A Joia da Loucura
5 Heather – Capítulo 5
Notas iniciais
– Heróis! – Exclamou o centauro fazendo com que os filhos de Ares finalmente se calassem. – Vocês conhecem as regras! O riacho é a linha divisória. A equipe azul formadas pelos chalés de Deméter, Apolo, Hefesto, Hermes, Íris e Nice, liderados pelo chalé de Atena estarão com o lado Oeste do bosque. Enquanto a equipe vermelha, formada pelos chalés de Afrodite, Dionísio, Nêmesis, Hebe, Hécate e Tique, liderados pelo chalé de Ares, estarão com o lado Leste. – Quíron continuava falando com calma enquanto observava os chalés se dividirem.
Heather notou que Quíron não havia citado os chalés de Zeus, Hera, Poseidon, Hades, Ártemis e nem Hipnos. Bem, soube que os membros do chalé de Hipnos só queriam dormir e os outros chalés eram vazios, sem semideuses. Mas reparou que os filhos de Afrodite estavam se armando para a batalha. Eles lutavam? Enfim, logo voltou a ouvir a voz de Quíron, e passou a se concentrar no centauro.
– Eu serei o juiz e médico do campo de batalha. Nada de ferimentos intencionais, por favor. Itens mágicos são permitidos. Assumam suas posições! – O diretor de atividades deu um largo sorriso para todos e Heather se juntou aos seus novos irmãos, e assim ficou a espera de novas ordens.
– Equipe Azul, siga-me! – A voz vinha de um garoto do chalé de Atena, ele deveria ser o conselheiro do chalé. À medida que os membros da equipe seguiam na direção apontada iam recebendo um corselete de couro e um elmo de penugem azul no alto da cabeça. Aos desarmados também davam espadas para a batalha e escudos pequenos.
A bandeira da equipe Azul acabou sendo presa em uma árvore depois de uma breve discussão com a ninfa moradora dali. Inicialmente a Dríade não permitiu que usassem sua árvore, mas acabou cedendo com um acordo firmado pelos filhos de Deméter. Heather não sabia muito bem o que precisaria fazer naquele jogo. Por isso parou ao lado de Ethan enquanto ele conversava com os seus irmãos sobre o jogo.
– Só para checar mais uma vez. O objetivo é trazer a bandeira da outra equipe para o nosso território, e impedir que eles peguem a nossa? Isso é moleza! – Heather sorriu, era boa em aula de educação física, sabia correr e esquivar, então talvez se desse bem naquilo.
– Ei, não vá achando que esse jogo é igual ao que os mortais jogam. O deles foi baseado no nosso, só que no deles não existem espadas, poderes e itens mágicos que podem ferir gravemente. No jogo dos mortais, você não pode ser transformada em um corvo para sempre depois de usar errado um presente! – Quem falava era Peter, logo encarando o irmão, Ethan, e sorriu numa piada interna. Heather não sabia o que significava, mas iria descobrir com Ethan, ele querendo ou não.
– Novatos! – novamente o filho de Atena, líder da equipe, falava chamando Ethan e Heather. Incluindo depois Elizabeth que havia acabado de chegar ao local com alguns membros do chalé de Hermes. – Virão com o meu grupo. Nossa missão é atravessar o bosque em busca da bandeira deles. Quero saber qual é o potencial de cada um, principalmente de vocês três. O filho do arqueiro e seu presente do pai, outra que é justamente reclamada depois da profecia e você, Elizabeth, soube o que fez com os Hipaléctrions. Veremos se são merecedores de atenção ou apenas semideuses com pura sorte de principiantes! Agora, sigam-me!
Assim que o jogo começou, o grupo andou. Seguir o filho de Atena por entre as árvores do bosque enquanto espadas se chocavam pelo grupo era complicado. Definitivamente, Heather achava o garoto louco e os estava levando direto para uma armadilha. Já tinham passado pelo Punho de Zeus, um amontoado de pedras que aparentavam ser um punho gigante, ao menos foi à descrição de Christopher — este era o nome do líder. E seguiam rumo ao riacho. Heather conseguia ouvir o som da água correndo logo a sua frente minutos antes de finalmente ver o riacho. Foi mais fácil atravessar o riacho do que esperava, não tinha nenhuma proteção ou semideus inimigo por ali. Pela estratégia de Christopher, dividiram-se em dois grupos e um deles seguiria pelo outro ponto do Riacho, atraindo a atenção dos inimigos. Desta forma os oito semideuses — Myra, a filha de Hermes; Drew, uma filha de Deméter; o filho de Atena; Richard, um garoto de Nice; e John que era de Hefesto; sem contar Heather, Ethan e Elizabeth — seguiram com tranquilidade pela margem do riacho avançando despercebidos pelo território inimigo. O território por sua vez era traiçoeiro. Christopher e John encontravam várias armadilhas montadas pelos semideuses inimigos. Em uma delas por sorte Heather não foi atingida por uma flecha envenenada que a faria desmaiar imediatamente. Era bom ficar na equipe dos estrategistas e não dos de força bruta. Bem, toda a sorte que Heather não era partilhada com Ethan, o garoto acabou sendo atingido por dois dardos nos braços, felizmente não estavam envenenados.
– Ok, aqui é o ponto onde nos separamos. John, Drew e Richard, venham comigo. Myra, você pode ficar com os novatos? – Christopher olhava para o grupo que "convocou", aguardando por uma resposta.
– Tudo bem. Gostei deles mesmo! Seremos uma boa equipe. Vão pela direita, que iremos pela esquerda. Avançando em um círculo, já sabemos que a bandeira deles está logo na nossa frente! – Myra sorriu e com um aceno de cabeça chamou Heather e seus amigos para seguirem o caminho da esquerda, enquanto o outro grupo seguia pela direita. O caminho ainda encontrava-se livre.
A frente estava uma clareira aberta, sem ninguém por perto. A bandeira estava logo no meio, cravada em um amontoado de pedras, e esta balançava ao vento. Aparentemente ninguém havia decidido tomar conta da bandeira, não até pegarem a dita cuja. Assim que Christopher agarrou a haste da bandeira vermelha, semideuses usando elmo de penugem avermelhada surgiram das árvores cercando o grupo da direita. Por sorte o grupo que Heather fazia parte não tinha se revelado e agora olhavam os amigos presos.
– Ora, ora! Olha só o que temos aqui! Uma coruja, uma erva daninha, um robô e um magricela! – A voz era de um garoto do chalé de Ares, ele estava sem o elmo e revelava o rosto duro e com uma cicatriz próxima do olho esquerdo, se fosse mais um pouco para o lado duvidava que ele ainda possuísse o olho. – Então, acho que sua estratégia hoje falhou. Hein, Christopher?!
– Acho que vocês nos pegaram Robert! Rendemo-nos! – O tom de voz de Christopher demonstrava diversão, porém o filho de Ares não tinha notado. Christopher estava tirando uma com a cara do rival, que sem notar havia caído na armadilha e decidiu se aproximar. Assim que deu um passo, Christopher foi rápido agarrando a mão dele e torcendo o braço do garoto enquanto dava um soco na boca de seu estômago. – Myra, agora!
Aquela era a deixa para o grupo avançar. Heather correu ao lado de Myra, erguendo sua espada e fazendo o que a garota tinha ensinado. Girou seu corpo sobre seu pé esquerdo, levando o punho de sua espada contra o rosto de um garoto que tinha acabado de se virar para ela, o atingindo no queixo e o levando direto ao chão. Os outros quatro garotos da equipe vermelha foram dominados rapidamente e atordoados sem chance de defesa.
– Agora, todos juntos corram de volta ao riacho! Tenham o cuidado de manter a bandeira no meio. Heather parece ser a mais rápida, então ela leva a bandeira. Quero uma formação de círculo a sua volta. Abram caminho para ela continuar correndo se formos cercados. Vamos, agora! – Christopher deu as suas últimas ordens. Heather recebeu a bandeira de Drew e assim se posicionou no meio do grupo. Realmente era a mais rápida e daquela forma, quem parecia ser mais experiente com espadas ou mais forte a protegeria.
No caminho encontraram com outros membros da equipe vermelha, só que Ethan fazia tudo o que Christopher dizia, aproveitando-se do seu presente. Uma hora usou uma flecha rede contra três garotas de Afrodite, em seguida uma flecha que aparentemente congelou os pés de dois inimigos no chão. Correndo com a bandeira ainda nas mãos de Heather, chegaram ao riacho. A filha de Íris parou de correr quando estava pronta para atravessar a água. Como a garota ainda segurava a bandeira os outros membros da equipe pararam de correr também, enquanto tentavam entender o que havia ocorrido.
– O que foi Heather? Está ferida? – Christopher perguntou, indo até ela. Nem ela entendia o porquê de ter parado, apenas sentia que algo estava errado. Eles não deveriam estar ali, ela tinha a impressão que estava sendo observada.
– Eu conheço essa cara! Quando ela faz essa cara... – Elizabeth comentou ao lado de Heather, e fez a filha de Íris saltar de susto ao ser desperta de sua concentração.
– Droga, não faça isso. E vamos falar baixo, tenho a impressão que tem mais alguém aqui conosco! – Finalmente ela respondeu e a resposta pareceu ativar algum sensor na mente de todos os membros de seu pequeno grupo. Todos se juntaram.
– Agora que ela disse, também tenho essa impressão! Achei que pudesse ser apenas o nosso grupo ou outros membros de nossa equipe, mas está errado! Está tudo muito quieto! – Myra concordou, fazendo com que Drew e Richard repetissem o gesto.
– Verdade, eu tinha sentido que alguém nos seguia, mas achei que era alguma Dríade ou da outra equipe também, mas pensando bem, se fosse uma Dríade teria mantido distância e se fosse da outra equipe já teria tentado nos impedir. É algo diferente! – Comentou a filha de Deméter. No mesmo momento o som de galhos se partindo foi ouvido atrás do grupo e todos os sete se viraram em direção ao som. Heather não entrava na conta do grupo, pois estava atrás deles e desarmada, tinha entregado sua arma a Drew. – Erro meu, não é algo tão diferente!
Novamente o som de galhos foi ouvido e em seguida um cheiro forte de pelo molhado preencheu o ar. Por fim um rugido arrepiou todos os ossos do corpo de Heather. De frente ao grupo dois pares de olhos surgiram por entre as árvores, se aproximando dos semideuses, onde com um pequeno feixe de luz que atravessava as folhas da árvore deu para identificar a criatura. Basicamente o monstro era constituído de duas cabeças, uma de leão e uma segunda de cabra em um corpo felino terminando numa cauda de serpente. Heather nem precisou que alguém falasse o nome daquele monstro, pois ela conhecia de todos os lugares. Era um dos monstros mais conhecidos da mitologia grega e estava ali na sua frente, mostrando suas presas de leão, pronto para atacar.
– Vamos todos devagar, quando eu mandar, vamos todos correr! – Christopher sussurrava por cima do ombro, enquanto dava alguns passos para trás. O animal a frente do grupo os seguia sem preocupação, parecia estar se divertindo ao sentir o medo de todos eles. – CORRAM, AGORA!
E assim todos se viraram e correram, se separando em algum ponto. Heather nem se lembrava do caminho que pegou, só sabia que Richard, Ethan e Elizabeth estavam junto com ela. E aparentemente seu grupo era o mais apetitoso para a Quimera que ignorara completamente os outros quatro semideuses, e agora corria seguindo eles, enquanto lançava fogo pelas narinas e queimava algumas árvores.
– Vão pela Direita! – Richard os guiava pelo bosque por ser o mais velho deveria conhecer melhor o lugar. Então ninguém discutia.
A Quimera ainda estava atrás deles, no entanto as Dríades deveriam estar ajudando, pois assim que os semideuses passavam pelas árvores, estas se moviam bloqueando a passagem do monstro. Heather notou que estavam se aproximando da formação rochosa semelhante a um punho erguido para o céu, provavelmente o tal Punho de Zeus. Continuaram seguindo diretamente para as rochas. Infelizmente, estavam em uma área onde a Quimera era mais rápida e se aproximava deles, lançando jatos de fogo. Ethan e Elizabeth foram obrigados a pular para o lado na tentativa de escapar das chamas e Richard não tivera a mesma sorte, pois acabou tendo uma das pernas atingidas pelo fogo. Enquanto o garoto chorava pela dor, Heather continuou correndo até a Quimera soltar fogo, dessa vez não na sua direção e sim em suas laterais. Heather notou tarde demais que a Quimera a havia cercado com o fogo na sua direita e esquerda, o punho de Zeus logo as suas costas. O animal moveu sua boca de um modo que aparentava estar sorrindo, se é que aquilo era possível, e voltou a caminhar com calma ficando de frente a Heather.
A filha de Íris deu mais alguns passos para trás, agora estava com as costas coladas nas rochas e com a vida perdida. Não teria como escalar ou passar pelos lados, pois o fogo ainda queimava. Iria morrer cercada por aquele monstro. Então fixando seus olhos nos olhos da Quimera, Heather reparou quando as narinas do bicho começaram a dilatar e brilhar, sentindo que o monstro lançaria mais labaredas em sua direção. Estava morta literalmente. A única coisa que conseguiu fazer foi fechar os olhos e rezar por piedade para a sua mãe, Íris.
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