A Latere
3 Capitulo 3
Notas iniciais
Shikamaru POV
Terminei o caminho até o topo da colina e suspirei, olhando para trás, fitando o acampamento. Dali eu podia vê-lo praticamente por inteiro, desde o anfiteatro, onde acendíamos fogueiras nas noites para comer guloseimas antes de dormir, passando pela arena, os estábulos, os chalés, o refeitório, o campo de morangos e a casa grande.
O lago de canoagem e a floresta no fundo de tudo. Todas as construções lembravam a arquitetura grega antiga, mas como se houvessem sido construídas ainda ontem. Eu me lembrava da sensação que tive a primeira vez que cheguei ali, de ficar maravilhado com tudo aquilo.
Suspirei novamente. Havia um carro me esperando na estradinha de terra mais abaixo, guiado por Asuma, e eu caminhei até ele sem muita pressa. Asuma tinha se oferecido para me levar até o aeroporto onde eu pegaria um avião até o meu destino, que, segundo a profecia dada pelo Oráculo para mim dois dias atrás, era o local “onde a terra padeceu”.
Apesar de termos convocado uma reunião com todos os semideuses instrutores, os conselheiros-chefes dos chalés e a diretora Tsunade, não precisávamos ser nenhum gênio para deduzimos que o local mencionado era onde havia ocorrido a guerra com Gaia a tantos anos atrás: As Montanhas Rochosas, que seguiam por 4800 quilômetros do Oeste do Canadá até o Novo México.
Eu voaria até Albuquerque e de lá teria que me virar para chegar no ponto específico que Tsunade havia tirado do fundo de sua memória para me orientar. Nós não sabíamos o que exatamente se escondia lá, quais eram os segredos, e nem como um local tão longe ajudaria a levantar novamente nossas barreiras, mas a diretora me alertou que o local virou uma terra hostil e improdutiva, onde vários monstros nasciam, ainda das energias deixadas pela Mãe-Terra.
Isso me deixou mais animado que nunca para a minha missão. Ironicamente, é claro.
Nós tínhamos discutido as outras partes da profecia na reunião também. E a segunda parte foi outra injeção de ânimo: Eu era uma “criança” da deusa da guerra (nessas horas perguntei para minha mãe em pensamentos porque ela não ficou só com o ofício de deusa da sabedoria. Claro, Athena não me respondeu). E eu devia seguir sozinho, por mais que a tradição e as regras mandassem que missões deveriam ser em três pessoas.
Cheguei ao carro e tirei minha mochila das costas, jogando-a no banco de trás e me joguei no banco do passageiro. Asuma me deu um sorriso nervoso, mas eu não correspondi. Meu humor não estava dos melhores. O resto da profecia retumbava em minha mente: O “caminho já trilhado” me era um tanto óbvio. Eu seguiria pelos locais onde outros semideuses andaram para encontrar Gaia e lutar contra ela. Mas a parte de “encontrar seu igual, recontando uma história” era uma incógnita para mim. Eu esperava que isso significasse ajuda, mas “a fúria desperta pela traição descoberta” me deixava num estado de alerta e eu me perguntava se eu queria mesmo ajuda se isso, no fim, significasse uma traição.
Ainda tinha a questão que não se encaixava no final do verso, sobre “o chão se abrir” e o que aquilo poderia dizer. Era difícil numa profecia dizer o que era figurativo e o que era literal e aquilo podia ser interpretado de tantas formas que eu nem havia começado a pensar nas possibilidades.
Eu sabia que teria de fazer escolhas que deixariam meu “lar” e minha “verdade” em jogo e fariam os deuses decidir alguma coisa até o equinócio de primavera, que estava a bons meses de distância, mas eu tinha que admitir que me sentia mais seguro em sair com um prazo tão grande para resolver o problema, principalmente porque eu não sabia qual era o problema.
Por fim, eu teria uma hipótese questionável ao meu lado dentro de todo uma gama tortuosa de possibilidades. E a palavra “labirinto”... Claro que, dentro de uma profecia, quase sempre eram usadas metáforas. Eu achava que elas serviam mais para confundir do que para ajudar, para ser sincero. Contudo, algo dentro de mim se animou de verdade com a possibilidade do que isso poderia dizer, e essa foi a única coisa positiva que consegui achar em tudo isso.
Por incrível que pudesse parecer, o caminho até o aeroporto de Manhattan foi tranquilo. Asuma ligou o rádio do carro em uma estação onde tocava rock clássico e foi cantarolando as músicas enquanto dirigia. Senti-me grato por ele não tentar puxar assunto, pois eu ainda tinha muito o que pensar.
Quando chegamos ao aeroporto, Asuma parou o carro no estacionamento e desceu comigo, olhando em volta desconfiado. Acendeu um cigarro e, conferindo o horário no relógio de pulso. Suspirou.
—Ainda temos alguns minutos. – ele murmurou –Você já tem uma ideia do que vai enfrentar?
Cocei a nuca e estalei a língua.
— Pensei muito sobre. – respondi — Mas não cheguei a nenhuma conclusão definitiva.
— Shikamaru... – ele chamou meu nome em tom de aviso – Posso não ser o mais inteligente dos semideuses, mas conheço você desde que era um pirralho na quarta série...
— Asuma... – eu suspirei – Eu sei o que você está pensado e a resposta é sim. É uma possibilidade. Quando “labirinto” aparece de uma forma tão displicente numa profecia para mim, não é como se eu pudesse não dirigir meus pensamentos pra isso.
Asuma soltou a fumaça do cigarro em um bufo e me encarou sério. Veja bem: Asuma é um filho de Hefesto. Ele tem quase dois metros de altura, tem braços musculosos, ombros largos e feições severas, mesmo que normalmente ele estivesse sorrindo. Quando ele te encara assim, sério, é algo que faz a gente sentir, no mínimo, um frio na espinha, mesmo que conheça ele muito bem e saiba que ele não faz mal para uma mosca sem que ela lhe de muito motivo.
—Você não vai se meter em encrencas desnecessária. – ele disse com a voz firme, lembrava minha mãe mortal dando bronca nessas horas e eu quase sorri – Se essa sua missão te levar ao Labirinto...
— Asuma. – eu interrompi, mesmo que quisesse engolir em seco. –Eu não vou me arriscar desnecessariamente. Mas você tem que concordar que... Bem, que se for isso não tem o que fazer. Não fui eu que procurei.
Asuma suspirou.
— Não finja que não está empolgado com isso. – ele resmungou e um sorriso escorregou pelos meus lábios.
— É a única coisa que me anima a partir nessa missão. – respondi.
Ele revirou os olhos, o cigarro frouxo em seus lábios. Mas logo depois riu.
— Você é um preguiçoso nato, vai achar a maneira mais rápida de acabar com isso. – ele garantiu e bagunçou meu cabelo como fazia quando eu era pirralho e não fazia sua prova porque queria dormir, depois ele me forçava a fazer a recuperação e eu tirava dez. Eu sorri nostálgico. – Agora está na hora de você ir. Quer que eu te acompanhe no check-in?
Neguei com a cabeça.
— Posso me virar daqui. – respondi.
Ele assentiu e abriu o porta-malas, tirando o que parecia para qualquer pessoa, um tubo de desenho um pouco mais alongado.
— Você conseguiu consertar? – perguntei admirado.
— Sim, foi fácil. – ele respondeu – Eu devia ter lhe dado no fim do verão, mas com toda a comoção por conta da gravidez da Kurenai, acabei esquecendo.
Eu assenti e agradeci, sabendo que meu escudo retrátil provavelmente ia ser muito útil nessa missão. Asuma tinha me dado de presente aquele escudo no meu primeiro ano no acampamento, para me ajudar a enfrentar os monstros quando eu voltava para o mundo mortal. Era só apertar um botão na alça que se prendia ao corpo e ela virava a alça do escudo que se expandia e, o melhor de tudo, ainda dava para guardar minha espada de bronze celestial dentro, a Kagemane, que, assim que eu apertava o botão, pulava direto para minha mão.
Eu havia danificado o escudo na última primavera quando eu, Ino e Chouji fomos em uma excursão escolar e demos de cara com uma esfinge meio doidona. O escudo salvou minha vida e de Ino três vezes, mas ficou totalmente inutilizável. Quando cheguei no acampamento nas férias, pedi pra Asuma arrumar, mesmo que eu achasse que não tinha mais jeito.
Me despedi do meu velho professor com a sensação na boca do estômago que eu demoraria um bom tempo até vê-lo novamente.
OoOoOoOoOoOoOo
Desembarquei depois de quase cinco horas de voo. Para uma pessoa com TDAH, ficar tanto tempo em um espaço confinado, sentado e sem nada para fazer deve ser uma experiência quase desesperadora. Eu sinceramente não vou poder opinar, porque eu dormi a viagem inteira.
Estiquei os músculos e passei a mão no rosto, tentando espantar a sonolência que ainda restava enquanto ia na direção das esteiras pegar minha mochila, meu rolo de desenho/escudo/bainha pendurado nas costas, prestando atenção a minha volta. Eu nunca tinha estado em nenhum lugar tão longe de casa, sempre próximo a Manhattan, e só naquele momento eu percebi que talvez meu pai quisesse deixar as coisas fáceis para quando eu tivesse que ir para o acampamento.
Estava ainda muito frio e eu fechei o zíper do meu casaco verde, tapando a camiseta laranja que tinha um pégaso e “Acampamento Meio-Sangue” estampado em preto.
Não demorou para que a esteira trouxesse a mochila de tamanho grande que eu levava e coloquei-a nas costas. Nela havia várias coisas que eu considerava serem úteis, como um saco de dormir acoplado na parte de baixo, néctar e ambrosia, as comidas dos deuses que ajudavam a nos recuperar mais rápido, mas deviam ser consumidas com moderação, algumas mudas de roupa e dinheiro mortal e olimpiano.
Ajustei a alça e para que ficasse confortável para levar ela e meu tubo de desenho, e olhei em volta. Eu precisava arrumar um mapa da região para ver qual caminho eu seguiria, as instruções de Tsunade ainda estavam vívidas em minha mente.
Dei alguns passos em direção ao que me pareceu uma livraria e esbarrei sem querer em alguém.
— Desculpe. – dissemos ao mesmo tempo, era uma voz feminina e fez um arrepio percorrer minha coluna.
Meus olhos focaram a garota a minha frente quando dei um passo para trás. Ela usava um gorro roxo escuro, tapando quase todo o cabelo loiro que escapava aqui e ali nas laterais, parecia ser um pouco mais velha que eu, vestia roupas pesadas de frio em tons escuros e levava uma mochila. Mas o que me chamou a atenção e fez minha respiração parar por um momento foi a intensidade da cor verde em seus olhos, que, além de tudo, eram desafiadores, como se ela fosse um enigma e duvidasse que qualquer um pudesse a desvendar. Meu coração disparou quando se juntou todo o conjunto, percebendo como ela era bonita, quase como uma filha de Afrodite.
Eu tinha certeza que estava corado, mas percebi que surpreendentemente ela também estava.
Eu desviei o olhar primeiro, constrangido, e pensei em dizer algo. Mas antes que eu voltasse a raciocinar de maneira lógica, ela se moveu, desviando e passando por mim apressada. Eu me virei com o pedido para que ela esperasse preso na garganta e ela logo se misturou no meio da multidão.
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Permaneci com aquela sensação de atordoamento causada pelo olhar daquela garota por todo o caminho até onde o táxi poderia me deixar.
Olhei em volta quando desci dele depois de pagar o motorista, curioso e preocupado ao mesmo tempo. Era quase um dia inteiro de caminhada, levando em consideração o terreno irregular. Eu também tinha que considerar o mal tempo e a neve, que poderiam me atrasar consideravelmente. Suspirei, resignado, e ajeitei as alças da mochila nos meus ombros. A trilha era de terra batida e eu comecei a seguir por ela.
Mais uma vez me questionei porque tinha que ser eu a cumprir uma missão daquelas. Cruzar o país sozinho e ainda ter que caminhar em todas aquelas condições adversas. Deuses, por acaso vocês não podiam ter me dado uma missão em de que eu só precisasse ficar deitado na minha cama? Ou ensinar xadrez para algum campista? Mas não, eu tinha que subir montanhas. Lembra? Eu disse que ser semideus não era uma coisa legal como todo mundo pensa.
Fiz uma curva, pensando que se eu fosse só um cara normal, talvez até pudesse ter pedido o número de celular da menina bonita de olhos verdes do aeroporto e minha maior batalha seria contra minha timidez. Mas eu não era, e nem mesmo celular eu podia ter ou usar, pois ele funcionava como uma espécie de amplificador da minha presença para os monstros.
Andei sem descanso por quase uma hora. Parei alguns minutos, sentei em uma pedra, sentindo meu traseiro congelar com a temperatura dela e bufei. Tirei a mochila das costas e estiquei os músculos, ouvindo eles estalarem. Bebi um pouco de água e retomei o caminho um pouco mais infeliz.
Depois de mais dez minutos a trilha fez uma curva para à esquerda, mas eu sabia que devia seguir reto, entrando pelo vale que se estendia à minha frente. Era extenso, havia um lago a mais ou menos um quilômetro a frente, algumas árvores sem folhas e a grama estava parcialmente coberta pela neve que provavelmente caiu no dia anterior.
Resolvi que andaria até o lago e faria uma parada lá para descansar alguns minutos. Eu sabia que essa região não era habitada justamente por conta das atividades monstruosas que haviam. Aqui, muitas pessoas sumiam e coisas estranhas aconteciam o tempo todo, então não teria ninguém, pelo menos mortal, para me perturbar.
Estava na metade do caminho para o lago, já pensava feliz que conseguiria tirar um cochilo de pelo menos meia hora antes de continuar, quando comecei a sentir um cheiro acre. No começo, não me incomodei, distraído com meus pensamentos. Mas meus instintos logo se posicionaram, sabendo que aquilo significava que havia algo errado.Notei um pouco tarde demais para fugir.
Da direita mais à frente, de um amontoado de árvores que se erguia, altas e amedrontadoras, surgiu uma mulher. Ela também era alta, mais do que eu com certeza, tinha os cabelos negros e escorridos emoldurando os braços. Era bonita, mas seus olhos eram saltados e cor de âmbar, com fendas negras no lugar das pupilas, como um gato. Ela vestia uma blusa sem alças que só tapava seus seios e suas pernas eram cobertas por uma calça de tecido verde e brilhante como vinil, ela andava de um jeito estranho, ondulando o corpo para frente.
Eu sabia que ela significava encrenca, mas algo no perfume que desprendia em minha direção fez com que eu não me movesse.
— Ora, ora... – ela sorriu sem mostrar os dentes de maneira sedutora, a voz era macia e gostosa de ouvir. – Faz muito tempo desde que não vejo um filhote de deus.
— Quem é você? – perguntei e franzi o cenho logo depois. Era para ter soado ameaçador, mas pareceu algo como o miado de um gato.
Ela sorriu mais.
— Meu nome é Lâmia, querido. – ela respondeu, ficando mais próximo. – Como é seu nome?
— Shikamaru Nara. – respondi antes que pudesse me refrear.
— Combina com você. – ela respondeu e eu pensei em sacar minha espada, mas só pensei — E você é mais bonitinho ainda de perto... Esses olhos inteligentes nesse semblante preguiçoso...
Dei dois passos para trás, diminuindo um pouco a distância, meus sentidos embaralhados com o cheiro que se intensificava.
— O que você quer comigo, Lâmia? – perguntei, ela já estava próxima o suficiente para me tocar.
— Eu quero um marido, querido. – ela respondeu esticando o braço para tocar meu rosto – E você parece ser perfeito para isso.
Opa! O que? Franzi o cenho e baixei de leve o olhar, tentando entender o que ela queria dizer com isso. Foi quando meus olhos focaram em suas pernas e eu me dei conta que ela não estava usando uma calça de vinil: Seu corpo, da cintura para baixo era um tronco grosso que terminava numa cauda comprida, coberto por escamas verdes e levemente afiadas nas pontas, refletindo as luzes do dia e criando padrões diferentes de verde. Ela andava estranho porque rastejava, como uma cobra. A névoa que obscurecia meus pensamentos, pareceu se esvair um pouco e eu levantei de volta os olhos para o rosto bonito que me encarava. Lâmia...
Pulei para trás no exato momento que os dedos gelados tocaram meu rosto, pressionando o ponto da alça do tubo de desenhos que ativava meu escudo e minha espada pulou de dentro direto para a minha mão, o escudo tomou forma, se prendendo no braço direito. Apontei a lâmina de bronze diretamente para Lâmia, que recuou e guinchou, mostrando as presas afiadas dentro de sua boca.
— Você é Lâmia, a rainha da Líbia amaldiçoada por Hera. – disse, postado em posição para me atacar ou me defender.
— Certamente. – ela respondeu e revirou os olhos – Apesar que você podia ter mais delicadeza e não mencionar o nome dessa mulher na minha presença.
— Desculpe, não queria te ofender, já que você está sendo tão gentil em querer tomar meu sangue. – a respondi com ironia.
— Oh, não, querido! – ela exclamou, voltando a sorrir. – Não quero me alimentar de seu sangue. Não, não. Estava falando sério: Quero um marido.
— O que? – quase baixei a guarda, perplexo.
Lâmia se afastou um pouco e começou a andar de um lado para o outro. Eu me empertiguei, pronto para um ataque repentino, mas ela não parecia interessada em atacar.
— Você conhece a história. – ela disse suspirando, aborrecida. – Fui amante do senhor Zeus por muitos anos, mas aquela lá sempre matava meus filhos quando nasciam, uma forma de se vingar de mim por ser a preferida do marido dela. – ela sorriu nessa hora, gesticulava enquanto continuava seu monólogo. — Não bastasse me tirar meus filhos, e sabe, sempre quis ser mãe, sei que podia ser uma mãe muito zelosa e cuidadosa, o senhor Zeus concordava com isso, mas aquela mulher nunca deixou meus filhos crescerem. E ela ainda me transformou, tirou de mim minhas pernas e me colocou nesse corpo de cobra, e pode perguntar para qualquer um, eu tinha belas pernas.
— Hã... – eu esperei que ela continuasse, mas ela parecia querer que eu dissesse algo. –Certo, vou perguntar.
— Naturalmente. – ela concordou, parecendo satisfeita com a minha resposta. – Mas então eu passei o último milênio pensando, sabe? E talvez aquela mulher não esteja tão errada assim. Obviamente que ainda a odeio, mas acho que se eu tivesse um marido não ia gostar desse se engraçando e engravidando outras mulheres, não é?
Novamente ela deu uma pausa esperando resposta e, apesar de estar achando tudo aquilo muito surreal, até mesmo para meus padrões, respondi:
— Claro, faz sentido.
— Ah, que bom que você concorda! – ela exclamou animada e parou de andar, ou rastejar, sei lá, e bateu palmas. – Então eu preciso de um marido. E você aparecer aqui bem quando eu chego a essa conclusão e ainda concordar comigo! Hera com certeza vai deixar nossos filhos em paz.
— Não, espera! – pedi, nesse momento minha guarda já estava baixa, eu estava totalmente perplexo. – O que?
— Nós vamos casar. – ela reforçou, sorrindo e até era bem bonito o sorriso dela.
Balancei a cabeça para afastar o pensamento.
— Que problemático! – exclamei, suspirando.
Eu sabia que não estava em vantagem. Lâmia se alimentava de sangue humano, de homens principalmente, e tinha todas as armas necessárias para subjugar suas vítimas. Eu já tinha provado um pouco de seu poder e eu sabia que seria difícil lutar com os sentidos entorpecidos por sua magia de sedução. Um plano se formou em minha cabeça e eu torci para dar certo.
Mãe, é um bom momento para me ajudar.
Apertei o botão no escudo que o recuava de forma a se transformar novamente em tubo de desenho e guardei minha espada. Lâmia sorriu mais.
— Fico feliz de você não resistir! – ela disse feliz. – Tentei com alguns mortais antes, e todos disseram que eu era uma “monstrenga louca”! Pode acreditar?
— Nossa, que cruel! — eu afirmei irônico, mas ela pareceu não perceber e concordou. -E... O que houve com os mortais?
— Os matei. – ela deu de ombros... – São criaturas muito frágeis, os mortais – ela fez bico e eu senti que estava usando seu poder de novo em mim, mas eu tinha que resistir. – Acho que um semideus como você é bem melhor. Vocês são mais fortes... E mais bonitos, além de viverem mais bem tratados.
Me senti um cachorro com pedigree.
— Oh, claro. – respondi. – E onde vamos? Você deve ter uma casa, certo? Para moramos.
Lâmia pareceu tão feliz com aquilo que eu quase fiquei com dó. Quase. Ela assentiu, entusiasmada.
— Eu moro numa caverna bem espaçosa, na segunda montanha à direita. – ela respondeu – Você vai gostar. Tem uma visão espetacular.
— Claro, com certeza. –concordei. –Então vamos? Estou cansado, vai ser bom descansar em casa.
— Claro, querido! – ela respondeu e se aproximou de mim com um sorriso malicioso –Estou tão feliz que mal posso esperar para chegar em casa.
Arregalei os olhos e ela se aproximou mais. Eu estava envolvido de novo na sua magia de sedução. Ela ia me beijar e eu não conseguiria fazer nada para impedir.
Então meu cérebro me levou para algumas horas atrás e olhos verdes e desafiadores surgiram na minha mente.
Meu estômago se agitou e eu virei o rosto bem na hora em que os lábios de Lâmia iam encostar nos meus, fazendo com que ela beijasse a pele da minha bochecha com os seus lábios muito gelados. Eu demorei um momento para entender o que me libertou momentaneamente da magia e corei de forma intensa. Lâmia se afastou e me olhou. Sorriu presunçosa e disse:
— Que bonitinho, você é tímido!
Eu assenti, desviando o olhar, mesmo que não fosse o beijo dela que tinha me deixado tão constrangido. Eu não podia acreditar que eu havia visto aqueles olhos uma única vez e mexeram tanto comigo.
—Desculpe. – murmurei.
—Não se preocupe. – Lâmia disse e se afastou, pegando minha mão e puxando com ela. – Vamos!
Eu comecei a segui-la, sem muita opção. Lâmia começou outro monólogo sobre seus filhos mortos e como ela gostaria de ter os criados. Eu não prestei atenção, observando os arredores e repassando o plano em minha mente. Tinha que dar certo.
Em algum momento depois que passamos o lago, em direção a primeira montanha, eu passei a andar ao lado de Lâmia e ela soltou minha mão para voltar a gesticular. Eu fingia um interesse que não existia, mantendo a expressão de maneira que parecesse que eu concordava com ela quando pedia minha opinião e acenava positivamente com a cabeça. Eu me deixei ficar um pouco para trás, mas Lâmia estava tão distraída no próprio monólogo que não percebeu. Ela fez uma pergunta, eu respondi com um “sim” aparentemente interessado e ela voltou a falar.
E então me virei na direção de que vínhamos e corri. Eu não sei exatamente quanto tempo demorou para que Lâmia se desse conta do que aconteceu. Mas ela deu um grito horripilante quando percebeu e eu acelerei mais minha corrida.
Eu precisava dar o máximo de distância entre ela e eu para conseguir atacá-la, de preferência de algum lugar alto. Não tinha esperança de despistá-la. Eu iria precisar lutar em algum momento, mas eu buscaria vantagem primeiro.
Eu podia escutar ela se movendo atrás de mim, rastejando tão rápido que parecia quase impossível para seu tamanho. Eu arrisquei olhar por cima do ombro e ela estava perto demais, tentei correr mais rápido, me lamentando em pensamentos. Esse tipo de loucura só acontece mesmo comigo! Ser um semideus? Ok. Enfrentar monstros? Normal. Quase morrer em batalhas diárias por sobrevivência? Parte da vida. Ser perseguido por uma meia mulher cobra louca querendo casamento e filhos? Só se for com o Shikamaru.
Eu já estava começando a ficar ofegante e chegando à conclusão que eu tinha me ferrado. Não havia uma forma de eu correr mais rápido e lutar com ela era algo quase impossível, levando em consideração seus encantos, mas eu precisava tentar. Eu já estava quase alcançando o lago novamente, desviei um pouco para a esquerda, tentando me embrenhar no pequeno bosque da onde ela tinha surgido e me esconder, recuperar o fôlego e montar uma armadilha. Mas tropecei em alguma coisa quando estava quase nos limites das árvores.
Cai de cara no chão, quase não dando tempo de colocar os braços para amortecer a queda. Xinguei em grego, rolei de barriga para cima e levantei ao mesmo tempo que Lâmia me alcançava, pronta para me atacar. Só tive tempo de ativar o escudo e me defender de seu bote que seria certeiro no meu pescoço. Ela bateu a cabeça no escudo e guinchou, eu recuei e brandi Kagemane que havia caído em minha mão.
— Você me iludiu! – ela grunhiu, seu rosto contorcido em fúria não era tão bonito assim.
— Desculpe. – pedi irônico. – O problema não é você, sou eu.
— TODOS DIZEM A MESMA COISA! – ela urrou e investiu novamente.
Descobri da forma mais dura que suas presas não eram sua única arma. Sua cauda se agitava furiosamente, como um chicote e me acertou duas vezes de forma dolorosa nas pernas antes que eu pudesse processar o que me atacava. Bufei, amaldiçoando minha sorte, e consegui aparar uma terceira chicotada com minha espada. Boa notícia: Foi efetivo. Má notícia: Suas escamas eram duras como aço, o que tornava impossível penetrar com a espada e fazer ela virar pó, que era o que acontecia quando monstros “morriam”.
Lâmia parecia tão transtornada que não pensou em usar seu poder a seu favor, o que deu uma equidade na nossa luta. Eu tinha minha cota de experiência em lidar com monstros e, mesmo ela tendo quase dois milênios a mais, não parecia o tipo que se envolvia em muitas batalhas.
Fiz uma finta, desviando dela novamente e invertendo nossas posições, ficando de frente para o bosque e ela de costas. Barrei sua cauda com o escudo, avancei com a espada, ela desviou e deu uma volta no próprio eixo, brandindo sua cauda contra mim. Consegui desviar por muito pouco, sentindo o ar deslocado pelo movimento no meu rosto e investido novamente, tentando acertá-la nas costelas. Lâmia recuou e tentou segurar Kagemane com a cauda, puxei com força e quase me desequilibrei.
Ofegante, ouvi uma movimentação no bosque. Desviei a atenção por um segundo, já lamentando em minha mente, achando que iria ter que enfrentar mais um monstro. Voltei minha atenção para luta a tempo de aparar um ataque dela com a cauda, Lâmia urrou, abrindo suas mãos e revelando as unhas que mais pareciam navalhas.
Meu cérebro processou o que viu na orla do bosque. Defendi-me das garras da mulher cobra, mas meus olhos correram de volta para o bosque a tempo de ver a garota sumir, recuando de costas, por entre os arbustos. Os olhos verdes encontraram os meus e ela os arregalou de leve. Ela desviou os olhos do meu, como um alerta e eu lembrei tarde demais que estava no meio de uma luta mortal.
A cauda de Lâmia me acertou diretamente no rosto e, a força do golpe juntamente da minha distração, fez eu perder o equilíbrio, Kagemane voou da minha mão, e eu fui ao chão. Senti uma pancada forte na cabeça e grunhi de dor, Lâmia se aproximou, mas eu me sentia tonto e a visão embaçava, parecendo que tinha duas Lâmias, depois uma de novo.
— Você partiu meu coração, Shikamaru. – ela resmungou, eu tentei me levantar, alcançar Kagemane, mas ela segurou meus punhos com a cauda. – Mas eu o perdoou. Vamos ser um casal feliz.
Eu senti o estômago embrulhar quando ela me mexeu e colocou-me em seu ombro, como um saco de batata. Nem me questionei como ela podia ter toda essa força. Senti minha mochila cair das minhas costas, mas não processei mais muita coisa.
A última coisa que eu me lembro de ver antes de minha consciência me abandonar, foram os olhos verdes e enigmáticos da garota do aeroporto me fitando, um tanto perdidos, de dentro do bosque e a voz de Lâmia dizer:
—Mal posso esperar pelo nosso casamento!
Eu tive um sonho estranho logo depois.
*
No sonho, os olhos da garota e a voz de Lâmia falando sobre casamento ficavam dançando em minha mente até que eu pareci despertar. Eu estava de frente a minha casa em Nova Jersey, um sobrado pintado de um tom de marrom bem clarinho, com um jardim muito bem cuidado.
Estava no jardim, na parte de trás da casa, e minha mãe mortal, Yoshino, uma mulher de cabelos castanhos, olhos da mesma cor e expressão severa, ralhava com meu pai, que era muito parecido comigo com seus cabelos pretos e presos para cima, formando o que Ino chamava de “coroa de abacaxi”. Seus olhos eram puxados e castanhos, também como os meus, mas ele tinha um cavanhaque no queixo e duas cicatrizes na lateral do rosto que o diferenciavam de mim. Ele estava com uma expressão sofrida, escutando o discurso sem fim da minha mãe.
Do lado deles, estavam Asuma e Kurenai, mas ela não estava mais barriguda. Havia um bebê chorando nos braços de Asuma, uma garotinha, e ele fazia de tudo para acalmar a pequena criança, seu rosto congelado em um sorriso nervoso.
— Casamento é algo muito problemático. – resmunguei. – Acho que vou evitar.
Escutei alguém suspirar atrás de mim e virei a cabeça. A garota do aeroporto fitava a cena com a mesma expressão que a minha e disse, numa voz forte e altiva:
— Sim!
*
Dei de ombro e ela deu também, mas logo depois ela riu e a risada dela me desarmou de uma forma que, bem, eu reconsiderei na hora o que tinha acabado de dizer. Nos fitamos novamente e tudo foi ficando escuro, escuro e mais escuro.
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