A Lenda da Abominação - Livro Um: Amizade
14 Capítulo 13: Antes da Tempestade

Foi uma viagem quieta e tranquila, de certa forma. O cansaço advindo das várias subidas e descidas e trilhas rústicas desniveladas os fez evitar qualquer tipo de desperdício de energia, incluindo conversar. Nem mesmo Yan tinha forças para suas habituais reclamações.
Graças ao amplo conhecimento de Rohan sobre os arredores de sua cidade natal, a passagem deles pelas montanhas demorou apenas dois dias. Pegaram pelo menos dois atalhos diferentes e uma passagem “secreta” durante o trajeto. Descansaram o melhor possível nesse tempo, mas não havia muitas opções confortáveis no caminho montanhoso, e estavam com pressa. Comida não faltou, pelo menos, cortesia dos dedos leves de Ember no Oasis.
Alcançaram o outro lado da cadeia de montanhas recebidos pelo anoitecer no horizonte. A grande cidade de Gaoling já era visível, centenas de metros abaixo deles, recheada de pontos luminosos que clareavam os pés das montanhas em volta.
Sem sequer se dignar a uma olhada à sua terra natal, o gigante guiou os amigos para fora de uma pequena caverna, adentrando em seguida uma larga estrada — duas carroças passariam lado a lado com folga — que serpenteava pela lateral do precipício montanhoso, descendo em direção à sua base.
A visão de um solo liso pareceu devolver um pouco de energia ao nômade, que cambaleava tonto na retaguarda dos amigos. É claro que ele usou essa escassa energia para reclamar.
— Não sinto minhas pernas. Quanto falta para chegarmos?
— Nesse ritmo, devemos estar lá ao amanhecer — respondeu seu “guia turístico” pessoal.
O dobrador de ar desabou no chão, pasmo e exausto demais para seguir em frente depois dessa notícia horrenda. Não deixou de reclamar, no entanto.
— Você só pode estar brincando. Anoiteceu não faz nem uma hora!
Rohan deu de ombros — de forma educada, claro — em resposta. O grupo parou perto da primeira curva em U da estrada para ouvir o lamento do amigo. Muitas dessas curvas ainda os aguardavam montanha abaixo. Não era uma visão muito inspiradora.
O gigante ofereceu a mão para Yan levantar-se, mas foi negado.
— Sinto muito, grandão, mas só saio daqui carregado.
O amigo entendeu a sugestão velada nesse comentário e riu. Kuzou decidiu se intrometer.
— Por mais que o nosso enorme amigo seja facilmente capaz disso, ele também deve estar cansado, não acha?
O dobrador de ar virou o rosto contrariado e xingou mentalmente o companheiro intrometido por estar sempre certo.
Foi Ember, de todas as pessoas, que ofereceu uma possível solução para o empasse. E sem uma ofensa sequer.
— Olha, parece que tem algum tipo de estabelecimento mais para baixo. Talvez a gente possa descansar por lá? — A dobradora de fogo inclinava-se além da borda da estrada, olhando diretamente para baixo.
Todos a encararam. Até mesmo o nômade, que não estava em uma posição favorável para aquela ação, contorceu-se de forma desconfortável para olhá-la. A esperança estava escrita em sua testa. A garota adquiriu um leve tom corado no rosto com toda aquela atenção.
— Provavelmente é apenas uma casa residencial. Não seria decente, muito menos seguro, da nossa parte incomodá-los — disse o ex-agente.
De imediato, o nômade voltou a afundar no chão, triste. Sua posição parecia mais confortável, pelo menos.
— Não parece uma casa — rebateu a menina, voltando a olhar além da borda. — A estrutura não combina. Seria uma casa muito estranha. Parece mais um... hotel, talvez? — chutou ela.
Em um piscar de olhos, o dobrador de ar rastejou ansioso até a borda e olhou para baixo, sem se dar ao trabalho de levantar. Sua velocidade e movimentação pareciam sobrenaturais, como se fosse uma alma penada atrás de sua pobre vítima. A garota pulou para o lado, assustada.
— Você sabe que lugar é aquele, Rohan? — perguntou Kuzou, virando-se para seu guia honorário.
Um olhar para o rosto descontente do enorme amigo mostrou que ele sabia exatamente o que era aquele lugar. E se possível, não gostaria de responder. Seus olhos se encontraram, e o ex-agente pensou entender o porquê.
“Oh-oh”
Como já era tarde demais para impedir o que viria, Rohan suspirou, sem escolha.
— É um hotel de estrada... — começou ele, apreensivo. — ...e uma casa... — Uma pausa para outro suspiro. — ...de águas termais...
Silêncio.
“Ferrou”, pensou Kuzou.
— Você disse... — a voz do dobrador de ar não era nada mais que um leve sussurro.
“Ferrou”, pensou o gigante.
— ...ÁGUAS TERMAIS?!
O ex-agente podia jurar que ouvira o pescoço do nômade estalar várias vezes quando este tirou sua cabeça da borda e a virou para trás, de forma lenta e demoníaca. O corpo dele parecia que tremia de pura força maligna e seus olhos brilhavam com a intensidade de mil sóis.
Era um homem louco. Ember se afastou um pouco mais.
“Ah, merda”. Era pior do que o ex-agente imaginava. Bem pior. Rohan olhou para ele, pedindo desculpa com os olhos. Não o culpava; o amigo fora encurralado pelas circunstâncias.
— Então?! — inquiriu Yan, olhando para cada um deles exigindo uma resposta, ficando cada vez mais frenético. E torto.
Todos os olhares então caíram sobre Kuzou, é claro. Este, por sua vez, suspirou, derrotado. Não seria algo sábio. Pelo contrário, era provocar o azar. Ainda mais tão perto do lugar em que esperavam uma possível armadilha. Talvez aquilo fosse a armadilha.
Quando cruzara o olhar com o gigante, tinha entendido que seria algo como um hotel, e começara a pensar em alguma desculpa convincente para evitar tal desvio, por mais agradável que fosse; no entanto, uma casa de água termais beirava a maldade do destino. Era algo bom e tentador demais para se resistir. Nem ele se via capaz de arranjar um motivo que fosse capaz de superar a vontade e a necessidade deles. Até mesmo Ember, depois de se afastar o suficiente do enlouquecido companheiro ao seu lado para se sentir segura, mostrava olhos cheios de esperança, como se fosse uma criança implorando aos seus pais por doce.
Suspirou novamente. Existia algumas vantagens que poderiam vir daquilo — um bom banho os fariam ser menos chamativos perante a população e lugares como aquele eram ótimas fontes de informação, por exemplo —, mas não o suficiente para justificar os riscos. Porém, seria mentira dizer que ele também não estava tentado mesmo assim. Ainda era humano, afinal de contas.
O grupo leu a resposta através de sua linguagem corporal. O nômade pulou em pé, radiante, como se seu cansaço nunca houvesse existido. Um sorriso de pura alegria jovial cruzou o rosto da dobradora de fogo.
— Você tem certeza? — sussurrou o gigante em seu ouvido.
Rohan entendia os motivos e os porquês de aquilo ser uma má ideia e demonstrava sua preocupação. No entanto, a verdade em seus olhos não conseguia se esconder da habilidade do ex-agente; também estava contente.
Quase respondeu que a única certeza é a morte, um ditado que era levado muito a sério no Dai Li, mas se conteve. Uma resposta tão agourenta não iria cair bem. Pensou em uma resposta melhor.
— Certeza não importa muito frente à nossa necessidade — disse.
O enorme amigo riu, sabendo que era verdade. Era preferível enfrentar um exército no momento do que negar um banho ao nômade.
Voltaram a caminhar pela estrada, com um novo ânimo.
Duas horas depois, eles chegaram.
O estabelecimento era bonito. Vários tipos de luzes enfeitavam sua fronte, mas nenhuma com a função de iluminar de fato. Lanternas e lamparinas vermelhas, amarelas, ou um meio termo entre essas duas coloriam tudo em volta; todas as cores combinavam com o tom de barro avermelhado da estrutura do lugar. A casa tinha dois andares, e se esticava para os lados contra a montanha para preencher a curva da estrada em que se encontrava. Curva esta que era mais ampla que as anteriores, do contrário, o lugar obstruiria completamente a passagem. Era possível ver um leve vapor escapar por de trás do telhado, se moldando nos sulcos da costa montanhosa.
Aquela visão fez as pernas de Yan ficarem bambas. Bem, mais bambas do que já estavam.
— Finalmente! — exclamou ele, ajoelhando-se de felicidade.
— E a culpa é de quem por nos atrasar? — cuspiu a garota, exausta.
Yan interrompeu seu louvor para jogar um olhar venenoso para a dobradora de fogo atrás de si.
Fora uma caminhada agitada até ali. Era de se esperar que a viagem seria mais agradável, com o espirito de todos mais elevado; porém, “ânimo” não é uma palavra que significa apenas “coisas boas”. Mais de uma vez eles foram obrigados a segurar o nômade, que insistia em tentar alguma artimanha para chegar mais rápido ao que ele chamava de “pedaço de paraíso”. “Eu vou na frente para ajeitar o lugar para vocês! ” ele dizia, e então tentava dobrar o ar para ganhar altas velocidades. “Alguém precisa averiguar o lugar para garantir nossa segurança, não é?” e então tentava pular pela borda da estrada para planar montanha abaixo. A sugestão de deixá-lo cair, só que amarrado para não poder dobrar ar, havia brotado durante a descida e foi muito bem avaliada, diga-se de passagem.
Graças a isso, o grupo estava ainda mais cansado quando finalmente alcançou o seu destino, algo que parecera impossível antes. Por sorte, esse mesmo cansaço impediu Ember de responder ao olhar venenoso do dobrador de ar; ninguém ali tinha condições de pará-los caso uma confusão acontecesse.
— Vai ficar aí rezando, ou vai entrar? — provocou Kuzou, passando ao lado dele, em direção a casa de águas termais.
Como se tivesse medo de ser deixado de fora do paraíso, Yan levantou-se quase correndo.
Além da porta corrediça de madeira e pano, era como se um novo mundo os recebesse. Um mundo cheiroso, limpo, iluminado e bonito, recheado de prazeres. O nômade quase criou uma nova religião baseada naquele lugar maravilhoso. A verdade, no entanto, é que não havia nada de especial na recepção em que se encontravam; eles simplesmente estavam tempo demais longe de lugares bem cuidados e confortáveis, o que causava uma supervalorização das coisas, mas ninguém os convenceria do contrário no momento.
— Boa noite, como posso ajudá-los? — perguntou uma mulher de meia idade, trajando quimono, atrás de um pequeno balcão logo à frente deles.
A atendente fora exemplar em sua educação, mas Kuzou percebeu uma leve ruga de preocupação em seu rosto, causada com certeza pela aparência esfarrapada do grupo; e ele não a podia culpar por isso. Porém, não viu nada de hostil vindo dela, apenas um leve medo pelo estabelecimento, algo que era algo comum. As pessoas sempre pensavam na pior das hipóteses frente a algo incomum. Relaxou um pouco; conseguia ler de forma clara que era alguém de boa índole. E porque não havia cartaz algum à vista.
Antes que alguém — Yan — falasse algo, ele respondeu:
— Um bom banho e uma noite bem dormida, por favor — Ele sorriu, tentando relaxar a mulher. — Nos perdemos nas montanhas — complementou, como se desculpando-se.
— Ah, sim, claro... — a coitada estava um pouco fora de prumo, mas começou a se recuperar enquanto fazia os procedimentos padrões.
Kuzou pegou dinheiro no bolso e começou a contá-lo, se aproximando da mulher.
— Quanto que ficaria para quatro pessoas? — perguntou. Não queria que ela achasse que fossem mendigos de fato.
A mulher bateu em um minúsculo sino como se para chamar alguém e saiu detrás do balcão, ignorando a pergunta.
— Vocês tiveram a brilhante ideia de pegar um atalho, não foi? — soltou ela, olhando para o grupo com cara feia.
O ex-agente esperava muitas coisas da situação, menos uma bronca. A mulher olhava para os três como se fosse uma mãe lidando com filhos malcriados.
— Ahn... talvez... — Kuzou não estava acostumado a não saber o que responder, mas aquilo tinha emperrado suas engrenagens mentais.
— Todo mundo vive dizendo: “as montanhas são perigosas”, “Siga a trilha determinada, não vale a pena ser espertinho” e afins, mas sempre tem alguém que se acha além disso, não é mesmo? E aí olha no que dá — exclamou ela, gesticulando as mãos para o grupo.
— Desculpa... — disseram Ember e Yan, em um muxoxo uníssono, com as cabeças baixas.
“Puta merda, nós viramos os filhos”, pensou o ex-agente.
— Agora olha só para vocês! Todos esfarrapados e machucados — Ela se aproximou e começou a ajustar aquela desculpa de roupa que vestia o dobrador de terra. — Sabe-se lá quanto tempo vocês ficaram perdidos.
Duas jovens mulheres, também de quimono, apareceram do corredor adjacente à recepção. Sem sequer olhar para trás, a mais velha, que mexia em suas roupas, estalou os dedos e elas se aproximaram.
— Temos roupas do tamanho deles? — perguntou, ainda sem olhar para as outras jovens, como se sentisse a presença delas.
— Acredito que sim, mas vamos de ter de misturar algumas peças... — disse a da esquerda, analisando-os de cima a baixo.
— Acho que a última coisa na cabeça deles agora é moda, Mara — cortou a mulher que os atendeu. — Vá lá buscar, por favor.
A garota da esquerda assentiu e saiu. A da direita se aproximou deles, curiosa.
— O que aconteceu com vocês? — inquiriu.
— Irresponsabilidade, isso que aconteceu — respondeu a mulher mais velha, olhando agora a manga da roupa do nômade, que parecia querer sumir. — Olha isso! Todos rasgados. Vocês poderiam ter morrido! De quem foi essa brilhante ideia?!
A porta de entrada correu para o lado e Rohan entrou, abaixando-se de leve para não bater a cabeça.
— Foi minha — disse ele, se curvando em sinal de desculpa — Eu moro na região e achei que conhecia bem a montanha. Peço perdão.
Aquilo assustou as duas o suficiente para afastá-las do grupo.
Recompondo-se, Kuzou olhou para o enorme amigo. Tinham-no deixado do lado de fora para não causar uma “grande” primeira impressão, mas ele devia ter percebido que precisavam de ajuda. Ou talvez sua educação o impedira de não se desculpar.
Em mérito da mulher mais velha, que o ex-agente deduziu ser a dona do lugar, ela se recuperou rápido, apesar de gaguejar um pouco nas primeiras palavras.
— B-bem... isso foi... muita irresponsabilidade, sendo da região ou não. As montanhas podem derrubar até mesmo homens... grandes — Ela mediu bem que adjetivo usaria.
— Peço desculpas, madame — O gigante se curvou de novo.
— Tudo bem — Ela já estava de volta ao estado “mãezona”. — Espero que tenham aprendido uma lição com isso. Bem...
— Ah! Lembrei onde eu já te vi antes! — exclamou a menina mais jovem, apontando para Rohan.
Todos os quatro estacaram no lugar. O silêncio perdurou.
Aquilo era mau. Se a menina houvesse realmente visto o gigante antes, o ex-agente sabia que ela não se esqueceria. Ele mesmo nunca se esqueceria; duvidava que existisse alguém tão característico no mundo quanto o colosso ao seu lado. Tão característico, na verdade, que não haveria qualquer mal-entendido ou engano, mesmo que ela apenas o tivesse visto desenhado em um cartaz por aí. Não queria causar nenhuma confusão por ali, mas não podia ficar desarmado. Uma solução não violenta seria o ideal...
— Você era o moço que vinha entregar os pães! — afirmou ela, com um sorriso bobo no rosto.
Kuzou perdeu o equilíbrio e quase se estatelou de cara no chão.
“Puta que pariu, o que está acontecendo aqui?”, exasperou-se ele. Primeiro a bronca de uma dona de casa de água termais por terem sido irresponsáveis e agora isso. Era uma surpresa atrás da outra naquela noite. Não se lembrava do enorme amigo ter mencionado aquele detalhe quando lhe contara sobre seu passado, apesar de entender naquele momento como essa informação se encaixava.
Todos olharam para o gigante, que parecia meio envergonhado.
— Oi, moça... Acho que você cometeu um engano... — disse Yan, no fundo, incrédulo.
— Você tem certeza, Lara? — inquiriu a dona do lugar, virando-se para olhá-la pela primeira vez. — E abaixe essa mão, é falta de educação apontar — completou, dando um tapa na mão da outra.
A garota soltou um muxoxo e cobriu a mão dolorida antes de responder:
— Tenho sim. Ele é... alguém difícil de esquecer — A menina pensou bem antes de falar, com medo de outro tapa.
A mais velha acreditou naquilo; era um bom argumento.
— Seja bem-vindo, então — disse, vendo agora o enorme homem à sua frente com novos olhos.
Rohan agradeceu, ainda ignorando o olhar de seus amigos. De quase todos seus amigos. Kuzou reparou que aquela informação não surpreendera Ember.
— Bem, vamos — continuou a dona do estabelecimento. — Imagino que estejam com fome.
O grupo não teve nem como negar. A mulher sorriu.
— Lara, minha filha — A menina se empertigou. — Suba e ajeite dois quartos para eles — ordenou ela. Deu uma rápida olhada para o gigante — E vá avisar sua irmã que vamos precisar de roupas... maiores.
Dona Jana — que descobriram ser o nome da dona do estabelecimento — não quis saber de nada que eles falavam. Ignorou seus protestos enquanto jogava fora as roupas destruídas e continuou ignorando quando tentaram insistir que não poderiam aceitar novas roupas de graça; negou também todos os seus agradecimentos quando saíram do lavabo vestidos, um a um.
Ember foi a primeira a experimentar as roupas, e também a que se encaixou melhor nelas, já que a maior parte das vestimentas disponíveis eram femininas. Apesar da cara azeda e cor de pimenta que estava, ela ficou muito bem no vestido vermelho que lhe fora dado.
Fora um pouco mais difícil para Kuzou. A calça disponível era um pouco grande demais; mesmo depois de feita a bainha, ela ficou bem larga. Pelo menos, a camisa branca que lhe fora dada caiu melhor, apesar de ficar justa nos braços. Ia ter de dar um jeito naquelas mangas compridas depois.
Yan não teve problema no quesito tamanho. Infelizmente, isso também quis dizer que quase todas as roupas compatíveis eram femininas. Teve que se contentar com uma blusa mais justa do que gostaria e uma longa saia que as meninas tiveram a gentileza em fazer um corte vertical no meio, entra as pernas, para tentar passar um ar mais... unissex. O nômade encarava um de cada vez, pronto para pular na jugular de qualquer um que ousasse rir. Por sorte, até a dobradora de fogo teve a decência de segurar o riso.
Já Rohan, como esperado, foi um caso complicado. O máximo que fora possível arranjar para ele era uma jaqueta bege sem mangas, desde que a deixasse sempre aberta. Sem outra opção, um lençol lhe foi dado para amarrar na cintura como lhe apetecesse. Nem mesmo as largas sandálias de madeira cabiam em seus pés.
Antes mesmo que se acostumassem com as vestimentas, dona Jana, como um general, enfileirou-os e distribuiu os quimonos. Ordenou que fossem vesti-los e que devolvessem suas novas roupas as quais ela iria lavar. Ignorou novamente os protestos e os enxotou para os quartos.
Felizmente, era quase impossível alguém não caber em um quimono. Rohan forçou ao limite essa verdade; com exceção de suas pernas, que ficaram mais descobertas que o normal, a vestimenta se encaixou de forma confortável.
Com precisão impecável, a mais nova das meninas — Lara — chegou assim que terminaram de se vestir para levá-los à sala de jantar.
A modesta sala compunha-se de seis mesas redondas para cinco pessoas, e um balcãozinho perto da entrada. Um pequeno, mas bonito, lustre enfeitava o lugar, e o chão era de madeira bem lustrada, igual aos outros cômodos. O salão era só para eles.
— Ninguém querendo jantar a esta hora? — indagou Kuzou.
Apesar do amplo espaço, o ex-agente foi sentar nas cadeiras altas de frente ao balcão. Fez isso por costume, sem sequer notar; sempre sentava nesses lugares se possível. Os atendentes de balcão costumavam ser a melhor fonte de informação nessas situações. Os amigos o seguiram, por instinto.
— Na verdade, vocês são os únicos clientes que temos hoje, por enquanto — disse Lara, indo para trás do balcão.
— Jura? — disse Kuzou, levantando a sobrancelha.
— Sim. O movimento tem estado devagar esses dias. Nosso último cliente veio e foi anteontem.
A irmã mais velha saiu da porta que dava na cozinha e se juntou a eles. Uma leve cutucada e a mais nova soltou uma baixa exclamação.
O ex-agente sorriu. Entendera aquela cutucada. “Não fale demais! Eles vão achar que estamos desesperados! ”, ou algo assim. Um pensamento nada incomum no mundo dos negócios.
— Então, o que vocês gostariam? – perguntou Mara, a mais velha. – Sugiro não comer muito antes do banho, no entanto.
As irmãs eram bem parecidas, ainda mais vestindo quimonos idênticos. Ambas tinham cabelos castanhos presos em coques atravessados com pauzinhos de madeira, imitando a mãe, e possuíam sardas nas bochechas. As diferenças se encontravam em seus rostos — o da mais velha era mais anguloso que o da irmã, que possuía traços mais redondos — e nas idades, é claro. Kuzou deduziu que Lara devia ter dezesseis anos, e sua irmã, dezenove.
— Vinho! Tem vinho, né? — exaltou-se Yan, sedento.
As irmãs se afastaram alguns milímetros dele.
— Temos sim... — disse Mara, ainda cautelosa, mas pegando duas garrafas na prateleira alta. — Temos esses dois modelos...
— Tanto faz — interrompeu o nômade, e virou a taça em um gole quando lhe foi servido. Pediu mais.
— E os senhores? — perguntou a mais nova, feliz de não estar lidando com o sedento.
— Eu gostaria de um suco. Se não for possível, fico satisfeito com água — disse o gigante, ainda tentando se ajeitar na estreita cadeira. Ember pediu o mesmo.
A menina os serviu um suco de laranja natural e então se virou para o ex-gente. Ele a interrompeu, antes que perguntasse o que queria. Estava preocupado com uma coisa.
— Um instante — disse, levantando um dedo da mão, e desceu da cadeira.
Atravessou os outros dois amigos e colocou a mão no ombro do nômade, que já pedia pela terceira taça.
— Ele gostaria de água, a partir de agora, por favor — disse para a irmã mais velha, que estava levemente assustada.
— O que... — começou Yan, ensandecido.
Um aperto mais forte em seu ombro o interrompeu, e um vislumbre do olhar do amigo o fez se calar e concordar. Aquele cretino sabia botar medo.
Retornou então para sua cadeira, ao lado de Rohan, como se nada houvesse acontecido, apesar da tensão dos outros amigos.
Kuzou suspirou. Não queria parecer um carrasco, mas era necessário ser severo com o nômade, nada mais brando o teria parado. Se tivesse-o deixado continuar, no dia seguinte ele estaria imprestável e não podiam se dar ao luxo de uma ressaca.
Fez seu pedido, para tentar trazer o clima de volta à normalidade.
— Gostaria daquele conhaque, por favor — disse, apontando para uma garrafa na segunda prateleira.
Ignorou o olhar do dobrador de ar.
Decidiram seguir o conselho da irmã mais velha e pediram apenas petiscos; não sem alguns... protestos, óbvio. Quando elas voltaram da cozinha com os pratos — que foram esvaziados bem rápido, por sinal — a conversa recomeçou.
— Então, vieram de onde? — perguntou a mais jovem, intrigada.
Todo o grupo olhou em direção ao ex-agente, esperando que ele respondesse.
“Mais óbvio que isso, só se virassem o corpo junto” suspirou, abaixando seu copo quase intocado.
— Viemos do norte, a caminho de Gaoling — respondeu.
— Do norte? Vocês pegaram a confusão no Oasis?! — exclamou Lara, louca por uma fofoca.
Os quatro se retesaram em suas cadeiras.
— Confusão no Oasis? — questionou Kuzou, curioso. – Como uma briga de bêbados?
— Briga de bêbados? Vocês não sabem? — A menina parecia decepcionada por eles não trazerem boas novas.
— Lara, eles não teriam como saber, é uma travessia de três dias e meio pelas montanhas pela trilha principal, e a confusão foi há dois dias — O ex-agente agradeceu mentalmente à irmã por ter respondido por ele.
— Ah é, verdade... — disse a mais nova, desapontada. — Eles ainda por cima se perderam...
Um cutucão a interrompeu e ela se calou.
— Mas que confusão foi essa, afinal? — persistiu Kuzou.
As duas se inclinaram pelo balcão, ávidas para cochichar.
— Os dobradores de areia... — começou Mara.
— Eles atacaram o Oasis! — completou Lara.
Do canto, foi possível ouvir Yan engasgando com a água que bebia. Os outros dois foram mais discretos, pelo menos.
— Jura? — disse o ex-agente, contendo o sorriso. Sentiu três pares de olhos em sua direção.
— Sim! O jornal disse que foi no meio da madrugada; chegaram do nada causando uma tempestade de areia e PAM, atacaram a cidade! — A mais nova estava exaltada, feliz por poder conversar.
— Os guardas obviamente reagiram e logo tudo ficou um caos. E dos violentos — continuou a mais velha — Os dobradores de areia responderam muito agressivamente e os guardas responderam à altura. Houve algumas... baixas.
O clima ficou mais sério.
— E aí?! — exclamou o nômade do canto, cheio de curiosidade.
As irmãs se assustaram com o seu interesse súbito e agressivo, mas seguiram com a história.
— Os guardas conseguiram enxotá-los, mas não estão acostumados com uma confusão dessa magnitude e sofreram muito — comentou Mara. — Perderam uma boa parte do contingente.
— Eu ainda ouvi que os dobradores de areia declararam guerra contra o Oasis depois disso — complementou a mais nova.
— Sério?! — pasmou Yan, imerso na conversa.
— Não é certeza, mas o capitão da guarda do Oasis pediu reforços em massa para um possível confronto em maior escala. Dizem que até suplicou por ajuda do Avatar. O clima parece de guerra mesmo — disse a outra irmã.
As portas do salão se abriram, interrompendo a conversa, e dona Jana entrou.
— Está tudo pronto. Que tal o banho agora? Depois vocês podem comer mais.
Até mesmo quando era cortês, ela ainda parecia autoritária. Ninguém reclamou, no entanto; terminaram suas bebidas e se apressaram em direção às termas.
Foi preciso impedir o nômade de pular ainda vestido na piscina natural, mas ele não era o único ansioso por aquilo. Os três tomaram um rápido, mas eficiente, banho, e então entraram nas termas.
Até Kuzou soltou um leve suspiro de prazer ao afundar até o queixo nas águas quentes e relaxantes. Rohan só conseguiu afundar até o peito, mas parecia satisfeito. Yan, claro, mergulhou até o fundo graças à ansiedade.
As termas eram a céu aberto, mas eram tão coladas no paredão da montanha que luzes artificiais eram necessárias para iluminar o breu da sua sombra. Era como se estivessem isolados dos males do mundo.
— Eu morri e estou no céu — soltou o dobrador de ar, ao emergir, ignorando o rosto coberto pelo cabelo. — Bebida e comida, um banho quente... Agora só falta um colo quente de mulher...
O ex-agente evitou zombar da forma poética — por falta de palavra melhor — que o mais baixo havia descrito seu desejo por sexo, mas não deixou de cutucar mesmo assim.
— Olha, se é calor que você quer, aposto que você vai encontrar de sobra ali do outro lado... — disse, apontando para a parede alta de bambu que os separava do lado feminino das termas.
O nômade afundou na água até o nariz, emburrado.
— Eu consigo ouvir vocês, sabe? — berrou Ember, do outro lado — Além disso, ele não ia aguentar; se queima muito fácil.
— Oohohoo — soltou Kuzou, se divertindo com a situação. Até Rohan fez uma cara de “vixe”.
O nômade levantou-se, possesso.
— Ora, sua...
— Senhor Yan... — começou o gigante, tentando chamar sua atenção. Porém, o dobrador de ar o ignorou.
— Yan, sua toalha vai cair — disse o ex-agente, direto.
Aquilo chamou a atenção dele. Afundou-se rapidamente de volta na piscina, envergonhado. Do outro lado, era possível ouvir a gargalhada da dobradora de fogo.
— Calma, meu amigo. Não queremos incomodar nossas gentis anfitriãs, não é mesmo? — argumentou Kuzou, mas com um sorriso de canto de rosto.
— Você que começou, seu cretino... — retrucou Yan, por entre as bolhas.
O dobrador de terra riu e deu de ombros.
— É apenas uma brincadeira, senhor Yan — explicou Rohan.
— É, Yan, é só estamos brincando — gritou Ember, da sua piscina. — Era pra te animar. Afinal, todo mundo sabe que você é virgem.
“Cacete, hoje ela não está perdoando uma”, pensou o ex-agente.
O nômade levantou-se de novo.
— Yan, a toalha... — lembrou o amigo.
O dobrador de ar segurou a toalha no lugar com as mãos, mas não desistiu de rebater:
— Eu tenho 26 anos, sua pirralha!
— E? Idade não prova nada. Com essa cara de paspalho, aposto que até meu irmão mais novo tem mais experiência nesse assunto que você — respondeu ela, com a voz um pouco mais truculenta. Provavelmente por causa do “pirralha”.
— Ora, sua... para sua informação, eu já...
— Yan, para. Tá ficando feio — interrompeu Kuzou, com a mão no rosto.
A menina estava fazendo ele de trouxa. Se tinha alguma coisa que a atitude dele provara era sua inexperiência. O ex-agente deduziu que Yan não era virgem em si, mas isso não atestava muito a seu favor. Não que a garota fosse muito mais experiente; sabia que era exatamente o contrário, mas naquela batalha de egos, a dobradora de fogo ganhara.
O nômade virou, querendo protestar; entretanto, pareceu perceber a situação e afundou na água, quieto. Uma risadinha leve se ouviu do outro lado da parede. Por sorte, o amigo continuou abaixado.
Kuzou decidiu mudar de assunto antes que Ember colocasse mais lenha na fogueira:
— Vinte e seis anos, é? Olha só, um dos mais velhos aqui.
Funcionou. O dobrador de ar se endireitou, pasmo. Olhou para o gigante, que também parecia confuso.
— Quantos anos você tem? — perguntou, apontando para o enorme amigo.
— Trinta — respondeu ele.
— Espera... Quantos anos...? — exclamou a menina do outro lado, tendo ligado os pontos.
— ...você tem?! — completou Yan, olhando para o ex-agente.
— Vinte e três, porquê? — disse ele.
Um silencio tomou conta das termas.
— O QUÊ?! — berraram Yan e Ember juntos. Rohan não foi tão exagerado, mas não escondeu sua surpresa.
— Que foi? — questionou o dobrador de terra.
— É que... você dá a impressão de ser mais velho — comentou o gigante.
Kuzou deu de ombros como se dissesse “Desculpa?”.
Agora que parava para pensar, quando Yan vira o amigo pela primeira vez recostado nas dunas daquele — maldito — Pequeno Deserto, bem que achara que ele era mais novo. Porém, depois de vê-lo em ação, com toda sua experiência e vivência, descartara esse pensamento como puro engano de sua parte. Ele exalava um ar de maturidade que confundia as deduções, mesmo com seu rosto de certa forma jovial. Até cicatrizes o infeliz tinha! Agora que estavam livres da sujeira que os encobria, percebia uma leve cicatriz em sua bochecha esquerda, além de várias outras pelo corpo. Como que alguém assim tinha apenas vinte e três anos? De repente, Yan se sentiu um inútil.
— Preciso de mais vinho — Foi tudo que disse.
Ficaram mais duas horas marinando nas águas termais antes de alguém ter coragem de sair.
Quando Rohan se levantou, parecia determinado.
— Senhorita Ember, ainda está aí? — inquiriu ele.
— Ahn, o que...? — O ex-agente notou que ela tinha cochilado. — Ah, sim! Por quê?
— Quando terminar seu banho, gostaria que se reunisse conosco no nosso quarto. Tenho algo importante para falar — Rohan olhou para Kuzou. — Para todos vocês.
O ex-agente compreendeu e assentiu, encorajando-o.
O nômade, confuso, acompanhou o gigante saindo da água.
— Que diabos foi isso? — indagou ele, encarando-o.
— Por que não descobrimos? — sugeriu o dobrador de terra, também saindo da piscina.
Yan soltou um muxoxo alto e se jogou de costas na piscina, como se fizesse birra. O ex-agente o ignorou e não demorou para o amigo acompanhá-lo, carrancudo.
Vestiram-se e encontraram o gigante já de quimono, aguardando-os ajoelhado de forma cordial no meio do quarto. Ember demorou mais para aparecer, mas logo todos estavam sentados em uma roda no tatame, em um clima ansioso.
— Ahn... então... — soltou a garota, incomodada com o silêncio que se perpetuava.
Rohan se empertigou, como se a quebra do silêncio o tivesse acordado.
— Desculpe incomodá-los, mas os chamei para essa pequena reunião porque preciso contar algo importante a vocês — disse ele, concentrado.
O tom dele deixou claro que era de fato algo sério. Toda as atenções recaíram sobre ele.
— Nos últimos dias tenho estado muito distante, e muito mal-educado. Peço perdão — continuou ele, curvando-se em gesto de desculpa. — Estava deixando problemas pessoais atrapalharem minha racionalidade. Principalmente em relação ao senhor Kuzou, que tanto tem nos ajudado. A ele já me desculpei — Todos olharam para o ex-agente, que ignorou a atenção —, mas ainda preciso não só me desculpar a vocês, como também lhes devo algumas explicações. Não tenho sido totalmente honesto, e é justo vocês estarem desconfiados da minha pessoa.
Ember pareceu querer dizer que esse não era o caso, mas Rohan a interrompeu de forma gentil e seguiu em frente.
— É uma suspeita fundada. Eu compreendo agora que estava abusando da boa vontade de vocês sem dar o devido retorno. Peço perdão novamente — “Pela milésima vez”, pensou o nômade. — Eu tive meus motivos para não contar isso até agora, como vocês logo vão perceber, mas isso não é desculpa para minhas atitudes — O gigante respirou fundo. — Me refiro às circunstâncias do nosso reencontro. Eu não fugi daquele lugar usando uma pedra como atestei.
“Ai, cacete”, exclamou Yan para si mesmo, engolindo em seco. O ex-agente estava certo como sempre.
— Peguei uma pedra qualquer e a alterei para dar credibilidade à história que criei, por que precisava conversar com vocês para me desculpar, e a verdade talvez fosse mais difícil de engolir. Também não podia confiar plenamente em vocês, afinal, não os conhecia.
— Você podia simplesmente ter fugido para o mais longe possível — comentou o dobrador de ar.
— Sim. Na verdade, teria sido a escolha mais sábia. O que você fez foi bem... inconsequente — complementou Kuzou.
— De fato — respondeu o gigante. — E era o que pretendia fazer logo que terminasse de falar com vocês. Mas ainda não estava em minhas plenas faculdades mentais, e desconhecia a gravidade da situação. Pensei, erroneamente, que tinha tempo de sobra. O decorrer dos eventos podia ter sido bem pior do que o atual, mas também poderia ter sido melhor; bastava eu ter pensado melhor. Vocês não estariam nessa confusão toda se não fosse por mim — Ele se curvou novamente.
— Mas, afinal, qual é essa verdade difícil de acreditar? — inquiriu o ex-agente.
— A verdade... — Rohan suspirou. — É que, naquela situação, eu não ia conseguir escapar de novo. Sequer estava completamente consciente. A verdade é que eu fui salvo.
Um silêncio pasmo se espalhou pelo cômodo.
— O... O quê?! — O nômade não conseguia processar aquela informação direito. — Como assim, “salvo”? Você está querendo dizer que alguém invadiu aquele lugar e...
— Me “resgatou”, sim — completou o gigante por ele. — Exatamente isso.
— Mas... isso não é possível... Como alguém faria isso, ainda mais debaixo do nariz do “assistente” do Avatar e seu museu fortemente guardado? — insistiu Yan em sua incredulidade.
— Por isso mesmo eu disse que era uma história difícil de acreditar. Mas o fato é que quando finalmente consegui recobrar um pouco da consciência, eu já estava acorrentado. Então, de repente, quando acordei de outro desmaio, estava caído no chão da cela. Apaguei mais algumas vezes antes de ser capaz de me levantar e fugir, mas juro que vi um vulto se afastando pelo corredor escuro assim que acordei no chão pela primeira vez. Alguém me libertou, e aposto que o pessoal do museu logo percebeu o mesmo, pois foram bem rápidos em procurar “cúmplices”.
O silêncio novamente tomou conta do lugar. Era quase possível ouvir as engrenagens rodando em cada cabeça ali.
— Você tentou fugir direto, certo? — Kuzou quebrou a quietude de forma brusca. Seu rosto demonstrava pura concentração. O que se passava naquela cabeça era um mistério.
— Bem, sim, obviamente — respondeu o gigante, surpreso com a pergunta. — Até cortei caminho através das paredes.
— Mas em linha reta em direção à liberdade, certo? Sem tentar fazer mais nada? — insistiu.
— Mas o que diabos isso tem a ver? — interrompeu o nômade, exaltado. — Eu ainda estou tentando entender como tudo isso é possível...
Foi a vez do ex-agente interrompê-lo:
— Uma interferência externa pode explicar o porquê de o museu ter desmoronado de forma tão rápida.
Aquilo calou o dobrador de ar.
— Eu sempre fiquei incomodado em como aquele lugar foi abaixo tão depressa — explicou Kuzou, ao ver as interrogações nos rostos dos amigos. — Os estragos causados pelo nosso enorme amigo aqui certamente foram significativos, mas não o suficiente para derrubar uma obra daquela magnitude. A não ser que ele tenha dedicado alguns minutos de sua fuga para sistematicamente derrubar as vigas de sustentação do estabelecimento, o que não me parece o caso.
Rohan concordou.
— Eu não pensei nesses detalhes enquanto fugia. Na realidade, pensei em bem pouca coisa. Só me permiti ser racional quando já estava do lado de fora, onde encontrei a senhorita aqui, aparentando estar perdida — Ember pareceu envergonhada. — Ajudei-a a sair da área de perigo e depois ela insistiu em me acompanhar.
A dobradora de fogo desviou o rosto do olhar perscrutador do ex-agente.
— M-mas... quem diabos ousaria fazer tamanha loucura? — exasperou-se Yan.
— Eu tenho uma teoria — disse o gigante, trazendo todas as atenções de volta para si. — Lembra-se, senhor Kuzou, que eu disse acreditava que ela existia? É por isso.
O ex-agente arregalou os olhos, entendendo.
— Espera, o q...? — começou o nômade, confuso.
— Eu acredito que foi a abominação que me soltou.
O impacto daquela afirmação foi imediato.
Yan voltou a gaguejar coisas incompreensíveis na tentativa de formar uma pergunta.
— E o que te faz acreditar nisso? — indagou o ex-agente.
— Me parece o mais provável — disse Rohan. — E ela seria a única pessoa com 100% de certeza de que eu não era a abominação, o que poderia levar a uma atitude dessas.
— Você está contando demais com o altruísmo de alguém que é considerado um monstro — rebateu o outro dobrador de terra.
— Eu sei muito bem quem são os monstros, senhor Kuzou, e eles são assustadoramente comuns — retrucou.
O ex-agente deu um leve sorriso azedo com aquilo; compartilhava do mesmo entendimento. Lembrou-se de como o amigo falava de sua cidade natal. Conseguiu absorver bastante informação daquele comentário.
— No entanto, não é apenas no altruísmo de um desconhecido que baseio minha suposição — continuou o gigante. — Como você mesmo mencionou, o museu caiu de forma não natural. Suponho que esse era o objetivo da Abominação desde o início, e que ele só me encontrou por acaso. Ele pode ter me libertado por vários motivos, como distração, por exemplo. São apenas suposições, sim; mas para mim, é o que faz sentido nessa situação maluca.
— Entendo — disse Kuzou, sempre analisando tudo que lhe era permitido. — É uma suposição... plausível.
Os outros dois pareciam meros espectadores naquela conversa. O choque lhes roubara a palavra, resumindo suas contribuições a apenas olhar o desenvolvimento do assunto.
— Oi, oi... — sussurrou Yan, depois de um período desconfortável de silêncio entre seus amigos. Os dois dobradores de terra não eram os únicos processando as informações dadas. Ele tinha chegado a uma conclusão própria. — Se isso for sério... e como o Kuzou está analisando, deduzo que seja bem sério... Vocês não acham que a abominação... esteja nos seguindo, n-não é?
— Se me permite dizer, isso eu já acho um pouco exagerado, senhor Yan... — replicou Rohan, tentando acalmar os medos infundados do amigo.
O ex-agente não teve tanta consideração.
— É uma possibilidade.
Todos o encararam, surpresos; alguns com um certo pavor.
— Como assim, senhor Kuzou? — inquiriu o gigante, inseguro.
— Se supormos que você está correto sobre as motivações destrutivas dela, ficar no nosso encalço lhe seria extremamente beneficial — respondeu, sem olhar para os amigos. — Somos a melhor distração possível, e abrimos uma gama de possibilidades inacreditável para alguém que quer estar a par dos movimentos e intenções do Avatar e seus seguidores.
O clima ficou pesado de uma forma asfixiante. Yan ficou branco.
— Mas... espera... — tentou o nômade, com um sorriso desesperado. — Se alguém estivesse nos seguindo, você perceberia na hora, n-não é? K-Kuzou?
O ex-agente não o encarou.
— Não se fosse o ser capaz de escapar pelo mundo inteiro por mais de uma década, sem sequer deixar vestígios — respondeu, direto.
O dobrador de ar abriu a boca, mas engoliu o que quer que fosse dizer. Estava muito pálido, e parecia olhar para vários cantos, como se começasse a ficar paranoico.
— Senhor Kuzou... — começou o enorme amigo.
Calou-se a ver o outro colocar um dedo sobre os lábios; um sinal claro. Os outros também perceberam.
— Céus, o que foi ag...? — apavorou-se Yan.
— Vamos dormir — interrompeu o ex-agente.
À sua volta, rostos estupefatos. Resoluto, Kuzou interrompeu qualquer tentativa de protesto.
— Eu sei que vai ser difícil depois disso tudo, ainda mais encerrando-se assim de forma súbita. No entanto, ouço nossas jovens e curiosas anfitriãs se aproximando, e tem coisas que vocês sabem que elas não podem ouvir.
Os amigos começaram a olhar em volta, à procura de sons, mas não conseguiam ouvir nada. No entanto, não iriam duvidar do amigo ex-agente secreto.
— Afinal, como os únicos hóspedes, nossas vozes provavelmente se destacam. Vamos — insistiu, ao ver pouco movimento por parte deles. — Com sorte, o assunto de amanhã vai ser apenas como uma menina se esgueirou sozinha para um quarto com três homens.
Ember esqueceu toda a tensão ao ouvir aquilo, e ficou tão vermelha quanto uma pimenta. Pareceu querer protestar, mas desistiu e correu para fora.
Ao entrar em seu quarto, viu de canto de olho a mais novas das irmãs dando meia volta no final do corredor, como se tentasse disfarçar.
“Sabichão do cacete”, xingou ela, ainda corada.
O quarteto saiu bem cedo no dia seguinte. Acordaram às seis da manhã, comeram um belo de um café da manhã — as irmãs tiveram problemas em acompanhar o ritmo faminto deles —, vestiram as “novas” roupas — não sem antes agradecer muito — pagaram e então se despediram.
Lara suspirou, triste.
Estava varrendo o salão quando sua irmã se aproximou com um cesto de roupas cheio de quimonos agarrado ao peito. Pôs o cesto no chão e sentou-se no degrau de entrada.
— Mamãe vai te esganar se te ver aí de corpo mole — disse a mais nova, se aproximando sem deixar de varrer.
— Não enche. Estou moída, só estou descansando um pouco — retrucou a mais velha.
O sol brilhava forte pela entrada aberta da recepção, banhando-as com seu calor e refletindo no chão bem lustrado. Uma gostosa brisa também vinha, equilibrando as sensações e inebriando a manhã.
— Ahhh... Que manhã maravilhosa — suspirou Mara, fechando os olhos para sentir melhor o vento e o calor sobre sua pele. — Hoje parece que vai ser um dia ótimo...
Como se para discordar, naquele momento dona Jana chegou no saguão.
— Mara!
A menina pulou em pé no mesmo instante. A mais nova virou-se de costas enquanto varria para esconder o sorriso.
— Se você vai ficar aí na preguiça, me dá o cesto que eu cuido disso — cuspiu a mãe. Quase tropeçando, a filha entregou o cesto. — Já que quer ficar por aqui, aproveite e ajude sua irmã a limpar a entrada. Assim vocês acabam mais rápido. Temos uma cozinha para arrumar ainda, afinal de contas.
As irmãs soltaram um muxoxo ao serem relembradas daquilo. Dada as ordens, a mãe se retirou. Carrancuda, a mais velha foi pegar uma vassoura. Quando voltou, reparou que a irmã estava alegre demais para o gosto dela.
— Continua rindo que eu dou com a vassoura na sua cabeça — ameaçou ela.
A mais nova sabia de um lugar bem melhor para ela colocar a vassoura, mas decidiu ficar quieta; a irmã costumava, cedo ou tarde, cumprir as ameaças.
Ficaram em silêncio varrendo por um tempo, até a irmã mais velha não aguentar mais e começar a reclamar:
— Esse dia maravilhoso e tenho de ficar presa aqui. Só de pensar em arrumar aquela cozinha...
Ambas estremeceram com o pensamento.
A cozinha tinha ficado bem suja e desarrumada depois da refeição daquela manhã. Não era exatamente culpa do grupo; eles deviam realmente estar famintos, afinal não tinham propriamente jantado na noite anterior. Porém, o ritmo deles fora difícil de acompanhar e elas acabaram se atrapalhando bastante no processo. O baixinho, principalmente, parecia um demônio esfomeado e sedento. Apesar de tudo...
— Eu já sinto falta deles — suspirou Lara, triste.
— Mal passamos uma noite com eles — retrucou Mara, mas também um pouco deprimida.
— Faz tempo que não tínhamos um grupinho animado que nem eles — comentou a mais nova.
Mesmo com o jeito assustador do baixinho, fora um jantar divertido na noite passada. Mas claro que a melhor parte fora as termas. Devido à formação da montanha em volta das termas, era possível ouvir perfeitamente o que acontecia lá a partir do corredor do segundo andar da casa. Elas haviam escapulido da mãe para ouvir o máximo possível a conversa deles. Tiveram que se segurar para não rir alto; aquele pessoal era hilário. Naquela manhã, infelizmente, eles haviam parecido um pouco mais sérios e austeros, mas de vez em quando ainda havia acontecido algo que lembrara a animosidade anterior deles.
— Verdade — concordou a mais velha. — Mas também faz tempo que tivemos hóspedes decentes. Lembra daquele casal de velhos metidos três dias atrás? Nunca vi a mãe com tanta vontade de enxotar alguém como naquela vez.
Lara riu; lembrava-se muito bem. Se não fosse seu irmão mais velho para acalmá-la, a mãe teria estapeado aquela velha folgada.
— Queria que ela tivesse feito isso — riu-se ela. — Mas nada se compara àquele esquisitão dois dias atrás. O nosso último hóspede antes do grupo hoje, o da maleta enorme, lembra?
Mara fez uma careta. Lembrava-se até bem demais. Era um homem grande e mal-encarado, na casa dos trinta e poucos anos. Era musculoso, mas não muito alto, e talvez fosse bonito, não fosse seu descuido com a aparência. Carregava uma maleta enorme para todo o canto, como se fosse um filho, e não deixava ninguém tocar. Como se não bastasse tudo isso, ainda por cima era um grosso.
— Qual era o nome dele mesmo? — indagou a mais nova. — Era um nome esquisito também, para variar.
— Se não me engano... — A mais velha vasculhou a memória. — Bumi? Não... Buma, se não me engano.
— Esse mesmo! Próxima vez que ele vier, acho que vou cuspir no prato dele — disse Lara, com um sorriso diabólico.
— A mãe vai te matar se você fizer isso — rebateu a outra irmã. — E é capaz dele não se importar.
Ambas riram.
— Ainda assim, acho que eles foram um grupo especial — insistiu a mais nova.
— Você só diz isso porque estava interessada nos caras — sibilou a outra.
Lara deu de ombros.
— Fazer o quê... você viu aquele moço enorme?! Aquilo que é homem... — suspirou ela, imaginando coisas.
— Ele é velho demais para você, garota — ralhou a mais velha. — Parece uma desesperada, sempre atrás dos hóspedes. Vê se cresce.
— Olha quem fala! Eu vi você toda eriçada de olho no moreno misterioso.
A irmã parou de varrer conforme seu rosto ia adquirindo rapidamente um tom avermelhado.
— Ora, sua... — disse, virando-se para a caçula.
— Eu não acredito!
Dona Jana apareceu, saindo do corredor, olhando para as duas. As meninas interromperam o que quer que iam fazer e se endireitaram, assustadas como soldados sendo pegos em flagrante pelo general.
— Vocês ainda não terminaram de varrer a recepção? Que corpo mole é esse? — exclamou ela.
As irmãs não podiam dizer que estavam cansadas porque dormiram pouco na noite passada. A mãe perguntaria o motivo e elas não sabiam mentir direito. Falar a verdade, que elas ficaram se revezando de tocaia no corredor dos quartos quase a noite toda para tentar ouvir algum papo dos hóspedes, não era uma opção. Pior é que fora em vão; quando pensaram que iam ouvir algo interessante, a garota voltara para o seu quarto e eles foram dormir. As duas haviam aguardado mais um tempo, na esperança de que acordassem por um motivo qualquer, mas também se decepcionaram nesse quesito.
Tiveram que se contentar em pedir desculpas para mãe.
Dona Jana parecia querer dar mais bronca, mas elas foram salvas pela chegada do carteiro, que apareceu no vão da porta.
— Bom dia! – cumprimentou ele, sem perceber a cena lá dentro. – Como vocês estão?
— Ah! Bom dia, Mako! — exclamou dona Jana, esquecendo as filhas e indo em direção a porta. — Quais são as boas de hoje?
— Ah, hoje temos umas bombas, viu — respondeu o homem, entregando o jornal para a mulher. — Cobertura completa sobre o caos no Oasis.
As irmãs saíram de seu estado traumatizado e se aproximaram da porta, interessadas.
— Finalmente notícias oficiais! — disse a dona do lugar, exasperada. — Algo mais? — perguntou, pegando uma moeda para pagar o jornal.
— Bom... Tem... — respondeu o carteiro, cauteloso.
Tirou um papel da bolsa e entregou para a mulher.
— Mako... — sibilou a mãe, fuzilando-o com o olhar, ignorando o papel em sua mão. — O que eu te disse sobre isso?
— Ah, dona Jana, por favor, me quebra esse galho — implorou o homem — Eu sou obrigado a entregar esses cartazes. Se eu voltar de novo com o seu, meu chefe vai me matar.
— Não seja por isso — Ela arrancou o papel da mão dele e o rasgou em pedaços, sem sequer olhá-lo. — Pronto, problema resolvido.
— Ah, céus, dona Jana, isso vai dar uma dor de cabeça... — reclamou o carteiro. — Porque você simplesmente não pendura logo o cartaz? Ia ser mais fácil para todo mundo, além de ser para sua segurança.
— Bobagem — soltou ela.
— Você sequer olhou. São criminosos muito perigosos, vocês estão se deixando à mercê deles assim — tentou o homem.
— E o cartaz vai me defender, é? Poupe-me, estamos muito bem assim. De qualquer forma, meu filho logo estará de volta da viagem que fez para comprar suprimentos, e ele nos “protegerá” muito bem, se é isso que te preocupa tanto. Agora vá, tenho muito o que fazer e você também.
O carteiro suspirou, derrotado, e se despediu.
— É sempre a mesma coisa... — exasperou-se a mulher, e virou-se para as filhas. — O que vocês estão olhando aí? De volta ao trabalho!
E com aquela ordem, as irmãs correram de volta a seus afazeres.
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