A Jornada da Fênix: O Ressurgir das Cinzas
19 Two'Legs is territory
Pelagem de Carvão acordou lentamente sob uma cama branca, levantou a cabeça e olhou em volta, avistou um Duas Pernas e começou a ficar agitada, logo notou que uma de suas pernas estava enrolada por alguma coisa branca, a qual ela desconhecia. Reparou também que os seus ferimentos já estavam cicatrizados, ou seja, havia dormido por um longo e considerável tempo.
O Duas Pernas se voltou para a gata, vendo que ela estava de pé e com as garras expostas, como se quisesse lutar, ele tentou pegá-la, mas Pelagem de Carvão saltou da cama, se soltando do que a prendia, era uma queda meio alta, mas conseguiu cair de pé no chão, logo se pôs a correr para uma saída grande que havia na parede, mas assim que a alcançou pôde ver o quão longe aquele ninho de Puas Pernas ficava do chão, era quase o mesmo que duas ou três árvores grandes uma em cima da outra.
Saltou de lá antes que o Duas Pernas a pegasse, na tentativa de alcançar o outro ninho alto que estava a sua frente, alcançou a beirada dele e por pouco não caiu, segurou firme com as garras e conseguiu subir, deixando o Duas Pernas pra trás.
Continuou a correr sobre o telhado, as almofadinhas de suas patas queimavam sobre sua superfície dura e quente, mas nem por isso pretendia parar. Chegou na outra beirada, percebeu que ainda estava bem longe do chão, até que avistou uma árvore pela qual poderia descer sem problemas, já que seus galhos estavam colados ao telhado em que estava.
Após alcançar o primeiro galho, conseguiu ir descendo até o chão sem correr o alto risco de cair e se esborrachar no chão. Pouco tempo depois, já havia conseguido descer, então reparou no lugar onde estava, se parecia com o beco onde cresceu, mas era maior, e dentre os montes de lixo dos duas pernas, começaram a sair vários gatos de beco com aparências bem judiadas e magras.
Um gato de pelagem marrom e preta se aproximou de Pelagem de Carvão, parecia que queria intimidá-la, mas a jovem não recuou, até que ele começou:
—O que uma gatinha tão pequena como você faz aqui? (Falou com um tom autoritário, a fitando com seus olhos amarelos).
—Pelagem de Carvão: Isso não é da sua conta! (Falou firmemente, percebendo que os outros a estavam cercando).
O gato de pelo marrom a encarou com uma cara fechada, e logo continuou:
—É melhor recuar, baixinha, sabe o que acontece com quem me desafia? (Falou a olhando de cima devido a diferença de altura).
—Pelagem de Carvão: Não sei e nem quero saber. Só quero sair desse lugar o quanto antes. (Falou se virando para a saída, mas foi barrada pelos outros gatos).
O gato de olhos amarelos insistiu:
—Eu sou Abaddon, e acho que isso já é uma boa razão pra ter medo de mim. (Falou expondo suas garras).
—Pelagem de Carvão: Você só pode estar brincando comigo! (Disse rolando os olhos em desprezo). Isso aí não são garras, agora isso (Expõe suas enormes garras) são garras.
—Abaddon: Então você está me desafiando. (Deduziu). Pois bem, vamos ver quem é o melhor lutador. Se você ganhar pode ficar com os meus gatos e meu território, mas se você perder eu terei o direito de te matar.
—Pelagem de Carvão: E por que você iria sugerir um duelo assim? Do nada?
—Abaddon: Porque nada acontece por aqui. (Revirou os olhos). Estou a fim de matar alguém hoje. (Disse erguendo uma das patas e encarando suas garras, como se já conseguisse ver o sangue escorrendo por elas).
—Pelagem de Carvão: Bom, eu não tenho nada a perder, então, eu aceito. (Deu de ombros). Além disso, eu não tenho escolha mesmo.
Os demais abriram espaço para que eles pudessem lutar sem esbarrar em alguém, Pelagem de Carvão sabia que provavelmente perderia, uma vez que não comeu nada além de uma pequena peça de rato há sabe-se lá quanto tempo, o que não serviu nem parar forrar o estômago, mas se morresse estaria protegendo a floresta de uma possível guerra que ela mesma poderia começar depois de saber sobre as visões de Poça de Folhas.
Abaddon avançou ferozmente com a boca aberta já pronta para abocanhar a garganta da gata negra, mas esta desviou e o agarrou pelo cangote com os dentes, o jogando no chão logo em seguida, o prendendo no chão com as patas dianteiras e enfiando suas garras nas costas dele.
Abaddon urrou de dor, deu um forte impulso para trás e a empurrou, Pelagem de Carvão aterrissou de pé e ambos correram um contra o outro, se encontrando em um salto dado pelos dois ao mesmo tempo, o gato marrom a derrubou por ser maior, fez menção de morder a garganta dela, mas foi empurrado pelas patas trazeiras dela e jogado para o lado, a guerreira negra se levantou, o gato de olhos amarelos se recuperou da queda e avançou contra ela em um pulo, mas ela desviou passando por baixo dele e o arranhando na barriga, freando rapidamente e se virando para o oponente, ambos já prontos para se confrontarem de novo.
Pelagem de Carvão correu em sua direção, Abaddon se ergueu nas patas trazeiras e a prendeu no chão com as patas dianteiras e os dentes, a guerreira de olhos roxos alcançou a garganta dele com uma das patas e conseguiu enfiar as garras nele, fazendo-o recuar e receber uma mordida no pescoço e um enorme arranhão iniciado no peito e se estendendo até a barriga, abrindo um grande corte e derramando muito sangue, o que o desabilitou e o fez cair.
A guerreira sibilou para Abaddon, rangendo os dentes em seguida, o gato marrom continuava caído no chão com a barriga para cima, respirava pesado, o corte parecia doer, e a cada fungada o sangramento aumentava, Pelagem de Carvão deu uma olhada em suas garras sujas com o líquido rubro, ergueu uma das patas e a levou em direção a boca, lambendo o sangue.
Ao sentir o gosto, ela sorriu de satisfação. Queria mais! Precisava de mais! Se aproximou do gato caído ainda com vida, passou a língua em volta da boca e pressionou uma pata na garganta dele enquanto a outra foi erguida no ar, expondo suas garras novamente. Suas pupilas em fenda se encontraram com os dele, os quais passavam apenas dor e medo. A gata negra franziu a testa, deixando a adrenalina sair de seu corpo e suas pupilas voltaram a ficar dilatadas.
Olhou para a sua pata levantada, encarando o sangue que pingava, depois voltou a olhá-lo nos olhos. Não valia a pena matar alguém que já havia sido derrotado, mas olhou em volta e ouviu os demais gritarem em aprovação para com a morte de Abaddon. Voltou seu olhar para o gato com uma expressão de pena, o olhava como se quisesse uma resposta sobre o que deveria fazer em relação aos pedidos de sua morte. Até que ele começou:
—Você venceu, tem o direito desse lugar e desses gatos agora. (Falou com a voz fraca). Acabe comigo e finalize o que começou. (Falou abaixando a cabeça, como se estivesse esperando para ser morto).
—Pelagem de Carvão: Eu não quero fazer isso. (Falou usando sua cauda para erguer o queixo do gato marrom). A matança não vai dar a vocês uma vida melhor. (Falou se voltando aos outros gatos).
—Abaddon: O que vai fazer então? (Falou se esforçando para se sentar).
—Pelagem de Carvão: Vou reparar os danos que causei em você. (Falou se referindo as feridas dele).
Pelagem de Carvão o ajudou a levantar, os demais não retrucaram já que a consideravam sua líder agora, alguns até ajudaram a guiar Abaddon até um lugar mais afastado da entrada do beco, dentro de uma lata de lixo vazia caída no chão, era forrada com algumas folhas e parecia até confortável.
—Abaddon: Como se chama? (Falou se deitando no ninho).
—Pelagem de Carvão: Meu nome é Pelagem de Carvão. (Falou se sentando ao lado dele).
—Abaddon: Ah, você é uma nascida de clã. Veio da floresta, eu suponho.
—Pelagem de Carvão: É, eu vivi um tempo lá, mas nasci como gatinha de gente e cresci em um beco como este. E minha estadia na floresta me mostrou como usar algumas ervas medicinais, e é o que pretendo usar para te ajudar. (Coloca a cauda sobre as costas dele).
—Abaddon: Isso eu quero ver. (Falou com deboche). Esses gatos não sabem nem diferenciar uma folha verde de uma folha seca.
—Pelagem de Carvão: Então é hora de aprenderem. (Falou saindo para encontrar os outros gatos). Quero três de vocês comigo, nós vamos para a floresta encontrar plantas medicinais.
—Abaddon: Mas e quanto aos seus ferimentos?
—Pelagem de Carvão: Acredite. (Suspirou). Já passei por coisa pior. (Disse com um sorriso sem humor).
Depois de escolher seus três companheiros, Pelagem de Carvão partiu para procurar a floresta, infelizmente não seria fácil, segundo um dos seus companheiros ficava a vários metros longe do beco. Passaram por vários Caminhos do Trovão e ninhos dos Duas Pernas. Ao alcançar a mata, a gata negra começou a farejar para encontrar as ervas das quais falou, procurava por sementes de papoula, babosa e calêndula.
Um de seus companheiros, um gato de pelo branco, se aproximou e tentou copiá-la sem saber ao certo o que procurava, Pelagem de Carvão notou e começou:
—Tente farejar um pouco de calêndula, são flores com várias pétalas douradas e o talo verde. (Se vira aos outros dois companheiros). Vocês dois procuram por babosa, são plantas verdes com um líquido grudento transparente por dentro de suas folhas grandes, grossas e com um formato estranho, mas o cheiro é inconfundível.
Dito isso, a guerreira trotou mais a fundo para encontrar sementes de papoula, estas seriam as mais difíceis de encontrar e haveriam mais chances de trombar com uma patrulha de algum clã, por tanto preferiu procurar por elas, já que poderia lidar sozinha com gatos selvagens.
O vento trazia cheiros diferentes as suas narinas, já era metade da estação do renovo, então não seria difícil de encontrar plantas medicinais. Tudo estava silencioso, só se ouvia o som das folhas sendo balançadas, Pelagem de Carvão até estranhava o silencio, não era do feitio dos gatos selvagens ficarem tão a fundo na floresta nessa época do ano.
Pouco tempo depois, a gata negra encontrou as sementes que procurava, se apressou para pegá-las antes que fosse vista, e voltou para o caminho que fizera para chegar até ali.
De volta ao beco, Pelagem de Carvão e seus três companheiros trouxeram as ervas medicinais, a gata negra deu-lhe as sementes de papoula para aliviar a dor, calêndulas para evitar que suas feridas infeccionassem e passou o líquido da babosa nos cortes para ajudar na cicatrização.
-Abaddon: Acho que você é a líder deles agora, Pelagem de Carvão.
—Pelagem de Carvão: (Parou para analisar por um segundo). Na verdade, eu gostaria que me chamassem de Fênix.
Abaddon e um gato prateado que estava ao seu lado se entreolharam, logo voltaram seus olhares para a gata negra e sorriram em concordância, a guerreira se levantou, foi ao lado de fora e subiu em uma caçamba que estava tampada, e começou:
—Atenção, todos que estão aqui, eu e Abaddon entramos em concordância, eu liderarei vocês até que ele esteja melhor para voltar a esse cargo, e durante esse meio tempo, quero que me chamem de Fênix.
Os outros gatos do beco se entreolhavam e cochichavam entre si, alguns pareciam satisfeitos com a decisão, mas outros desaprovavam totalmente que uma gata selvagem estrangeira os liderasse quando haviam muitos outros ali para assumir esse posto, no entanto, depois do que ela fez com Abaddon, o temido e enorme líder que ninguém nunca havia derrotado antes, nenhum teve coragem de falar sobre isso com ela.
Dentro do ninho:
—Abaddon: O que você anunciou não foi o que combinamos, por que vai ficar só até eu melhorar?
—Fênix: Porque fui eu que causei esse estrago em você e eu nem queria assumir o comando desses gatos, na verdade não sei porque resisti e não deixei você me matar. (Falou se deitando ao lado dele). Eu só vivo uma vida que eu não quero. A minha família, a única família que realmente me amou em toda a minha vida, está em perigo por minha causa, parece que eu vou liderar um ataque contra eles e destruí-los.
—Abaddon: Por que diz isso?
—Fênix: Foi o que uma gata me disse pouco antes de eu sair da floresta, ela teve algumas visões e geralmente ela acerta. (Abaixou a cabeça). Me diga, Abaddon, você já ouviu falar de Flagelo?
—Abaddon: Quer dizer aquele gatinho de gente minúsculo que virou o maior pesadelo dos gatos selvagens? Sim. Por que?
—Fênix: Nada demais, só uma curiosidade.
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