garotos até poucos momentos atrás, e outros de descuido quase fatais, como o caso com a Jorõ-gumo dias atrás.

É claro que a rokurokubi já havia se dado conta da situação ali: eles só atacariam se ela atacasse primeiro, Mayu não representava ameaça alguma ali, como a rokurokubi havia feito questão de confirmar ao farejá-la, mas ainda assim continuavam a ser três contra uma, seu pescoço e o bote veloz realmente poderiam ser um grande problema, mas os meninos também eram rápidos no ar, assim como o pai — mas Satoshi nunca deixaria o solo deixando Mayu desprotegida, e carregá-la durante uma batalha seria impensável, de forma que, ao menos naquela situação, ele estava com os pés presos ao chão — e ela não podia lançar-se a três direções diferentes ao mesmo tempo e ainda havia o fato de que enquanto seu pescoço se alongava seu corpo ficava para trás, completamente vulnerável. Entretanto tudo ficaria bem se ela simplesmente recuasse... Mas ainda assim a youkai permaneceu onde estava apenas movendo sua cabeça para cima e para baixo — dos meninos nos galhos das árvores, para Satoshi e Mayu à sua frente.

—Se estão mentindo então são meus rivais pelo poder da deusasinha... Mas ainda são apenas um par de filhotes e um homem protegendo uma mulher, não são grandes adversários. — disse em tom analítico, como se pensasse em voz alta, Mayu percebeu Akira apertar o punho em volta do cabo da espada, fique aí. — Se estão dizendo a verdade então são estúpidos, parece que de qualquer forma os onis palitarão os dentes com seus ossos e arrancarão seus corações para entregar àquela mulher voraz. Mas uma captura de invasores em seu território tão recentemente os poria em alerta e isso seria um problema para meu ataque furtivo... — os olhos de Mayu correram em direção aos seus filhos, aquela coisa não recuaria! — São apenas um par de filhotes e um homem protegendo uma mulher.

Atirando a máscara para o lado a rokurokobi deu seu bote contra Mayu e Satoshi.

Certamente achou que seria mais fácil investir antes contra os alvos no chão e com menor mobilidade, mas tudo o que sua boca escancarada encontrou foi à ponta da espada de Satoshi que entrou por ela e saiu pela parte de trás da cabeça, isso provavelmente não teria sido o suficiente para matá-la, mas ainda assim quando Satoshi retirou sua espada os olhos da criatura reviraram-se e quando já desfalecia sobre a neve Akihiko desceu sobre ela com sua própria espada, cortando-lhe o longo pescoço, ao longe o corpo também desfaleceu, cedendo sobre os joelhos e então desabando na neve, apunhalada pelas costas à altura do coração por Akira.

E assim, num piscar de olhos ela estava morta.

—Ela estava louca. — declarou Satoshi encarando o corpo sem vida. — Que razão havia para nos atacar numa situação como essa? Não havia a menor chance para ela, mas nós a teríamos deixado ir.

—É só isso que eles fazem! — Akira sacudiu a espada com um único movimento rápido, fazendo respingar o sangue na neve, antes de guardá-la de volta na bainha. — Odeiam-nos!

—Youkais odeiam meio-youkais, e devoram humanos, mas essa aqui não pareceu ter tido conhecimento do que vocês são. — Satoshi ainda olhava o corpo estirado na neve, franzindo o cenho enquanto tentava compreender — Também não demonstrava qualquer interesse particular em devorar qualquer um de nós, nem parece que tenhamos invadido seu território.

—Ela estava dizendo algo sobre uma deusazinha e roubar seu coração. — disse Mayu.

—Poder. — Satoshi deu-se conta — Muitos enlouquecem por poder, inimigos ou não ela viu-nos como um obstáculo ao poder que ela queria conseguir, ou um degrau a mais para obtê-lo.

—Satoshi. — Mayu agarrou o braço do marido — Ela disse que esse é um território de onis, e se eles estão realmente protegendo algo tão poderoso e valioso assim...!

Satoshi a entendeu:

—Devemos ir. Agora...!

De repente Satoshi havia saltado sobre Mayu, caindo sobre ela e atirando-a de costas no chão, bem no exato instante em que uma enorme rocha veio voando do céu e quase os esmagou.

Meu bebê...! Foi seu primeiro pensamento. Meus filhos!

Foi então que eles surgiram, rugindo, gritando, terríveis e assustadores, vieram de todas as direções, e inclusive de cima das árvores, imensos e ferozes onis que caíram todos sobre eles e os capturaram sem que houvesse tempo para reagir ou fugirem.

Alguém arrancou Satoshi de cima de Mayu, atirando-o com brusquidão contra uma árvore, Mayu gritou ao também ser puxada e erguida há mais de um metro do chão quando uma gigantesca mão a agarrou pelas roupas, debatendo os pés inutilmente no ar ela viu Akira debaixo do pé de uma das criaturas, que também tinha a cabeça de Akihiko em seu punho, um movimento e ele a esmagaria.

—Larguem-nos! — Satoshi gritou furioso ao ser atirado ao chão e ter seu braço torcido para trás até que soltasse a espada, e a naginata de Mayu, que trazia presa às suas costas, também lhe foi tomada.

Pois contra a monstruosa força dos onis não havia par.

—Detenham-se! — o urro pareceu vir de todas as direções daquela floresta — São eles?

—São quatro. — uma das criaturas respondeu aproximando-se do rochedo que quase os esmagara — Eram cinco, mas esse aqui foi esmagado.

—Não, esse já estava morto. — respondeu outro, recolhendo do chão o corpo inerte e apunhalado da rokurokobi — Esse aqui foi morto por eles mesmo.

E atirou o corpo para o lado, como se não fosse nada, o corpo rolou na neve e caiu aos pés de uma nova criatura que saia de entre as árvores, era um oni como todos os outros — assim como os grandes chifres evidenciavam — mas usava partes de armadura e uma aparência não tão monstruosa.

—É o bastante. — disse o oni de cabelos vermelhos — Amarrem-nos e levem-nos. Mas não lhes façam dano.

Mayu já havia conhecido alguns onis antes, criaturas territoriais e ferozes que facilmente explodiam em fúria e cuja força bruta quase não havia igual, no entanto não eram muito inteligente ou organizados, e tão pouco eram sociáveis, por isso raramente viviam em bandos com mais que meia dúzia de indivíduos ou em sociedade, mas aqueles haviam construído toda uma comunidade!

E mais de uma centena deles vieram se aglomerar ao redor deles, quando Mayu, Satoshi e seus filhos foram trazidos amarrados e despojados de suas armas para o centro de seu território.

—Intrusos! — alguém urrou.

—Para trás!

Bradou o oni de cabelos vermelhos, e aqueles que os haviam capturado aglomeraram-se a sua volta, tentando afastar a multidão.

—Vieram pela deusa!

A multidão estava tornando-se rapidamente agitada.

—Matem-nos!

—Eu disse para trás! — aquele de cabelos vermelhos acertou um soco em um de seus semelhantes, que desabou para trás, levando outros dois consigo — AFASTEM-SE!

Mas a turba estava cada vez mais selvagem.

—O coração!

—Querem o coração da deusa!

—Arranquem seus corações e os entreguem para a deusa!

—Arranquem-nos! ARRANQUEM-NOS!

Agora já basta! — uma voz autoritária ressoou vinda dos céus.

Repentinamente silenciosos os onis todos se retesaram quando a sombra de grandes asas recaíram sobre eles, e apressadamente afastando-se do grupo ele abriram um circulo amplo, ajoelhando-se e curvando-se no chão até que tivessem suas faces comprimidas contra a neve quando a dona da voz pousou diante de Satoshi e sua família.

Ela tinha maliciosos olhos verdes e um astuto sorrisinho, de suas costas estendiam-se um imenso par de asas cinzentas... Ela não era um Oni, onis não possuíam asas, mas de sua cabeça um par de chifres recurvados para trás nasciam.

—Quem...? — Satoshi balbuciou.

Juntando as pontas dos dedos ainda com seu pequeno sorrisinho malicioso a garota apresentou-se:

—Sou eu mesma, a deusa do lugar.

Notas finais
O que será que essa tal deusa oni está querendo com Satoshi, Mayu e seus filhos?! O.O' Quer dizer, eu sei, mas e vocês? Alguma teoria? O quão encrencados acham que eles estão? XD Curiosidades do Japão: Torre de Tóquio: Um dos pontos turísticos de Tóquio, com sua cor laranja e suas luzes brilhantes ela é visível de grande parte do centro de Tóquio, modelada a imagem da Torre Eiffel em paris é 13m mais alta, possuindo 333m de altura. Bestiário: Hyouko: Uma ave mítica de uma asa só que só podia voar ao juntar-se com outro para completá-lo, sendo assim um símbolo do amor e da fidelidade. Jorõ-gumo: Uma espécie de youkai aranha gigante que pode assumir a forma de uma mulher e se alimenta de presas humanas ao invés de insetos, suas principais vitimas costumam ser homens jovens e bonitos aos quais elas seduzem até capturá-los em suas teias. Onis: São famosos youkais do folclore japonês, equivalente aos ogros ou trolls de outras culturas. Rokurokubi: Literalmente “mulher do pescoço longo”, e assim como o nome diz é um youkai capaz de esticar seu pescoço por distâncias impressionantes, embora geralmente sejam mulheres, também pode haver homens.