Notas iniciais
Ao entrar no acampamento, lembrou-se da primeira vez que atravessou aquela entrada, com Voo de Esquilo, Poça de Folhas e Pelo Gris, quando não passava de uma gatinha de gente abandonada e rejeitada, logo recordou de seus tempos de aprendiz de Poça de Folhas, uma nostalgia tomou sua mente, queria voltar no tempo e reviver esses bons momentos, quando ainda não tinha a cabeça cheia de preocupações e tanta culpa acumulada lhe causando peso na consciência.
Afastou esses pensamentos ao ouvir um miado alto de alarme, provavelmente os guerreiros de Estrela de Fogo já haviam notado sua presença, em poucos segundos já se viu cercada por eles, alguns rangiam os dentes de raiva, com as garras expostas e prontos pra atacar, mas Pelagem de Carvão ficou calma, não teria forças pra reagir caso a ferissem mais do que já estava, ergueu seu olhar e viu uma figura marrom abrindo caminho dentre os tantos guerreiros que a cercavam, era Garra de Amora Doce, o reconheceu pela voz.
—Garra de Amora Doce: Pelagem de Carvão, o que faz aqui? É um ataque do Clã do Rio, é? (Falou com deboche).
A gata negra abriu a boca para falar, mas sentiu uma tremenda dor de cabeça e uma tontura a consumirem, em alguns segundos sua visão ficou embaçada, logo tudo escureceu e perdeu a consciência, tombando para o lado, os gatos ao seu redor então repararam o quão ferida e magra a jovem estava, não sabiam se deveriam ter cuidado, pois poderia ser uma armadilha, ou se sentiam pena e a ajudavam.
—Garra de Amora Doce: Levem-na para a toca de Pena de Gaio e levem alguma presa fresca para que ela possa recuperar as forças, eu vou chamar Estrela de Fogo.
[...]
Pelagem de Carvão acordou deitada sobre um ninho de musgos, o cheiro de ervas medicinais lhe disseram que estava na toca de medicina, sua visão ainda estava turva, ergueu um pouco a cabeça afim de ver quem mais estava na toca, mal virou os olhos e já avistou uma peça de rato silvestre em sua frente, sua barriga roncou novamente, mas não sabia se essa presa era mesmo pra ela, então deu de ombros e se esforçou a se sentar, seus músculos pareciam frouxos de tão fraca que estava se sentindo, continuou a olhar em volta dentro da toca e se deparou com a figura de um gato azul cinzento sentado a boca da toca, provavelmente era Pena de Gaio, o curandeiro do Clã do Trovão.
—Pena de Gaio: Pelagem de Carvão. (Falou como cumprimento).
—Pelagem de Carvão: Como vai, Pena de Gaio? (Falou com a voz fraca).
—Pena de Gaio: Estou cuidando de uma gata ferida. (Se levanta). Que eu espero que coma esse rato antes que eu acabe comendo. (Falou cutucando a presa).
A gata se inclinou e abocanhou o rato, enquanto o curandeiro foi pegar algumas sementes que estavam separadas ao lado do ninho no qual estava deitada.
—Pena de Gaio: Quando acabar, coma essas sementes também, vão te ajudar a recuperar suas energias. (Volta ao lugar onde estava sentado de início). Depois vá ver Estrela de Fogo na toca dele.
A guerreira não disse nada, apenas terminou de mastigar e se voltou para as sementes, mas antes de abocanhá-las, se voltou ao gato azulado e começou:
—Por quanto tempo eu fiquei apagada?
—Pena de Gaio: Tempo o bastante para que Estrela de Leopardo percebesse que você sumiu. (Volta a cabeça pra ela). Ela veio até aqui e exigiu te levar de volta ao Clã do Rio, mas Poça de Folhas conseguiu convencê-la a te deixar aqui só até o sol a pino.
—Pelagem de Carvão: O que exatamente Poça de Folhas disse?
—Pena de Gaio: Pergunte a própria Poça de Folhas, ela também está te esperando com Estrela de Fogo.
Depois que acabou as sementes, Pelagem de Carvão se esforçou a ficar de pé, suas pernas ainda estavam meio trêmulas pela falta de energia em seu corpo, mas foi firmemente encontrar o líder. Ao entrar na toca, viu Estrela de Fogo e a filha conversando sobre alguma coisa, mas não deu atenção. Se aproximou deles e sentou-se.
—Estrela de Fogo: Pelagem de Carvão, que bom que acordou. (Falou seriamente).
—Poça de Folhas: A qual clã sua lealdade pertence agora?
—Pelagem de Carvão: Eu não acho que a vida como gata de clã seja pra mim, eu ainda estou confusa sobre qual é o meu lugar de verdade. (Falou fitando as próprias patas). Mudando de assunto, Asa de Mariposa me disse você está tendo visões sobre mim, o que é exatamente?
—Poça de Folhas: Eu sempre vejo você parada a frente do Clã do Sangue, mas nunca vejo claramente o que você está fazendo. (Suspirou). Não consigo entender o que significa, mas não deve ser coisa boa, afinal esse clã foi uma grande ameaça para a floresta. (Explicou hesitante).
—Pelagem de Carvão: O que? Eu nunca faria nada de mal a nenhum de vocês! (Afirmou convicta). Por que eu faria?
—Estrela de Fogo: Pelagem de Carvão, tem uma coisa que eu nunca te contei, eu deveria ter contado assim que você chegou aqui, mas tive medo de que você criasse ódio de nós.
—Pelagem de Carvão: O que é tão ruim que me faria ter ódio de vocês?
—Estrela de Fogo: Eu... eu matei Flagelo no dia que Estrela Tigrada morreu. (Falou relutante).
A gata negra ficou estática, fitando Estrela de Fogo, Poça de Folhas teve medo de que ela começasse uma briga ali mesmo, já podia até ver Pelagem de Carvão saltando sobre seu pai e lhe arrancando a jugular com uma dentada só.
No entanto, mal tiveram tempo de prosseguir, pois foram interrompidos por miados altos vindos da clareira, Estrela de Fogo saltou para fora da toca e viu seus guerreiros enfrentando invasores do Clã do Rio, os reconheceu ao ver Pé de Bruma e Estrela de Leopardo entre eles.
Poça de Folhas correu para a clareira rumando para a toca dos curandeiros, onde Pena de Gaio estava e, por ser cego, este não saberia o que fazer ou como reagir, enquanto o líder rubro correu para lutar.
Pelagem de Carvão ficou travada na boca da toca do líder, só observava a batalha, se lembrava da promessa que havia feito a Estrela de Fogo sobre alertar caso o Clã do Rio planejasse um ataque, mas agora via com seus próprios olhos que Coração de Cinzas estava certa, não podia proteger o Clã do Trovão se estivesse contra ele, só o que lhe consumia a cabeça era o fato de ter falhado em sua promessa, além disso, descobrira quem matou seu pai e destruiu seu clã de nascença.
Por mais que Flagelo só a maltratasse, ele era seu pai, ela o amou como um pai, isso era o que mais doía, os fatos de saber que Flagelo era um assassino, ser maltratada por ele e mesmo assim amá-lo como um pai eram semelhantes a dor de ser estraçalhado vivo, de ter cada membro de seu corpo queimado lentamente e não poder fazer nada. Pelagem de Carvão não queria nada daquilo, não queria nem ter nascido, esse era o seu maior erro, só o fato de existir já a fazia ter vontade de desaparecer como poeira, de nunca mais aparecer para o mundo.
Tudo o que aconteceu de errado nas últimas estações foram por sua causa, se não tivesse vindo para o território do Clã do Trovão não estaria acontecendo uma luta agora, se não tivesse vindo na noite passada Céu da Noite ainda estaria viva, se não tivesse se juntado ao Clã do Rio não haveria tanto conflito entre Estrela de Leopardo e Estrela de Fogo, se não tivesse saído do ninho dos Duas Pernas e vindo para a floresta nada sairia dos eixos, tudo ficaria no seu respectivo lugar, mesmo que isso significasse que ela estivesse morta agora.
Todos os sons a sua volta ficaram abafados, ao ver Estrela de Fogo derrubando um guerreiro do Clã do Rio, pôde visualizá-lo matando Flagelo, seu coração disparou e suas pupilas ficaram em fenda, seus olhos ficaram nublados de raiva, depois disso, só deixou sua raiva e ódio tomarem conta de seu corpo e guiarem seus movimentos.
Foi como num piscar de olhos, quando recobrou a consciência e acalmou sua mente, viu o estrago que fez em poucos segundos, olhou para as próprias patas imundas de sangue, viu que prensava Estrela de Fogo na grama, com suas garras ainda dentro de sua garganta, as pupilas dos olhos dele estavam completamente dilatadas e sua respiração não era presente.
Retirou-se rapidamente de cima dele, olhou em volta e viu todos os seus ex-colegas de clã se afastarem conforme abria caminho para passar, até mesmo Estrela de Leopardo estremeceu de medo, estava sem palavras e completamente travada fitando o corpo de Estrela de Fogo, sem saber se este ainda tinha vidas para sobreviver. Ouvia murmúrios sobre si vindos de diversos lados, até mesmo dos gatos do Clã do Rio:
— Oh, Clã das Estrelas. Não!
— Ela está possuída por Flagelo!
— Ela é perigosa! Afastem-se!
— Suma daqui, aberração!
Pelagem de Carvão correu para fora do acampamento desesperadamente, seguia sem rumo, deixando pegadas de sangue na grama, seus olhos se inundaram de lágrimas, não conseguia entender o que se passara, mas parecia que não era si mesma agindo ali, era como se Flagelo estivesse lutando sob sua posse.
Logo chegou ao rio, sabia que suas patas estavam cansadas, mas não se importava, só o que queria era sair da floresta e desaparecer para sempre, só haviam perdas naquele lugar, não se sentia mais em casa, tudo a sua volta não passava de uma prisão.
Continuou a correr beirando o rio, fechou os olhos e começou a ter flashbacks de Estrela de Fogo caído e morto sob suas garras, podia ver a dor e pânico que o líder teve ao ser atacado e assassinado assim, nem sabia se ele tinha vidas sobrando para que pudesse voltar a respirar. Pôde ver o horror nos olhos de todos que estavam a sua volta, e não deixou de notar que Coração de Cinzas estava entre eles, com uma expressão assustada.
Depois disso, reabriu os olhos e se viu a beira da ponte dos Duas Pernas, só então percebeu o quanto correu, sentiu-se tonta e tombou de lado, mal sentia suas pernas, além disso, seus ferimentos não estavam nada bem, alguns voltaram a sangrar e pareciam ter sido abertos ainda mais durante a corrida, seu coração palpitava rapidamente e sua respiração era profunda, só o que queria era descansar, mas ali não era um bom lugar, já que a qualquer momento poderia passar um monstro dos Duas Pernas.
Se levantou e observou bem se o caminho estava livre, deu alguns passos largos para acelerar o ritmo, mas travou ao ouvir o rugido de um monstro chegando, olhou para o lado e viu uma enorme criatura dos Duas Pernas se aproximando a toda velocidade, se sentiu cegada pelos olhos brilhantes do monstro, nunca se sentira tão apavorada antes.
A última coisa que sentiu foi um impacto de colisão, então foi jogada longe ao longo do Caminho do Trovão, rolando pelo chão sólido e áspero e se cortando por todo o corpo, se esforçou para abrir os olhos e se manter acordada, só o que viu foi o monstro parando, um Duas Pernas saindo de cima dele e se aproximando com um braço estendido, depois disso sua visão se embaçou e tudo escureceu.
[...]
No acampamento do Clã do Trovão, Poça de Folhas e Pena de Gaio estavam cuidando de Estrela de Fogo, felizmente este perdeu apenas uma vida no ataque de Pelagem de Carvão.
—Poça de Folhas: Você só tem mais duas vidas agora, pai. (Falou colocando algumas folhas sobre seus ferimentos).
—Estrela de Fogo: Isso é o que menos me preocupa, sinto que Pelagem de Carvão não vai mais nos ver como uma família. (Falou com as orelhas baixas).
—Pena de Gaio: Não sei como ela conseguiu fazer tal estrago, nem mesmo um cachorro teria feito isso. (Falou tocando no ferimento na garganta do líder, percebendo o quão profundo estava). Que bom que essa não era a sua última vida.
—Poça de Folhas: Bom, Estrela de Fogo está vivo e é o que importa. O que me preocupa mais é que Pelagem de Carvão provavelmente vai seguir minhas visões agora. Ela vai trazer o Clã do Sangue de volta e vai trazer a fome e a peste de volta para a floresta.
—Pena de Gaio: Talvez eu possa me encontrar com ela em um sonho e explicar com mais calma o que realmente aconteceu.
—Estrela de Fogo: Faça isso, Pena de Gaio. Acho que é a nossa única opção já que não sabemos onde Pelagem de Carvão está.
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