A Jornada Para o Último Céu

150 Capítulo 146 - Onde Pertencia


Eu sabia que não podia vacilar

Um único movimento daquilo e eu estaria morto, mas havia um dilema agora: Como eu poderia matar a amiga de Huo-Lei?

Meu irmão jamais me perdoaria se eu fizesse algo com seu corpo, mas se eu também não fizer nada, todos aqui morremos

Eu ainda guardei a técnica do expurgo, eu sabia que teria que usá-la de toda forma, quem me avisou sobre isso parecia saber sobre o futuro

Aquele homem…Quem ele poderia ser?

Quando me dei conta uma espada estava na minha garganta

Eu desviei saltando para trás mas ela perfurou parte da minha pele

Em seguida eu vi uma rajada de vento voar na minha direção, rebati todas com a espada mas atrás de mim, um chute me atingiu quebrando algumas costelas

Não consegui me equilibrar e recebi dois cortes, ela carregava sua adaga em uma mão e um leque na outra, rindo enquanto saltava de um lado para o outro me cortando lentamente

Eu não brincava assim em um corpo humano bom a tempos, não sei como mas essa menina tem o corpo melhor que a de um demônio!

Esse demônio está em um nível acima de todos que já vi no murim, mesmo essa demônio do sangue e a do veneno que enfrentei antes, mesmo Zhao-Kung, o que diabos era isso?

Como ela pode possuir os corpos livremente?

Até hoje na história do Murim houve poucos relatos de possessão, e quase que a maioria deles, os espíritos e demônios entravam em corpos de pessoas sem fluxo de QI, ou então pessoas com fluxo de QI baixo, da seita do sangue ou que fizeram algo pacto demoníaco

Deixando de lado minhas indagações, me defendi de um golpe que mirava meu rosto, eu rolei para trás mas fui atingido por um golpe de punho me fazendo ser arremessado para longe.

Eu caí de costas no chão cuspindo sangue, meus orgãos doíam, eu não tinha mais como evitar aquilo.

Você não vai lutar? Por quê é o corpo de uma amiga, é? Mas sabe que se não fizer isso, TODOS aqui vão morrer.

A mulher riu enquanto eu tentei o que pude para conjurar um feitiço de paralização, mas ela foi mais rápida e chutou meu rosto arrancando alguns dentes da minha boca enquanto eu cambaleava para trás.

A presença de demônios nunca foi algo que colocou o murim em alerta, até porque, muitos mestres e cultivadores podiam erradicar a maioria dos demônios facilmente.

O culto ao Criador havia sido perdido com o passar dos anos, as pessoas passavam a cultuar mais seus selos e gerações do que quem os criou e o murim, e isso também parece ter diminuído a atuação dos demônios, mas esses acontecimentos de recentemente mudam tudo.

Esses portais, você é responsável por eles?

Eu tentei ficar em pé enquanto respirava fundo e recuperava energia, tentei enrolar a mulher que parou sua adaga.

Hã? Não mesmo, eu não tenho nenhuma legião ao meu controle e nem perderia tempo abrindo um portal, aliás, pra me mover, sem a posse de um corpo ou um ritual de sangue eu não seria capaz, os portais que você viu são portas de criaturas menores, não me relacione com elas

Isso quer dizer que aqueles demônios que surgiram dos portais, e um dos que eu treinei, era bem inferior ao nível dela? Desde o começo…Eu nunca tive chance.

— Por você ter me dado uma boa luta antes, vou te dizer mais uma coisa: Há humanos no inferno e eles conseguem transitar livremente pra cá, eu os invejo, mas na verdade, seria chato demais dizimiar esse lugar assim.

Ela avançou em minha direção e cortou minhas pernas e minha orelha direita.

Eu me afastei dando golpes com a espada que afundaram no chão, ela ficou parada deixando um corte perfurar seu abdomen.

— MALDITA!

— HAHAHAHA, doeu mesmo, você vai mutilar sua amiga né?

O que eu faço? Ela quer que eu mate mesmo Hiang-Lin, essa criatura é cruel, mesmo que eu a mate, quem sabe ela não poderá ir para outro corpo? Minhas escolhas são escassas, não posso me dar ao luxo de perder a chance, se não há outra maneira, talvez eu deva…

Antes que eu pudesse elaborar o meu plano final, eu senti a espada de Hiang-Lin entrar em meu estômago, eu me ajoelhei e cuspi sangue em minhas mãos.

Meu QI já estava quase no fim, foi quando senti um calor vindo por trás.

— REAJA!

Eu olhei para trás e vi aquela demônio do gelo apontando suas mãos em minha direção enquanto seus últimos vestígios de QI eram direcionados a mim.

Em um impulso, eu me afastei do corpo da demônio e fiz a lâmina sair do meu corpo indo para frente, eu comecei a correr tentando me distanciar o máximo possível.

— Haha, essa aí também parece uma barata!

Eu comecei a disparar golpes cortantes com a espada para não deixar com que a mulher acertasse Yi-Fang que se arrastou até se encostar no tronco de uma amoreira.

“ — Escute rapaz, você não precisa fazer isso sabe."

Enquanto treinava naquela cabana isolada na montanha, eventualmente, o homem de cabelos verdes vinha me inspecionar, e certo dia, ele me deu a opção de ‘desistir.’

— O que você tá falando? Já to nisso há um mês, ou quem sabe mais, por que eu desistiria agora?

— Por quê você vai morrer.

Aquelas palavras não me surpreenderam de alguma forma, eu sabia que a técnica que eu usaria era suicida, ele havia me avisado antes, mas mesmo assim, eu continuei aprendendo-a.

— As chances não são 100%, então eu ainda posso escapar.

— Você sabe que é quase impossível

Meu irmão está fugindo há mais de um mês! O que passei até agora nem se compara com o que ele está passando! Como acha que me senti ao não poder ajudar em todas essas lutas? Contra Thaozan-Feng, Zhao-Kung, a seita da jade, os demônios, o império…Ele superou tudo isso sozinho, ele perdeu um companheiro, e eventualmente ele descobrirá a cruel verdade… Por quê eu devo ser poupado e não ele? Nesse plano, as chances dele morrer enfrentando essa calamidade são muito maiores!

Era verdade, Huo-Lei era mais fraco fisicamente do que eu, mas ele era uma pessoa espiritualmente muito mais forte.

Mesmo com os maus tratos que sofria, ele ainda me ajudava com técnicas de esgrima, eu sempre fui melhor em conjurar magias com QI, mas com a espada ainda me faltava destreza, ele se dedicava a me ensinar mesmo eu algumas vezes o evitando para não ser maltratado pelos outros também.

Várias vezes evitei de falar com ele e Jia-Li para não sermos vistos juntos, eu fui um covarde, um desgraçado que não merecia ser poupado.

Mesmo depois de passarem por tudo na seita, eles ainda precisam ser perseguidos pelo império?

Eu conhecia bem Huo-Lei, ele não era uma pessoa ruim, pelo contrário, era a pessoa mais gentil que conheci, ele nunca abriria mão de ajudar um companheiro, mesmo que isso custasse sua vida, então por quê eu deveria hesitar agora?

Desde pequeno eu fui ensinando por meu avô que tinha que ajudar o próximo, ele era uma das únicas pessoas no murim que acreditavam em um Deus, diferente do Criador, uma entidade que havia regido o mundo e que era quem realmente nos fornecia o QI

Eu passei a crer nisso, mas nunca tive coragem de manifestar esses pensamentos com medo da represália que passaria, eu sempre tive medo de como seria visto

Huo-Lei podia apenas negar o seu pai e tudo ficaria bem

Ele poderia apenas fingir quem era e viver uma vida boa na seita, mas ele nunca fez isso.

Ele continuou apoiando sua família mesmo após apanhar e ser excluído.

Era óbvio quem era mais forte.

Mesmo que ele tenha me dito aquilo na montanha aquela vez…Eu sabia da verdade.

“ — Faça como quiser.”

O homem de cabelos verdes deu de ombros, mas eu o vi sorrindo de relance.

Essa era minha escolha.

Ao me afastar por alguns metros, eu fiz um círculo no chão com meu sangue e comecei a conjurar a técnica final do expurgo.

— Você sabe que magia negra não funciona contra mim né?

Quando a mulher se aproximou sorrindo e debochando, eu consegui finalmente entender o meu real objetivo.

“Irmão Ning, vamos sair dessa seita juntos e explorar o mundo, eu quero conhecer todas as regiões do murim, e saber o que realmente está por trás daquele vasto céu.”

Aquelas palavras do meu irmão me fizeram entender onde eu pertencia.

— TÉCNICA FINAL DO SANGUE: EXPURGO.