A Jornada da Fênix: O Ressurgir das Cinzas
9 The Wake
Notas iniciais
A noite caiu, os recém nomeados ficariam de vigília no acampamento, como sua primeira missão de guerreiros. Coração de Cinzas estava ansiosa para que todos fossem para a cama e os deixassem acordados sozinhos.
Todos os outros já estavam voltando das patrulhas, Fênix há muito tempo não via todos os seus companheiros de clã entrando no acampamento ao mesmo tempo, mas mesmo que tivesse sido aceita no Clã do Trovão e agora estivesse progredindo, ainda haviam aqueles que não a viam como igual, até porque sua coleira ainda estava em seu pescoço, o que fazia todos lembrarem que Fênix nasceu como gata de gente.
Fênix e Coração de Cinzas se entreolharam com um leve sorriso de ansiedade.
—Fênix: Queria poder ficar de vigília com você. Parece mais divertido do que se esconder da neve em uma toca. (Falou meio irônica).
—Coração de Cinzas: Pelo menos, você não vai passar a noite nesse frio e não vai correr risco de ficar doente.
—Fênix: Gatos curandeiros ficam doentes? (Perguntou fingindo surpresa).
—Poça de Folhas: Fênix, venha. Os recém nomeados já estão começando a vigília, temos que entrar. (Chamou de sua toca aos berros).
—Fênix: Já vou, Poça de Folhas. (Respondeu). Boa sorte. (Falou se voltando para a amiga).
—Coração de Cinzas: Obrigada. (Falou antes de ambas tocarem narizes). Quero que me leve alguma presa na toca dos guerreiros amanhã, estarei esfomeada e precisarei ser tratada como uma rainha. (Brincou antes de se afastar).
Fênix riu com o comentário, se afastou negando com a cabeça e girando os olhos, Coração de Cinzas até poderia ser uma guerreira agora, mas nunca deixaria de ter o espírito de um filhote com semanas de idade ansioso para conhecer o mundo, ela sempre carregaria seu bom humor consigo, por isso Fênix gostava da amizade dela.
O céu da noite estava coberto por nuvens de nevasca, as estrelas e a lua estavam escondidas e quase que invisíveis, a neve caía sob a grama do acampamento, o clima esfriava cada vez mais, os jovens guerreiros estavam se aconchegando um ao outro para se aquecerem, dariam de tudo para irem à toca dos guerreiros e se deitarem em um ninho confortável e quente.
Pouco tempo se passou desde que a vigília começara, os novatos estavam cansados, porém determinados, quase não dava pra enxergar nada por causa da nevasca que caía sob suas cabeças, com certeza a estação sem folhas estava mais intensa naquele ano.
Deitada em seu ninho ao lado da mentora na toca dos curandeiros, Fênix ergueu sua cabeça para ver se algo interessante aconteceria, mas apenas ouvia o vento da tempestade chacoalhando os galhos sem folhas das árvores, se perguntava se Coração de Cinzas estava bem, se deveria checá-la, ver se precisava de alguma coisa. Não! Ela já era uma guerreira agora, sabia cuidar de si mesma, além disso, haviam os outros recém nomeados, eles tomariam conta uns dos outros.
No entanto, sua curiosidade foi maior, cuidadosamente ela se levantou e saiu da toca, assim que o fez, quase se arrependeu, o vento forte e gelado seriam capazes de derrubá-la se não tomasse cuidado, mas não demoraria muito, ela apenas iria ver se a amiga estava bem e voltaria para a toca dos curandeiros.
Até que ouviu um som distinto ecoar rapidamente em seus ouvidos, logo, levantou mais as orelhas para tentar ouvir melhor, e notou a silhueta de um gato andando pelo acampamento em direção ao berçário. Mas quem seria louco de sair durante uma tempestade como essa? Bom, Fênix foi, então, qualquer outro seria também.
Mudando de rumo, a jovem trotou até o berçário silenciosamente, ao chegar na boca da toca, já podia sentir o ar abafado e aconchegante do berçário tocando seu nariz, então, se encolheu do lado de fora e manteve a cabeça inclinada para ver e ouvir o que estava acontecendo.
Notou que nenhuma das rainhas estava acordada, mas dentre seus corpos deitados nas camas de musgo, havia um gato sentado ao lado de uma gata em específico, era Pelo Gris observando os filhotes de Voo de Esquilo, Fênix imaginava o que ele queria, logo ele começou a cochichar para si mesmo:
—Belos filhotes, Voo de Esquilo. É claro que você escolheria Garra de Amora Doce ao invés de mim, mas não pense que isso vai ficar assim, eu não esqueci do que você me fez sentir quando me deixou. (Falou frio e seco, enquanto colocava para fora as garras de uma pata e as apontava para os pequenos deitados, quase encostando neles).
Fênix observava tudo, começou a pensar que Pelo Gris mataria os filhotes, a expressão dele continuava séria e era possível ver seus olhos queimarem de raiva sob Voo de Esquilo, até ele erguer uma das patas com as garras pra fora como quem quisesse picotar alguma coisa.
A aprendiz negra saltou rapidamente sobre Pelo Gris, ambos rolaram sob os ninhos do berçário, os filhotes e rainhas acordaram, as mães envolveram seus bebês com a cauda, os pequenos miavam de susto.
—Fênix: No que estava pensando? (Falou o prendendo no chão).
—Pelo Gris: Não sei do que está falando! (Falou a empurrando contra a parede do berçário com as patas traseiras).
Fênix tinha um feixe de sangue saindo do nariz, expos as garras e pulou sobre Pelo Gris, o qual fez o mesmo e se defendeu dando-lhe uma patada no peito, mas a jovem resistiu e meteu-lhe as garras em um dos olhos e uma mordida no ombro, Pelo Gris urrou de dor, seu sangue respingou pelo berçário. Ele a empurrou de cima dele e se colocou de pé. Já pareciam prontos para o segundo round, até Voo de Esquilo pará-los.
—Voo de Esquilo: Já chega! (Falou pulando entre eles). O que está acontecendo?
—Fênix: Pelo Gris ia matar seus filhotes! (Gritou com a respiração acelerada).
Todas no berçário se entreolharam com espanto, os filhotes miavam e gemiam, mexendo seus pequenos e delicados corpos e procurando leite, dentre eles estavam os filhotes de Voo de Esquilo, então ela voltou a eles e se deitou de costas para as outras rainhas, ainda escondendo que não podia amamentá-los porque não tinha leite, mas agia como se tivesse.
—Voo de Esquilo: Fênix, pode cuidar deles por um minuto? Preciso fazer uma coisa. (Falou mais como uma ordem do que como um pedido).
Sem esperar resposta, a guerreira avermelhada saiu do berçário e sua silhueta desapareceu na neve carregada livremente pelo vento, então Fênix caminhou até o ninho onde sua companheira estava e se deitou ao lado dos três pequenos.
As outras rainhas fitavam Pelo Gris com uma expressão de surpresa e medo, pois o guerreiro não tinha nem se defendido da acusação que recebera, apenas se mantinha em silêncio com a cabeça voltada ao chão, lambendo o ferimento no ombro.
Voo de Esquilo mal havia saído da toca quando os gatos de vigília apareceram na boca do berçário, ao verem Fênix sangrando, deitada com três filhotes se aconchegando a ela, e Pelo Gris ferido no fundo do berçário, já tiveram certeza de que algo estava muito errado ali. O guerreiro azul cinzento continuava evitando os olhares de seus companheiros, sentia seus olhos queimarem sobre ele.
—Coração de Cinzas: O que aconteceu aqui? (Questionou preocupada).
—Fênix: Pelo Gris queria matar os filhos de Voo de Esquilo.
Os jovens guerreiros franziram a testa, esperavam alguma reação vinda de Pelo Gris diante dessa acusação, mas ele apenas deu de ombros e continuou lambendo sua ferida. Era como se não quisesse negar a verdade, mas também não quisesse ser acusado dessa forma.
Pouco tempo depois, Voo de Esquilo voltou com Poça de Folhas e Estrela de Fogo atrás dela, Fênix logo achou que o líder ou sua mentora ficariam bravos com ela por estar ali sem autorização, mas Estrela de Fogo apenas passou por ela e a cumprimentou com um rápido aceno de cauda, estava com o olhar fixo em Pelo Gris, enquanto Poça de Folhas apenas se dirigiu para os filhotes ao lado da irmã e começou a lamber seu pequenos corpos.
—Estrela de Fogo: Me acompanhe até a minha toca, Pelo Gris. Teremos uma conversa séria sobre o seu recente comportamento.
Estrela de Fogo guiou Pelo Gris até sua toca, deixando o berçário, mas antes de desaparecer completamente na clareira coberta pela neve que ainda caía, deu a ordem para que os recém nomeados continuassem com a vigília. Fênix sentia que o guerreiro cinzento teria problemas sérios.
Na manhã seguinte, os guerreiros saíam de suas tocas pelo comando de Garra de Amora Doce, o representante já estava organizando as patrulhas do amanhecer e do sol a pino, permitindo que os recém nomeados entrassem na toca dos guerreiros e tirassem um cochilo depois de passarem a noite toda de vigília com um frio intenso lhes congelando.
O único que Fênix não viu ao passar pelos seus companheiros de clã foi Pelo Gris, Estrela de Fogo parecia furioso quando o chamou para conversar em sua toca, talvez o tivesse punido severamente pelo que aconteceu na noite passada.
Coração de Cinzas se deitou em um ninho e enrolou sua cauda sobre suas patas, logo percebeu a agitação de Fênix, suspeitou que fosse sobre o que aconteceu com ela e Pelo Gris.
—Coração de Cinzas: Acalme-se, Fênix. Tenho certeza de que tudo vai voltar ao normal com o tempo.
—Fênix: Eu achava isso também. (Fala se deitando em um ninho próximo ao da guerreira acinzentada).
—Coração de Cinzas: Eu entendo como se sente, sei que seus sentimentos por Pelo Gris estão mais fortes e que você se sente mal por ver que ele é capaz de fazer algo tão cruel quanto matar filhotes inocentes.
—Fênix: O que quer dizer com isso? Eu o vejo só como companheiro de clã.
—Coração de Cinzas: Bom, todo mundo acha que vocês tiveram alguma coisa, até mesmo Estrela de Fogo.
—Fênix: O que? Asa Branca também? (Perguntou surpresa).
—Coração de Cinzas: Todo mundo. (Falou lambendo uma pata).
—Fênix: Essa não! O que ela pensa de mim agora? Preciso vê-la! (Disse desesperada).
—Coração de Cinzas: O que? Agora? (Perguntou surpresa).
—Fênix: Sim, preciso me explicar! Ela precisa saber a verdade! (Falou antes de sair em disparada para fora).
—Coração de Cinzas: Fênix, espera! Eu estava brincando! (Gritou, porém a gata negra não ouviu).
A guerreira negra saiu rapidamente da toca e foi procurar Asa Branca, só o que queria no momento era encontrá-la para esclarecer o que Coração de Cinzas disse, explicar que aquilo não passava de um mal-entendido, no entanto, a jovem não tinha total certeza do que sentia por Pelo Gris, sempre o viu como um amigo e as vezes até mais do que isso, mas sabia que o gato cinzento ainda estava se encontrando em sua mente, se decidindo entre Asa Branca e Voo de Esquilo.
Fênix viu as patrulhas do amanhecer saindo do acampamento, logo reconheceu Coração Brilhante sentada na boca de uma toca, lembrou-se que esta era a mãe de Asa Branca e provavelmente saberia onde encontrá-la.
—Fênix: Com licença, Coração Brilhante, sabe onde Asa Branca está? (Questionou gentil).
—Coração Brilhante: Talvez com Poça de Folhas, ela me disse que tem se sentido meio mal nos últimos dias e que iria ver se tem algo errado. (Respondeu simpática como sempre).
—Fênix: Obrigada, Coração Brilhante.
A jovem fez menção de voltar a correr, mas sentiu sua cabeça girar e suas pernas cambalearam um pouco, quase perdeu o equilíbrio, mas sua companheira a deu um apoio com cabeça.
—Coração Brilhante: Fênix, você está bem? (Falou preocupada).
—Fênix: Acho que sim, deve ser só a fome. (Falou recuperando o equilíbrio).
Fênix trotou até a toca de Poça de Folhas, ainda se sentindo um pouco fraca, então viu a curandeira sentada ao lado de Asa Branca. Logo, a jovem se aproximou das duas e falou:
—Desculpe interromper, mas, Asa Branca, posso falar com você?
—Asa Branca: Claro. (Ela se levantou e deu um aceno de cabeça para Poça de Folhas como despedida, indo para fora da toca com Fênix).
—Fênix: Preciso me explicar, é sobre Pelo Gris.
—Asa Branca: O que houve com ele? Está tudo bem?
—Fênix: Coração de Cinzas me disse que o acampamento inteiro tinha pensado que eu e ele estávamos tendo alguma coisa, então, se você pensou isso, eu preciso que saiba que nunca tivemos nada além de amizade.
—Asa Branca: Do que está falando? (Perguntou sem entender nada). Ninguém achou nada disso.
—Fênix: (Perdeu a voz, percebeu que sua amiga azulada não estava falando sério, a gata negra rangeu os dentes). Eu vou matar a Coração de Cinzas! (Sussurrou para si mesma). Bom, obrigada por esclarecer. (Disse sem graça). Agora que tudo está resolvido, acho que posso... (Pausou a fala).
Estava se sentindo tonta de novo, só que mais forte dessa vez, suas pernas começaram a ficar bambas e ela caiu na grama fria e dura, logo uma tosse intensa começou a tirar seu fôlego.
—Asa Branca: Fênix, o que foi? Poça de Folhas! (Gritou enquanto tentava reanimar a companheira caída no chão).
—Poça de Folhas: O que foi? Fênix, o que você tem? (Falou desesperada e preocupada).
A jovem não dava resposta, apenas tossia e parecia não estar respirando, fazia força para fungar o ar, suas patas tremiam e seu pelo estava todo arrepiado. Ambas as gatas levaram Fênix para dentro da toca, onde Poça de Folhas começou a examiná-la:
—Poça de Folhas: As almofadinhas de suas patas estão quentes, ela está com febre alta. Asa Branca, é melhor sair daqui, acho que ela pegou a Tosse Verde. Avise o acampamento!
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