A Lenda De Thommy

10 Guerreiros de arco e flecha


Notas iniciais
WOOOOW! Cá estou com mais um capítulo e é, demorei um século pra postar, eu seeei... y-y mas acreditem, muita treta aconteceu. Bem, pensem pelo lado bom, estou de férias então podem me cobrar a vontade! Aliás, o começo do próximo capítulo está pronto porque tive que dividir esse daqui em dois =x Enfim, boa leitura!

No capítulo anterior:

“[...] Todos no saguão pararam suas atividades para rir do desengonçado Professor, inclusive a mencionada Kah. Esta, ao olhar para cima, viu que o Algoz procurado estava no segundo piso. Enquanto Shey, após alguns segundos de distração, percebeu que estava sendo vigiado. Procurou quem estaria o encarando e se arrependeu por ter encontrado. Uma linda Mestra, cujos cabelos louros eram presos com Bao-Bao observava o Algoz com fúria nos olhos. Aquela era Kah, a Mestra mais determinada de todos os tempos. E no momento, ela estava determinada a conseguir seu Sino de Ouro.”

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O jovem Espadachim, agora parte da Divine Aesir, observava Abra ao pé da escada bem como os outros dezoito integrantes do clã. Aproveitou o momento de silêncio para finalmente comer, mas o susto com a risada mútua dos transclasses impediu o término da ação.

— Shey... — sussurrou a loura com os olhos fixos no segundo piso, de onde o Algoz procurado ria da situação constrangedora de Abra.

— Katsumi, querida! — ele disfarçou. — Como foi a viagem? Fiquei sabendo que você brigou de novo com o Darius, devia pegar leve com ele... Aliás, eu já disse que hoje você está incrivelmente lind…

— O Sino. De Ouro. AGORA!

Assim que foi proferida a última palavra, Kah correu em direção à escada e deu um salto sobre o Professor que tentava se levantar com minha ajuda. Shey engoliu em seco e não demorou a mexer os pés. Rodeou todo o andar em uma rápida corrida até chegar ao outro lado, mas ele sabia que a qualquer segundo a loura o alcançaria. Sem achar uma solução mais eficiente, o jovem concluiu que o melhor a se fazer seria pular. Olhou para trás e estremeceu ao ver Kah se aproximando como um raio — realmente, ele podia jurar ter visto os olhos da garota faíscando. Aquilo sim era determinação! Olhou para baixo, onde agora os outros integrantes se concentravam na perseguição da Mestra, e não em Abra. Apoiou a mão no corrimão de madeira que contornava todo o primeiro andar, respirou fundo e saltou, aterrissando na mesa onde Thommy quase conseguira saborear a suculenta carne se não fosse pela brusca aterrissagem.

O homem correu em direção à porta do clã deixando para trás uma mesa quebrada e um Espadachim incrédulo.

A Mestra repetiu a ação de seu companheiro, saltando sobre a mesa recém destroçada, quando uma voz feminina interrompeu sua perseguição.

— Ei, Kat — A loura sentiu uma mão em seu ombro —, você quer esse Sino idiota só porque ele captura uma sohee, né?

Antes que Katsumi pudesse perguntar o que sua amiga queria dizer com aquilo, a Algoz de cabelos marrons, prosseguiu:

— Se é um mascote que você procura, então fique tranquila. O grupo do Lord voltou com um presentinho bem melhor: uma criança de carne e osso!

— Quê? Alicia, você não acha que eu teria reparado se tivesse uma criança por aqui?

— Olhe pra trás, bobinha!

Kah virou-se à procura do tal mascote confome Shey havia mandado. De fato, o menino estava lá, encarando o que restara da mesa com olhos chorosos e, depois, levantando o rosto para Kah.

— Ok, vocês vão ter que me explicar isso.

* * *

Após arrancar do líder boas explicações, Kah acabou por mostrar-se indiferente quanto à presença de Thommy e, depois de vencer algumas competições contra Shey — entre elas, guerra de braço e corrida —, Katsumi finalmente pôde segurar nas mãos o tão desejado Sino de Ouro e se incluir na festança do clã.

Com a chegada da madrugada, o bardo cessou a música e abusou de suas piadas para entreter todos os que ainda não estavam dormindo pelos cantos ou mesmo no chão, como Felix.

— Thommy. Acorde, filho.

O menino abriu os olhos sonolentos e tentou focar em quem o balançava de leve.

— Levante desse banco e limpe a boca, vamos dormir em uma estalagem aqui perto.

Thommy precisou de alguns segundos para compreender que estava esticado num banco e que escorria saliva de sua boca. Levantou sentindo o corpo pesado e o queixo molhado.

— Vamos logo, se formos rápidos você ainda conseguirá ter uma boa noite de sono. Jenny o quer amanhã cedo aqui na Divine Aesir para começar o seu treinamento.

Abra bagunçou o cabelo do garoto e o guiou até a porta enquanto se despedia dos seus amigos.

Morroc era acobertada por uma névoa de areia que os ventos gélidos levantavam. Thommy sentiu a brusca mudança de temperatura assim que as portas fecharam-se atrás de si, e os braços de seu novo quase-pai eram insuficientes para esquentá-lo. No entanto, a vista daquela cidade de areia à noite era tão ou mais bela quanto pelo dia. Abra caminhava em passos apressados em direção ao hotel, mas logo diminuiu a velocidade ao perceber que Thommy não se incomodava em sentir frio por um tempo a mais enquanto pudesse admirar e reconhecer as construções de Morroc.

— Abra… Quem é Eddy?

— Está se referindo ao nosso pequeno Caçador?

— Como vou saber? Ouvi a Kah falando que meu cabelo lembra algum Eddy.

Abra riu e analisou as mechas prateadas do garoto.

— Eu não havia notado isso, mas é verdade. Edgar era o segundo integrante mais novo da Divine Aesir, sendo apenas alguns meses mais velho que meu irmãozinho Vini.

— “Irmãozinho”? Caramba, você tem irmão!

— Ele deve ser uns 4 anos mais velho que você mas tem a mesma mentalidade! — Abra riu e fitou o enorme manto azul salpicado de pequenas estrelas que pareciam ter tanto brilho quanto a lua. — Vini é espontâneo como você, e Edgar é tão inconveniente quanto.

— Sei lá, eles parecem legais — murmurou o Espadachim, voltando os olhos para o céu assim como Abra.

— E são, mesmo após tantas complicações na vida. E pensar que tudo aconteceu em apenas 15 anos…

Percebendo que Abra falava mais consigo mesmo que com ele, Thommy fitou-o.

— O que aconteceu? — perguntou o garoto, os olhos brilhando como as estrelas que dali era possível contemplar.

— É uma longa história, menino — O Professor gargalhou de leve —, uma dessas que você escuta antes de dormir ou em contos épicos.

— Então promete me contar antes de dormir? Acho que é isso que os pais fazem.

Um sorriso se estendeu pelo rosto de Thommy, e Abra logo sentiu os efeitos daquela chantagem emocional.

— É tarde. Se chegarmos a tempo, quem sabe…

A primeira visão que Thommy teve do quarto ao acordar não o agradou de início. Encarava a parede de pedra e a disposição dos móveis com certa estranheza. Incomodou-se com o fato de não estar no quarto tão familiar do orfanato e só depois de alguns segundos lembrou de que nunca mais precisaria pisar naquele local. Lembrou-se de todos, inclusive de Kah e do frio da noite anterior. Queria saber as horas, mas a intensidade do sol parecia manter seu fervor durante o dia todo, de modo a complicar qualquer dedução. Mesmo assim, a quietude que vinha de fora serviu como média que Thommy usou para afirmar ser sete horas da manhã. Virou-se e encontrou Abra dormindo como uma criança na cama ao lado, com um braço e uma perna descobertos.

Mesmo sabendo que devia estar de volta ao clã dali alguns minutos, Thommy aproveitou o sono profundo de seu companheiro para prosseguir com seus devaneios sobre o novo rumo que sua vida tomara. De repente, o rosto de Catherine invadiu sua mente e o menino sentiu um nó na garganta. Cathy e o bispo eram os únicos que Thommy podia chamar de “família” de forma que sentisse a verdade daquelas palavras. Um sorriso esboçou-se em seu rosto e ele decidiu que os visitaria na primeira oportunidade.

Não ter encontrado Cathy em meio aos cavaleiros após o incidente com o bafomé despertava uma saudade e preocupação imensa de sua amiga. Lembrou até mesmo de Sloan, seu rival, e de como foi corajoso em provocar o monstro para salvar a irmã. Aos poucos, as lembranças que tivera desde aquele dia foram deslizando em sua cabeça até chegar na madrugada em que Abra lhe contara uma história fascinante, que Thommy logo recordou pertencer a dois jovens: Edgar e Vini.

— Tudo começa com uma viagem aparentemente normal, onde o pai leva seus dois filhos para mundo afora — iniciou Abra, sentado na ponta da cama de Thommy. — Reconheça esses dois filhos como sendo eu e meu irmão mais moço, que na época devia ter em torno de 4 anos. Não sei se Jenny ou alguma outra pessoa chegou a informá-lo sobre meu passado, mas meu pai mostrou ter potencial com a escrita desde cedo, e suas obras não demoraram a perambular por toda Midgard. Outro fator que motivou a fama de meu pai foi os mais diversos conteúdos dos livros. Alguns, especializados em monstros, outros na humanidade em si, outros no ser humano e muitos sobre a magia. Não havia uma área de conhecimento que escapasse dele: o Sábio Savigrus, como era chamado, conhecia um pouco de tudo e muito de pouco.

— Acho que não peguei essa última parte — Thommy arqueou a sobrancelha.

— Resumindo, meu pai tinha todo o conhecimento necessário de quase todos os assuntos.

— E onde entra o Edgar e o Vini nisso tudo?

— Paciência, caro Espadachim, o lendário Edgar será incluso na história mais para frente. Isso, acomode-se bem e não tenha pressa.

“Morávamos em Juno, na República de Schwartzwald. Minha mãe morreu no segundo parto, e há quem diga que foi pelo fato de dar a luz a uma criança amaldiçoada. Ela era uma linda Sacerdotisa de cabelos dourados e sorriso encantador, meu pai havia dito que apaixonou-se à primeira vista. Eu ainda era jovem quando a tragédia ocorreu, mas infelizmente ou felizmente, não sei dizer, não senti tanto sofrimento com a morte de minha mãe. No entanto, o nascimento de meu irmãozinho foi o que mais me felicitou em toda minha vida.

Os boatos de que Vini seria um anjo da guarda surgiram logo após os amigos excêntricos de meu pai o conhecer. Desde novo, Vini mostrou muitas semelhanças com minha mãe, tanto na personalidade dócil quanto nos traços do rosto ainda infantil, e admito que grande parte de minhas lembranças dela só não se perderam devido a essas semelhanças. Porém, os boatos não poderiam permanecer bons por muito tempo. Da mesma forma que muitos consideravam Vini um anjo da guarda, outros afirmavam que ele estaria amaldiçoado por ter tirado a vida de nossa mãe ainda no parto. E, de alguma forma, essas fofocas afetaram meu pai imensamente, de modo que aos poucos ele passasse a adotar Vini como o filho favorito e a esquecer de seus planos de me educar para que eu herdasse toda a sua fortuna e honra. Aquela mudança de comportamento me abalou mais do que devia, e aos poucos meu tão querido irmão tornou-se quase um inimigo para mim.

Foi então que meu pai decidiu levar-nos a uma viagem. Conheci Rune-Midgard naquele passeio que durou quase um ano. Inclusive, essa mesma cidade, Morroc, foi uma das que tive o prazer de visitar. Dormíamos na casa de conhecidos e meu pai tentava arrancar conhecimento de cada pessoa com quem cruzava no caminho. Visitamos cidades que hoje não existem mais, conhecemos pessoas que têm seus nomes escritos em livros famosos até que, por fim, chegamos a Payon.

Instalamo-nos no abrigo de uma mulher muito bonita que meu pai dizia ser uma velha amiga. Mas a forma que ele a olhava de soslaio me fazia retomar à minha mãe, mesmo sabendo que ele nunca a tinha olhado da mesma forma. Com o tempo, fui notando com que falsidade meu pai descrevia-a para mim até, finalmente, não descrevê-la mais.

Eu passara a ser uma criança odiosa. A inveja provocava em mim a certeza de que meu pai me desprezava, sendo que a única mudança pela qual eu realmente passei com a aproximação de meu pai com Vini foi a saída daquela vida mimada que até então eu levava. E em um ataque de raiva, recusei-me a cuidar de Vini quando meu pai estava ausente e sua suposta amiga tirava um cochilo.

Era noite, meu pai havia saído à negócios e disse que não demoraria. Pediu à mulher que cuidasse de mim e de meu irmão, sendo que o mais próximo que ela chegou de “cuidar” foi entregando-nos um prato de comida. Antes de cochilar, anunciou que acordaria dali poucos minutos e que eu devia ser capaz de olhar o mais novo. De fato, a responsabilidade de irmão mais velho sempre caía nos meus ombros e eu nunca havia reclamado daquilo, não até aquele instante.

Vini estava deitado na grama, desenhando num dos cadernos de anotações que meu pai levava consigo, guiado pela luz da fogueira. Ele desenhava nossa família e incluía nela uma mulher que eu não soube deduzir quem era, mas aquela cena inocente estimulou um sentimento em mim que não desejo a ninguém e que não pode ser explicado em palavras. Sem suportar encará-lo por mais tempo, fui dar uma volta na trilha que circulava aquela região, pretendendo aliviar a mente. E a história começa aqui.

Retornei após algum tempo, não sabia ao certo quanto, mas isso já não importava. Meu irmão havia desaparecido e, ao julgar pelo desenho inacabado, eu havia chegado muito atrasado. O desespero tomou conta de mim e eu achei que não seria capaz nem de me mover à sua procura, mas eu sabia que devia achá-lo. Entrei na floresta, corri pela mata desconhecida, gritei seu nome por diversas vezes, cada vez num tom mais alto. Tropecei e ralei os cotovelos e joelhos, cortei as mãos tentando afastar os galhos da frente, até que por fim desisti de lutar contra a escuridão da mata e joguei-me de joelhos na grama fofa.

Recebi as primeiras gotas de chuva no rosto que estava levantado aos céus. As lágrimas se fundiram com a água e cortaram ambas as bochechas vermelhas de tanta adrenalina, e os gritos da amiga de meu pai se perderam com o barulho da chuva que ameaçava ganhar forças. Ela, a mulher, chamava por mim e por meu irmão e só pôde me encontrar graças às minhas tentativas falhas de gritar por Vini.

A partir deste ponto torna-se difícil a mim narrar os acontecimentos seguintes. As memórias fragmentam-se mas lembro claramente da reação de meu pai ao receber a notícia. Ele limitou-se a abaixar os olhos molhados, abraçou-me com força e chorou baixinho. Vê-lo indefeso foi como levar uma flechada no peito. Tentei culpar-me, explicar que aquilo não teria acontecido se eu tivesse agido como um bom irmão, mas eu tinha medo de que aquele abraço se afrouxasse e que ele passasse a realmente me desprezar. Mais ainda, eu tinha medo de que seu coração não aguentasse e que ele fosse embora como Vini havia ido. Savigrus segurou meu rosto nas duas mãos, levantou-o e encarou-me nos olhos. ‘Tudo bem, filho, seu irmão está bem. Ele está bem, filho…’ , ele dizia, provavelmente para confortar o próprio coração.

Diversas buscas foram feitas por Payon. Vini, filho de Savigrus, logo foi mencionado por todos os cidadãos dali e cartazes com seu desenho não faltavam nas mãos das pessoas. A Vila dos Arqueiros nos apoiou mandando seus jovens para contribuir na busca mas nunca voltavam com a criança nos braços, viva ou morta. Não demorou para que eu sentisse a falta de meu irmão. Eu sempre o havia amado, embora minha inveja o tivesse tirado de mim. Nada taparia aquele buraco no peito, apenas Vini.

A criança não estava morta como se dizia por aí. Meu irmão perambulava pela floresta; eu o imagino chorando e chamando baixinho pela sua família sem obter resposta, assim como nós o fazíamos. Seus meios de sobrevivência nas primeiras semanas até hoje são um mistério para todos, porque um menino de 4 anos certamente não saberia lidar com uma situação daquelas. Sabe-se apenas que passaram-se mais de 10 anos desde aquilo, portanto, Vini adaptou-se ao ambiente selvagem, tornando a extensa floresta de Payon a sua nova casa. Ainda assim, a melhor explicação para o que quer que tivesse acontecido nos primeiros meses de seu desaparecimento é que Odin caminhou ao lado de Vini o tempo todo, alimentando-o e dando-o proteção.

Acredita-se que Vini encontrou um menino na floresta pouco depois de desaparecer. Esse menino, Edgar, também devia ter algumas lembranças de sua vida antes de cair naquele abismo chamado floresta, porque soube dizer seu nome ao meu irmão, mantendo sua identidade. Muitas teorias afirmam que os dois se conheceram logo, pois hoje ambos não lembram-se quando ou como se conheceram. O aparecimento de Edgar naquela floresta parece ser obra do destino, como um anjo caído dos céus, mandado para proteger meu irmão. Mas isso é um assunto à parte, pois como todos, Edgar possui sua própria história e seus próprios mistérios.

Com o passar dos anos, Edgar e Vini adotaram seus próprios meios de vida e criaram técnicas para lutar contra a natureza. Desenvolveram habilidade com arco e flecha desde cedo, habituaram-se a caçar animais e a lutar contra monstros, desde os mais fracos até os mais fortes. Seus corpos hoje são marcados por cicatrizes que se estendem nas pernas, braços, costas e barriga. Algumas, mais profundas e tortas, parecem ter sido de uma época de adaptação ao ambiente; outras, finas e retas, são consequência de uma vida toda de caça e garra.

Os dois “irmãos” não se limitaram à floresta. Suas habilidades e sentidos desenvolvidos permitiram que ambos se adaptassem a qualquer ambiente, incluindo o temido deserto de Sograt, onde o número de desaparecimentos crescia a cada ano. Os dois, Edgar e Vini, cruzaram o deserto, encarando o que der e vier, recebendo novas cicatrizes no corpo e adotando outros métodos de combate. Atualmente, ambos preferem o arco e flecha, mas não é de se estranhar vê-los lutando com Joe ou Kah, com apenas os punhos.

As aventuras dos meninos vão além do deserto de Sograt. Há quem diga que os dois chegaram a encarar de peito erguido a mais temida Ilha Esquecida, cuja localização e natureza, como o próprio nome sugere, foge do conhecimento de mais da metade dos humanos. De acordo com os boatos, os meios para chegar até a ilha são ilícitos e as formas de sair do local, desumanas.

Os garotos foram encontrados em Geffen. Comunicavam-se em uma língua própria, mantendo apenas algumas palavras e expressões da nossa. Os dois já haviam sido vistos em Morroc, mas saíram de lá antes de receber ajuda de alguém. Na cidade dos Elfos, Edgar e Vini foram vistos inicialmente como dois animais, mas logo a língua criada por eles foi decifrada por alguns pesquisadores que se candidataram em estudar os garotos. As cicatrizes e vestimentas improvisadas foram, aos poucos, servindo como base para dedução do que havia ocorrido com eles e logo Edgar e Vini viram-se como parte de uma sociedade. Encararam a Torre de Geffen e mostraram ter precisão com arco e flecha, optando pela carreira de Arqueiros.

Hoje, embora não estejam nem mesmo no auge da adolescência, os Caçadores caminham rapidamente rumo à carreira de Atiradores de Elite. São considerados dois dos maiores heróis da atualidade, e a cada nova amizade feita por eles, mais a fama se espalha.

Posso afirmar sem ciúmes que Edgar chega mais perto de ser um irmão para Vini do que eu jamais cheguei ou chegarei. Não o culpo por isso, aliás, ambos viveram mais da metade da vida juntos, tendo apenas um ao outro como companhia.”

— Terminou? — indignou-se o garoto.

— Ah, pode ter certeza de que você ainda ouvirá muitas histórias sobre Edgar e Vini. Mas agora vá dormir, está tarde! Vou chamá-lo amanhã às oito.

Abra levantou e ajeitou o travesseiro de Thommy enquanto este perdia-se nos próprios pensamentos. A história que acabara de ouvir ainda fluía em cenas de aventura. Imaginou como seria o pai de Abra, aquele de nome Savigrus, e também que aparência teria seu filho mais novo e Edgar. Não lhe parecia provável que Abra, o homem bobo e dócil que estava ao seu lado, teria chegado a alimentar um sentimento tão devastador como a inveja. Mais ainda, Thommy imaginou o tipo de passado que cada integrante da Divine Aesir estaria escondendo.

— Tudo bem, Thommy?

— Ah, sim… Eu tô bem. Só estava pensando aqui sobre quantas histórias legais o pessoal do clã deve ter pra contar.

— De fato, todos têm algo a ser contado. Acredite, tenho essa mesma curiosidade.

Abra deu uma piscadela e bagunçou o cabelo de Thommy após o ter coberto.

— Mas você não sabe de outras histórias como essa? — perguntou o garoto, com os olhos seguindo Abra até a outra cama.

— Algumas. Da maioria, o básico. Tome o Joe como exemplo, o máximo que sabemos dele é que uma magia tirou sua visão e que, seus olhos, quando expostos à luz, provocam os mais diversos horrores. Não perguntamos sobre os detalhes a Kah e muito menos a ele porque sabemos da amargura que a deficiência o causa. É quase o mesmo com Zephan, um Algoz que prefere se isolar das outras pessoas. Não sei se você o viu no clã…

— Acho que sei quem é. O que houve com ele?

— Você ainda não tem maturidade para ouvir sobre isso. E pare de me enrolar, menino, vá dormir!

Os olhos de Thommy não fecharam-se de imediato. O fato de estar convivendo com um mundo que achou só existir em livros parecia mais fantasioso que a história contada por Abra, sobre a sobrevivência daquelas duas crianças na floresta. Queria tornar-se como os que agora o cercavam e que eram sua nova família.

Ao fechar os olhos, a mente de Thommy vislumbrou um sujeito de cabelo preto levemente desajeitado para trás e olhos castanhos que lembravam a cor de sangue. Esse, pensou, é o tal Zephan.

Disposição era o que não faltava em Thommy. Durante o percurso até o estabelecimento do clã, ele e Abra conversavam sobre os mais variados assuntos, trocavam ideias e Thommy fazia muitos gestos, as vezes cantarolando algo. Chegaram a mencionar que Felix, o único Mestre-Ferreiro do clã, poderia arranjar uma bainha única e especialmente à espada que o garoto encontrara nos Arredores de Prontera, durante o incidente com o bafomé. Retomar àquele assunto trazia de volta a saudade que sentia de Cathy e foi impossível explicar como tudo ocorreu sem que a mencionasse.

— “Única amiga”? Muito comovente, Thommy, mas garanto a você que daqui alguns anos a amizade não será o suficiente para suprir essa saudade que o perseguirá incansavelmente e não o abandonará nem mesmo nos sonhos.

— Como assim? E então o que eu faço?

— Declare-se.

Aquele “declare-se” deu sentido às palavras de Abra e Thommy sentiu um calafrio. Nunca havia pensando em Catherine daquela forma, quanto antes em declarações!

Eu conversava com Katsumi quando os vi passando pelas portas da Divine Aesir. Thommy parecia surpreso em encontrar o lugar deserto, principalmente depois da festa da noite anterior.

— Ei, Jenny-machão, onde estão os outros? — indagou ele.

— Antes de mais nada, bom dia também. E obrigada pela educação — sorri com ironia.

— Onde mais poderiam estar senão em trabalho? — disse Kah.

Abra estranhou a presença de Kah sendo que seu grupo estava em trabalho.

— E por que você não foi junto? — perguntou, sentando-se em nossa mesa.

Antes que Katsumi pudesse dar uma resposta, debrucei-me sobre a mesa e tapei sua boca com uma das mãos. O Professor estranhou, obviamente, e franziu o cenho.

— Obrigada por trazer o Thommy aqui, Abra, mas agora pode deixá-lo comigo. Guri, espero que esteja pronto para ir a Payon.

Thommy e o Professor se entreolharam com desconfiança. Gritei um “vamos!” e eles puseram-se a fazer as despedidas. Avisei a Abra que precisaria de 3 dias com Thommy e que o grupo devia me encontrar na cidade após aquele tempo. Apanhei minha bolsa de suprimentos e saí de lá com o Espadachim.

Notas finais
Bem galera, é isso ;) Se gostaram ou não, mandem reviews, digam o que mais gostaram no capítulo e mandem sugestões! Enfim, é isso, BjãO!