A Kill For A Kill

3 A Luz No Fim do Túnel


As mãos de Marshal tocavam rochas viscosas e encobertas em grandes quantidades de musgo enquanto ele caminhava. Esse tipo de aparência foi uma que ele conseguiu figurar apenas com a ajuda do tato, já que não conseguia enxergar absolutamente nada no buraco. Devia ser uma passagem de água, tanto uma que poderia servir para um rio quanto para esgoto. A julgar pela posição do buraco na parede, a segunda hipótese parecia mais palpável, muito embora o ar não tivesse um cheiro ruim. Além do mais, Marshal nunca ouvira falar de rios que brotassem de dentro das paredes.

Os sussurros ao redor de repente se pareceram mais como vozes ditas ao longe. Se não soubesse que estava sozinho naquele mundo, Marshal teria imaginado que havia outros túneis como aquele, paralelos aos seus, onde havia pessoas conversando. Podia-se dizer que eram conversas acaloradas, pois as vozes sibilavam muito rapidamente. Por conta disso, não era possível entender uma palavra sequer do que era dito. Marshal também imaginava que isso acontecia porque a língua utilizada lhe era desconhecida.

Já estava há dez minutos dentro do buraco quando sentiu vontade de cantarolar. Quem o visse poderia pensar que ele estava muito alegre naquela jornada e que nunca esteve tão feliz por estar andando num túnel escuro e viscoso como aquele, mas na verdade o que ele sentia era alguma ansiedade, quase a ponto de se transformar em nervosismo. Cantar era uma maneira de manter a mente no lugar, exercitando-a. Num lugar como aquele, a última coisa que ele podia querer era perder-se com alguma doença mental.

Marshal não pensava sobre o que poderia encontrar no fim do túnel. Para ele, era puramente gratificante simplesmente ter tido coragem de enfrentá-lo. Era como se algo no ar que ele respirava fizesse com que ele não desse importância para mais nada, além do fato de que estava andando de gatinhas por um túnel e que, a qualquer momento, encontraria algo em seu fim. Se pudesse, passaria muitas horas ali dentro, mesmo que o buraco circundasse o mundo inteiro. Havia um feitiço no ar que o fazia se sentir confortável num ambiente com aquele, era o que pensava.

De repente, o ar pesado de dentro do buraco foi substituído por um mais fresco, como se alguma rajada de vento tivesse passado por ali. Em nenhum momento Marshal pensou que isso era porque estivesse perto de chegar ao fim do túnel – na verdade, em nenhum momento pensou sobre o fim do túnel. Não demorou muito e, depois de fazer uma curva, enxergou um ponto de luz minúsculo ao longe. Mesmo sabendo que a saída do túnel estava próxima, ele não sentiu vontade de se apressar e chegar mais rápido ao seu destino. Na mesma velocidade, continuou a engatinhar.

Dez minutos depois, deparava-se na saída do buraco. Saltou por ela sem nem pensar duas vezes e respirou fundo.

Antes de verificar o ambiente em que se encontrava, ele limpou as mãos nas vestes e depois as vestes com as mãos. Verificou o corpo inteiro, dando bastante atenção aos joelhos, que se mantiveram apoiados nos pedregulhos durante todo o tempo. A calça havia sido rasgada na região, que estava suja de preto. Marshal deu dois tapas de leve em cada um dos joelhos e ergueu-se para olhar para a frente.

Surpreendeu-se mais do que esperava com o que viu.

Acima de tudo, havia tanta neblina ao redor que Marshal imaginou que estivesse diante de uma miragem. Não se lembrava de ter visto tanta névoa antes, ainda mais na altura dos olhos. Era tão densa que impedia a visão a distâncias muito grandes, portanto, a maior parte do cenário acabava em paredes cinzas como a neblina. Contudo, ainda que estivesse tão difícil assim de enxergar, Marshal conseguiu ver pelo menos uma enorme construção que havia à sua frente.

- A minha escola – ele sussurrou maravilhado ao mesmo tempo em que estava assustado.

O Colégio Leme Pascal era muito maior do que qualquer escola que da região onde Marshal e sua família moravam. Escola particular de renome, cobrava altos valores dos pais que tinham coragem de colocar seus alunos em suas salas de aula. Não que houvesse muita escolha para as famílias de alta renda, já que era estranho aquele que tivesse muito dinheiro e não colocasse seu filho naquele Colégio. Com tanta arrecadação, o Colégio Leme Pascal tinha instalações monumentais e belas. A arquitetura, antiga já, remetia à era barroca da literatura, uma época que muito inspirava o diretor do colégio. Havia tantas janelas em seus cinco andares de construção que era impossível contá-las – Marshal sabia que o colégio tinha cinco andares porque estudara nele, e não porque conseguia enxergá-los, já que a neblina estava tão densa nas alturas que era impossível enxergar mais do que dois andares e meio. De frente, a escola já era bem grande, mas, uma vez dentro das instalações, percebia-se que era ainda maior, tão imensa quanto um Shopping Center.

Era tão grande que as opções de esconderijo para os alunos que não queriam acompanhar nenhuma aula eram inúmeras, e Marshal conhecia a maioria delas.

O garoto contemplou o letreiro sobre o portão principal do colégio, onde, em letras garrafais e fortes, estavam escritos os dizeres “Colégio Leme Pascal”, e sentiu certa nostalgia. Querendo ou não, por mais que a viagem ao Havaí fosse para comemorar o fim dos estudos, ele sentia saudade do lugar. Não das aulas monótonas e dos professores chatos, mas da companhia dos amigos e do ambiente onde seus encontros aconteciam. Marshal tinha muitas boas lembranças de lá.

E, dentre essas lembranças, ele não recordava de o Colégio Leme Pascal ser praticamente do lado do aeroporto. Na verdade, a distância entre os dois era tanta que não era possível ir de um até o outro sem utilizar mais de três meios de transportes públicos numa só viagem. Além do mais, não ia ser um buraco numa parede de um banheiro que o levaria tão rápido de um canto a outro na cidade.

Ou será que seria?

- Que lugar é esse, afinal? – perguntou-se, franzindo o cenho. Olhou ao redor e, mais uma vez, não foi capaz de enxergar qualquer coisa. – OLÁ? — gritou, a voz soando abafada, mesmo que alta.

Não obteve qualquer resposta.

Marshal caminhou alguns passos em direção à escola. Passou pelo seu jardim, reconhecendo cada uma das árvores que plantadas ali, e parou diante do portão principal. Decidiu, depois de um pouco pensar, que queria entrar na escola. Segurou com as mãos as grades de ambos os portões e empurrou tudo para frente. Nem com muita força eles se abriram. Foi só então que ele percebeu que estavam muito bem trancados por metros e metros de correntes, além de três grandes cadeados. Quem quer que estivesse tomando conta do lugar não queria receber visitantes.

Se não podia entrar na escola, Marshal não sabia o que fazer. Podia entrar novamente no buraco e seguir em direção ao aeroporto, mas sabia que não veria nada lá além do que já tinha visto. Talvez fosse uma ideia boa caminhar pelo local em busca de ajuda. Girando nos calcanhares, ele voltou-se para a rua de duas mãos que atravessara para chegar até aquele ponto e tentou decidir sobre qual caminho seguir. Sua casa ficava à esquerda – essa era uma excelente opção -, então ele obrigou seus pés a seguirem naquela direção.

Um grasnido percorreu seus ouvidos tão alto e perturbante que Marshal tropeçou nos próprios pés e caiu de joelhos no chão. Como se o barulho fosse o verdadeiro problema a ser enfrentado, ele levou instantaneamente as mãos aos ouvidos e aguardou ansioso que o grasnido voltasse a acontecer.

E aconteceu, pelo menos duas vezes.

Marshal levantou-se com dificuldade – suas pernas tremiam – e conseguiu ficar em pé. Girou um pouco o corpo no lugar, virando a cabeça na direção do som, a rua pela qual ele preferira não seguir, e procurou cheio de expectativa o que quer que pudesse originar um grasnido tão mortal. Não foi precisa muita análise para isso.

No fim da rua, escondida pela neblina, uma silhueta escura e estranha foi detalhada. Estava distante, mas era possível perceber que caminhava, e de uma maneira que seria muito engraçada se não fosse tão mórbida. Marshal estremeceu imaginando o que aquilo podia ser. Longe do que quer que fosse, não tinha muitas alternativas ou material de pesquisa para descobrir.

Contudo, não era preciso ser um gênio para concluir que aquilo não era uma pessoa comum e que ele devia começar a se preocupar sobre sua nova companhia.