A Lenda.
7 Capítulo 7 - Acredite na lenda.
Assim que cheguei ao centro do circulo, senti um peso nas minhas costas, o mesmo campo de força não deixava Issie entrar para me tirar dali, ele gritava e batia na parede invisível, comecei a sentir borboletas no estomago me curvei e vomitei.
Cai no chão, os desenhos do circulo começaram a ficarem pretos, e um fogo roxo começou a me rondar. Olhei para fora do campo de força, vi vários, vários espíritos, todos maus, todos querendo um corpo para voltar a ter vida, todos querendo me possuir.
Fechei os olhos e me concentrei na imagem do lobo, sua paz começou a invadir meu corpo, tomar conta de meus músculos, relaxei e abri os olhos, eles haviam sumido. Me certifiquei de que Issie estava atras de mim, quando me virei vi Teo e Ana o segurando, com uma faca em seu pescoço, ambos com olhos totalmente pretos.
– Ana ! Teo ! O que estão fazendo ? — gritei batendo naquela parede idiota.
– O que devia ter feito a muito tempo — A voz de Teo era grossa, como se umas doze pessoas falavam ao mesmo tempo — Matar todos, todos vocês.
Issie se contorcia, vi lagrimas descendo pelos seus olhos, estávamos perdidos, Miguel morto e dois amigos possuídos por demônios espíritos sei la. Eu estava de novo me afogando em oceano de medo, de fúria, raiva, tristeza.
Soltei o maior grito que ja consegui dar em toda minha vida, a imagem do lobo retornou em minha cabeça, meu grito foi aumentando, forçando Teo e Ana colocarem as mãos ao ouvido, libertando Issie. Meus olhos viraram para trás, pude sentir isso, comecei a arranhar o chão, me levantei cambaleando e bati com toda minha força naquele escudo invisível, que se despedaçou em vários pedaços.
Segurei no pescoço de Teo, olhei bem no fundo de seus olhos, sabia que o espirito do lobo havia tomado meu corpo, pude ver pela expressão do garoto que ele estava com medo, como se os espíritos la dentro diziam “Nos desculpe, vamos nos comportar”.
– Solte-o — Minha voz era muito grossa, parecia daqueles locutores, e ao mesmo tempo era complementada por uma paz que nunca havia experimentado antes — Deixe o menino em paz, e saiam da minha floresta.
Teo caiu no chão e começou a se contorcer, um sangue preto começou a sair de seus olhos e de sua boca, ouvi Issie gritando mas eu não podia fazer nada, quem estava no controle era o lobo, não eu.
Fui, ou o lobo foi, sei la, até Ana, que estava com profunda expressão de “MEU DEUS DEIXA EU FUGIR DAQUI”, agarrei por seus cabelos, olhei fundo em seus olhos e repeti a mesma coisa, era uma cena tão bonita ver dois amigos se contorcendo no chão.
Voltei para dentro do circulo, meus olhos voltaram ao normal, toda a força que estava percorrendo pelo meu corpo, se concentrou no meu estomago, fui obrigada a colocar a mão para segurar a dor, virei a cabeça em direção ao céu, e uma explosão de borboletas brancas começaram a sair pela minha boca, a esperança, a vida.
Cai de joelhos, Issie veio correndo me ajudar.
– Você esta bem ? Você estava.. estava.. — Ele tentava dizer.
– Possuida ? Calma, aquilo que me possuiu era uma coisa boa, eu acho. — Respondi me levantando com dificuldade.
Me virei para trás e meu pequeno sorriso foi embora.
Ana estava com a cabeça de Teo em seu colo, ele com os olhos abertos, porem imóvel.
Corri até ele, Issie foi abraçar Ana que chorava e soluçava.
– Teo ! Teo acorda ! — balancei ele — Você é forte garoto, para com isso.
Tudo para nada.
Teo havia falecido.
Outro.
—||—
Voltamos para casa, arrumamos nossas coisas, todos em silencio e lagrimas, colocamos na kombi de Teo, e saímos dali, a força que nos trazia de volta não existia mais, conseguimos sair e pegar a estrada de volta pra casa.
O sinal no celular voltou, liguei para minha mãe, avisando-a que estava voltando para casa.
O caminho foi silencioso, com choros e abraços, voltaríamos para nossa cidade com a perca de dois amigos, o que não é bom… o que falaríamos para seus pais ?
Virei para o banco de trás para consolar Ana, quando retornei ao banco da frente soltei um grito. Os espíritos estavam na estrada, todos eles, de novo.
Olhei para o lado e vi Issie de olhos fechados, acelerando o carro, comecei a gritar e a balança-lo, porem ele continuava apertando mais e mais o acelerador.
Fomos em direção a uma árvore, ouvi risadas daqueles seres insuportáveis, fechei os olhos e esperei o pior.
” Ninguem sai vivo de Rio Azul. “
Essa era a frase que uma voz falava em minha cabeça.
Colidimos com a árvore, com a velocidade da kombi, capotamos. Desmaiei.
Sons de sirenes ecoavam em toda avenida, acordei com um policial chamando meu nome, provavelmente ele revistou minha bolsa e viu meu RG.
Abri os olhos com dificuldade, tentei virar para ver se os outros estavam bem quando ele me disse.
– Seus amigos morreram, só restou você.
Olhei para as estrelas, fechei os olhos e não tive nem tempo de chorar, quando abri ja estava numa cama de hospital, com meus pais em minha volta.
– Filha você acordou — minha mãe disse, passando as mãos em meus cabelos — Que bom.
– Até que enfim. — Meu pai levantou da cadeira… notei expressão de tristeza nos rostos dos dois.
– Iremos chamar os médicos, espere aqui. — Disse minha mãe, saindo com meu pai do quarto.
Olhei para fora, ainda era noite, a lua tava perfeita, eu estava sentindo muitas dores mas aquilo me reconfortada, porem, não conseguia falar, nem me mexer, e eu estava completamente destruída por dentro. Meus amigos morreram? Porque só sobrou eu ?
As luzes piscaram e apagaram, quando acendeu Sra Matilde estava no canto do quarto, ela me lançou um sorriso e disse com aquela voz que odeio.
– Porque a lenda nunca morre.
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