O dia estava chegando. O grande e temeroso dia. Faltava apenas quarenta e oito horas. Se eu dissesse que estava tranquila, eu estaria mentindo. Ninguém sabia como isso iria acontecer. Tia Alice não podia prever por me envolver diretamente. Então todo cuidado seria pouco.

— Eu ainda acho que não é uma boa ideia. – Seth falou assim que acabou seu nono cachorro quente.

Nessie e eu decidimos fazer uma fogueira no quintal dos fundos da tia Alice, que não era gramado. Vampiros e fogo não combinam, todos sabemos. Mas me pareceu uma boa distração.

— Eu vou ficar bem. – lhe garanti pela centésima vez, e lhe dei um selinho.

— Já acabou. – Embry reclamou, se recostando nos joelhos de Mendy.

— Vou buscar mais. – me voluntariei me levantando.

— Te ajudo. – Claire falou, e eu a ajudei estendendo a mão.

— Mamãe, eu também quero. – Harry e Sarah falaram de uma forma que parecia unissonante. Ele falou me olhando, e Sarah pedia para Nessie.

— Eu pego, queridos. – falei, sorrindo, e os dois comemoraram como se tivesse ganhando novos brinquedos. Gêmeos de mães diferentes. Brinquei para a minha irmã, que riu em concordância.

Balancei a cabeça, sorrindo, e fui para dentro da cozinha a companhia de Claire.

Eles dois têm a mesma fome dos pais, proporcionalmente. Comem mais do que uma criança da idade deles, e continuam sem ganhar peso fora do normal. Vovô sempre os mede e pesa, e eles estão ótimos.

— Ah, ainda bem que chegaram. – Vovó falou, aliviada assim que nos viu entrando na cozinha. – Eu já ia chamá-las.

— Do que precisa? – perguntei, disposta a ajudá-la.

— Eu preciso que cuidem dos cachorros quentes. – ela falou, nos passando dois sacos de pães e uma faca. – Zoe e Heather sujaram as fraldas, o choro virá a qualquer momento.

— Boa sorte. – falei torcendo o nariz, contente que essa tarefa não nos foi dada.

Os ingredientes acabaram e tia Alice e tia Rose foram com nossos tios comprar mais. Eu achei sem precisão de irem todos os quatro, mas elas falaram que precisavam estocar o armário para a criança. Tia Rose foi junto, pois disse que precisava de “Ar fresco”. Anos e anos e ela ainda continua com a implicância.

Começamos o trabalho, Claire não falava nada. Parecia distante.

— Claire, você está bem? – perguntei, recebendo a sua atenção. Ela me olhou como só agora notasse a minha presença.

— E-estou.

— Não está, não.

Larguei a faca e pão e me virei para ela. Compreendendo que eu queria conversar, ou melhor, que eu não deixaria o seu gaguejo passar em branco, se rendeu.

— Estou bem, é sério. – ela falou, e eu acreditei. Mas havia outra coisa que ela queria me contar. Eu sentia isso.

— Mas não é tudo.

Suspirou.

— Não.

Esperei paciente enquanto ela respirava algumas vezes. Comecei a ficar preocupada.

— Você pode... uh...

E gesticulou para que eu usasse o meu poder.

Estiquei o meu escudo até que eu podia ouvir sua mente embaralhada. Arfei com o que li ali de cara.

Carl, eu acho que... Acho que estou... Grávida. Ela pensou a palavra de uma forma tão acanhada que senti como um sussurro quase inaudível.

Os lobos estariam tão alheios à própria conversa que tenho certeza de que não notariam nada de errado na nossa falta de diálogo em voz alta. E mesmo que ouvissem o silêncio, seria normal duas amigas segredando algo entre elas.

Eu precisei ser cutucada por ela para perceber que fiquei sem palavras.

— Carl, fale algo! – ela pediu, tentando me sacudir. Mas ela não era forte. Ah, ela não estava me cutucando, e sim tentando me balançar. Eu quase ri como isso não surgiu efeito.

Quil já sabe? Perguntei, não certa de falar em voz alta se ele não soubesse.

E eu estava com razão. Ela negou com a cabeça.

O que está esperando para contar a ele?

— Coragem.

Suspirei. Ela era muito cabeça dura.

— Por que está demorando tanto? – Quil perguntou, entrando na cozinha, e dando um susto em Claire.

— Nos distraímos em meio a conversa. – respondi, sorrindo inocentemente.

— Sarah e Harry estão reclamando da demora.

— Ah, claro. São apenas eles. – provoquei sarcástica, arrancando risadas dos dois.

— Não vamos demorar. – Claire falou, num tom despreocupado, mas eu sabia que ela queria que ele saísse logo.

— Tudo bem. – disse ele, sorrindo. Se aproximou dela, e selou seus lábios.

E foi para fora.

Sabe que não poderá esconder dele por muito tempo, não sabe? Perguntei. Eu a conhecia bem o suficiente para saber qual seria a sua resposta.

Ela balançou a cabeça, porém suspirou.

Você já fez o teste?

Ela negou com a cabeça, sem fazer contato com os olhos. Era assim que ela fazia quando ficava sem saber direito o que fazer.

Era para eu ter menstruado hoje, mas não aconteceu nada. Mas pode ser muito cedo também, né?

Bom, o coração de um feto pode demorar por volta de quatorze dias para bater. As vezes mais, as vezes menos. E pode até ser que o teste dê negativo.

Ah, Carl, o que eu faço? Eu não consigo mais distinguir se é o meu corpo se enganando, mas eu senti enjoo ontem com a torta de frango da Esme. E você sabe como eu amo aquela torta de frango com todo aquele cream cheese e palmito...

Ela deu uma pausa, estremecendo com a lembrança. Arregalei os olhos.

E depois teve o bolo de chocolate que eu comi cinco pedaços, eu nunca tive tanta vontade de um bolo de chocolate antes.

Assenti com a cabeça, lembrando de ter ficado assustada com a comilança dela.

O menos importante, devo dizer, é o atraso menstrual. Mas a minha menstruação é regrada, nunca houve sequer um dia de diferença.

Bom, isso é mesmo o menos importante. Analisei. O enjoo e o desejo predominam nesse caso. Amanhã vamos acordar cedo e vamos comprar alguns testes, O.K?

Ela assentiu com a cabeça, e me abraçou.

— Obrigada. – sussurrou.

— É sério. – a voz de Seth invadiu a cozinha, nos alertando. – Harry e Sarah est... Está tudo bem aqui? – ele variou seu olhar entre nós duas.

— Por que não estaria? – fiz uma pergunta retórica, o desafiando. Eu sei, eu sei, foi óbvio demais, mas se Claire queria esperar, eu não podia fazer isso com ela.

— Vocês duas estavam se abraçando, e isso me pareceu um momento delicado. – ele falou, erguendo a sobrancelha, agora me desafiando a argumentar com isso.

— Exatamente, Seth Clearwater, o que você tem a ver com isso? Quer compartilhar segredo de meninas agora? – cutuquei seu peito, enfatizando a bronca. – Já que está aqui sendo intrometido, pegue os pães e nos ajude.

Ele soltou um muxoxo, mas fez o que eu mandei sem discutir.

— Eita, até que enfim! – Jacob exclamou, pegando com agilidade um da minha bandeja antes mesmo de eu ajeitá-la.

— Guloso. – acusei, num tom de brincadeira. Ele abriu a boca, e eu torci a cara.

— Eca. – falei, virando rapidamente o olhar. – Ness, como você teve coragem de casar com isso?

— Não reclame. – ela o defendeu. – Seth também, com certeza, tem seus defeitos.

Revirei os olhos, mas acabei rindo. Empurrei a cabeça do meu cunhado para encher o saco.

Papai e mamãe iriam aproveitar a casa para eles, já que tia Alice arrumou para que dormíssemos ali. Quando dei a ideia, ela parecia a tia mais feliz do mundo por ter tantos sobrinhos ao seu redor.

Logo era mais de duas da manhã, era ótimo o espaçamento entre as casas porque o barulho não iria incomodar nenhum vizinho. Conversamos sobre tudo, e era assunto entre a galera que não terminava jamais. Zoe, Harry e Sarah estavam dormindo em nossos colos, e decidimos que era hora de coloca-los para descansar de vez.

Tia Alice arrumou a sala inteira, fechou as cortinas blackout, colocou colchões e cobertores para cada respectivo casal. Coloquei meu filho quase no meio, pois hoje eu queria dormir de conchinha com o meu marido.

Quando menos esperei, o silêncio se instalou. Estávamos mais cansados do que eu imaginei.

Acordei com um barulho de algo quebrando, e veio da cozinha.

— Harry, vai acordar a sua mãe. – Seth o repreendeu.

Tarde demais, pensei comigo mesma.

Me levantei, soltando um longo bocejo.

Tomamos um café da manhã e depois voltamos para casa. Chamei Ness e Mendy para sair, e pedi para mamãe ficar com as crianças.

— Aonde vão, meus amores? – papai perguntou quando nos viu descendo as escadas.

— Vamos dar uma volta com Claire e Mendy. – respondi. – Conhecer algum restaurante, talvez.

Demos um beijo de despedida em Seth, Quil e Jacob. Peguei o meu carro, passei na casa da tia Rose para pegar Mendy e nos dirigimos a farmácia. Claire contou para Ness e Mendy, e elas surtaram de ansiedade e empolgação. Pegamos vários tipos de testes, e logo em seguida fomos para um quarto de hotel.

— Mas o que faremos? – Claire perguntou, entrando depois de mim no quarto alugado. – Eu não estou nem um pouco afim de fazer xixi.

— Beba bastante água. – Nessie sugeriu, trancando a porta e caminhando até nós duas. – Dizem que resolve. Para mim também resolveu. – deu de ombros.

Concordei, e corri para o frigobar. Peguei uma garrafinha, e ela se esforçou para beber tudo. Logo esvaziou metade de outra.

— Não está dando certo. – ela suspirou, fechando a garrafa, agora vazia, e a jogando na cama.

— Tenha paciência. – falei. – Não é imediato.

— Mas e se der positivo? – disse ela, sua voz trêmula.

— Todos nós estamos com você. – Renesmee pegou sua mão enquanto falava.

— Quil ficará tão feliz. – garanti, sorrindo. – Seth ficou radiante quando contei para ele.

— Ela está certa. – minha irmã falou, afirmando com a cabeça. – Jake também adorou. E eu lembro de Embry, eles ficaram assustados, mas ele parecia o papai mais feliz do mundo quando Zoe nasceu.

Fiquei feliz de quando a face da nossa amiga suavizou.

— Ai. Acho que a água está fazendo efeito.

Nessie e eu rimos enquanto ela se levantava e corria para o banheiro. Os testes estavam já dentro do banheiro, apenas à espera para serem usados.

— Isso vai ser muito legal. – comentei, sorrindo feito boba. – Nossa melhor amiga está grávida!

— Ela é nova mas já parece estar tão pronta para ser mãe. – Mendy disse sorrindo.

— Já era tempo... Ei, não me olhe assim! Daqui a pouco ela faz dezoito.

— Não antes dos dezessete. – revirei os olhos para a minha irmã.

— Parece que foi ontem que estávamos, as três, brincando nas praias de La Push com Jake, Seth e Quil.

Ela suspirou com a lembrança. Logo depois fomos para a Ilha da Bella, com a decisão dos nossos pais de crescermos nós quatro como uma família. Isso acabou nos afastando um pouco. Mesmo nos vendo por webcam, não era a mesma coisa. Os abraços, os papos não eram os mesmos.

— Será que vai dar positivo? – perguntou Renesmee, me olhando interrogativa e ao mesmo tempo ansiosa.

— Acho que sim. – falei, me jogando de costas na cama e fechando meus olhos, aguardando o risquinho que iria mudar a vida de Claire.

PDV Claire.

Quando estava tudo pronto, voltei para o quarto aonde as meninas estavam me esperando.

— Vou colocar dois minutos no despertador. – avisei e peguei meu celular, marcando os minutos. – Agora é só esperar.

Respirei fundo e me sentei na cama.

Esperamos quase impaciente – especialmente eu que batucava o pé repentinas vezes no chão – passarem esses dois minutos que decidiriam minha vida. Fechei os olhos, imaginando a face sorridente de Quil ao receber essa notícia, e em seguida me abraçando e rodopiando meu corpo no ar.

Conversamos bastante, imaginando nós quatro nos divertindo com nossos filhos em algum parque, ou na praia. Não imaginei como em dois minutos coubessem tanta conversa quando o alarme soou. Senti lágrimas escorrendo pelas minhas bochechas ao mesmo tempo. Não perdi nem mais um segundo. As três se levantaram como se tivessem combinado, e nos apressamos até a cômoda. Com as mãos trêmulas, peguei um dos testes que preveria meu futuro.

— Deu positivo. – falei num meio fio de voz. Eu li a embalagem, dizia que dois palitinhos é positivo.

Peguei o próximo, e também deu positivo.

— Positivo. – as três falaram ao mesmo tempo sorrindo, com os outros dois restantes em suas mãos.

Com essa única palavra, eu me senti tonta. O quarto girou, as paredes criaram vida, e parecia aquelas formas onduladas que chama como “Ilusão de ótica” que a gente encontra no Google.

— Hey, cuidado com ela. – Renesmee murmurou de longe.

Quando retomei meus sentidos, eu estava nos braços da Carlie.

— Isso não foi pela gravidez, foi? – Renesmee falou, confusa, ajudando sua irmã a me colocar sobre a cama.

— Foi pela surpresa. – falei, bebendo um pouco da água que deixei na cama. – Tia Emily e minha mãe vão me matar!

Carlie tocou minha mão.

— Estamos do seu lado para o que der e vier. – ela me garantiu, e eu comecei a derramar lágrimas.

Minha mãe nunca foi do tipo que apoiaria uma gravidez antes dos dezenove. Para ela, precisava terminar os estudos, fazer faculdade e só depois pensar em ter filhos. Eu ainda vou fazer dezessete. Querido Deus, mamãe vai me matar!

Acordei do meu trágico transe quando ouvi uma música da Carlie tocando no seu celular.

— É o Seth. – ela falou. – Ele perguntou se vamos demorar.

— Não. – falei, me levantando. Quase recuperava da vertigem. – Não quero causar problemas. Vamos.

Elas quase protestaram, mas garanti que estava bem. Eu queria contar logo para Quil de qualquer forma. Sua reação estava me dando nos nervos. Ele sempre falou sobre o nosso futuro e tal, mas nunca mencionou abertamente que queria ser pai.

Sobre o que está pensando?

— Gah! – me engasguei pela surpresa da voz de Carlie em minha cabeça. – Quer me matar de susto? – falei brava, enquanto ela ria sem parar no banco de trás.

— Carlie! – Renesmee, que assumia o volante, a repreendeu. – Não pode assustá-la desse jeito. Esqueceu? Ela está grávida.

— Ah, desculpe. – ela parou imediatamente de rir, ficando com um ar sério.

— Tudo bem, apenas... não faça mais isso. – falei de uma vez, balançando uma vez minhas mãos para dar ênfase do que eu dizia.

— Desculpe. – ela repetiu.

— Pare de pedir desculpas.

— Okey, desculpa.

— Para de pedir desculpas.

— Descul... okey.

Rimos. Carlie só era de pedir desculpas a melhor amiga quando era algo bem sério.

Logo chegamos em casa, e meus olhos encontraram os de Quil.

PDV Carlie.

Eu olhava as passagens de ida e volta para na minha mão como se fosse um ponto vago. Eu estava com tanto medo de colocar a minha família em risco. Ainda mais com essa vampira manipuladora.

Angústia.

Era tudo o que eu sentia por ter a minha família metida nisso por minha causa.

Ainda bem que eu estava sozinha na brinquedoteca, e sozinha. Não queria que ninguém me visse assim. Não me deixariam ir.

Por que a vida precisava ser tão difícil? Se não são os Volturi, é a Tifanny. Se não é ela, uma bruxa que aparece do nada. Parece que o problema vem de qualquer lugar.

— Tem certeza de que quer fazer isso? – me sobressaltei ao ouvir a sua voz ao meu lado.

— Você é louco? – exclamei. Com a mão no coração, me recostei na prateleira de brinquedos e relaxei mais uma vez meu corpo no chão gelado.

— Desculpe. – ele pediu, me abraçando.

— Sim. – respondi. – Não posso mais voltar atrás. E quero dar um fim nisso de uma vez. Quero fazer aquela desgraçada sofrer e dar um fim nela.

Ele me apertou suavemente contra o seu corpo quente.

— Eu estou feliz por Derek ter sofrido aquele acidente. – murmurei, depois de pensar duas vezes.

— Não acredito que ouvi isso de você. – ele falou, pasmo.

— Se lembra de quando Tifanny me ligou no mesmo dia? – perguntei, tentando explicar minhas palavras absurdas, porém coerentes. Ele confirmou com a cabeça. – Ela disse que estava perto dele quando tudo aconteceu. Ela com certeza nem teria deixado ele viver.

— Tem razão. – ele suspirou, e apoiou seu queixo em minha cabeça.