A Jornada dos Renegados
2 Alderaan
Durante o começo da guerra, um bravo soldado uma vez disse:
“Por séculos, Alderaan permaneceu como um símbolo de esperança para a República. Mas o Império veio. E com um forte ataque colocou o planeta de joelhos. Agora, o tempo está acabando, com poucos para enfrentar o inimigo. Para os que restam, há apenas uma escolha. Devemos lutar pela vitória. Ou morrer... Pela República!”
O planeta Alderaan brilhava entre os sistemas da Orla Interior, como uma visão do paraíso. Mas sua beleza tão incrível não conseguia esconder o conflito interminável que corroía suas florestas de cor esmeralda ou suas montanhas cobertas de neve tão branca.
Em contraste com o sistema, no frio e escuro espaço, uma grande nave vermelha, um cruzador Defender da Ordem Jedi se aproxima do planeta. Dois Troopers da República pilotam a nave, com duas figuras encapuzadas atrás deles.
— Atenção, base de Alderaan. – diz o piloto contra o comunicador. – Aqui é o cruzador Despertar solicitando permissão para pouso e desembarque.
“Cruzador Despertar, aqui é o controle de Alderaan. Qual sua carga e destino?”, a resposta veio alguns segundos depois.
— Um pelotão especial para auxiliar as forças da República. – respondeu o soldado. – E duas Jedi enviadas pelo Senado.
“Entendido, Despertar”, a base respondeu. “Mantenha seu curso atual. Devem aterrissar na atracadora 23”.
— Entendido controle. Despertar desligando.
O controle ficou em silêncio e as duas Jedi encapuzadas se retiram da cabine de comando. Uma depois da outra, elas retiram seus capuzes. Uma é uma jovem humana, de pele clara e cabelos ruivos lisos, que caem soltos sobre o ombro esquerdo, como uma leve cascata, deixando o lado direito livre para exibir a trança fina que indica um Padawan. Os olhos verdes se movem inquietos pelo interior da nave, enquanto a jovem tenta conter seu entusiasmo, como manda a disciplina do Código Jedi.
— Acalme seus ânimos, June. – diz a outra Jedi que, ao retirar seu capuz, exibe a pele esverdeada de um Miriliano. De olhos azuis, com a face marcada por losangos de tom mais escuro de um lado a outro do nariz, numa linha horizontal, a Jedi claramente mais velha mantém um olhar calmo, seus cabelos escuros num penteado bem arrumado. – Estamos aqui em uma missão.
A jovem ruiva cruza os braços por dentro dos robes, curvando ligeiramente a cabeça.
— Sim, mestra Alika. – ela diz em voz solene.
June sabia exatamente a razão para estarem em Alderaan. A Casa Organa, uma das mais influentes do sistema e grande aliada da República, havia sido contatada por um pequeno grupo de representantes da Casa Thul, conhecida pelo seu apoio ao Império Sith.
Contudo, esse pequeno grupo pedira asilo político aos Organa e às forças da República, alegando que, ainda que não fossem influentes o bastante para mover toda a Casa Thul contra o Império, não estavam satisfeitos com a política dos Sith. Em troca dessa proteção, entregariam para a República qualquer informação relevante sobre o Império que conseguissem obter.
Sim, era uma manobra extremamente arriscada. Se os Thuls não estivessem mentindo, tentar obter informações sobre o Império para vendê-las ao inimigo era uma manobra de alto potencial suicida. Os Sith não eram famosos por mostrarem piedade ou misericórdia. Com traidores então, muito menos. Por isso, June e sua mestra, Alika, estavam lá. Deveriam mediar a negociação entre os Thul e os Organa, garantir a veracidade das informações entregues e, caso fosse certo que o grupo inimigo estava realmente mudando de lado, elas deveriam ser como uma garantia de segurança para eles.
— Avise aos soldados que logo desembarcaremos. – falou Alika com sua voz sempre serena. – Peça para que fiquem preparados.
— Sim, mestra.
June então seguiu imediatamente para a sala de reuniões do cruzador, que estava sendo usada para alocar os vinte soldados da República. Todos estavam armados com blasters, detonadores e todo tipo de arma. Comparado com equipamentos tão grandes e pesados, o sabre de luz de June podia parecer um brinquedo de criança aos olhos dos leigos. Mas todos ali sabiam que não havia arma mais forte do que as dos Jedi, a bordo daquela nave.
A Padawan gostava de passar o tempo livre entre os soldados. Ainda que de modo diferente, eram homens e mulheres que haviam jurado servir à República, mas sem as exigências ou disciplina rígida da Ordem Jedi. E também sabiam se divertir, contando histórias, piadas ou fazendo desafios idiotas entre si.
— Com licença, pessoal? – ela chamou, batendo no batente de metal da porta.
Os Troopers se silenciaram aos poucos depois de ouvir June. Ela rapidamente lhes passou as informações sobre a aterrissagem e a missão deles. O pelotão lai presente iria se reunir com as demais forças da República e dar apoio no conflito de Alderaan. Imediatamente os soldados guardaram os equipamentos e preparam seus trajes e armaduras, enquanto June se juntava à sua mestra para se preparem para a descida no sistema.
*****
Não houve tempo para apreciar as construções e a arquitetura de Alderaan. Logo que desembarcaram, os soldados seguiram para se apresentar aos seus superiores, enquanto Alika e June seguiram para o ponto de encontro com os representantes Organa.
Uma mulher e dois homens trajando roupas finas e mantos ornados com o símbolo da Casa Organa. Os três se curvaram frente aos Jedi, que fizeram o mesmo, em respeito a seus aliados.
— Sejam bem-vindas a Alderaan. – diz a mulher com voz solene e educada. – Permitam que nos apresentemos, eu sou Mirabell, representante da Casa Organa.
Mirabell era claramente uma mulher da política. Os olhos cinzentos e analíticos brilhavam com experiência dos anos nos jogos políticos e as rugas suaves que marcavam a pele de seu rosto deixavam claro que ela frequentemente franzia a testa. Os cabelos louros começavam a ficar grisalhos pelo estresse devido a negociações longas e cansativas.
— É uma honra conhecê-la. Eu sou Alika Namimor, da Ordem Jedi. – a Miriliana se apresentou. – E esta é minha aprendiz Padawan, June Yuilyan.
— Muito prazer. – a jovem ruiva se curvou novamente em respeito.
Mirabell apenas fez um aceno de mão, como quem diz que tal formalidade é desnecessária.
— Bem, vamos aos negócios...
June já não prestava tanta atenção a essa parte da conversa. Ainda que fosse do seu querer se torar uma Diplomata Jedi, ela já tinha se adiantado e estudado toda a questão da reunião entre o pequeno grupo de Thul e os Organa. June então não estava interessada em rever pela centésima vez todos os pormenores da situação, mas sim em ver uma negociação política real e prática. Algo mais efetivo do que as moções do Senado.
E não teve que esperar muito, pois logo um dos auxiliares que acompanhavam Miraell anunciou que os dissidentes Thul haviam chegado e aguardavam na sala ao lado.
— Bem, suponho que não devemos os deixar esperando. – disse Mirabell, que já se prontificava a seguir para o local do encontro.
Antes de seguirem os representantes dos Organa, Alika virou-se para sua aprendiz.
— Lembre-se, June. Estamos aqui para mediar um acordo diplomático. Contudo, nossa presença aqui também pode ser vista como forma de intimidação. – ela falou, com a voz calma e firme de uma instrutora. – Falemos apenas quando nos for requisitado, ou quando couber uma posição válida.
— Sim, mestra. – a jovem ruiva respondeu. – Vamos garantir que tudo corra da melhor maneira possível.
Com tudo acertado, ambas seguiram Mirabell e seus auxiliares.
A sala era tão ornamentada quanto o restante do da edificação. Estátuas de mais de três metros mescladas às colunas sustentavam o teto levemente abobadado. Uma pequena mesa circular ficava exatamente no centro do espaço, três degraus mais baixos que a porta. O piso e as paredes eram cobertos por tapetes e tapeçarias. A grande janela gradeada fornecia luz natural suficiente para iluminar o salão e torna-lo bastante confortável.
Do outro lado do salão estavam cinco pessoas com roupas finas, ostentando o brasão da Casa Thul. Aquele que seria o líder do pequeno grupo já estava sentado à mesa, e se levantou quando Mirabell se aproximou com seus auxiliares e as duas Jedi.
O cabelo escuro estava bem penteado, barba e bigode igualmente bem aparados envolviam a boca e cobriam o queixo. Como um todo, o homem poderia muito bem já ter passado dos cinquenta anos, mas sua constituição e postura indicavam alguém muito mais firme do que a idade aparente.
— Eu sou Olley, da Casa Thul. – o homem se apresentou com uma leve reverência. – Quero agradecer aos representantes da República e da Casa Organa por ouvirem a nossa proposta.
Apresentações. Uma parte essencial do processo diplomático, mas também terrivelmente entediante para June. Ora, todos ali já sabiam os nomes uns dos outros, então que fossem direto para o que interessava.
— Vamos então ao que importa. – disse Mirabell, como se lesse a mente da Padawan. – Senhor Olley, o senhor e seus companheiros afirmaram não concordar com os preceitos do Império Sith e dos chefes maiores da Casa Thul. Pediram então asilo e proteção política à República em troca de quaisquer informações relevantes sobre operações imperiais. Isso está correto?
— Está correto. A maior parte da Casa Thul se deixou comprar pelas promessas dos Sith sobre poder e soberania, se colocassem suas forças militares e políticas ao dispor do Império. – explicou Olley. – Mas estão tão cegos pela ganância que não enxergam que essa guerra está trazendo o caos ao nosso sistema!
June então se pôs a ouvir todos os argumentos apresentados pelos dissidentes da Casa Thul. Ainda não tinham certeza de que as intenções de Olley eram as melhores, mas suas palavras eram verdadeiras. A guerra estava sendo um grande martírio, não só para Alderaan, mas para todos os sistemas que agora se encontravam em disputa entre as forças da República e do Império Sith.
Mirabell então tomou as rédeas da conversa.
— Com todo o respeito, senhor Olley, mas já estamos todos cientes das consequências da guerra para o nosso sistema. Gostaríamos de termina-la o quanto antes, mas o Império não se mostra aberto a negociações nem cessares de fogo. Então nossa única alternativa passa a ser jogar pelas regras do conflito e terminar este embate por superioridade militar.
— Então quer saber logo que informações nós podemos fornecer à República que possam ser usadas para acelerar a derrota do Império.
— Precisamente.
— Sendo totalmente franco com a senhora... Nossos recursos são limitados. – o homem admitiu. – O Império nunca se mostrou aberto a discutir abertamente suas estratégias, mesmo aos seus aliados. Nosso grupo coletou tudo que fosse relevante, mas só conseguimos materiais que podem libertar Alderaan. Qualquer outra informação, mesmo sobre sistemas vizinhos, se mostrou inacessível.
— E o que seu pessoal conseguiu recolher, mesmo se arriscando tanto?
— Datas de chegada de suprimentos, algumas instruções sobre movimento de soldados em terra e da frota...
— E que garantias temos de que são informações são recentes e verdadeiras?
Esse era o ponto crítico da reunião. Por bem ou por mal, esse assunto teria que vir à tona, fosse de modo educado ou não. Mirabell então pareceu inclinada a ir direto ao ponto.
— Por que nos arriscaríamos tanto para trazer informações inúteis a vocês? – questionou Olley, levemente irritado.
— Não seria a primeira vez que espiões ou agentes duplos vêm com falsas informações para se infiltrar na República. – Mirabell questionou.
Embora a intenção da mulher fosse colocar tudo em pratos limpos, June pôde sentir como isso poderia ter o efeito contrário. E muito mais desastroso.
— Agentes duplos?!— Olley se deixou alterar por um instante, batendo os punhos na mesa e se levantando de súbito. – Como ousa?! Estamos nos arriscando ao máximo só por estarmos tendo esta conversa! E ainda desconfia de nossas intenções?!
Mirabell, por outro lado, manteve-se fria como a neve dos picos de Alderaan.
— Estamos em guerra, senhor Olley. – falou a representante, juntando as mãos sobre a mesa. – Se observar pelo nosso lado, seus argumentos podem ser todos forjados com a intenção de nos iludir. Lamento, mas minha função nesta sala é desconfiar.
Sendo uma futura Jedi, June podia sentir claramente as emoções que entravam em conflito na mente do homem Thul. Indignação, medo, fúria... Acima de tudo, raiva por saber que Mirabell estava certa. Via de regra, os Organa não tinha nenhuma razão para confiar neles. Se esse apelo dos Thul era mesmo pra valer, eles teriam que dar jogar um argumento forte agora. Um que os Organa não pudessem refutar ou que, pelo menos, a jovem Padawan e sua mestra pudessem fortalecer.
Olley se obrigou a ficar calmo, lentamente voltando a se sentar. Alika encarou sua Padawan. A conexão entre mestre e aprendiz nunca foi rara, de modo que bastou uma troca de olhares para que as duas soubessem que o momento de intervirem logo se apresentaria.
— O meu filho... Se alistou no exército do Império. – Olley voltou a falar. – Na época, ele acreditava nos Sith e... Eu também. Contudo, ele e seu grupo falharam em uma missão. Não sei dos pormenores, mas eles tinham retornado vivos e...
O homem não conseguiu continuar. Era como se as palavras tivessem ficado presas em sua garganta. Então, uma mulher que integrava o pequeno grupo de Olley se aproximou, colocando as mãos sobre os ombros do homem.
— Nosso filho e toda a sua equipe... Foram executados pelos Sith. – ela completou a história, lágrimas podiam ser vistas em seus olhos. – Eles falharam em cumprir uma missão e foram mortos por isso...
— Naquele dia percebemos. O Império nos vê meramente como ferramentas. – Olley voltou a falar, segurando a mão da esposa em seu ombro. – E quando falhamos ou não temos mais utilidade para eles... Nos descartam sem pensar duas vezes. Não posso permitir que minha família viva dessa maneira. Por isso, pedimos a ajuda da República.
Antes que Mirabell pudesse contestar aquela afirmação tão emocionalmente apelativa, Alika e June se prontificaram a falar.
— Com licença, representantes. – falou a mestra Jedi. – Senhora Mirabell, se me permite uma parte, não há mentira ou falsidade nas palavras do senhor Olley.
— A Força nos permite compreender melhor as emoções daqueles que nos cercam. – continuou June. – Senhor Olley, podemos sentir o medo e a angústia que queimam dentro de você e seus companheiros. Palavras podem mentir, mas não os sentimentos.
— Por isso, podemos garantir que as intenções deste grupo são legítimas. – completou Alika.
A representante dos Organa ficou em silêncio, pensando por um momento. Quando voltou a se pronunciar, levantou-se com as mãos apoiadas no tampo da mesa.
— Muito bem, senhor Olley. Concordo com seus termos. – ela respondeu, um leve sorriso em seus lábios. – Os Organa fornecerão abrigo ao senhor e sua família. Poderá discutir sobre as informações que tiver com um oficial de República depois.
June se permitiu um sorriso também. Inicialmente, a discussão poderia ter assumido um caráter extremamente perigoso. Mas graças as duas Jedi, tudo havia se encaminhado de forma segura. Isso já era um motivo de orgulho para a Padawan.
Mirabell e Olley tinham acabado de apertar as mãos. Então tudo virou um caos.
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