Notas iniciais
Eita nóis, Eita nóis, Eita nóis! O bicho vai pegar! Após ser derrotado por Shara e Tyrill, Xaviere usou magia de sangue para invocar um Demônio da Ira e se tornar uma abominação... E agora, mais poderoso do antes, ele enfrentará a Ladra e a Guarda numa batalha de vida ou morte! Sangue, metal, fogo e lágrimas neste último e decisivo capítulo de a Ladra e a Guarda! Boa leitura!

Enquanto Shara se apoiava nos cotovelos observou a criatura. O homem que estivera ali parecia ter crescido vários centímetros, e ganhado músculos, embora de forma desproporcional, o braço esquerdo era grosso e forte, estava coberto de estruturas calcificadas, parecendo espinhos longos e duros. O ombro esquerdo da criatura era uma massa entumecida, também repleta de espinhos. O braço direito estava magro e comprido e terminava em garras. O corpo estava corcunda, e das costas brotavam mais espinhos. O rosto estava deformado, inchado de um lado e apenas um olho, vermelho, brilhante era visível. Um único chifre calcificado brotava da têmpora direta dele. Por todo o corpo se viam fissuras por onde labaredas e fumaça escapavam.

A guarda da cidade engoliu em seco, quando uma voz inumana, apesar de ainda conter traços da voz de Xaviere exclamou:

– Agora, sim, nós teremos a nossa vingança!

O coração de Shara disparou. Ela olhou ao redor. Alguns metros à sua esquerda Tyrill estava se levantando, aturdida pelo impacto.

– Pegamos os artefatos que nos faria poderosos, agora me empreste o teu poder, para termos nossa vingança! – a abominação bradou e chamas envolveram-no num tenebroso espetáculo de luzes e sombras.

As pernas de Shara tremiam, mas ela se forçou a ir em direção à espada e segurou-a com firmeza. A abominação emitiu um sibilo horrível e partiu na direção de Tyrill. Enquanto a ladra erguia as duas adagas, com medo e determinação estampados no rosto iluminado pelas chamas da criatura hedionda, a guarda partiu em direção ao ser aberrante.

A abominação saltou no ar, com os braços díspares estendidos, todavia suas garras encontraram apenas o vazio, pois Tyrill se esquivou com um salto para trás. Nesse momento Shara desferiu um golpe de cima para baixo, mas a criatura ergueu o braço esquerdo e a lâmina da espada atingiu inofensivamente os espinhos calcificados. As garras do monstro vieram, furiosas, em direção à guarda e ela usou a espada para repelir meia dúzia de golpes.

Tyrill aproveitou para enfiar uma adaga nas costas da criatura. Chamas fulguraram no ferimento e a ladra, no susto, largou a adaga cravada no couro grosso do oponente. A abominação se virou e atingiu Tyrill com as costas da mão direta, fazendo-a cambalear com a pancada. Os olhos da criatura brilhavam com uma cólera sanguinária.

Shara se aproximou, porém a abominação cuspiu chamas que a afastaram e iluminaram a caverna com uma coloração sanguínea. O braço longo terminando em garras atingiu a guarda, cortando a cota de malha e ferindo de leve a pele dela.

Aproveitando mais uma distração da criatura dividida entre duas oponentes, Tyrill mergulhou por debaixo do braço direito da fera. A destra da ladra levava a adaga restante, a esquerda segurou o medalhão dourado com pequenas pedras vermelhas que estava pendurado, ainda, no pescoço disforme do monstro, o infame medalhão roubado, e o arrancou, partindo a fina corrente de ouro. Atirando a joia longe, Tyrill cravou a outra adaga no peito da criatura, enquanto um sorriso de triunfo surgia em seu olhar, apenas para ser substituído, em seguida, pela descrença, quando a abominação riu e agarrou o pulso direito da loira com uma força descomunal.

– Aaaaah! – berrou a jovem ladra, enquanto a criatura apertava seu pulso. Um estalo nauseante se fez ouvir e Tyrill gritou ainda mais.

– Tola! – exclamou a abominação encolerizada pelas duas adagas fincadas no seu corpo – Com ou sem o medalhão vocês perecerão!

A criatura ergueu as garras, mirando o pescoço da ladra. Nesse momento, Shara golpeou a coxa do monstro, por trás, espirrando sangue e também chamas enquanto cortava tendões e músculos. O monstro soltou, pelo susto e pela dor, a sua presa, que logo se afastou, protegendo o pulso lesionado.

– Larga ela! – fora o grito da guarda.

A abominação cambaleou, e Shara, com raiva e temor em seu coração, desferiu uma cutilada violenta, uma diagonal descendente, no inimigo, que aparou novamente com o braço esquerdo, dotado de espinhos. Shara tentou forçar contra o inimigo, mas ele travara sua espada, por mais esforço que ela colocasse na lâmina, a criatura resistia.

A abominação abriu a boca, pronta para cuspir chamas e incinerar a guarda, que numa inspiração súbita agarrou o chifre na têmpora direita da criatura e puxou sua cabeça para baixo no momento em que cuspia as labaredas.

Ainda assim, o jato de fogo atingiu a perna direita de Shara, queimando pano, couro e pele e tornando o metal da armadura incandescente. Com um grito de agonia, a guarda caiu de costas no chão, espada ainda em sua mão direita. A dor intensa turvou sua visão. Era como se sua perna estava sendo tostada. O cheio de queimado invadiu suas narinas. Ela ouviu a abominação rir, entretanto também compreendeu o pedido de Tyrill:

– Erga a espada!

A criatura se virou, desajeitada devido ao ferimento na perna, ao ouvir a voz da loira, ficando de costas para a guarda caída.

Tyrill correu e com um salto acertou um chute poderoso no tórax da abominação, cuja perna ferida não conseguiu sustentar seu peso... E caiu de costas, diretamente sobre a espada que Shara erguera, apoiando o cabo contra o solo, o próprio peso do monstro empalando-o na lâmina.

O brado inumano se fez ouvir, conforme a criatura se debatia, em agonia. Shara fechou os olhos, e cerrou os dentes, pois chamas irrompiam do ferimento decisivo, ferindo-a com luz e calor. Um dos espinhos das costas da criatura se cravara no ombro da guarda, logo abaixo da placa da armadura, perfurando músculo e batendo no osso.

Nesse momento um brilho avermelhado e uma rajada de calor irromperam de dentro da besta e a transformaram em cinzas.

Aquela parte da caverna ficou escura, novamente.

Da abominação apenas as roupas esfarrapadas e fumegantes que o apostata trajara restavam. As duas adagas de Tyrill e mais a adaga vermelha estavam ali, também.

Shara sentiu Tyrill desabar de joelhos junto dela e abriu os olhos. Por um instante, ambas apenas se olharam, as respirações descompassadas ocupando o silêncio.

Tyrill estava suja de suor, sangue, de fluídos de cadáveres, de fuligem, poeira, com várias pequenas queimaduras e cortes e, ainda assim, quando ela a ladra abriu um sorriso dolorido, foi a visão mais bela que Shara já teve. Naquele momento um carinho e um alivio enormes inundaram seu peito, enquanto as dores dos vários ferimentos também inundavam seus sentidos. Ela tentou sorrir, mas saiu mais como uma careta.

A ladra puxou um pequeno punhal e abriu a bota direita, parcialmente destruída, de couro com placas de metal, ainda quente, da guarda. A canela da morena estava severamente queimada, mas iria se recuperar. Tyrill pegou seu cantil, apenas com a mão esquerda, e banhou o ferimento com água, para abaixar a temperatura, o que arrancou um suspiro de dor da guarda. Ao fundo ainda ouviam ruídos de luta, mas ela estava preocupada em avaliar a situação de Shara.

– Calma, você vai ficar bem – disse a loira.

– Vou perder a perna? – perguntou Shara, com um tremor na voz.

– Não vai, não – afirmou Tyrill – mas precisa de cuidados.

A ladra viu a outra assentir, com uma lágrima de dor escorrendo do olho.

– E seu pulso? Está quebrado? – perguntou Shara.

– Não – a loira fez uma careta, olhando para o pulso direito que inchava rapidamente – acho que só está deslocado.

Tyrill se aproximou no ombro de Shara e ficou satisfeita ao ver que a perfuração causada pelo espinho fora mais larga que funda, parecia não ter lesionado o osso, apenas a carne. Puxou um trapo de um de seus bolsos e pressionou-o para estancar o sangramento.

– Nós conseguimos – falou a guarda com uma careta. Ela ergueu a mão e tocou o rosto de Tyrill suavemente.

– Sim, estamos vivas – e as implicações daquilo finalmente atingiram a ladra, conforme o medo e o terror que haviam se alojado nela começavam a se dissipar – estamos vivas – repetiu e se inclinou para o rosto de Shara.

E ali, naquela escuridão, deram um beijo suave, com gosto de sangue e poeira.

– Tyrill, eu tenho algo pra te dizer – Shara falou, segurando o rosto da loira com a mão e olhando nos olhos dela.

– Eu também tenho algo pra te falar, Shara – disse a ladra.

– Eu primeiro – interrompeu a guarda, num tom de doce urgência – Tyrill, desde que...

As duas viraram o olhar para a direção de onde começara a luta. Mancando em sua direção, vinha um cadáver armado com um machado enferrujado.

Shara tentou se levantar, mas seu corpo alquebrado não permitiu, e com um arquejo de dor, ela caiu de novo. Tyrill pegou a arma mais próxima de si, a espada de Shara. Não se sentia em condições de lutar, muito menos usando uma espada que parecia lenta e estranha na sua mão esquerda, mas, pelas cinzas de Andraste, ela ia acabar com aquela criatura e ouvir o que Shara tinha a dizer!

Antes, porém, que um dos dois combatentes se adiantasse mais, uma flecha certeira atravessou o crânio da criatura e a derrubou para o lado. Atrás dele, estava a cansada e suja figura do Templário Pomont.

– Vocês estão bem? – ele perguntou, ofegante – Onde está o apóstata?

– Está morto. Eu estou bem, mas Shara precisa de cuidados.

– Certo – disse o homem, passando a mão na testa, tirando o suor – Os malditos cadáveres surgiram de todos os cantos quando sentiram o mestre ameaçado, mas acho que esse era o último deles. Lissa está cuidando do seu amigo grandalhão, ele levou um corte feio, já peço para ela vir aqui. Aguente firme, Shara – ele disse olhando direto para a guarda e se virando e indo na direção de onde tinha vindo.

Tyrill se ajoelhou novamente ao lado de Shara, largando a espada.

– O quê mesmo que você queria dizer? – um sorriso brincou nos lábios da loira, passando a mão para tirar uma mecha de cabelo do rosto da guarda.

– Eu acho que estou apaixonada por você – Shara falou de uma vez só. Não precisou de coragem para admitir, depois de escaparem da morte, juntas, as palavras pareceram sair facilmente.

– Sabe de uma coisa? – a ladra tocou o lábio ferido de Shara com delicadeza – Eu também estou apaixonada por você!

As duas riram se beijaram e, dessa vez, teve gosto de lágrimas, mas eram apenas puras lágrimas de alegria.

Notas finais
Caaaalma, ainda não acabou tem o epílogo! Até daqui a pouco!