A Jornada da Fênix: O Ressurgir das Cinzas
23 Back Home (Parte 2)
A gata negra processou por alguns segundos, continuou seu caminho ainda com cada palavra dita por Nariz de Oliva presa em sua cabeça, até podia entender o porquê de os clãs estarem com medo dela, afinal ela derrubou pelo menos cinco guerreiros em um piscar de olhos só para alcançar Estrela de Fogo e tirar-lhe uma de suas vidas.
Isso foi totalmente involuntário, claro, estava completamente cegada pela raiva, afinal descobrira que aquele que havia matado seu pai era o líder que tanto admirava, mas ninguém acreditaria nisso, porque nenhum guerreiro bem treinado age involuntariamente, principalmente contra seu próprio líder, mas Estrela de Fogo não era mais o líder da gata, ou era?
Do ponto de vista dela, até poderia ser, mas as regras da floresta diziam o contrário, afinal Fênix se juntou ao Clã do Rio, porém apenas pretendia espioná-los para que mantivesse sua família de coração a salvo, no entanto, aqueles gatos de fato apenas estavam tentando sobreviver assim como o Clã do Trovão. A gata negra mal podia acreditar que realmente havia achado que um clã inimigo era apenas um bando de selvagens com sede de sangue e matança, quando na verdade eram apenas gatos tentando cumprir seu papel de protetores da própria família, se esforçando para sobreviver, assim como o próprio Clã do Trovão.
Passou um bom tempo correndo com a veloz brisa do início da estação do renovo, rumando ao território de Estrela de Fogo, relembrando dos tempos em que ainda podia chamar aquele lugar de casa, onde ainda tinha uma família, duas na verdade, porque tanto o Clã do Trovão quanto o Clã do Rio foram como a família que ela não se lembra de já ter tido uma vez, antes considerava Flagelo um bom pai, mas depois de tanto tempo convivendo com gatos que realmente a amavam, Fênix já não tinha mais certeza se ele era mesmo tão bom assim. Até poderia saber se soubesse de sua mãe, mas a única coisa que disseram-lhe sobre ela foi que esta morreu quando deu à luz a Fênix e outros quatro filhotes, mas que já nasceram mortos.
Não gostava de refletir sobre a vida que tinha com Flagelo, ele não tinha muita paciência para tratá-la como se fosse mesmo a filha dele, os outros eram frios com ela e abusavam de sua inocência, lembrava-se de que chorava quase todas as noites por medo e o sentimento de ser um grande fracasso, mas não conseguia odiar nenhum deles, era doce demais pra isso, por mais que tivesse o coração picado em mil e um pedacinhos e que fosse difícil conter as lágrimas só ao ouvir as palavras ofensivas e pesadas vindas dos demais gatos do Clã do Sangue, Fênix nunca deixaria que a vissem como uma figura totalmente vulnerável, sempre lutara desde filhote para manter a postura e não demonstrar o que sentia.
Poderia até dizer que se não fosse pelo “desaparecimento” de Flagelo, ainda estaria sofrendo naquele lugar com gatos abusivos e violentos, no entanto, provavelmente teria aprendido a ser uma assassina como seu pai, se é que podia dizer mesmo isso, afinal era o que Fênix aprendera no fim das contas, não é? Guerreiros de clã lutavam todos os dias com garras e dentes na intensão de derrubar um inimigo, matá-los se necessário, o que geralmente acontecia.
Com a cabeça contrariada entre suas ideias, a gata negra parou de correr e se manteve parada no mesmo lugar por alguns longos segundos, em parte porque suas patas doíam por causa da corrida, mas também porque precisava pausar para raciocinar melhor, será que o que lhe ensinaram toda a sua vida estava errado? Afinal a última coisa que queria ser era uma assassina, por isso sempre se esforçou para não se deixar levar pelas más influências de Flagelo e Osso, mas depois de ser treinada na floresta para lutar, acabou por se tornar o que não pretendia, qual era o sentido disso afinal? Por que precisava ser assim?
Ainda com isso prendendo seus pensamentos, Fênix voltou a se deslocar pelo gramado seco com passos largos, notou que o sol estava quase sumindo entre as montanhas, por tanto sua visita deveria ser o mais rápida possível, não poderia voltar pelo território do Clã das Sombras a noite, seria suicídio. Não sabia como voltaria quando terminasse, resolveria isso depois que consertasse tudo com Estrela de Fogo, com certeza ele não deixaria que ela passasse a noite em seu território e muito menos em seu acampamento, os guerreiros a queimariam viva se dormisse com eles na toca deles, enfim, só o que importava é que Fênix conseguisse conversar com o líder rubro e explicar tudo o que precisava, só assim se sentiria com a consciência limpa de novo.
Pouco tempo depois, já podia avistar a entrada do acampamento do Clã do Trovão, antes de passar, Fênix deu uma pausa e pensou bem em cada palavra que queria dar com Estrela de Fogo, não sabia qual poderia ser a reação dele, mas ela não queria que ele a perdoasse, apenas que a ouvisse e que confirmasse que não estava preocupado com ela no sentido de ter medo de uma guerra ou algo assim, já que a última coisa que pretendia era lutar contra a sua primeira família e causar derramamento de sangue e um massacre.
Estava para avançar quando foi “atropelada” por uma filhote branca com manchas e listras azuladas e olhos azul-claro, Fênix mal se moveu com o impacto, enquanto a filhote se esborrachou no chão, com baixos e curtos gemidos de dor, se colocou de pé e encarou a gata negra, a qual não sabia se a pequena estava com medo ou apenas surpresa. Logo o espaço foi preenchido por uma voz feminina muito familiar ecoando:
—Pata de Hera?! Você está aí?
—Pata de Hera: Coração de Cinzas! (Falou quase em um grito).
—Coração de Cinzas: Pata de Hera, onde... (Congelou assim que avistou Fênix). Oh, Pelagem de Carvão... isso é um aviso de ataque? (Perguntou seca com certo sarcasmo na voz).
—Fênix: Olá, Coração de Cinzas. (Devolveu no mesmo tom seco). Vim para falar com Estrela de Fogo.
—Coração de Cinzas: Certamente que sim. (Se voltou para a filhote). Pata de Hera, vá agora para a toca dos aprendizes, fique lá até eu ir te buscar. (Ordenou à filhote, que se retirou em trotes apressados).
A gata azulada voltou seu olhar para a gata negra, tinha olhos em fenda e uma expressão fechada, logo se virou para voltar ao
acampamento e fez um sinal com a cauda para que Fênix a seguisse, e assim o fez. Assim que entrou no acampamento e olhou ao redor, uma forte onda de nostalgia atingiu seu peito, se lembrando da sua época de aprendiz, quando tudo parecia ser mais fácil, quando ainda tinha companheiros que podia chamar de família, ao mesmo tempo em que se sentiu feliz por relembrar desses tempos, também sentiu seu coração se partir em milhares de pedaços, ainda doía ver aquele lugar e se lembrar do que aconteceu ali, uma atrocidade contra Estrela de Fogo, causada pela própria ex- aprendiz, a qual não recebeu nada dele além de carinho e compaixão, e em troca ela arrancou uma de suas vidas por puro reflexo de adrenalina.
Além disso, se sentira traída ao descobrir a verdade sobre quem matara seu pai, claro que este não era um dos melhores pais do
mundo, mas ainda era sua família. Voltou de seus pensamentos ao ouvir a voz de Coração de Cinzas:
—Garra de Amora Doce, tem uma visitante que quer falar com Estrela de Fogo.
Fênix observou a gata azulada se aproximar mais do representante e lhe sussurrar algo, no momento já soube que ela preferia não ditar o nome da gata negra em voz alta, apesar de já terem lhe reconhecido no ambiente, era melhor não causar um escândalo. Observou o gato marrom assentir e ir à toca do líder rubro. A gata de olhos azuis voltou ao lado de Fênix e se sentou.
—Coração de Cinzas: Estrela de Fogo já vai vir, enquanto isso vou ficar de olho em você, caso tente algo estupido. (Falou seca).
Fênix hesitou por alguns minutos, queria que o clima não estivesse tão tenso, houve um tempo em que ambas estariam brincando de lutar uma com a outra ou tendo uma conversa agradável, mas agora parecia que nem se conheciam, não sabia se aquela era a mesma Coração de Cinzas que conhecera há muitas estações atrás, o que sentia não era medo e muito menos conforto para com a presença de sua velha amiga, ou ex -amiga, era uma mistura de sentimentos, parecia ser saudade e preocupação unidos ou algo assim.
—Coração de Cinzas: O que foi? Não deu certo? (Perguntou seca e com ironia na voz). Estrela de Leopardo te expulsou e você veio se arrastar aos pés de Estrela de Fogo para que ele te readmita?
—Fênix: Coração de Cinzas... (Interrompida).
—Coração de Cinzas: Você deve achar que ele ainda confia em você, que não se quebrou com a sua traição, que ele vai te perdoar tão fácil assim, mas Estrela de Fogo não é o mesmo desde que você se foi, Pelagem de Carvão, se é mesmo esse o seu nome. (Falou seca e com raiva).
—Fênix: Coração de Cinzas... (Interrompida).
—Coração de Cinzas: Isso dói, sabia? Porque além de perder o líder mais sábio que já conheci, eu também perdi minha melhor amiga. (Falou com uma ponta de dor e mágoa na voz, a qual saiu como um sussurro).
—Fênix: Coração de Cinzas! (Gritou, chamando a atenção da azulada de imediato). Me escuta, por favor!
A gata azulada assentiu meio relutante, a encarou mantendo o olhar frio e duro, parecia querer ouvi-la, mas mentia para si mesma dizendo que Fênix era uma traidora e que não merecia uma outra chance:
—Fênix: Eu sei o que eu fiz. (Falou num suspiro). Foi totalmente automático, eu não consegui me controlar. (Pausou para não deixar suas lágrimas desabarem). Mas eu não vim para voltar ao Clã do Trovão, só vim me explicar para Estrela de Fogo. (Pausou para retomar o folego). Não preciso que ele me perdoe, somente que ele me escute. (Suspirou e se dirigiu até a toca do líder rubro, seguindo ao aceno de cabeça que Garra de Amora Doce lhe lançara ao surgir em sua vista).
A gata negra se afastou tão rápido quanto havia sido chamada, sem dar tempo para Coração de Cinzas responder, mas, mesmo de longe, pôde ouvi-la bufando e prendendo a respiração, claramente ambas nunca mais voltariam a ser o que eram antes, aquela nem parecia ser a mesma aprendiz que foi a primeira a cumprimentar Fênix amigavelmente mesmo sabendo dos julgamentos grosseiros.
Adentrou na toca, estava meio escura e fresca como sempre, sentado em seu ninho estava Estrela de Fogo, com sua bela pelagem rubra se destacando dentre as folhagens, estava virado para o canto, nem ergueu a cabeça para olhar pra ela, o representante se retirou, deixando Fênix e Estrela de Fogo sozinhos.
—Estrela de Fogo: Fênix. (Se levantou). O que posso fazer por você? (Sua voz saiu rouca e cansada).
Enquanto ele se virava para ela lentamente, Fênix se preparava para falar os discursos que havia ensaiado para que o líder rubro a ouvisse, mas paralisou ao ver o estado de Estrela de Fogo: estava magro, com uma expressão cansada, olhos pesados e uma cicatriz bem notável no pescoço, provavelmente da ferida que fizera no líder ao tirar-lhe uma vida, mas tinha uma coisa que não saiu do rosto do líder avermelhado nem por um segundo: um sorriso leve, porém sincero.
A gata negra se ajeitou ao lado do líder e começou:
—Eu vim para me explicar. (Suspirou). Você não precisa me perdoar, eu só quero que me escute. (Tomou folego para segurar as lágrimas). Eu... (Interrompida).
—Estrela de Fogo: Está tudo bem. (Falou com os olhos fixos nas próprias patas, como se não quisesse que vissem suas condições do momento).
—Fênix: O que? (Falou surpresa e sem ter exata certeza sobre o que ele estava falando).
—Estrela de Fogo: Eu não quero que pense que estou com raiva de você ou algo assim, eu só quero que saiba que eu só matei Flagelo porque eu precisei, eu nunca tive prazer em matar ou em fazer meus inimigos sofrerem, eu precisei salvar a floresta desse mal. (Suspirou, abaixando mais a cabeça). Mas eu deveria saber que eu não estava ajudando a todos como pensei que estava. (Olhou para a gata). Eu também não gostaria de descobrir algo assim depois de tanto tempo convivendo com quem sabia uma verdade como essa e preferiu escondê-la. (Deu um sorriso sem humor e voltou a fitar o chão).
—Fênix: Estrela de Fogo. (Segurou-se para não chorar). Eu nunca quis te machucar, de verdade, foi involuntário, desculpe. Eu sinto muito. Se eu pudesse voltar naquele dia, eu faria qualquer coisa pra que isso não tivesse acontecido! (Falou gritando e pronunciou tudo rápido demais para que o líder rubro pudesse processar). Eu só queria que você entendesse que eu nuca quis isso. Eu vim só por isso. (Falou se levantando e se dirigindo a saída). Desculpe ter vindo sem aviso e ainda ocupar o seu tempo. (Falou sem se virar para ele). E não se preocupe, eu já tenho uma nova casa, eu estou bem. (Fênix saiu da toca do líder com um aceno de cabeça, em sinal de respeito).
Fênix então se deparou com vários olhares afiados e frios em sua direção, dentre eles estava Poça de Folhas. A gata negra se lembrou da noite em que fora acusada de participar de uma armadilha para Estrela de Fogo, quando todos a achavam uma aberração por ser filha de Flagelo, porém nunca esperou isso da curandeira que tanto lhe amor e carinho, esta desviou o olhar em menos de um tique taque de coração e trotou até sua toca. A guerreira negra suspirou de tristeza, se tinha uma coisa que nunca foi do feitio de Poça de Folhas era odiar alguém, mas quando acontecia ela não escondia.
Afastou esses pensamentos e começou a caminhar até a saída do acampamento, estava escuro e ainda não sabia como voltar para o beco em segurança, provavelmente teria que se meter em algumas brigas por aí e torcer para não se perder no escuro. Mas antes que pudesse chegar na saída, a voz de Estrela de Fogo ecoou pelo acampamento e Fênix se virou:
—Fênix! (Falou trotando até ela). Você pode passar a noite no acampamento. (Sua voz saiu mais firme do que antes).
—Fênix: Eu não quero incomodar.
—Estrela de Fogo: Não será incomodo. (Se virou para os demais gatos). E eu tenho certeza de que ninguém vai te ferir ou te julgar. (Falou em um tom mais alto para que todos pudessem entendê-lo como uma ordem).
—Fênix: Eu não sei se... (Interrompida).
—Estrela de Fogo: Tem algum outro lugar para passar a noite? (Perguntou retoricamente). Não pode ficar no território dos outros clãs, eles acabariam com você.
—Fênix: Então, você está dizendo que eu posso passar a noite no seu acampamento. (Falou só para confirmar o que entendeu, recebendo um aceno positivo de cabeça vindo de Estrela de Fogo). Bem... eu... não sei... (Falou hesitante).
—Estrela de Fogo: PELAGEM DE CARVÃO! (Gritou. A gata perdeu a voz ao ser chamada pelo seu último nome de guerreira, isso a despertou lembranças boas que lhe causavam sentimentos ruins). Eu não estou pedindo! Você está no meu território, e eu não quero receber a notícia de que minha ex- aprendiz foi assassinada por invadir algum território!
—Fênix: (Suspirou). Certo. Eu vou passar a noite no seu território, mas não no acampamento. (Se virou e saiu do acampamento sem esperar alguma resposta).
A gata negra teria aceitado ficar na toca dos guerreiros ou algo assim se não fossem as circunstâncias nas quais se encontrava, nenhum gato do Clã do Trovão a olharia com bons olhos ou evitaria algum comentário ofensivo e indiscreto, e Fênix não estava com forças para aturar isso. E pensar que ela já fora uma aprendiz de curandeira deste mesmo clã há várias estações atrás só a fazia sentir mais dor.
Parou ao lado de uma árvore não muito longe do acampamento, a escalou e se ajeitou em um galho alto e grosso, era seguro e poderia dormir sem se preocupar em cair, apoiou a cabeça nas pernas dianteiras e logo pegou no sono. Todo o percurso do beco até o acampamento do Clã do Trovão lhe custou muita energia, seu estomago doía de fome e sentia as almofadinhas de suas patas formigarem.
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