A Irmãzinha
2 Capítulo Um
Notas iniciais
Eu seguia a Irmã Carmem que era a encarregada das Aspirantes no convento Imaculado Coração de Maria, o meu novo lar. Ela ia apresentando o lugar, falando sobre os horários e a rotina das aulas, orações e a limpeza do local, para mim e outras vinte moças que também tinham chegado ali hoje.
Eu olhava para tudo, tentando parecer animada e querendo convencer a mim mesma de que ali era o meu lugar, que isso era o certo a fazer, já que era a única maneira de ficar com o meu Edward para sempre, como combinamos quando tínhamos doze anos.
Flash Black On
—Vem Bella, senta aqui – Edward sentou em sua cama e deu uma batidinha me oferecendo um lugar ao seu lado e eu fui toda contente. Era mais um dia normal depois da aula e nós tínhamos essa rotina de passar as tardes juntos, nossos pais estavam acostumados a nos ver enfurnados um no quarto do outro desde pequenos e já nem ligavam mais, afinal, éramos inseparáveis.
Mas hoje eu sentia que ele estava um pouco estranho, estava com um ar misterioso e parecia que estava me escondendo alguma coisa. O dia todo eu perguntei o que estava acontecendo e ele só negava e dizia que não era nada, mas eu o conhecia muito bem e sabia que ele estava mentindo para mim, especialmente agora que estávamos sozinhos no silencio do quarto dele.
—Bella sabia que você é a minha melhor amiga? – Falou todo sério e eu ri
—E você é o meu melhor amigo – respondi usando o mesmo tom que ele. Éramos melhores amigos, mas eu sempre senti algo mais por ele, e há pouco descobri o que era, descobri que o amava, desde quando eu nem sabia o que era amor, desde a primeira vez que o vi – e eu sei que você sabe que eu sei.
—E eu sei que você sabe que eu sei que você sabe – nós rimos da nossa brincadeirinha boba – mas é sério, eu quero te contar uma coisa.
—Uma coisa? Tipo um segredo?
—Por enquanto sim, mas um dia todo mundo vai ter que saber...
—O que é?
—Me ouve primeiro está bem? Depois você dá a sua opinião – Eu assenti e ele pegou a minha mão e passou a acariciar os nós dos meus dedos fazendo círculos, ele olhava para todos os lados, menos para mim. Seu rosto estava vermelho, estava todo sem jeito. Edward respirou fundo algumas vezes parecendo tomar coragem, mas parava antes de qualquer palavra sair de sua boca.
E eu comecei a ficar nervosa também. Há meses eu sonhava com o dia em que ele se descobrisse apaixonado, assim como eu e se declarasse para mim, coisa que eu nunca teria coragem de fazer. Eu provavelmente passaria a minha vida o amando em segredo com medo de que a verdade pudesse estragar o que nós tínhamos. Eu preferia ter um pouco, ter só a sua amizade a não ter nada, então eu apenas rezava para que um dia ele sentisse o mesmo que eu e nós ficássemos juntos.
Edward continuava do mesmo jeito, e num gesto meio inconsciente pegou seu terço e começou a apertar as contas como sempre fazia quando estava ansioso ou nervoso. Sua mão que segurava a minha estava gelada e ele ofegava de nervosismo
—Ei, o que foi? Sabe que pode me contar qualquer coisa – pedi ansiosa – Fala para mim.
—Eu... Eu pensei muito e passei praticamente a noite inteira em claro até chegar a uma decisão. E... como você é a minha melhor e mais querida amiga, uma das pessoas que eu mais amo na vida eu quero contar para você primeiro.
—Contar o que Edward? – Apertei sua mão que ainda segurava a minha, sorri passando confiança, mas eu mesma estava nervosa imaginando um milhão de coisas que ele poderia dizer – pode confiar em mim, sabe disso não é? – Ele assentiu – então fale! – Mais uma vez ele respirou fundo, abrindo a boca como se fosse contar, mas perdendo a coragem, fez isso algumas vezes até que abriu um sorriso envergonhado e disse:
—Bella... Eu acho... Eu... Eu quero ser padre – meu sorriso confiante sumiu do meu rosto e eu o olhei sem saber o que dizer. Ele estava com a cabeça baixa, e eu deixei que meu rosto desmoronasse. Eu estava completamente perdida. Nós vivíamos sim dentro da igreja constantemente, mas eu jamais imaginaria isso nunca pensei que um dia ele fosse querer seguir esse caminho.
Meu coração batia desesperado tentando afastar a dor da possibilidade de viver sem ele, eu pensei em tudo o que o Padre Harry tinha nos dito, de como ele ficou morando longe da família e nunca mais viu os seus amigos de infância quando saiu de casa para seguir a sua vocação. Edward olhou para mim esperando que eu dissesse algo e eu acabei dizendo a primeira coisa que passou pela minha cabeça:
—Mas como vai ser? Você vai ficar longe dos seus pais... Longe de mim? – Meu coração ficou apertado só com essa possibilidade, tanto que a minha voz saiu um pouco chorosa, mas ele pareceu não perceber perdido em seus próprios pensamentos com o cenho franzido.
—Eu ainda não tinha pensado nisso, mas se for necessário, é o que farei, afinal eu não posso simplesmente dar as costas para esse chamado – olhei para cima e encontrei seus olhos sérios e decididos. Edward ainda me olhava com aquela carinha de quem precisa de aprovação, esperando a minha.
—Isso é... Nossa... Eu não sei o que dizer.
—É muita coisa não é? Eu também fiquei meio zonzo quando eu finalmente cheguei a essa conclusão, mas eu sinto que Deus está me chamando e... Eu não consigo explicar o que eu sinto... – Estava atordoada imaginando como seria ficar sem o Edward por muito tempo, ou para sempre. Não eu não podia suportar isso.
—Eu te entendo – falei sem pensar muito nas consequências ou em como contornar aquilo depois – eu... eu sinto a mesma coisa que você.
—Como assim? – Edward me perguntou com a testa franzida e com um sorriso brincando em seus lábios.
—Faz um tempo que eu ando pensando nisso... E...eu também ouvi o chamado de Deus e... Eu quero ser freira – Edward arregalou os olhos e abriu um sorriso maravilhado.
— Isso é maravilhoso Bella! – Edward me abraçou tão contente que por um momento eu quase acreditei que aquilo era mesmo real – Mas você tem certeza?
—Sim, é claro que eu tenho. Eu só não sabia como dizer isso antes – respondi guiada pelo seu sorriso tão bonito, mesmo que meu coração estivesse esmagado pelo peso da mentira.
—Isso é um sinal Bella, não vê? — Edward fechou os olhos ainda sorrindo e falou baixinho. Hipnotizada, imitei seu tom de voz.
—Um sinal?
—Sim. Desde pequenos, Deus queria que estivéssemos juntos, nós nos conhecemos dentro de uma igreja e foi onde nós passamos toda a nossa vida até agora. E hoje, nossas escolhas indicam que vamos continuar na igreja pelo resto de nossas vidas, que nós devemos ficar juntos para sempre! – Edward apertou minha mão olhando fixamente para os meus olhos – Bella quando nós nos formarmos, quando formos Padre e Freira eu vou te levar comigo, para onde quer que eu vá – ofeguei.
—Como... Como assim?
—Lembra que o Padre Harry disse que um amigo dele levou a irmã que era freira para todos os lugares em que ele morou? – Assenti – É o que eu vou fazer um dia. Nada e nem ninguém vai separar nós dois.
—Mas isso não é só para irmãos? E se você não puder me levar quando for padre?
—Não quero saber, ninguém vai me impedir de te levar comigo, além do mais você é a minha irmã, e vai ser para sempre a minha irmãzinha, minha companheira, todos os dias, para sempre – Ele sorriu, beijou minha testa e se ajoelhou me puxando com ele – vem, vamos rezar e agradecer – Me ajoelhei ao seu lado e ele colocou as mãos postas e os olhos fechados enquanto ele fazia uma oração silenciosa, eu rezei também, rezei para que um dia ele mudasse de ideia e que um dia toda aquela história pudesse ser esclarecida.
Flash Black Off.
Eu esperei por anos, que ele se interessasse por outra coisa e que esquecesse isso de ser padre, mas infelizmente ele nunca mudou de ideia e consequentemente, eu nunca tive coragem de dizer que não era aquilo que eu queria também. A cada dia ele me parecia ainda mais animado, fazendo planos para o futuro e me incluindo em todos eles. E foi ficando ainda mais difícil dizer a ele que eu não tinha a menor vocação para ser freira.
Todas as vezes que eu tomava coragem e resolvia abrir meu coração e contar tudo, inclusive que estava apaixonada há anos por ele Edward vinha com mais e mais planos e aqueles lindos olhos brilhantes, seu sorriso deslumbrante só me fazia sorrir com ele e acrescentar mais detalhes aos planos que ele fazia.
E agora aqui estou eu.
—Senhoritas Swan e Hale – Irmã Carmem me tirou dos meus devaneios ao chamar o meu nome. Ela abriu uma das portas do longo corredor por onde estávamos passando. Uma moça loira passou a minha frente entrando no quarto e eu a segui – Qualquer coisa que precisarem pode me chamar sim? – A irmã saiu do quarto sorrindo e nos deixando sozinhas.
A moça loira, Hale, suspirou e fez o sinal da cruz parecendo aliviada logo que a porta foi fechada.
—Obrigada Jesus – eu coloquei minhas coisas no chão observando ela.
—Você me parece feliz em estar aqui – comentei – sempre foi o seu sonho vir para cá?
—Eu acredito que aqui eu finalmente vou encontrar o que estou procurando – ela deu de ombros – e isso basta para mim.
—E o que você procura?
—Paz.
—Então eu espero que encontre. Meu nome é Isabella Swan, mas pode me chamar de Bella – estendi a minha mão para ela com um sorriso.
—Eu sou Rosalie, mas pode me chamar de Rose – ela sorriu também, um lindo sorriso, na verdade ela era toda linda, mas parecia tão abatida, tão triste, principalmente seus incríveis olhos azuis.
Tentei conversar um pouco com ela enquanto arrumávamos as poucas coisas que trouxemos em nosso pequeno quarto que era bem pequeno mesmo, com duas camas, uma de cada lado e com um belo crucifixo em cima de cada uma um criado mudo e uma cômoda com quatro gavetas. Só.
Sobre a cama tinha uma roupa para cada dia da semana. Não era bem um hábito, mas lembrava os que as irmãs usavam. Era uma saia em azul marinho, lisa reta e que ia até as panturrilhas, uma camisa de manga até o punho e gola alta e um colete da mesma cor da saia. Sem véu por enquanto.
Depois de nos instalarmos, tomamos banho no banheiro, e nos encontramos com todas as outras novatas para o jantar no refeitório. Ali estávamos apenas nós e a irmã Carmem, uma vez que todas as outras irmãs estavam no retiro de início do ano. Depois do jantar voltamos para nossos quartos e por mais que eu quisesse fazer amizade com Rosalie, acabamos dormindo cedo já que fomos alertadas que teríamos muito a fazer no dia seguinte.
A rotina era cheia, nós nos levantávamos as cinco da manhã e iniciávamos nosso dia com uma celebração na capela. Depois disso nos dividíamos nas tarefas pré-determinadas por escala como a preparação das refeições ou a limpeza do local para então irmos para nossas aulas.
Lá aprendíamos sobre a bíblia e toda a história da igreja, estudávamos Teologia, mas também estudávamos filosofia, estudávamos as regras do convento e línguas. Depois do almoço tínhamos mais aulas até as seis e depois voltávamos para a capela para a oração do terço.
Tínhamos duas horas livres antes do jantar e eu aproveitava esse tempo no pátio, com o terço de Edward nas mãos, me lembrando dele, do seu sorriso, seus olhos e seu cheiro. Colocando na minha cabeça que tudo valeria a pena por que eu o teria para sempre e era o melhor para mim.
A primeira semana aqui passou bem depressa.
Eu fiquei sabendo que nós não poderíamos voltar para casa uma vez que estávamos aqui, teríamos alguns dias no fim do ano para passar natal e o ano novo com a família e logo depois voltaríamos para cá. Eu imaginei que só assim eu veria o Edward e estava tentando lidar com isso.
Meu coração ficou pequenininho com a notícia por que a cada segundo que passava eu sentia mais a falta dele, mas no sábado eu soube que algumas das irmãs costumavam a participar das missas aos domingos no seminário, aqui em frente junto com as mais idosas já que a outra igreja era muito longe para elas irem. Eu imediatamente pedi para ir junto e assim, mesmo que de longe eu poderia ver meu Edward.
Elas me deixaram ir e eu me aguentava de tanta alegria!
Assim que cheguei, antes mesmo de entrar, ainda na porta da igreja, eu avistei em um dos bancos do fundo os inconfundíveis cabelos cor de cobre, completamente bagunçados de Edward.
Meu coração acelerou de tal modo que eu pensei que ele sairia do meu peito!
Ele olhou para mim, no mesmo instante como se eu tivesse o chamado. Eu acenei sorrindo e ele veio em minha direção
—Ei, minha Irmãzinha! – Edward acariciou meu rosto como ele sempre fazia, e como sempre aquela familiar corrente elétrica percorreu o meu corpo, me deixando vermelha – Você está tão bonita assim, sabia? – Sorri ficando ainda mais envergonhada, mas feliz por estar com ele novamente. Só fazia uma semana da última vez que nos vimos, mas eu já estava morrendo de saudade – eu senti tanto a sua falta – ele falou ecoando meus pensamentos.
—Eu também, muito, muito mesmo – Ele me puxou para um abraço de repente e eu aproveitei e o apertei contra mim desejando ser forte o bastante para não ter que me separar nunca mais.
—Senhorita Swan nós lhe trouxemos para rezar e não para ficar... assim com os rapazes do seminário – a irmã Irina bateu no meu ombro me afastando Edward
—Eu... nós... – gaguejei tentando explicar, mas um padre simpático chegou sorrindo.
—Irmã, não seja assim, eles estavam só falando oi – um padre sorridente interferiu – Eles são as crianças do padre Harry, eu acredito que já foi avisada sobre eles.
—Não, eu não fui – ela olhou de mim para Edward com o cenho franzido.
—Os dois foram criados juntos, são praticamente irmãos. Eles devem estar matando a saudade depois de uma longa semana sem se ver estou certo?
—Sim, senhor – Edward falou sorrindo enquanto eu assentia, muito sem graça.
—Então vão, encontrem um lugar e se acomodem a missa já vai começar – Edward pegou a minha mão e me levou para o banco onde ele estava sentado antes.
—Nossa, que situação embaraçosa! Por um momento, eu me esqueci que não estamos mais em nossa casa, que ninguém nos conhece aqui e que agora tudo é tão diferente – falei quando estávamos sentados e Edward riu.
—Eu também me esqueci, na verdade, quando eu te vi, só pensei em abraçar você. Não imagina quanta saudade, eu senti – Edward tocou mau rosto olhando para os meus olhos e depois para a minha roupa só por um momento antes de se aproximar e beijar o meu rosto.
—Vocês dois, por favor, se comportem – a irmã Irina passou por nós e resmungou indo se sentar alguns bancos a nossa frente e eu olhei para Edward com os olhos arregalados e ele riu.
—Não se preocupe o Padre Harry com certeza deve ter falado muito de nós dois, principalmente para o padre Garrett que deve ter falado com ela agora.
—É aquele padre que nos defendeu?
—Sim, ele é o meu reitor. É uma ótima pessoa.
—Eu percebi. Mas não vamos falar dele, eu quero que você me conte tudo: Como está sendo? Você está gostando? É o que você esperava? Você está feliz? – Edward abriu um sorriso entusiasmado.
—Eu nem sei dizer o quanto eu estou feliz Bella. Quando você sonha tanto tempo com uma coisa e aos poucos vê ela se encaminhando para ser real, é algo indescritível – ele começou a me contar sobre a sua rotina que de certo modo se parecia muito com a minha. Contou-me sobre as aulas e sobre como estava entusiasmado com tudo o que estava aprendendo.
A missa começou e nós fizemos silêncio nos concentrando na celebração ainda de mãos dadas. Eu rezei agradecendo a Deus pela felicidade dele e pedi forças para aguentar firme e poder ver ele realizando seu sonho.
Em certo momento, ele fechou os olhos para rezar e eu olhei para ele, apreciando suas lindas feições: o quadrado do queixo, com a barba por fazer, a curva suave dos lábios cheios entreabertos e se movendo rapidamente enquanto ele rezava baixinho, a linha reta do nariz, o ângulo agudo das maças do rosto e o cabelo caindo na testa, totalmente bagunçado como se tivesse acabado de acordar de uma noite muito agitada. Como ele é lindo. Suspirei baixinho.
E bem ali eu me dei conta de que estar ao lado dele era sim o suficiente, e eu só não suportaria ficar longe dele, o resto eu podia levar muito bem.
—Eu fiquei falando só de mim e nem te perguntei como você está – Edward falou quando a missa chegou ao fim, ele passou os braços em volta de mim e beijou meu cabelo – você está feliz?
—Sim – me apertei a ele ao responder, enfiando meu nariz em seu peito e respirando o máximo que eu podia do seu cheiro bom, para guardar comigo durante a semana e fui muito sincera ao falar – eu estou muito feliz.
—Que bom – ele pegou meu queixo e me fez olhar para ele. Eu dividia o olhar entre o seu lindo sorriso torto e seus olhos me perdendo neles. Até que a irmã Irina me chamou.
—Eu acho que a gente tem que ir.
—É sim – suspirei – Acho que eu vejo você só no domingo que vem.
—Eu vou sentir ainda mais a sua falta Bella. Nunca imaginei que fosse tão difícil ficar sem você – eu sorri solidária por que eu sentia a mesma coisa, só não sabia como dizer sem me revelar demais. A irmã me chamou mais uma vez e ele deu um beijo na minha bochecha – Até domingo.
Eu acenei para ele, voltando para o convento, torcendo para que o domingo chegasse depressa.
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