A Joia de Sangue
6 Pequena discussão noturna
Aos poucos fui abrindo os olhos sem ao menos lembrar-me porque estavam cerrados; permiti que os mesmos percorressem o ambiente, com um tanto de dificuldade e constatei que meu paradeiro era justamente o apartamento de Sherlock. Não pude evitar o sorriso que instalou-se em meus lábios e paulatinamente levantei-me, quando ouvi passos calculados que só podiam ser de uma pessoa.
Ele estava atrás de mim, porém vi pelo canto do olho que preparava sua pistola e instintivamente empunhei minha adaga. Graças a Deus nenhum dos dois fez o que se propuseram. — É você, Borough. Como se sente? — Holmes respirava fundo e suava frio, senti-me mal por ele. — Revigorada, Sherlie. — Respondi, em meu usual tom provocador que o deixa totalmente zangado. — Queria recordar como vim parar aqui. Esta proximidade faz-me evocar os velhos tempos. — Proferi, quase num sussurro, perigosamente próxima de seu rosto e notando os pelos de sua nuca arriçarem-se. Divertia-me sabê-lo incomodado com minha presença, era um jogo que estava disposta a vencer.
— Senhorita Borough não acha que seria melhor voltar a dormir? — Seu olhar evita-me a qualquer custo e subitamente bateu-me o desejo de abraçá-lo fortemente e gritar para que parasse de agir daquela forma, no entanto, aprendi a suster meus desejos; o que não significa ser algo simples, veja... Holmes foi o primeiro homem por quem nutri um sentimento mais forte que carinho. — Ora Sherlie, outra vez tratando seus amigos como meros conhecidos. Partiu meu coração novamente.
— Pare de chamar-me de Sherlie, está bem? Não sei se já percebeu, mas não temos mais vínculo algum. Deixamos de ter há muito tempo. — À última frase, sua voz converteu-se em um murmúrio, porém sua expressão permanecia impassível. Os olhos apenas dizem a verdade, aprendi a orientar-me por eles, e eles revelavam que o Holmes que tanto significou pra mim ainda estava lá.
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