A Joia de Indigy
1 O abrigo
Encarei as ondas que se chocavam com força nas rochas que rodeavam nosso abrigo pela janela, sem noção do tempo. Numa parte mais afastada da praia estavam vultos de pessoas que não identifiquei, pois não saíra do quarto aquele dia para saber quem iria verificar a presença de pessoas não desejadas após o temporal da noite anterior. O sol brilhava hoje em um céu sem nuvens, quase como um insulto. Não demoraria muito antes que alguém entrasse para verificar como eu estava.
Desisti do isolamento e me inclinei em direção às muletas improvisadas de madeira. Levantei-me da poltrona em que estava sentada. Agora eu não andava mais com dificuldade naquilo, e meu calcanhar enfaixado estava menos dolorido. A perna acima das faixas estava ainda um pouco inchada, mas não me preocupei. Antes de sair do quarto grande e simples, me olhei no espelho. Meu cabelo estava irregular: de um lado ele era longo e passava da cintura, enquanto do outro ele mal passava da altura do ombro. Dei uma risadinha, mas isso fez minha bochecha doer. Ela estava esverdeada e feia.
Quando abri a porta do quarto, uma moça mais nova que eu estava posicionada para bater na porta. Ela me avaliou de cima abaixo antes de se apresentar.
—Eu sou Sarah. Ajudei minha tia ontem à noite a te limpar e enfaixar seu pé. Como você está se sentindo?
Fiz um movimento para frente e ela se afastou para me deixar passar. Segui pelo corredor, em direção à cozinha.
—Obrigada pela ajuda, Sarah. Eu estou me sentindo muito melhor – Respondi, enquanto andava desajeitadamente pela casa – Onde está todo mundo?
Sarah me seguia apressadamente, com os braços erguidos caso eu me desequilibrasse. Finalmente cheguei à cozinha e me apoiei no balcão. Abri as gavetas, procurando pela tesoura grande que eu sabia que estava em algum lugar por ali.
—Alguns foram procurar mantimentos e outros estão na sala de reuniões. – Respondeu ela — Perguntaram muito sobre você, mas supuseram que não queria ser incomodada. Está com fome? Posso fazer algum lanche pra você. Ou então pode procurar por minha tia e os outros, a sala de reuniões fica...
—Eu sei onde fica, obrigada. –Interrompi. – Droga. Você sabe onde está a tesoura?
A garota pegou a tesoura no balcão. Estava tão óbvio e não percebi. Peguei a tesoura e desisti das muletas. Fui pulando com um pé só até o pequeno espelho que ficava ao lado da geladeira. Sarah veio atrás de mim. Comecei a cortar as mechas longas do meu cabelo do tamanho das menores.
—O que aconteceu ontem com você? – Ela perguntou.
Parei por um instante e a olhei pelo reflexo do espelho, tentando me lembrar. Eu nem tinha me dado ao trabalho de pensar naquilo durante o dia todo, mas agora vislumbres na noite anterior vieram à minha memória. A fogueira com pessoas em silêncio cercando-a, cujos rostos eu não conseguira enxergar, em silêncio enquanto comiam. Todas usando a pulseira de corrente verdes, com pequenas joias de cores e tamanhos diferentes. A casa velha vazia, onde estavam os instrumentos que eu procurara. Eu tinha tropeçado em alguma parte do piso frágil daquele lugar e prendera meu pé lá, caindo de cara no chão. Lembrei-me que, quando tentei levantar, enroscara meu cabelo em um lugar afiado e que fora doloroso sair dali. Mais doloroso correr para fora daqui. Mas eu recuperara o maldito instrumento, que não consegui identificar se era uma flauta ou um objeto além de minha compreensão. Eu estava querendo provar alguma coisa naquela noite. Fiz uma careta. Tudo isso porque...
—Ah sim. Aqueles babacas da Sociedade precisavam de alguém que não fosse conhecido pelos Verdes para tomar de volta os instrumentos históricos que possuem algum valor provavelmente sentimental e ridículo, mas aparentemente eu não estava “treinada o suficiente para esse tipo de missão”. – Resmunguei – Como se cinco anos não fossem o suficiente.
—Parece que eles estavam certos. – Sarah murmurou, olhando novamente para meu pé enfaixado.
Virei-me para ela e a encarei com meu olhar mais mortal, e ela não nem piscou, contrariando o que pensava ser uma pessoa medrosa. Como se lesse meus pensamentos, King entrou na sala falando:
—Não pense que irá assustar Sarah, Camellia. E nem que ela irá limpar essa bagunça que fez na minha cozinha.
Sorri para King, que agora não tinha mais nenhum cabelo castanho na cabeça. Tudo ali era branco, apesar do rosto quase jovem. Ele veio em minha direção, beijando minha bochecha que não estava machucada.
—Espero que minha sobrinha não siga suas ações impensadas quando assumir meu lugar. – Ele passou o braço ao redor dos ombros de Sarah. – Claro, ela não é tão irresponsável como você. Está aprendendo como curar pessoas e ser útil em nossa guerra de outra forma que não seja lutando. – Seu tom era orgulhoso.
Revirei os olhos e virei-me para o espelho novamente, cortando as mechas que faltavam. King era o líder da Sociedade dos Azuis há quase 25 anos e cometera pouquíssimos erros. E, ainda assim, insistíamos em não seguir algumas de suas regras (ora, elas eram tão... entediantes?) e obrigações. Apesar da expressão rude, ele era um senhor bondoso na maior parte do tempo. Criara-me quase como filha e era descendente daqueles a descobrirem sobre as joias. Junto com os Verdes e com os Dourados.
Demoraram mais de uma década para descobrir que o sentido da vida era o amor. Mais precisamente o que os chamavam de "alma gêmea", e o que hoje somente chamamos de alma. Aquilo que dá movimento a cada célula de nosso corpo para que possamos achar um sentindo em acordar, é o que dizem. Não sei dizer se foi pela observação de pessoas que não pareciam se machucar nunca por serem solitários, ou pelos casais que envelheciam e morriam juntos, porém felizes. O amor da alma de alguém cobrava sempre um preço.
É claro que, logo após a sua descoberta, surgiram perguntas. E como a maioria das perguntas sem resposta, eles recorreram à magia. Só que, agora, de fato descobrimos que havia uma magia que nos era permitida. A das joias. Com formatos únicos e cores variadas, foram a forma que os Primeiros, como chamamos os que as usaram primeiramente, encontraram para achar sua alma o mais rápido possível. As joias de cada alma eram iguais, mas não usamos mais o termo gêmeas, pois não são nem mesmo irmãs, mas parte de um só que foi dividido. Como foram divididos e funcionavam eram uns dos segredos dos Primeiros, e que seriam passados para a terceira geração após eles, como era o caso de Sarah.
O padrão de almas sempre foi igual. Nunca houve pessoas que, assim que encontrassem a joia igual à sua, voltava a se machucar, ou sentir algo por outra pessoa. Havia muitos que preferiam a solidão, que poderia lhe dar muitos anos contra seus inimigos do que isso. E muitos inimigos se formaram desde então. Segredos nos cercavam, e o pouco que eu sabia me fazia sentir sufocada.
Olhei para o colar de corrente azul escura em meu colo, onde a pedra com padrões brancos e esverdeados do tamanho de uma uva repousava. Ela estava fria e fosca, quase completamente lisa, com uma lasca em sua superfície. Disseram-me quando era pequena que elas nunca quebravam e nunca eram forjadas. Eram daquele jeito e pronto.
—Quando terminar de limpar esses cabelos sedosos do chão, nos encontre na sala de reuniões. –King interrompeu meus pensamentos — Precisamos conversar sobre a noite anterior.
Ele saiu da sala, levando a jovem consigo. Suspirei e me abaixei com dificuldade para limpar os fios negros de cabelo no chão.
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