A Lenda da Abominação - Livro Um: Amizade
6 Capítulo 5: Noite Adentro

Não demorou muito para eles aparecerem.
Yan conseguiu sentir as dezenas de passos antes mesmo de eles chegarem ao vale. O barulho da multidão vibrava através das paredes da gruta. Os quatro em seu interior nunca ficaram tão quietos em suas vidas. Os dois dobradores de terra estavam retesados, alertas, preparados para atacar caso fosse necessário. Ember decidira ficar sentada, congelada. Parecia o único jeito de não fazer barulho.
Logo, pés cobriram alguns dos buracos de iluminação da entrada. O barulho ficou ensurdecedor. Yan decidiu cobrir os ouvidos, numa tentativa inútil de abafar os sons. Kuzou colocou delicadamente a mão sobre o chão sólido, pronto para criar um pedregulho do solo ao menor sinal de perigo.
Era possível pescar comentários aleatórios de alguns dos perseguidores, como:
“Pra onde eles foram?”
“Que porra aconteceu aqui?”
“...nada; vamos esfolá-los!”
“...queimadura fresca...”
“Arruaceiros malditos...”
“Não atrapalhe!”
“A recompensa é minha...”
“Apareça, Abominação!”
“Briga!”
“... pra floresta! Vamos..”
“Sai da frente!”
O nômade só queria que eles se calassem e fossem embora, mas Kuzou devorava cada nova informação jogada ao vento, como se estivesse faminto. Seus olhos dançavam na direção de cada novo som, fazendo parecer que ele estava louco.
O grosso da multidão não se demorou muito no vale, e logo seguiram seus diversos caminhos, cada um seguindo na direção que achava certa. Alguns poucos, em sua maioria guardas, permaneceram ao longo de uma hora no vale antes de seguirem a cicatriz fumegante através da floresta. Mesmo horas depois de todos terem partido, Kuzou os manteve em silêncio por garantia. Não foi difícil; ninguém parecia querer falar.
Após uma eternidade cheia de infinitos pensamentos horríveis, a noite chegou.
Eles ainda assim esperaram até o ultimo resquício de luz desaparecer, e o primeiro som da fauna noturna, antes de relaxarem. Então, após ter tido a confirmação do forasteiro de que era seguro, o Gigante abriu a passagem. Olhou em volta para garantir, pulou para fora e ajudou os outros a sair.
Yan quase chorou ao sentir a grama entre seus dedos. Deitou e se esfregou contra o solo fértil. Quando satisfeito, rastejou até o rio e enfiou a face dentro da leve correnteza. Fez questão de fazer várias bolhas. Rohan sentou-se com as pernas cruzadas, como se meditasse, enquanto Ember desabava no chão, de olhos fechados, xingando e amaldiçoando céu e terra. O incansável Kuzou foi imediatamente averiguar os arredores, inspecionando cada amassado suspeito na grama. As nove agonizantes horas dentro daquele cubículo pareciam ter traumatizado a todos, menos ele.
— Estamos bem? — perguntou o nômade quando o ex-agente retornou da vistoria, meia hora depois. Ele ainda não tinha saído da borda do rio, mas estava virado para cima, com a cabeça enfiada até as orelhas, deixando as águas massagearem seus cabelos.
O forasteiro, em vez de responder, tirou a camisa e se jogou no rio, espirrando água ao redor. Yan virou o rosto para se proteger das gotas, instintivamente. Os respingos chegaram até Rohan, sentado ali perto.
— Ao que tudo indica, sim — soltou Kuzou, quando sua cabeça emergiu para fora d’água. Tirou o cabelo dos olhos e continuou: — Ah! Estava precisando disso.
— Você tem todo o direito de descansar. Você fez muito hoje. Você nos salvou — disse o Gigante, aproximando-se. Ember veio logo atrás, correndo, e não hesitou ao pular no rio. Mais água voou para fora do córrego. Rohan simplesmente sentou-se na borda e banhou os pés. — Não sei como agradecer.
— Que tal uma caneca escrita “Sangue Bom”? — brincou a garota, com um sorriso enorme.
Ela parecia genuinamente feliz pela primeira vez desde que os conhecera. Seus curtos cabelos negros mal incomodavam sua visão, mesmo molhados e grudados contra a face. Ela assemelhava-se a uma criança, alegre, sem pensar no amanhã. Todos sorriram junto com ela.
O amanhã, no entanto, era inevitável.
— E agora? — perguntou Yan, quando o silêncio relaxante que se seguiu tornou-se apreensivo. — Qual nosso destino? Qual nosso plano?
— Eu conheço alguém que pode nos fazer desaparecer — comentou Kuzou casualmente, enquanto boiava.
— Desaparecer? Como? — inquiriu Ember, sem nada da alegria de antes.
— Do melhor jeito possível. Documentos falsos, disfarces, realocação. O serviço completo — explicou. — Ele é extremamente eficaz. E confiável.
A dobradora de fogo ia retrucar, mas foi cortada pelo Gigante.
— Esse vigarista em questão, por acaso, seria um membro da tribo Zhang? — sibilou ele, azedo.
Kuzou deixou o corpo afundar e encarou o grande homem, surpreso. E apreensivo. Anuiu a cabeça afirmativamente, sem desviar os olhos.
— Entendo — continuou Rohan. — Isso pode soar indelicado, mas, como vamos viajar juntos a partir de agora, alguns segredos precisam vir à tona para tornar nossa convivência suportável. Você mencionou algo, pouco antes de nossos perseguidores aparecerem. Algo sobre o que você já foi um dia. Suponho que isso também tenha a ver com esse “alguém” que pode nos ajudar?
O clima de repente ficou tenso. Yan sentou-se, talvez rápido demais. O seu cabelo caiu nos seus ombros com um som molhado. A palavra “merda” se repetia infinitamente em sua mente.
— Muito justo — falou o forasteiro, saindo devagar do córrego. — Não tem mais por que esconder mesmo, sendo que já contei para o nômade. — Todos olharam para ele. “Merda, merda, merda,merda,merdamerdamerdamer...” — Mas... baseado no fato de conhecermos o mesmo “vigarista”, e das várias pistas que “dei” nesse dia de fuga... eu acredito que já sabe o que um dia eu já fui.
Desta vez, foi o Gigante que confirmou.
— Mas que porra está acontecendo aqui? — reclamou Ember, confusa.
Ninguém lhe respondeu.
— Partimos em 10 minutos. Arrumem suas coisas — encerrou Kuzou, indo em direção a seus pertences na entrada da gruta.
Yan, sentindo olhares estranhos em sua direção, se apressou e o seguiu.
— Mas o que... você tá louco?! O que você estava pensando quando decidiu abrir o jogo assim? — exasperou-se ele, perto do parceiro.
— Ora, eu contei para você, não? — ironizou o forasteiro. Antes que o nômade retrucasse, ele continuou, sério: — E não é como se eu tivesse realmente falado algo. O grandão ali é esperto, ele já suspeitava. Eu só confirmei.
Uma grande exclamação de surpresa veio de trás deles. Yan olhou a tempo de ver a garota espalhar litros d’água em sua indignação. Kuzou nem teve a decência de se virar.
“Merdamerdamerdamerda...”
— Isso não vai dar certo. Vai me dizer que é mais uma das suas estratégias de interrogação? — cuspiu ele, sarcástico. E, então, viu um sorriso como resposta.
“Puta merda, pior que é capaz de ser.”
“Merda, merda, merda...”
Eles partiram pontualmente dez minutos depois, seguindo o plano.
Andavam normalmente para não se machucarem na escuridão da floresta. Quando uma chama foi sugerida, foi logo descartada.
“Um fogo chama atenção demais nesse breu. O Avatar seria capaz de nos ver desde Ba Sing Se. Nossos olhos já estão acostumados à escuridão, vamos aproveitá-los. ”
E assim continuaram vagando pela mata, lentamente. Com olhos acostumados ou não, de vez em quando Yan ainda tropeçava em galhos ou raízes de árvores aleatórias. Quando isso acontecia, um “bosta” ecoava através da noite. Ninguém se dava ao trabalho de censurá-lo.
Entediado, às vezes o nômade pegava seu planador e flutuava bem alto acima das árvores, para vigiar os arredores. No entanto, desistiu depois da terceira vez que subiu e não conseguiu ver nada além das luzes da maldita cidade de onde fugiram; todo o resto estava escondido atrás do véu negro que cobria todo o horizonte.
— Algo de interessante? — perguntou Kuzou, quando aterrissou ao seu lado.
— Mesma coisa de sempre. Cidade está calma e o resto é invisível — queixou-se ele.
— Hm — concordou seu parceiro, meneando a cabeça. — Não baixe sua guarda. O populacho pode já ter se acalmado e voltado para suas confortáveis camas de algodão, mas com certeza há patrulhas nos arredores da floresta.
— Eles estariam usando tochas ou lanternas, não?
— Eu nunca disse que eram simples guardas que estavam de patrulha.
Yan engoliu a seco.
— Mas então... quem? — inquiriu.
— Tenho certeza que aquele “museu” tem algum tipo de especialista, ou especialistas, para casos como esse. Afinal, se aquele lugar tinha uma prisão... — E deixou o resto no ar.
— Mercenários? — chutou o nômade, temeroso.
— Talvez — confessou Kuzou. — Mas, de qualquer jeito, nem eles entrariam na floresta sem uma fonte de iluminação. O risco de desencontro é muito grande. Sem falar que os mais inexperientes se perderiam. Por isso, eles provavelmente estão circulando por todas as saídas da floresta, mas sem luz para não serem vistos com antecedência.
— Não deveríamos estar juntos mesmo assim, por precaução? — argumentou Yan, olhando para trás.
Conseguiu distinguir a silhueta gigante de Rohan, alguns metros atrás. Um pequeno risco no breu ao seu lado denunciava Ember. Os dois andavam afastados deles desde que saíram do vale. O dobrador de ar podia jurar que sentia as costas pegando fogo de tanto que sentia os olhares em sua direção.
— Dependendo da situação, sim. Mas, no caso, na improvável situação de um mercenário entrar na floresta e nos achar, seria impossível ele derrubar qualquer um dos dois grupos sem fazer uma tremenda confusão. Ainda mais se esse infeliz pegar o grupo da esquentadinha e do Gigante — riu-se Kuzou. — Se, por algum milagre, o mercenário derrubar um grupo, o outro estaria na vantagem de pegar o infeliz de surpresa. — “Céus, será que ele previa o maldito tempo do dia seguinte também? ”
— Você sabe de tudo? — sussurrou o nômade, meio que esperando que ele não ouvisse.
— Claro que não. — É claro que ele tinha ouvido. — Isso tudo são meras suposições. Neste exato momento, alguém pode estar esfaqueando Rohan pelas costas, e eu não saberia. — Yan olhou nervoso para trás, procurando as silhuetas. Elas permaneciam inalteradas. — A única certeza da vida é a morte. Tudo que eu faço é usar a lógica para supor as ações dos inimigos. — “Ele está do meu lado, ele está do meu lado,eleestádomeuladoporra” — Aprendemos isso no primeiro dia de aula na academia Dai Li — gracejou ele.
Sem achar graça, o dobrador de ar decidiu mudar de assunto.
— É meio desconfortável... isso, deles ficarem para trás.
— A confiança deles foi abalada. É natural — respondeu Kuzou.
— Ainda assim. Parece injusto. Demos nosso voto de confiança para eles. Céus, você salvou eles! Como podem simplesmente... — desabafou ele.
— Calma, Yan. Eles só estão temerosos, e nervosos além do limite. Todos nós estamos. Eles só precisam conversar. Logo se juntaram a nós — tranquilizou o dobrador de terra.
— Duvido, principalmente vindo da Ember. Como você pode ter tanta certeza? — indagou o nômade.
— Porque a floresta acaba aqui — zombou ele em resposta, enquanto parava ao lado de uma árvore.
— O que? Tão rápido? — inquiriu Yan, olhando a frente. Realmente, as árvores escasseavam quinze metros à frente, seguido por uma escuridão livre de empecilhos. — Essa floresta não pode ser tão pequena assim.
— E não é. Ela ainda segue por quilômetros para oeste. Mas nosso caminho é outro. — disse, e esperou pelos outros.
— Por que paramos? — reclamou a garota, quando se aproximaram.
Kuzou explicou aos dois.
— Entendo. Mas não seria mais seguro continuarmos aproveitando o máximo possível o abrigo das árvores? — retorquiu o Gigante. — A floresta continua por mais três quilômetros ao norte.
— Não seria inteligente. Se seguirmos a floresta ao norte até o final, daremos de cara com Omashu. É o pior lugar que poderíamos ir no momento, tirando a cidade que deixamos para trás.
“Agora, adicione o fato de que eles sabem que fugimos pela floresta. Se avançarmos mais duzentos metros nessa direção, tenho certeza de que daremos de cara com as primeiras patrulhas. A segunda maior cidade da Reino da Terra com certeza estará à nossa espera com uma calorosa recepção.”
Os sons da floresta tomaram conta da noite. Nenhum deles quis interromper aquela pacata melodia noturna.
— A partir de agora, temos de apostar na velocidade — continuou Kuzou, quebrando o silêncio, finalmente. — Vamos criar distância esta noite.
E então eles partiram, a toda velocidade. Os dobradores de terra moldando o solo para impulsioná-los, e o nômade voando entre as nuvens. Daquela vez, Ember não permitiu ser carregada, e usou sua dobra para se impulsionar, algumas vezes chegando até a desencostar do solo em suas ignições.
Eles atravessaram toda a grande planície durante a noite, sem descansos. Luzes às vezes apareciam no horizonte, sinalizando vilas e aglomerados de pessoas, mas eles ignoraram todas elas. Seguiram contornando colinas e pequenas montanhas, forçando cada músculo, esgotando cada resquício de energia.
Uma hora o cansaço superou o orgulho, e a dobradora de fogo foi novamente jogada sobre os largos ombros de Rohan. Yan não podia reclamar disso, mas o sono esmagava suas pálpebras. E ele não era o único. O avanço deles diminuía a cada novo metro vencido.
Eles só pararam quando o horizonte começou a alaranjar.
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