A Jornada Para o Último Céu

154 Capítulo 150 - Sacerdotiza


Quando eu acordei assustada, me deparei com um quarto frio e com uma decoração de péssimo mal gosto, haviam vasos com figuras horrendas esculpidas, estátuas de criaturas que pareciam demônios, mas com um traço diferente dos que estávamos acostumados a ver em livros ou até mesmo aqueles que eu e meu irmão encaramos na praia.

Ao redor da cama havia um tapete de veludo vermelho, os quadros eram de guerreiros anciãos com armaduras rubras e pretas, em cima da penteadeira havia um jarro com água e algumas ervas medicinais, um incenso estava queimado na escrivaninha ao lado da janela, havia um espelho redondo e algumas caixas com maquiagem, me dei conta de que aquele era um quarto feminino, o aroma do incenso parecia de pêssego, era bem agradável, a janela estava fechada mas eu via a fraca luz solar batendo contra o vidro opaco, não havia barulho lá fora, ouvia apenas som do vento e um fluxo d’água que devia ser de alguma fonte.

Me levantei e caminhei até a porta, quando a abri, do lado de fora estavam duas mulheres vestidas com túnicas pretas e bem ajustadas em seus corpos, elas tinham por volta de 30 anos, estavam com a cabeça abaixada abrindo espaço para que eu pudesse passar pelo corredor estreito daquele salão.

— Saudações, mestra!

As duas falaram em sincronia, surpresa, eu não conseguia responder ou nem se quer perguntar o que era aquilo tudo.

Olhei rapidamente para meu corpo e vi que eu não estava trajada como minhas roupas, eu estava em um traje preto com detalhes em vermelho, uma saia curta e o robe com um decote digno daquela putinha demoníaca, eu fiquei envergonha por um momento mas precisava saber onde estava.

— Quem são vocês? Onde é esse lugar?

Obviamente eu devia tomar cuidado com minhas palavras, eu estava possivelmente em um território inimigo, talvez, feita de refém, eu não sentia QI’s poderosos por perto, muito menos do meu irmão.

Comecei a ficar preocupada, ainda mais percebendo que minhas adagas e leques não estavam por ali.

— Mestra, não se preocupe, vamos para o salão fazer sua refeição, você deve estar com fome.

Uma das mulheres respondeu enquanto esboçava um sorriso singelo em seu rosto cansado, ela parecia ser uma serva leal e dedicada.

— Como assim mestra? Quem vocês pensam que eu sou?

Naquele momento, um homem de meia idade apareceu com robes rústicos pretos com uma túnica que remetia a algum sábio estudioso, seu chapéu quadricular e monóculo o faziam parecer alguém importante, mas ele se dirigiu até a mim com servo nervosismo e até gaguejando.

— M-mestra, desculpe se te acordamos, eu pedi aos guardas para não fazerem muito barulho...

Ele se curvava movendo sua cabeça pedindo desculpas.

Aquilo era uma armadilha, não tinha como ser outra coisa.

Devia ser uma ilusão (?)

Foi então que me lembrei de tudo que estava acontecendo antes de estar ali.

A demônio do sangue havia me capturado, ela me derrotou, a irmã Hiang também perdeu, mas por quê ela me manteu viva? Onde está a irmã?

Eu fitei aquele senhor que parecia esperar alguma resposta enquanto ficava mais impaciente e suando frio.

— Quem me trouxe até aqui? Responda.

Eu levantei o tom de voz mas o servo pareceu ficar ainda mais atônito, ele gaguejou muito mais e afastava seus olhos quando olhava diretamente em meu rosto.

— Mestra, mestra...Não se lembra de nada? Acho que o choque foi muito grande.

“Se eles pensam que eu irei cair em alguma armadilha estão enganados.

Eu não podia estar morta, eu sentia meu coração bater, ouvia sons e sentia o cheiro do incenso saindo do quarto ainda, eu não sei como é o pós vida, mas não acho que seja uma repetição igual do nosso mundo.

— Eu não vou mais perder tempo, me mostrem a saída desse lugar.

Apesar de dizer isso, eu sabia que haviam guardas por lá, sem minhas armas, eu poderia apenas confiar no meu kung-fu, mas eu não era tão boa com as mãos livres.

No meu treinamento, junto do meu irmão, ele sempre me disse que eu era muito rápida com as mãos segurando uma lâmina, eu comecei a me aprimorar mais no uso de adagas e também dos meus leques, ele sempre me elogiava e aquilo me deixava muito feliz.

Treinei apenas com os punhos mas eu havia me acostumado a segurar algo, eu decidi me focar nessa especialidade, Mujang também havia apoiado a ideia.

Eu cresci em um clã de assassinos, apesar de não me lembrar muito da infância, eu ainda tinha rápidos lampejos e sentia que no meu subconsciente haviam técnicas gravadas que eu usava instintivamente.

— Mas por quê quer sair mestra!? Você sabe que não duraria lá fora!

Uma das servas disse com o tom de voz preocupado e alto.

— Como não aguentaria? Onde estão minhas adagas?

— Acho que a senhora está confusa mestra, vamos falar com o Lee-Sun, ele saberá te orientar.

O homem mostrou um caminho em sua frente que aparentemente levava até um grande salão.

Eu não sabia como agir, já que eles não iriam me ouvir de todo jeito.

O que me restava era ‘entrar’ naquele jogo e tentar recuperar minhas armas, mas não sabia se isso seria possível.

Se eu começasse uma luta ali, os guardas poderiam aparecer, eu não sei quantos lutadores há por aqui.

Em uma olhada rápida ao redor, vi que era um tipo de fortaleza com muitos corredores e possivelmente muitos cômodos.

Eu vi de longe dois guardas passando como se estivessem patrulhando com espadas curvadas.

O que eu deveria fazer? Eu fui levada pra uma armadilha, isso era certo.

Eu decidi ir com o ancião para onde quer que seja

Chegamos em um salão luxuoso repleto de vasos e itens em ouro e diamante, havia muitos guardas e empregados bem trajados, todos com trajes pretos e vermelhos, logo eu já percebi que aquela era a seita do sangue.

Eu sabia que havia algo de errado por ali, mas não senti hostilidade nas pessoas, na verdade, eu ainda não sentia.

Se eles soubessem quem eu era, certamente eu estaria morta, ao menos que eles queiram extrair algo de mim, mas não sei se me tratariam bem dessa forma.

Eu comecei a suar frio ao me sentar em uma poltrona designada, várias pessoas se curvavam ao me ver.

— Ei, chega disso, não vou apenas me sentar e ficar calada, o que está acontecendo?

Eu não podia mais seguir com essa farsa, mesmo se fosse para lutar com todos ali de mãos vazias, eu não podia ser levada a uma armadilha mais profunda ainda.

— M-mestra, sei que está ansiosa, mas fique calma, você acabou de acordar depois de um grande trauma.

O homem velho que havia me conduzido até lá começou a tentar me acalmar.

— Eu não sou quem pensam que eu sou!

— Você é a nossa sacerdotisa, estávamos a sua espera.

Um homem com aparência elegante, cabelos longos castanhos e um olhar jovial e doce se aproximou de mim fazendo reverência.

— Sacerdotisa do que? Eu não sou nada disso!

— Você é a nossa sacerdotisa do sangue, você tem a marca, não tem como negar isso mestra!

— MESTRA!

— Por favor nos dê sua ajuda!

— Mestra, não nos abandone mais!

Várias pessoas começaram a falar alto enquanto se ajoelhavam na minha frente, todos não pareciam estar fingindo.

Eu olhei para uma mulher em minha frente que apontava para o meu tornozelo, eu olhei rapidamente e vi lá uma marca de nascença que eu tinha, que era uma mancha amarronzada em formato de uma cruz.

Desde pequena eu sempre tive essa marca, mas nunca dei importância, afinal, parecia apenas uma pinta de nascença, mas agora várias pessoas apontavam para a mesma dizendo que eu era uma sacerdotisa.

— Você é a reencarnação da sacerdotisa do sangue.