A Joia de Indigy
3 O Vermelho
Enquanto estava envolvida em seus braços, a escuridão era tudo que eu via. As trovoadas do lado de fora ainda me faziam tremer, então minha mãe me abraçou com mais força. Quando percebeu que o abraço não era o suficiente, ela aproximou seus lábios de meu ouvido e falou com uma voz suave:
—Era uma vez três amigos. Se chamavam Hugo, Beau e Sofia. Eles eram muito inteligentes, e todos que moravam em sua vila sabiam disso. Observavam as pessoas que moravam lá e se preocupavam com seu bem-estar. Então, quando perceberam a praga não demoraram muito para buscar incansavelmente uma cura para aquela comunidade. Em alguma noite como essa, algo invisível aos nossos olhos foi sentido por todos da vida e no dia seguinte muitos morreram ou ficaram severamente doentes.
“Os amigos perceberam, então, que apenas aqueles que eram parceiros felizes estavam sofrendo pela perda. Ou sendo perdidos. Os solitários, em maioria os jovens, ficaram doentes por um tempo e rapidamente estavam saudáveis novamente. Pensaram que aquilo era uma tremenda coincidência. Quando foram dormir, tiveram o mesmo sonho ao mesmo tempo. Um mago lhes disse que o mundo estava cheio de amor, como recompensa pelos anos sem guerras e lutas após A Grande Revolução. Disse que a praga era a última forma de dizimação que ali apareceria, porque para receber recompensas, sacrifícios deveriam ser feitos. Ele pediu também que o encontrassem em uma gruta no centro da floresta que cercava a vila.
“Assim que acordaram, Hugo, Beau e Sofia foram em busca da gruta. Entretanto, quando chegaram lá encontraram milhares e milhares de pedras preciosas. Estudaram aquilo por anos até descobrirem o uso daquelas joias. E para espalharem suas descobertas, dividiram o nosso país em três regiões: Indigy, que seria liderada por Hugo e todos os seus habitantes usariam correntes azuis para suas joias, pois essa região era perto do mar e cheio de lagos; Aurum, liderada por Beau, onde seus habitantes usariam correntes douradas como os campos floridos de seu território; e Feulie, cuja líder era Sofia, das correntes verdes em homenagem à sua vasta floresta intocada.
“E, desde então, os descendentes de Hugo, Beau e Sofia, ou os Primeiros, vem liderando essas regiões.”
—Como King? – Perguntou minha voz infantil. Eu já tinha esquecido do temporal do lado de fora.
—Exatamente como King. –Ela apertou a ponta de meu nariz antes de se levantar de minha cama. – E agora você deve descansar. A cerimônia amanhã vai ser muito importante. Não está ansiosa para receber sua joia?
—Sim, mamãe. –Bocejei – Tomara que ela seja rosa.
Minha mãe deu uma risada antes de me dar um beijo na testa. Assustei-me quando ouvi um baque do lado de fora do quarto. Ela se afastou.
—Fique aqui. –Disse, antes de tirar sua adaga do cinto e correr para fora.
°°°
Senti dor no meu pescoço antes de abrir os olhos. Eu estava no chão. Tinha caído da cadeira que dormi aquela noite na enfermaria. Nora me pedira para ficar de olho nos rapazes que apareceram lá ontem (hoje já era ontem?) porque eles não tinham mostrado suas correntes a ela. Sabe-se lá onde ela estava quando os trouxemos para o abrigo, mas ela chegou tarde o suficiente para não a deixarmos acordá-los. Eu devia ter apagado poucas horas depois.
—Pesadelos? –Uma voz grave falou baixo ao meu lado.
O garoto loiro parecia muito melhor pelo que a luz sempre acesa perto da última cama da enfermaria me permitiu ver. Seus arranhões eram agora apenas vermelhidões em seu corpo, e o corte no braço estava quase completamente fechado. Não conseguia ver por trás do gesso em sua perna, mas supus que estava boa também. Finalmente olhei para seu rosto novamente. Ele deu um sorriso tímido e desviou o olhar.
—Onde está Mason?
—Seu amigo moreno bonitão? Sarah o convenceu a dormir em algum quarto por aí. Lembra da Sarah?
Ele balançou a cabeça negativamente. Levantei-me do chão e aproximei a cadeira da cama dele.
—Como está se sentindo?
—Muito melhor. –Sua voz estava rouca. Virei-me para a pequena mesa que estava ao meu lado e peguei o copo de água que estava ali, lhe oferecendo.
—Qual seu nome?
Ele deu um grande gole antes de responder.
—Ross.
—De onde você vem?
Ele hesitou.
—Eu sou um Vermelho.
Os Vermelhos eram aqueles que não pertenciam a nenhuma sociedade. Foram expulsos por algum motivo e eram chamados assim, pois suas correntes perdiam a cor original, adquirindo um tom enferrujado, vermelho. Eles ficavam nas terras selvagens que nenhum dos Primeiros se atreveu a ocupar, devido às lendas sobre aquele lugar sombrio. Nós sabíamos que os Vermelhos ficavam apenas na margem daquele território, já que ninguém sobrevivia além daquilo. Nunca representaram riscos importantes. Mais ainda assim violaram alguma lei.
—O que você fez? – Perguntei.
—Fui filho da pessoa errada. –Respondeu com rancor.
De fato, era comum que o indivíduo que quebrara a lei levasse sua família junto. Ross tirou do bolso de sua calça sua corrente enferrujada. A joia nela era lisa e fina como uma barra de chocolate. Parecia marfim, com uma única mancha negra no centro.
—De qual sociedade você era antes?
—Dourados. – Ele respondeu rapidamente.
Estreitei meus olhos. Ele estava em território dos Azuis. É claro que se fosse um dos Verdes mentiria devido ao conflito de anos entre os dois. Os Dourados, porém, sempre foram neutros aos ideais.
—É verdade.
—Muito bem. –Me inclinei em sua direção, estendendo a palma da mão – Então você não vai se importar em me emprestar sua joia por um minuto.
Nós, Azuis, possuímos mais truques que os outros. A não ser que os Verdes e os Dourados estivessem escondido seus talentos muito bem, mas eu duvidava. Os Vermelhos nada possuíam, então não me preocupei caso ele estivesse brincando comigo.
Ross me entregou a corrente. Fechei os olhos e a apertei. Senti aquela essência, o cheiro dos girassóis que às vezes encontrava por aí, que vieram de Aurum para Indigy. As flores dos dourados. Seu clima quente e o banho do sol. Eu sentia seu calor em minha pele, quase sentia os pensamentos pacíficos dos dourados. Abri os olhos.
—E seu amigo? –Perguntei enquanto devolvia sua corrente.
Ele coçou a cabeça, desconfortável.
—Bem, Mason...
—Camellia, querida, você poderia calar a porcaria da boca? Não é hora de interrogatório e não sei se você se lembra, mas meu quarto fica ao lado.
Virei-me para a porta da enfermaria. Lucas estava com o cabelo bagunçado e com um pijama pequeno demais com barcos estampados nele. Fui avisada mais cedo que o mais novo representante irritante da sede dos Azuis viria nos visitar, mas com toda aquela confusão tinha esquecido. Decidi ignorar o fato de que ele não tinha me cumprimentado mais cedo.
—Já estou acabando. –Gesticulei com a mão para que ele saísse. Ele o fez.
Voltei minha atenção novamente para Ross, procurando algum sinal de alívio. Nada. Seus olhos castanhos e grandes me encaravam com inocência. Ficamos assim por um momento e tentei memorizar seu rosto. Técnica que aprendera para notar mudanças mais facilmente. Acabei focando em pequenos detalhes, como a boca que estava um pouco apertada e as sobrancelhas levemente arqueadas.
—Você deveria descansar. – Disse finalmente – Essa conversa não acabou.
Levantei-me abruptamente, mas ele segurou minha mão.
—Obrigado. – Ele disse.
Olhei um segundo para seu sorriso doce. Desvencilhei-me rapidamente e fui para meu quarto.
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