A Kill For A Kill

11 Um Novo Esconderijo


Marshal saiu do Templo da União ainda cedo no dia seguinte, dobrando o mapa que Sullivan entregara e repassando mentalmente toda a explicação que ouvira. Não confiava muito no líder daquela igreja, mas, em momentos como aqueles, sentia que devia confiar, pois, pelo que parecia, ele era o único que conhecia aquele lugar de nome “Silent Hill”, mesmo que tantas pessoas já morassem lá há tanto tempo. A impressão que se tinha era que os fieis, mesmo que numerosos, não gostavam ou não achavam certo se afastar muito do perímetro de suas “moradas”, pensamento que inclusive Mila compartilhava. Marshal não queria ficar por mais tempo e ser convencido da mesma ideia.

Quando saiu pela porta, deparou-se com um dia que estaria ensolarado, não fosse a neblina que, como sempre, cobria grande parte da atmosfera. O dia, em si, estava claro, mas não o suficiente para permitir que os ambientes fossem enxergados como deviam. Marshal cruzou a sacada do Templo a passos vagarosos, todos os olhares voltados para ele, gente curiosa que ainda não acreditava que ele se aventuraria em uma viagem como aquela. Em meio a todas elas, estava também Mila, que, com as mãos cruzadas à frente do peito, acenou com a cabeça para o garoto, como se para confirmar que tudo daria certo. Marshal procurou sorrir para a garota, mas o sorriso não saiu tão verdadeiro quanto esperava.

A verdade era que ele esperava que Mila fosse acompanhá-lo naquela empreitada, uma vez que parecia conhecer tão bem Silent Hill quanto o próprio Walter Sullivan. Enganou-se desde o princípio, e devia ter percebido que isso aconteceria assim que a ideia de partir lhe surgiu à mente. Apesar de ser uma garota forte – sim, Mila era forte, senão como teria conseguido livrar Marshal da armadilha em que sua casa se transformara? -, Mila também era covarde. Tinha a iniciativa de querer ajudar e fazer o que era certo, mas tinha muito mais medo do mundo do exterior, o que a impedia de agir como uma garota determinada. Por isso que decidiu ficar, deixando que Marshal partisse.

Marshal desviou o olhar da garota assim que teve todos esses pensamentos, então não viu quando o olhar dela mudou de seguro para arrependido. Continuou a descer as escadas, que pareciam imensas em circunstâncias como aquelas, e não ousou olhar para trás, o que impediu, também, que visse quando Mila se desprendeu da multidão e, no centro da sacada, gritou:

– Espere!

Marshal parou com um pé no degrau seguinte e girou o tronco para trás, encontrando Mila a observá-lo, assustada, quase como se estivesse desamparada.

– Sim? – ele disse, sério. Não queria perder o foco de sua jornada, então não quis demonstrar emoção alguma pelo chamado de Mila.

– Eu vou com você – ela disse e logo começou a descer os degraus com passadas rápidas.

– Não é preciso, Mila...

– Eu vou! – ela retrucou e, em algum lugar, alguém gritou “Desista disso, sua imbecil!”. – Não vou aguentar ficar aqui. Deixe que eu vá com você.

Marshal não tinha o que dizer. Passou a mão no bolso traseiro da calça, verificando se o mapa ainda estava ali, e voltou a caminhar. Mila o seguiu imediatamente.

– Não se esqueça do favor que pedi, Marshal – Sullivan gritou do alto da escadaria, mas nem o garoto nem a garota se viraram para encará-lo. – Não fará um mau negócio se trouxer o que me pertence! Tenha certeza disso!

Marshal e Mila não cessaram a caminhada, então a neblina os engoliu. Mesmo se quisessem olhar para trás e ver se o Templo da União e todos os seus fieis ainda estavam lá, não conseguiriam sem ter que voltar alguns passos, coisa que nenhum dos dois estava a fim de fazer.

~//~

– Está ficando frio – Mila comentou, ainda andando.

– Está mesmo. Acho que a fé de vocês também é capaz de aquecer corpos com frio – Marshal comentou e sorriu, imaginando que Mila não fosse gostar do comentário. Mas ela também sorriu.

Estavam caminhando já há muitas horas. Desde que saíram do Templo, não fizeram paradas muito longas, apenas as destinadas às refeições, que eram feitas rapidamente. Segundo as instruções de Sullivan, era importante que eles fizessem caminho ainda durante o dia, porque fazê-lo à noite seria um problema, e não só porque ficaria tudo escuro. Temendo o que pudesse encontrar, Marshal decidiu que não perderia tempo e chegaria à entrada do metrô mais próxima antes que pudesse arranjar mais problemas. O único porém era que, até onde ele se lembrava, não havia metrô em sua cidade, mas se o mapa de Sullivan estivesse certo, ele poderia encontrar, sim, uma estação, mas ela ficava bem longe.

E de tão demorada que a caminhada estava sendo, Marshal e Mila não conseguiram evitar a chuva que caiu naquela tarde, coisa que Marshal sabia ser comum naquela época do ano. Em poucos minutos, estavam tão ensopados que as roupas pensavam no corpo. Marshal torceu para que a água não inutilizasse seu mapa, mesmo que ele fosse de um material impermeável. Além disso, esperava que aquilo não prejudicasse a saúde de Mila.

– Está bem? – perguntou.

– Sim – ela respondeu e, mesmo que o dia já estivesse escurecendo, ele conseguiu perceber que ela tremia. – Não é nada com o qual eu já não tenha lidado.

– Pode ficar com o meu casaco se quiser.

– Não seria muito útil. Agora se você tiver roupas secas...

Marshal encarou o olhar de Mila, que parecia sério, mas logo se transformou num sorriso. Ela não estava falando sério mesmo, então.

– Se quiser roupas secas, eu posso arranjar. É o mínimo que posso fazer, depois de você desistir da proteção da igreja apenas para me acompanhar.

– Eu estou bem – ela voltou a dizer. – Pode ficar tranquilo.

Mas nem Marshal nem Mila ficaram tranquilos quando um barulho jamais ouvido pelos dois cortou o ar, retumbante, fazendo com que se arrepiassem e imediatamente parassem no lugar. Como nenhum dos dois conhecia aquele som, as suposições foram muitas, mas nenhuma delas parecia plausível o bastante para um lugar que devia estar abandonado.

– O que foi isso? – Mila logo perguntou.

– Não sei, me parece... – Marshal foi interrompido quando o som se fez ouvir novamente. – É como se algo pesado estivesse sendo... arrastado... Mas...?

Marshal!

Mila apontava um dedo trêmulo para frente. Na direção apontada, Marshal viu o que tanto apavorou a garota.

No fim da rua, havia o que parecia ser um homem. Mas não podia ser, porque uma estatura como aquela não era humana. Se seu tamanho já não fosse intimidador o bastante, ele tinha porte de um homem saudável, que fazia exercícios de força regularmente, mas a pele, pálida e com aparência de velha, discordava de tudo isso. O torso da criatura estava descoberto e as únicas peças que ela vestia era algum tipo de pele, presa em torno da cintura, longa o bastante para poder tocar o chão e esconder suas pernas enormes, e uma pirâmide de ferro negro que, Marshal não conseguia entender como, estava encaixada onde devia ser a sua cabeça. Mesmo que estivesse apenas parada na quase escuridão, deixando que a chuva molhasse seu corpo com intensidade, não dando importância nenhuma para nada, era uma criatura suficiente assustadora para fazer com que qualquer um quisesse se afastar dela, mesmo que não demonstrasse ameaça.

Marshal e Mila permaneceram imóveis por tempo suficiente para perceber que o barulho que ouviram era, na verdade, o arrastar de uma imensa espada, talvez tão grande quanto o homem, que ele segurava e carregava com certa dificuldade pelas ruas. Mesmo que parecesse tão pesada, com um impulso ele conseguiu erguê-la e apontá-la na direção dos dois jovens enquanto procurava se aproximar, os passos lentos e dificultosos fazendo tanto barulho quando o fez a espada ao cortar o ar.

Só então Marshal e Mila correram.

– Corra, rápido! – Marshal pediu ao agarrar a mão de Mila e forçá-la a acompanhá-lo.

Avançaram na chuva na direção contrária que deviam seguir. Quase tropeçaram porque o chão estava escorregadio. Mesmo que o monstro estivesse caminhando vagarosamente, seus passos eram largos, então diminuíam qualquer distância muito mais rapidamente do que qualquer corrida, o que causou certo desespero em Marshal e Mila, que temiam morrer antes que pudessem sequer perceber isso.

O que é aquilo, Marshal?!

Eu não sei! – ele gritou de volta. – Mas sei que, de onde venho, isso não é comum!

Dobraram a esquina, procurando um caminho alternativo em direção ao metrô, e se jogaram para dentro do jardim de uma casa, esperando que isso os escondesse da criatura e da morte certa. Lado a lado, próximos, Marshal e Mila podiam sentir o coração um do outro, que batia desregulado, acelerado, prevendo uma morte inesperada.

– Que lugar é esse, Mila? Estamos no inferno? – Marshal sussurrou, tão baixo que Mila teve que ler seus lábios para entender o que ele estava falando.

Como estava com tanto medo de falar quanto o garoto, Mila não emitiu voz alguma ao mover os lábios e formar as palavras “Não, mas estamos bem próximos dele”.