A Irmandade - Dota 2
7 Akasha, A Rainha da Dor
As asas chicoteavam o ar e Akasha explodia em brasa e cinzas cada vez que saltava entre as raízes da Floresta dos Mortos. Passou por inúmeras clareiras onde as criaturas neutras e sombrias adormeciam e finalmente chegou à trilha principal, onde os minions à serviço de Warlock erguiam uma grande torre de pedra negra.
Quando passou por eles, Akasha hesitou em perguntá-los sobre Warlock, mas sabia que seria desnecessário. Assim que ergueu os olhos, viu que o acampamento dele havia se transformado numa fortificação. Onde antes estavam torres de vigia de madeira, erguiam-se grandes torres de disparo, construídas com pedra e magia. As tendas de peles de animais e palha também foram substituídas por prédios amplos com o toque macabro do Conselho.
Quando se aproximou do acampamento, um minion guerreiro olhou-a dos pés à cabeça e partiu, sem questioná-la. Atrás dele vinha um monstro grande e azul, com olhos vermelhos e demoníacos e a cabeça em chamas sobrenaturais. Lembrava um touro, um boi, ou um monstro que fosse o misto das duas coisas. Ele pousou os olhos em Akasha e torceu os lábios num sorriso obceno, fazendo as luzes douradas do fogo nas torres reluzirem no anel que usava no nariz.
Ele sorria porque sabia detectar o medo. E Akasha sentia medo. Ela era a rainha da dor, aquela que reinava sobre os condenados...até a chegada daquele monstro. Barathrum era como ele se chamava. Um monstro com uma reputação obscura. Nenhum ser, vivo ou morto, se atrevia a encará-lo. Diziam que ele era o filho do filho de um antigo demônio. Outros contavam que ele era o príncipe do submundo, aquele que cavalga sobre os espectros do inferno. E nenhuma das histórias deixava a dúvida de que Barathrum era algo perigoso demais para se desejar enfrentar.
No entanto, Akasha sabia que Warlock era muito convincente. E havia reunido um punhado de servos e aliados sob o comando do Conselho dos Temidos, todos com reputações igualmente sombrias às de Barathrum. O pai do medo, a quem chamavam de Balanar, também havia se transformado num servo fiel do Conselho, mas Akasha não conseguia confiar nele. Mas preferia não discutir sobre isso com Warlock. Sabia que se o questionasse, teria seus serviços dispensados pelo estranho feiticeiro necromante.
Quando passou por Barathrum, ele subitamente rugiu e saiu em disparado pela floresta. Era um monstro muito pesado, seus cascos batiam no chão com estalos altos que podiam ser ouvidos a muitos metros de distância, mas era impressionantemente rápido para seu tamanho. Akasha sentiu-se aliviada em ouvi-lo partir e bateu as asas mais uma vez, disparando mais faíscas e mais brasas.
Encontrou Warlock sentado em uma mesa de pedra que fora colocada nas proximidades dos quartéis de treinamento dos minions. O ruído de espadas cegas e lâminas atrofiadas lá dentro era alto, mas Warlock estava extremamente concentrado em escrever algo num grande livro de páginas amarelas. Quando ouviu o bater de asas de Akasha, ele ergueu os olhos para vê-la.
Ainda era um homem curvo de cabelos e barba branca, sob um capuz vermelho. Usava o manto carmesim, o uniforme de presidente do Conselho e seu cajado estava inclinado sobre a mesa. Um crânio com um estranho brilho espectral decorava a ponta de seu cajado mágico. Akasha mais uma vez se perguntou a quem teria pertencido aquele crânio.
Warlock nada disse, apenas encarou a Rainha da Dor, aguardando que ela lhe desse as notícias que esperava. Ela hesitou diante dele e antes que pudesse dizer qualquer coisa, ergueu os olhos para um grande monumento que estava sendo erguido atrás dos quartéis e de mais torres de proteção. Warlock sorriu.
_ O que é aquilo?_ foi a primeira coisa que Akasha perguntou.
O mago não precisou olhar para trás para saber a que ela se referia.
_ Bem vinda de volta, Lady._ respondeu ele.
O novo prédio não era exatamente um edifício. Akasha caminhou lentamente por entre os quartéis e torres enquanto Warlock a seguia de perto, com um sorriso de satisfação estampado no rosto enrugado. Quando se aproximaram, a luz vermelha e dourada das chamas vulcânicas brilharam sobre eles, projetando um show de luzes dentro de uma esfera mágica erguida entre quatro hastes de pedra e ferro.
_ A Lácrima do Deus Morto.
A Rainha suspirou. No interior do globo mágico, a lava e a escuridão se reviravam e se desdobravam uma sobre a outra. As vozes encheram a cabeça de Akasha, vozes dos mortos e o rugido de uma fera indomada das profundezas.
Pouco além da lacrima estava um mercador. Um homem de sorriso amarelo e queixo triangular, com um estranho chapéu de sinos na cabeça. Nas costas, ele trazia uma mochila estufada, cheia de armas, antídotos e artigos usados em batalhas.
Quando viu o mercador, Akasha lembrou-se instantaneamente da razão pela qual voltara até o acampamento.
_ Warlock.
Ele se aproximou, apoiando-se em seu macabro cajado ornado pelo crânio.
_ Hum?
_ O Invoker foi capturado.
Warlock encarou-a sem mudar a expressão do rosto. Ela continuou.
_ Uma arqueira do povo drow veio até ele, silenciou e o capturou. Nós a encontramos nas margens do Vespertino, ela estava perdida, tentando levá-lo para o Vale da Lua, dos drows.
_ Entendo._ Warlock disse quando ela fez uma pausa, mas não parecia nem minimamente surpreso.
_ Nós a interceptamos e ela quase caiu. Mas o povo do outro lado do Rio interferiu. Eles vieram até mim e Bloodseeker e fizeram as árvores mortas voltarem a vida e lutarem contra nós.
_ E...?
Akasha suspirou, rendendo-se.
_ E nós não pudemos detê-los. Eles levaram a elfa negra e o Invoker com eles para o outro lado.
O homem encarou a vampira por um longo momento até que finalmente riu. Sua risada era seca e rouca, como a de um velho. Os olhos dele brilharam de euforia e prazer.
_ Ótimo, então.
A Rainha da Dor não compreendeu e olhou-o com indignação.
_ Ele espiará o campo inimigo._ Warlock explicou._ Há anos que não visito aquela Floresta Verde e já não conheço mais seus protetores. Selemene agora tem um exército de arqueiros da noite sob o comando da princesa Nightshade, a Sacerdotisa da Lua. Sem falar no exército de ursos e nos homens árvores de Green Vail! Invoker vai saber se virar lá por aquelas bandas.
Akasha grunhiu enraivecida.
_ AHHHH! Então minha vinda aqui foi um desperdício de tempo?!
_ Mas é claro que não. É verdade que eu sabia da captura de Carl antes de você chegar. Mas eu precisava de você aqui. E felizmente, você voltou, Akasha.
O velho guiou-a para dentro de um dos quartéis, onde as criaturas minions eram treinados em batalha. Akasha compreendeu que os planos ambiciosos de Warlock resultariam em uma guerra declarada e por isso, ele vinha se preparando com um exército de criaturas sob seu comando. Estaria pronto quando um exército inimigo batesse à sua porta.
Enquanto a vampira e o feiticeiro desfilavam pelos corredores escuros de pedra do quartel, ela pensou se de fato estariam prontos para enfrentar aqueles que reinam no lado Verde do Rio Vespertino. Estava certa de que o poderio do temido Conselho era imenso, mas quão poderosos eram aqueles que habitam além da outra margem do rio?
Chegaram a uma grande câmara e Warlock pediu que ela entrasse. Quando passou pelo arco de entrada e desceu os degraus, Akasha viu-se em um grande salão-templo. No centro, erguia-se a estátua do Deus Morto, o deus caído da antiga fé.
O Deus Morto possuía uma estranha história. Em algumas versões, ele fora decapitado por um semi-deus, sob a bênção de Selemene. Em outras, a própria Selemene unira força com os outros deuses e homens e atiraram o Deus Morto para um abismo sem fundo. Mas de acordo com Warlock, o abismo possuía fundo. E o fundo era o núcleo da Terra, onde reina o fogo eterno. Mas em todas as versões, ele era um deus derrotado, que jurara retornar algum dia para ressuscitar os mortos e dar ao mundo a escuridão e a perversão.
A estátua no centro do salão-templo era gigantesca e retratava o Deus Morto em toda a sua glória, como se retornasse do abismo. Sob seus pés, estava a cabeça de uma mulher com um belíssimo rosto, mas que expressava a derrota e a humilhação. Era a cabeça de Selemene esculpida na pedra. Derrotada pelo Deus Morto. Sobre a cabeça, Akasha reparou, havia uma mulher de pele escura sentada no pé esquerdo da estátua do Deus Morto.
_ Mortred._ saudou Warlock.
Phantom Assassin ergueu os olhos sob o elmo para Warlock e Akasha e assentiu sem respondê-los. Apenas saltou da estátua para o chão e caminhou na direção deles com seus afiados meio-discos atrelados nas mãos.
_ Onde está Meepo?_ perguntou ela.
O ruído de muitos passos veio logo atrás dos dois recém-chegados e os três se viraram para olhar para o arco de entrada. Meepo vinha saltitante. Acompanhado de outros nove Meepos exatamente iguais ao original, que vinha à frente.
_ Uhuhuhu!_ eles brincavam e cantarolavam, agitando suas pás de metal no ar.
Akasha e Mortred se entreolharam rapidamente, sem entender por que tal criatura havia sido recrutada por Warlock. Quando os outros nove desapareceram e somente o Meepo original cantarolava, o feiticeiro interrompeu-o com um gesto.
_ Chamei vocês aqui porque tenho uma missão para cada um.
Ele se dirigiu primeiramente à Akasha.
_ Mandei Krobelus pela estrada do Norte, onde Lorde Arlon perdeu a batalha. Ela levou uma tropa de guerreiros treinados, mas temo que isso não aterrorize os ursos que lá vivem. Preciso que você vá até lá e lidere o ataque pelo rio.
A vampira concordou com um aceno de cabeça.
_ E onde está Bloodseeker?_ perguntou Warlock.
_ Eu não o vi mais desde a batalha no rio._ contou Akasha._ Pensei que ele tivesse retornado antes de mim.
Warlock suspirou.
_ Provavelmente foi capturado. Mandarei guerreiros pela trilha principal da Floresta. Mortred, preciso que você vá e procure por Invoker e por Bloodseeker. Se ainda estiverem encarcerados, ajude-os. Elimine qualquer inimigo que se interponha em seu caminho, mas seja cuidadosa.
_ Sem remorsos._ declarou Phantom Assassin.
_ Adorável._ Warlock sorriu._ Vocês duas podem ir. Se precisarem de algo, há um mercador mercenário lá fora, armando sua tenda em nosso acampamento. Fogo e Sangue pelo Deus Morto.
_ Fogo e Sangue pelo Deus Morto._ elas disseram em coro.
Mortred foi a primeira a ir. Não demorou a girar a própria capa e desaparecer com um piscar de olhos diante deles.
Akasha não sentiu-se satisfeita em receber a ordem de trabalhar com Krobelus, a quem todos chamavam de Death Prophet. Akasha sempre recebera trabalhos muito importantes de Warlock. Mas agora ele distribuía as tarefas mais importantes entre Invoker, Mortred e Barathrum. Sentiu-se ridícula. Não gostava de ser subestimada, ainda mais por Warlock que conhecia seu potencial. “Combater ursos”, ela grunhiu mentalmente. Era humilhante.
Já estava de saída do salão-templo, desfilando como uma donzela perigosa, quando ouviu Warlock murmurar para Meepo.
_ Para você, tenho outro trabalho. Preciso que você vá até a arena do Torneio de Aghanim.
Akasha estacou. Sentiu-se curiosa, mas se afastou quando percebeu que Warlock a espiava por cima do ombro. Entrou no corredor escuro que levava à saída do quartel, mas não saiu. Agitou as asas e se desintegrou em faíscas. Quando retornou à sua forma sólida, estava de volta ao salão-templo, oculta na sombra da grande estátua do Deus Morto.
Retornou a tempo de ouvir Warlock explicando a tarefa para Meepo. Quando ele se calou, ela o viu dando tapinhas no ombro da criatura miúda e esquisita que era Meepo e os dois caminharam para fora do salão. A ira mais terrível de todas percorreu cada centímetro do corpo de Akasha. A fúria corria líquida em suas veias e ela poderia ter gritado de raiva, mas não o fez. Até mesmo Meepo tinha um trabalho mais importante que ela.
_ Maldito seja. Maldito sejam todos._ praguejou.
Não lhe interessava se Krobelus estaria sozinha contra uma tribo de ursos. Não queria a glória de derrotar Ufsaar e seus seguidores, ursos gigantes. Akasha jurou a si mesma que estava disposta a roubar a glória de Mortred. Ela não iria para a trilha norte, onde Krobelus estaria agora, liderando as tropas de minions guerreiros contra os ursos. Iria para o sul, onde a elfa drow e Invoker haviam sido recapturados.
Estava disposta a entrar na Floresta Verde. Estava disposta a encontrar Invoker e Bloodseeker. Estava disposta á resgatá-los. Desobedeceria Warlock, ela sabia. Mas a glória pertencia a ela. Ela era uma rainha. A Rainha da Dor. E causaria dor a quem se atrevesse a se interpor em seu caminho. Fosse quem fosse.
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