A Jornada

8 Estilhaços


Notas iniciais
Mais um capítulo, minna-san :) Espero que vocês gostem!

Capítulo 8 – Estilhaços

— Obrigada por permitir que fiquemos aqui essa noite, senhora Gonzalez. – Wendy falou, agradecida. A mulher a sua frente, muito parecida com Mary, sorriu e acariciou os fios negros da menina.

— Eu que tenho que agradecer por cuidar da minha filha. Você a faz muito feliz, Wendy.

Wendy sorriu com aquilo e apertou a mão da namorada, olhando-a de rabo de olho.

— Acho que sou eu que tenho que agradecer. – falou baixinho, mas a mãe de Mary já não olhava mais para as duas.

— Me desculpe o inconveniente, mas nós não temos quarto de hóspedes. – ela disse para Adam. – Você se incomodaria de dormir no quarto do Antonio?

Antonio, o irmão mais novo de Mary, o garoto de olhos chocolate e cabelos da mesma cor, de pele morena e uma expressão constantemente desinteressada e indiferente. Adam suspirou internamente, era péssimo em lidar com pessoas que fugiam do seu círculo de confiança, ou seja, pessoas desconhecidas. Não gostava de incomodar também, mas lá estava ele, com uma mochila de roupas nas costas e totalmente sem rumo.

— Claro que não. Por mim, tudo bem. – ele sorriu e a mulher suspirou em alívio.

— Antonio, por favor, leve o Adam para o seu quarto. Eu já subirei para te ajudar a arrumar um colchão para ele dormir.

O garoto assentiu, silencioso, e começou a subir as escadarias para o andar de cima. Adam seguiu Antonio em silêncio, massageando suas têmporas a fim de tentar amenizar a dor de cabeça horrorosa que sentia. Sentiu seu celular vibrar, mas resolveu ignora-lo. Ele só queria tomar um banho, um analgésico e deitar em uma cama.

— Bom, é aqui. Você pode ir tomando banho enquanto minha mãe e eu arrumamos a cama para você poder dormir. – Antonio disse e indicou com a cabeça a porta do banheiro. Adam assentiu e esperou que ele saísse do quarto, mas o garoto não o fez. – Antes, eu tenho que te agradecer.

— Agradecer pelo quê?

— Por cuidar da minha irmã, mesmo que indiretamente. – Adam fez uma careta de quem não estava entendendo nada e, então, Antonio sorriu. Parecia muito mais velho que um garoto de 15 anos. – Ao cuidar da Wendy, você acaba cuidando da Mary também. Ela é muito feliz ao lado da sua irmã e, por isso, eu agradeci. Não posso fazer muitas coisas pela Mary, mas sempre quero vê-la feliz. Ela está sempre cuidando de mim e de nossas mães, e eu gostaria muito de retribuir de qualquer forma que eu achar. Além disso, ela sempre enfrentou muito preconceito de outras pessoas, por ser filha de um casal homoafetivo e por ser homossexual também. Ela merece ser feliz.

— Eu compartilho do seu desejo, Antonio. E só de você pensar dessa forma, já está cuidando de Mary. – Adam disse e sorriu, pensando em como aquilo havia soado familiar para si. Era o que pensava todos os dias da sua vida: queria cuidar de Wendy sempre, mesmo que ela não quisesse os seus cuidados.

— Obrigado. – Antonio concordou e saiu dali, permitindo que Adam ficasse sozinho.

O rapaz respirou fundo e sentiu o celular vibrar novamente. Pegou o aparelho e constatou que havia recebido duas mensagens de Kimberly. Seu coração deu um salto em seu peito e, então, tratou de lê-las rapidamente.

Ei, Adam. Você ainda está acordado?’, era o que dizia a primeira mensagem. Enquanto a segunda dizia apenas ‘Deve estar dormindo. Tudo bem. Eu só queria lhe agradecer por oferecer a sua ajuda, mesmo depois de termos ficado sem nos falarmos por muito tempo. Espero que esteja tudo bem com você e com a Wendy, e que a conversa com a Hilary tenha dado certo. Qualquer coisa, eu estou aqui. Boa noite.

Ele sorriu. Era bom saber que Kimberly estava, oficialmente, de volta a sua vida. Nunca tinha tido coragem de revelar seus sentimentos para ela, mesmo que já os conhecesse desde a época do colegial. Mas, agora, não perderia essa segunda chance que havia sido lhe dada. Adam sabia que não poderia abrir mão da sensação acolhedora que sentia quando estava perto dela e, mesmo que ela não aceitasse seus sentimentos, ele se manteria por perto dessa vez, como um guardião silencioso. Ele estaria sempre ao lado dela, não importava como.

Pegou o celular e respondeu. ‘Desculpe a demora em responder. A conversa com nossa mãe foi desastrosa, e ela expulsou Wendy de casa. Viemos os dois para a casa da Mary, provisoriamente, até acharmos algum lugar para ficarmos. Você pode me agradecer indo a uma sorveteria comigo amanhã, que tal? Eu lhe conto tudo o que aconteceu e nós poderíamos conversar sobre como encontraremos Blake Foster.’

Poucos minutos depois, o celular vibrou de novo. ‘Fechado. Boa noite, Adam. Espero que as coisas melhorem para nós’. Ele sorriu com aquilo e enviou outra mensagem desejando uma boa noite para Kimberly.

Era óbvio que ele não hesitaria em ajudá-la. Apesar de tudo o que tinha acontecido naquele dia e apesar de estar triste por ter assistido a briga entre sua mãe e sua irmã, Adam se sentia minimamente feliz. Kimberly havia voltado para as vidas dos irmãos e isso preenchia seu coração com um sentimento suave e caloroso, assim como ela.

Ele não sabia ao certo quando começou a ver Kimberly de um jeito diferente. Não sabia quando ela passou de uma amiga de infância, para a garota de seus sonhos. Mas ele sabia que toda vez que ele a via passar pelos corredores da Universidade de Los Angeles, seu coração se apertava. Ele se apertava porque Adam sabia que ele gostaria de estar perto de Kim, de abraça-la quando ela precisasse ou de apoiá-la em suas decisões. Mas, naquela época, isso era algo impossível.

Balançou a cabeça, espantando aqueles pensamentos. O que havia passado, não tinha mais volta. Mas, de agora em diante, ele poderia fazer diferente com relação a Kimberly. E ele o faria.

Adam tomou coragem e caminhou até o banheiro. Deixou que a água quente lavasse todos os seus pensamentos sobre Kim. Ele acreditava em destino, e se o destino dos dois estivesse conectado, mais cedo ou mais tarde eles ficariam juntos. Ele só precisava ter paciência e permanecer ao lado dela sempre que pudesse.

Permitiu então pensar sobre sua família. Seu pai trabalhava como marceneiro, ganhava pouco e gastava muito com bebidas. Ele possuía um temperamento agressivo e descontava suas frustações do trabalho, da família, da falta de dinheiro na bebida e na mãe de Adam. O rapaz havia crescido com este exemplo de homem e nunca havia passado na sua cabeça que gostaria de ser como o pai. Ele o odiava, odiava a forma como ele tratava sua família e odiava ainda mais o fato de que ele não podia fazer nada em relação a isso. Sua mãe mal tinha terminado o ensino médio, havia engravidado com dezesseis anos e seus pais a forçaram a se casar com George. Desde então, ela aguentou o fato de ser traída, agredida e destratada pelo marido. E, mesmo depois de tudo aquilo, Hilary continuava naquele casamento fadado ao fracasso desde o seu início. Adam já havia tentado convencer a mãe de denunciar o pai, mas ela sempre negava dizendo que ele era um bom marido e que confiava na promessa de que ele iria melhorar. Mas, isso nunca acontecia. Depois das flores, dos beijos e das promessas falsas, vinham os gritos e as agressões. Aquilo fazia o coração de Adam se comprimir no peito.

Adam tinha dois anos e não se lembrava direito da gravidez da mãe, mas lembrava vagamente que depois que Wendy nasceu, os gritos e as agressões pararam. E até que ele completasse cinco anos, a família viveu em paz. Até que, um dia, ao retornar do trabalho completamente bêbado, sem motivo aparente, ele achou que deveria culpar Hilary por algo. Ele lembrava-se dos gritos com clareza, apesar de ser tão novo naquela época. Lembrava-se do choro de Wendy que tinha apenas três anos e lembrava-se da promessa de que ele iria protegê-la a qualquer custo. Seu pai passou a noite fora naquele fatídico dia e voltou dois dias depois, com um buquê de flores muito bonito. Adam havia visto a mãe chorar durante aqueles dois dias e pensou que ela não o aceitaria de volta. Apesar de pequeno, ele sentiu pela primeira vez o que era decepção quando sua mãe aceitou as flores, as desculpas e a promessa de que seu pai seria um novo homem a partir daquele dia.

Quando Adam já tinha certa idade e já conseguia entender o quanto aquele relacionamento dos pais era abusivo e violento, ele começou a conversar com Wendy. Ele explicou que ela não devia achar que o casamento dos seus pais era um exemplo de como deveria ser um relacionamento normal. Ele explicou que ela tinha que ficar com alguém que a amasse e que desse valor a presença dela a todo instante, e que não a fizesse sofrer. Essa pessoa especial que ela escolhesse devia fazê-la feliz e não fazê-la chorar, como o pai deles fazia com a esposa. Em parte, a culpa pelo péssimo relacionamento entre Wendy e Hilary era dele, mas ele tinha feito o que fez pensando em proteger a irmã mais nova. E, se precisasse, faria tudo de novo. Ele faria por Wendy o que não pôde fazer pela mãe dele.

Ao fim do banho, Adam percebeu que lágrimas corriam por suas bochechas incessantemente. Era doloroso lembrar todas as coisas erradas que existiam na sua família, mas ele sabia que havia feito a coisa certa por Wendy. Hoje, ela estava ali, feliz com uma pessoa que a amava. E, se um dia, por algum motivo, o namoro da irmã com Mary não desse certo, ele estaria lá para consolá-la e ampará-la.

[...]

Notas finais
Bom, nesse capítulo, eu tentei abordar o relacionamento da Wendy e do Adam pelo ângulo do próprio Adam. Eu, sinceramente, acho muito bonito esse relacionamento dos dois. Principalmente pelo fato de que o Adam compreende a irmã mais do que qualquer e ele arriscaria a própria vida para salvar a Wendy de alguma coisa. O único desejo dele é ver a irmã mais nova feliz e não seguindo os passos da mãe deles. Em parte, o Adam é sim culpado pela má relação entre a Hilary e a Wendy porque, quando ela era pequena, ele meio que vilãnizou a mãe deles para a Wendy afim de tentar passar a visão do que era certo e errado para ela. Mas, é claro que a Wendy também levou em consideração todos os anos de sofrimento que eles tiveram que viver devido a Hilary não conseguir encerrar o relacionamento abusivo que ela vive. Infelizmente, isso é o que mais ocorre, não é mesmo? Bom, eu realmente espero que a Wendy e a Hilary consigam se entender novamente e, principalmente, Hilary consiga se livrar do marido abusivo, que é como um verdadeiro câncer na família do Adam. Enfim, eu espero de todo coração que vocês estejam gostado da história. E, lembrem-se, por favor minna-san, de deixarem o seu comentário para eu saber o que está passando pela cabecinha de vocês.