A Jararaca
6 Operação Megera parte 2
No horário do intervalo, lá pelas 10h da manhã. Luís pulou a refeição e correu para o orelhão do outro lado da rua. A garoa havia passado, dando lugar à uma manhã cinza e abafada. Ele repetiu o ritual de colocar uma ficha na fenda perto do teclado do telefone público e discou.
— Alô, Marta? — iniciou o homem, com urgência, assim que ouviu alguém atender do outro lado.
— Luís Carlos? — perguntou Marta, com rispidez. — Que porra foi aqu...
— Er... As bandas de rock evoluíram muito, musicalmente... Né? — o loiro interrompeu, tentando soar o mais inocente possível. — Def Leppard lançou um álbum muito bom.
Merda! Será que ela mordeu a isca? E se ela contasse para o marido? Que desculpa Luís daria à Rodrigo por mandar música romântica para a mulher dele?
— É, essas bandas são boas, mesmo. — respondeu Marta, demonstrando não ter levado a situação para o outro lado. — Quer falar com o Rodrigo? Ele tá no banheiro.
"Graças a Deus... Ela não vai abrir o bico." pensou consigo mesmo, aliviado por poder dar continuidade ao plano.
— Não, eu só queria saber como você está.
— Ah, eu estou melhor. Obrigada! — respondeu a mulher, num tom mais afável. — "Tá" no intervalo?
— Sim. Eu fugi da firma pra poder falar com você! Eu não quero mais te ver tristinha, ouviu?
— "Tá" bom. — riu-se Martha.
Nos quinze minutos seguintes, Luís e Marta continuaram conversando sobre qualquer coisa. Antes que Marta fizesse menção em desligar, Luís Carlos inventava outro assunto só para esticar a conversa, até não sobrarem mais fichas...
— Eu vou ter que voltar pro trabalho. — disse o loiro. — Fique bem, tá? — acrescentou, com a voz mais grave e suave possível.
— Eh... Bom trabalho. Tchau!
O sinal do fim do turno tocou, indicando o fim do espediente às 14h. Luís Carlos saiu apressadamente da firma com sua bicicleta, pois antes de chegar em casa, tinha um lugar para visitar, ou melhor... Alguém.
Chegando no portão da casa de Rodrigo, Luís entrou sem nenhuma cerimônia, como sempre fazia. Entrou pela porta da cozinha e encontrou Marta, na pia, lavando a louça.
— Oi, Marta! — disse o homem.
— Oi, eh... — mal deu tempo de a castanha falar antes de ser surpreendida com um apertado abraço.
Luís segurou aquela mulher em seus braços com força, como se quisesse gritar "EU PRECISO DE VOCÊ". Mais uma vez, Marta tentou interromper o abraço nos três primeiros segundos, mas acabou desistindo e o contato durou quase um minuto.
— O Rodrigo não está. — disse a Mulher, tentando manter a pose de inabalável.
— Eu sei. — respondeu o loiro. — Eu só vim ver como você está. Eu fiquei preocupado.
Marta deu um leve sorriso e indicou a mesa. Seus olhos estavam diferentes, aquela mulher severa estava, aos poucos, se tornando mais afável.
— Sente-se, eu vou preparar um café.
A conversa se estendeu pelo resto da tarde. A cada palavra, descobriam mais coisas em comum. Os olhos severos de Marta se tornavam doce e... Havia uma atmosfera diferente naquela cozinha... Até que Marta não era feia... Ou chata... Pelo contrário... Ela ficava linda quando sorria.
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