Notas iniciais
Este capítulo foi super gostoso de escrever, espero que esses leitores fantasmas resolvam comentar para me dar um ânimo legal pra continuar escrevendo com tanto prazer. Não quero que comentem só por comentar, mas que acharam, de fato, interessante. É muito importante. Beijos e boa leitura!

‘Hector’ bufou incomodado, fazendo a lobinha olhar para ele apenas por impulso. O silêncio que havia se instalado depois do que Jaqen falou estava praticamente insuportável, era o tipo de situação que Arya preferia falar, discutir, argumentar e xingar do que permanecer quieta.

– Então que tal modificarmos a posição dela? – propôs o Targaryen legítimo, cruzando os braços e arrancando uma carranca da lobinha – O que foi? Já não basta a confusão que teremos que enfrentar e ainda tenho que carregar mais outro problema nas costas?

Ela ergueu a sobrancelha, se sentiu insultada imediatamente. Voltou o olhar para Jaqen, que analisava os dois em silêncio.

– Está me chamando de incompetente?! – disse Arya nada pacífica, ficando em pé e encarando Hector diretamente, como se estivesse desafiando-o.

Mas ele nada fez como reação.

– Óbvio que não – respondeu sem perturbações em sua aparência – Uma subcapitã como você nunca pode ser chamada de incompetente, o problema é ter Jon Snow por perto intrometendo em nosso trabalho. Não quero ser responsável por algo assim, ainda mais envolvendo a minha família... legítima. Não tem como mudar essa situação, Jaqen?

O capitão comandante deu de ombros.

Ele nem parece muito preocupado com Aegon.

Talvez porque ele soubesse seu lugar, quem sabe?

– Arya ficará na linha de frente, isso já está decidido – respondeu Jaqen tomando um gole do seu vinho dornês – Dependendo de como Westeros se apresente, quero os dois no Norte. Recebi um relato preocupante a respeito do aumento de ataques, e seria melhor se Dorne ficasse sem proteção oficial nossa, o que poderíamos negociar com o Conselho de Guerra. O que tenho certeza é: teremos que reforçar a frente de batalha, e vocês dois estão encarregados das Terras Fluviais. Será ótimo se todo mundo entrar em um acordo.

Norte?!

– O que dificilmente acontecerá, se quiser saber minha opinião – murmurou Hector seriamente, ele havia levado ao pé da letra quando falaram que não poderia haver, em hipótese alguma, qualquer distúrbio em relação à revelação de que o verdadeiro Aegon ainda estava vivo. E comigo. Agora a lobinha entendia o porquê de Jaqen falar que não nutria dúvidas quanto aquele capitão, de fato – Mas tenho uma pergunta que anda me incomodando desde que saímos de Bravos, Jaqen.

– Pergunte, Aegon Targaryen – pediu educadamente, até com um pouco de cortesia aristocrática. Claro que o intuito era provocá-lo, e se isso aconteceu, de fato, Arya não conseguiu notar.

Ainda em pé, ela se preocupava com o coração que batia aceleradamente. Seus pensamentos se perdiam nas memórias de Winterfell, lembrando dos tempos felizes, dos tempos cheios de inocência e tranquilidade. Tempos em que o desespero não existia. Até doía lembrar com tanta nitidez daquela época. Logo percebeu que Hector a observava atentamente, lembrando inexplicavelmente algo que não conseguia entender dentro de si. Seus olhos índigo-violeta eram de uma expressão fantástica, e descobriu que aquilo tinha o talento de paralisar qualquer tipo de pensamento na pequena loba.

– Você está bem? – ele perguntou atento – Está com uma cara que parece que vai vomitar.

Arya balançou a cabeça.

– É que a perspectiva de voltar está me dando enjoôs – respondeu automaticamente, era difícil mentir para aqueles olhos enigmáticos e cheios de segredos – Não se preocupe.

– Eu não estou preocupado – lançou-lhe uma resposta desaforada, erguendo uma sobrancelha em tom de dúvida, logo provocando uma ira incontrolável dentro dela. Boquiaberta, Arya estava sem reação.

– ‘Eu não estou preocupado’ – repetiu Jaqen em um tom de deboche, como se estivesse falando com crianças. Rindo em seguida, o capitão comandante tomou outro gole do vinho dornês, deixando os outros dois desconcertados – Parecem crianças orgulhosas da aristocracia westerosi. Interrompem essa discussão inútil por alguns minutos, precisamos decidir o que faremos pois as cartas que Arya escreveu já devem estar sendo lidas por todo continente. Vamos logo com isso, o que queria me perguntar, Aegon Targaryen, legítimo herdeiro de Westeros?

O aborrecimento do rapaz era visível, deixando-a satisfeita ao sentar-se novamente. Cruzando os braços, a pequena loba sabia que estava agindo como uma criança mimada da aristocracia, como Jaqen disse anteriormente, mas...

...Hector consegue me deixar fora do sério.

A verdade que ela nunca confessaria era que aqueles olhos mexiam consigo, deixando-a sensível a qualquer estímulo dado.

Isso é mentira. Mentira. Uma mentira.

Ninguém mexia com ela, nem aqui e nem lá em Yi Ti.

– O mestre não pareceu se preocupar com isto, — começou o capitão – o que quer dizer que qualquer confusão será bem-vinda. Parece ser o que ele deseja, até.

Isso chamou a atenção dela, era bem verdade o que Hector dizia e que acabou perturbando-a por causa da conotação simbólica que ambos representariam quando fossem apresentados ao Conselho de Guerra na hierarquia da organização.

– Isso é verdade, Jaqen – apoiou-o sem pensar, o que andava fazendo e que Jaqen logo chamaria sua atenção por causa disto – Como o mestre espera que tenhamos um bom desempenho sendo que praticamente estamos montando um espetáculo para o Conselho de Guerra?

– Viu? – começou Hector apontando para ela, que olhou aquele dedo indicador de cara fechada – Ela também concorda comigo que isso está estranho demais.

– Humm... – o capitão comandante tomou o resto do vinho dornês, servindo-se de mais. Ele está contrariado também... – ...sei o que quer falar, capitão Hector. Infelizmente partilho das mesmas preocupações que você, os conselheiros do Banco de Ferro possuem segundas intenções e isso está claro para todos que sabem que vocês dois estão vivos.

Espera aí.

Arya estava sendo paranóica ou realista?

– Os conselheiros não gostam de dragões, como bem sabemos – afirmou a lobinha.

– Só se não estiverem dos nosso lado – revelou Jaqen – Temos o único dragão legítimo, justamente o que tem no fundo do baú a Irmã Negra como espada principal.

Coçando a nuca, a pequena loba finalmente descobriu o que os conselheiros bravosi pretendiam... deixando-a constrangida e consequentemente ruborizada. Se viu em uma confusão pior que imaginara, deixando-a com vontade de voltar para Bravos e virar acólita novamente na Casa do Preto e Branco.

Seria levar a mão na cara de todos que conheço.

– A espada de Visenya Targaryen, sim – concordou o herdeiro de Westeros se revelando lentamente. Era interessante a mudança em suas feições, evoluindo para algo mais enigmático e calculista. Um rapaz de cabeça boa, mas coração negro... – Matei muitos traidores para consegui-la de volta.

– Um Targaryen inescrupuloso, mercenário e inteligente – Jaqen descreveu o capitão Aegon lentamente enquanto mexia o vinho dornês no cálice – Seus antepassados ficariam orgulhosos, rapaz. Não espero um Rhaegar Targaryen de você.

– Não sou o espelho dele – afirmou Aegon com segurança – Mas está me cobrando algo de alto preço, Jaqen. Diga-me o que espera de mim e dar-lhe-ei minha resposta.

– Aegon, o Conquistador – o capitão comandante falou por fim.

Erguendo a sobrancelha, Arya já sentia que tudo pioraria a cada frase dita.

– Tá... – ela começou organizando as idéias — ...e onde eu entro nisso?

.. deuses... antigos...

Não podia ser o que ela estava pensando, ou podia?

Dois pares de olhos a miravam pensativos, o índigo-violeta a analisava de corpo inteiro enquanto os olhos azul-claro brilhavam intensamente. Jaqen revirou o vinho dornês no cálice novamente, cheirando-o em seguida.

– A única Stark com o ventre livre está em minha frente – comentou o capitão comandante, fazendo-a surtar mentalmente. Não sabia se ficava com vontade de vomitar ou espancar ambos até a morte, mas sabia que todo o seu rosto se assemelhava à um tomate maduro – Sei que não sangrou, minha doce criança, mas isso logo acontecerá. Sabe porque a Casa do Preto e Branco te aceitou, querida? Você se tornou uma habilidosa mercenária, sim, mas costumamos não aceitar membros das grandes Casas westerosi por saber que a raíz é forte. A semente é forte. Em nossa mão esquerda, temos o herdeiro legítimo de Westeros em nossos territórios desde bebê. Em nossa mão direita, temos a única Stark livre para um casamento e que tem nas veias o sangue do Reis do Norte, uma dinastia milenar. Só para constar: estudei na Cidadela e tenho permissão do meu grande amigo interno, Pate, a promover o casamento de vocês dois em um Septo. Estou tão feliz quanto vocês.

Arya Stark de Winterfell piscou várias vezes na tentativa de entender o quanto aquilo soava racionalmente lógico, mas idiotamente absurdo. Procurou não olhar para Aegon, mas sabia que o próprio a examinava atentamente. Um bolo havia se formado em sua garganta, tossindo em seguida na tentativa de tentar se livrar daquilo. Os olhos de Jaqen deixavam claro que não era do seu agrado essa conspiração, mas de nada poderia fazer já que as ordens vinham do Banco de Ferro de Bravos, justamente o banco que financiava novos governos quando um não lhe agradava.

Era tão lógico, mas ao mesmo tempo...

...uma bofetada na minha cara.

– Peço permissão para me retirar, capitão Jaqen – falou baixinho tentando impedir que as lágrima brotassem em seus olhos acinzentados.

Não se passaram dois segundos e o capitão comandante, seu pai adotivo, assentiu levemente. Arya deixou o aposento sem sequer olhar para trás, muito menos para o verdadeiro Aegon Targaryen. Não se sentia em condições emocionais de encará-lo, mesmo sendo a sua vontade atravessá-lo com mil lâminas e vê-lo sangrar até a morte. Mesmo assim sentiu o olhar dele em suas costas, queimando como se fossem chamas de dragão, antes de fechar a porta atrás de si.

Andando pelo corredor, não se interessou no que os dois falariam dentro daquela cabine. Tudo que a lobinha mais precisava no momento se chamava ‘Agulha’, que jazia no fundo do seu baú principal, lembrando-a dos tempos de Winterfell e de como as coisas se encaminharam de forma cruel para si. Um sono estranho e uma dor abdominal tomaram conta de si um pouco depois de deitar em sua cama feita de pernas de ganso, e não tardou para que ela entrasse em um sono profundo agarrada com a espada que seu irmãozinho lhe deu quando saíram de Winterfell.

As lágrimas não romperam a barreira de suas pálpebras. Ela nunca foi de chorar.

(...)

– Ela não tem nada a ver com minha vida, Jaqen – informou ao capitão comandante. Ela não tem que se envolver nisto. Insatisfeito, Aegon balançava a cabeça em estado de negação – Não permitirei que ela tenha participação nisto.

Jaqen arqueou as sobrancelhas, mas não sorriu.

– Não a subestime, Aegon – começou seguro do que dizia – Ela é Arya Stark, tem o sangue de uma dinastia mais antiga do que a sua, pelo que me recordo. Sangue de gelo, digamos assim. Minha doce criança não seria quem se tornou se fosse uma menina padrão da aristocracia westerosi. Ela tem estômago forte e logo assumirá sua responsabilidade após todos estes anos que se viu protegida pela Casa do Preto e Branco. É uma mercenária, sim, mas antes disto é uma Stark.

Não estou subestimando a subcapitã que deveria ser uma capitã.

Na verdade, Aegon não sabia o que o deixava tão apreensivo quanto a participação de outra pessoa naquele plano tão antigo da Casa do Preto e Branco. Nunca suspeitara que o convite de participar da organização, pelo menos para loba de Winterfell, viria com uma intimação tão pesada quanto aquela. Uma responsabilidade de mulher para uma menina de catorze anos, mais ou menos.

Isso que me assusta.

A idade dela servia como outra dificuldade para ele.

Deveriam ter esperado mais dois anos, ela mal tem seios.

Pelo menos foi o que notou já que a menina sempre estava muito bem vestida todas as vezes que se encontraram. Talvez fosse isso o que o fazia sentir-se um idiota, a atração que tinha pela lobinha era forte e teve que se segurar em muitas siuações para não dar um passo em falso.

– Mentiria para você se falasse que não sabia destes planos – comentou após um suspiro exausto – Apenas não sabia que ela poderia estar envolvida nisto. Não sei se aquela menina irá acatar tais ordens, não parece ser do tipo que obedece os outros.

– Se fosse outra pessoa, ela desobedeceria na mesma hora – admitiu o capitão comandante. Ele a conhece tão bem... e eu não deveria estar sentindo ciúmes... – Mas não à mim. Eu a criei muito bem, fiz com que aquela menina enxergasse o mundo de vários pontos de vista e principalmente a respeito do nosso lugar no mundo. Valar Dohaeris. Arya compreenderá rapidamente que é melhor para ela virar sua esposa do que seguir adianta na organização, e você sabe disto tão bem quanto eu.

Infelizmente, Aegon sabia. O que acontecia com as meninas que entravam na Casa do Preto e Branco não era segredo para ninguém, nem mesmo para quem não tinha nada a ver com a organização em Bravos. As cortesãs principais eram integrantes que espiavam cada um dos seus clientes, sendo uma das únicas funções que tinham para desempenhar naquele mundo cheio de cobras que não lhes davam oportunidades para saírem dali. O sofrimento daquelas jovens era visível, e Aegon tinha noção do que quanto Jaqen estava certo naquele aspecto.

– É por isso que apóia o plano? – perguntou curioso, mas ainda sério – Pelo bem-estar dela?

O homem assentiu levemente, tomando o último gole do vinho dornês.

– Não irei vê-la seguindo para o caminho da prostituição, sendo vítima de pervertidos sexuais que logo a fariam tão mal quanto posso imaginar – respondeu mostrando-se perturbado, sendo uma das poucas vezes que Aegon presenciara tamanho desgosto por aquele respeitável homem – Ela consegue suportar qualquer tipo de situação, menos as que tem conotação sexual. Esse lado dela é trancado para qualquer um pois não confia em ninguém para tirar dela a, como vocês dizem mesmo? Ah, sim! A honra.

Pensou nas palavras do capitão comandante por alguns segundos, sentindo o coração pesado por ter que aguentar uma responsabilidade como aquela. Havia tido várias mulheres em sua cama, dezenas que abriram as pernas e permitiram com que o próprio provasse cada uma delas de forma proveitosa e prazerosa. Mas estímulo sexual não abria o coração, o emocional, de ninguém. Aegon sentia-se, por dentro, um homem sem muitas esperanças a respeito do que seria o sentimento de confiar em alguém sem ter que usar como uma via de mão dupla. Um vale-troca.

Eu pago, elas abrem as pernas.

O que fazer com uma menina que tem uma parte tão negra quanto a dele?

– Olhando por esse lado – começou pensativo -, você tem razão. Sei que quer protegê-la.

– Se dependesse de mim, meu caro Aegon, suas mãos ficariam bem longes dela – ameaçou Jaqen inesperadamente – Antes de prosseguirmos com os preparativos desse plano em particular, deixarei muito claro o que penso. Você não é o que quero para ela, Arya merece muito mais do que um coração de pedra recheado de cinzas. Não vou pedir para que tente gostar dela, estou lhe obrigando a respeitá-la acima de qualquer coisa. Coloque sua mão nojenta para atormentá-la e qualquer dia verá o sol nascer vermelho, escutou?

Quem você pensa que sou? Meu avô?

Meu pai?

Aegon tinha que admitir que seu histórico familiar era uma merda, mas isso não significava que essas fossem suas características particulares. Cresceu sob as rígidas ordens da Casa do Preto e Branco, convivendo com os habitantes da Cidade Livre mais justa de Essos e dessa forma aprendeu que a vida era muito mais do que os westerosi costumavam falar-lhe. Foi até Westeros seis vezes e saiu com a certeza de que era um continente castigado pelos deuses, estes enfurecidos pela conduta duvidosa de seus governantes.

O lugar me chama novamente.

Dessa vez ele não iria escondido, disfarçado ou utilizando outros rostos. Tudo seria diferente, e...

– Escutei, Jaqen – respondeu seriamente – Não irei fazer mal algum à sua doce criança.

...logo descobrirei o porquê daquela menina me perturbar tanto.

– Então vou deixar para discutirmos sobre isso quando estivermos em terra – falou o capitão comandante no final de tudo – Vamos aos planos do mestre. Como está seu sangue de dragão?

– Pulsando – respondeu com um sorriso de lado. Gostava dessa parte – Rhaegal já veio até mim nas duas últimas vezes que estive em Westeros, está tudo conforme o planejado.

– Domou-o?

Ele respirou fundo, estava mais preocupado sobre como lidaria com a presença da menina perto de si do que falar de dragões.

– Já está sob meu domínio – respondeu levantando-se. Se viu inquieto desde que sua... noiva... descobriu que, de fato, havia se tornado uma noiva. Pelos deuses, o que faço? – Peço permissão para me recolher.

Jaqen levantou-se e fez uma reverência em um claro tom de deboche, fazendo Aegon revirar os olhos impacientemente e acabar deixando o aposento o mais rápido possível. As zombarias do capitão comandante sempre foram frequentes, mas agora passava dos limites. Se aborrecia muito quando aquele tipo de situação se repetia, mas o respeito que tinha pelo homem era gigantesco e aprendera há tempos a arte do respeito.

Arte da paciência.

A difícil arte do jogo dos tronos.

Não podia negar que seu coração desejava sair da Casa do Preto e Branco para reconquistar seu lugar, mas o medo de fazê-lo era proporcionalmente igual à este desejo...

...e agora eu tenho mais uma preocupação.

Resolveu deixar a menina mastigar aquela informação por algum tempo, não adiantava de nada colocá-la contra a parede no momento. Na verdade, não tinha desejo de confrontá-la pois aqueles olhos cinzentos sempre estavam em um claro tom de desafio. Não podia negar que Arya alimentava uma chama de ódio dentro de si extremamente interessante, bem semelhante à dele.

Somos parecidos... talvez possamos nos dar bem.

Talvez não.

Não tenho a mínima idéia de como agradá-la.

Se viu em um mato cheio de lobos-gigantes, teria que encarar Westeros e ainda carregá-la de bônus.

Desgraça pouca é bobagem.

(...)

Os integrantes da organização haviam colocado uma tábua larga feita em madeira resistente para que os capitães e subcapitães colocassem os pés em terra firme.

..

Arya afundou na neve até a coxa, e olha que não era tão baixinha assim. Se não fosse a qualidade do tecido de suas roupas, provavelmente sua perna estaria congelada em questão de minutos. Pensou nas pessoas que não tinham nada para se proteger daquilo, e agora entendeu perfeitamente porque tanta gente havia saído daquele continente castigado pelos deuses.

Os navios que chegaram dias antes já tinham despachado muitos homens, estes que fizeram um acampamento decente no meio daquela confusão. A neve se misturava com a fria garoa e o vento traiçoeiro finalizava uma combinação extremamente perigosa, Arya mal conseguia enxergar o resto do acampamento. Se bem que era um largo acampamento, mas era difícil perceber que cada tenda tinha uma bandeira em preto e branco no topo.

Eram tantas fogueiras que ela quase se sentiu no quarteirão dos sacerdotes vermelhos em Bravos.

Os homens retiravam os baús do navio enquanto cada capitão recebia relatos dos ataques e especialmente do clima. Foram sete ataques em cinco dias, segundo um dos especialistas em logística e cálculos da organização, e não haviam perdido um só homem.

Finalmente uma informação boa.

Isso só mostrava que estavam preparados para o que lhes esperava no continente.

Ela olhou ao seu redor enquanto a maioria dos homens arrumavam todas as provisões, armas e vestes necessárias para aguentar o Inverno, mas a neblina era forte. Cumprimentou os homens, que fizeram uma reverência esquisita enquanto passava pelos corredores de tendas negras, sentindo-se confusa pois por ser mulher acabou tendo dificuldades para ser reconhecida entre eles.

– Subcapitã! – chamou um dos homens que era responsável pela manutenção do acampamento – Que bom vê-la novamente, até senti falta de sua presença por aqui.

Não deixou de sorrir, era um dos seus soldados favoritos pois foram acólitos da Casa do Preto e Branco na mesma época. Não era um assassino tão bom, então ficou responsável pelo planejamento e cálculos das provisões, e assim o rapaz se mostrou um gênio da matemática.

– Soldado Ganita – cumprimentou-o, e a reverência aconteceu de novo. Mas o quê...? – Precisou matar quem dessa vez? Pois só assim lembra de mim.

A pele negra sugeria que o rapaz pertencia aos ilhéus ao sul de Dorne, embora Arya não tivesse certeza disto. Alto como uma muralha e magrelo quanto um camponês faminto, não havia jeito nenhum de se mostrar tão bom nas lâminas quanto ela.

E não foi por falta de tentativa.

Ganita sorriu de bom humor, seus dentes marrons e negros eram incrivelmente horrorosos.

– Tivemos vários ataques, mas vários lobos também passaram por nós e não nos atacaram – respondeu pensativo, mas ainda com suas feições agradáveis... err... mas não pela aparência – Lembrei da minha subcapitã favorita, talvez esteja governando os lobos também.

‘Também’?

– Talvez sim – piscou para ele em um tom de brincadeira. Não deixava com que seus subordinados ficassem sabendo de seus receios, medos e preocupações. Eram coisas que guardava apenas para Jaqen e sua travesseiro, mas duvidava muito que teria um naquele acampamento – Falando sério agora, Ganita. Como está a situação? Alguns dos westerosi fizeram contato?

Estou em Westeros.

O sentimento terrível dentro de si a fazia lembrar de quando partiu logo dali, de Salinas.

Que se resume em uma vila abandonada agora.

Só que tudo isso pertencia ao passado, como disse Jaqen antes de desembarcarem, e permitir todos aqueles pensamentos seria o mesmo que se esfaquear. Arya não podia, não devia e sequer cogitaria pensar com que tudo aquilo a afetasse, pelo menos até chegar em Harrenhal.

Pelos deuses.

Suas pernas tremiam só de pensar.

– A sua tenda é a segunda à esquerda, seus baús já estão lá e uma refeição quentinha será servida dentro de uma hora – informou-a rapidamente, deixando-a sem saber porque raios estariam tornando tudo tão prático para ela – Vou me retirar, tenho que manter as fogueiras altas por estes lados. Tenha uma boa noite de sono, subcapitã!

Sorriu ao vê-lo ir embora rapidamente, olhando para cada fogueira e xingando qualquer um que o atrapalhasse nesta missão. Invejava-o de certo modo, não teria tantas responsabilidades a carregar nas costas e o modo com que levava aquela vida era até desejável porque provavelmente não tinha lugar pra voltar, nem mesmo para cair morto. Arya e o seu colega da Casa do Preto e Branco possuíam vidas completamente diferentes, e talvez daria tudo para estar no lugar dele.

Resolveu não ficar parada por muito tempo no meio da neve, o estômago já pedia comida e tudo que ela mais queria ficar sozinha.

Entrou em sua tenda negra como carvão, mas logo percebeu que havia mais alguém sentado em frente as brasas que queimavam no centro da mesma. Não demorou para saber quem, de fato, havia invadido seu espaço antes mesmos de adentrá-lo. O longo cabelo prateado estava solto pela primeira vez, descendo pelas costas em cascata sobre as peles negras que usava como capa.

Seu coração deu um pulo, mas preferiu ignorar tal reação interna. Fechou a ‘porta’ da tenda após adentrá-la e cruzou os braços ainda em pé.

Olhos tão sérios que nem parece ter a idade que tem.

– O que está fazendo aqui? – perguntou sem rodeios. Não sabia mais lidar com ele desde que descobriu a finalidade dela na Casa do Preto e Branco.

Acho que nunca soube lidar com ele, para ser sincera.

Aegon sempre tinha uma aura intimidante ao redor de si.

Este a mirou pensativo, seus olhos a estudavam calmamente.

– Você está com raiva de mim – não era uma pergunta – Não te culpo. Sente-se aqui, está frio demais para ficar longe do fogo.

Deuses, por que querem causar tanta confusão para mim?!

Não adiantava argumentar, o frio realmente já começava a perturbá-la. Reparou que havia um pequeno barril de frente para aquele homem tão intimidante, logo pôde concluir que Aegon planejara tudo antes mesmo da lobinha localizá-lo no acampamento.

Jaqen, seu idiota.

Sabia que o homem estava envolvido nisto.

Sentou-se a contragosto embora não desviara o olhar enquanto era encarada explicitamente.

Olhos sérios e decididos.

Parece que a palavra ‘hesitação’ não existia no vocabulário do rapaz.

Aegon parecia ser mais velho do que realmente era, mas sempre diziam que as preocupações nos envelheciam mais que o tempo.

– Não estou sentando por causa sua – resmungou a lobinha sem saber o que dizer.

– Ainda não questionei seus motivos para me dar uma espetada como esta – comentou imperturbável, o que começou a incomodá-la sutilmente – Acho que errei ao não ter te procurado depois... daquele dia.

Ela não sabia o que mais a irritava...

...a serenidade dele ou o coração que não parava quieto no peito.

– Mesmo se tivesse me procurado, — começou decidida de que era uma loba de Winterfell que não tremia as estruturas em hipótese alguma – não temos nada a tratar.

Impenetrável.

Era assim que Aegon se revelava.

– Jaqen disse que você aceitou o plano – comentou calmamente.

Olhos sérios. Olhos penetrantes.

– Vamos falar sério, — bufou levemente – acha que eu tenho escolha?

– Se acha que sua posição está ruim, é melhor pensar o quanto a minha é pior – respondeu ponderando cada palavra que saía de dentro dos lábios da pequena loba – Tenho a Irmã Negra nas costas e a Blackfyre na cintura, o colar que toda Rainha Targaryen deveria ter que pertencia à minha avó, a aparência do meu pai e várias jóias Martell que eram de minha mãe. É mais do que o suficiente para convencer qualquer um da minha origem. Agora pense: sua posição é tão ruim quanto a minha?

Arya deu de ombros, não fraquejaria diante dos argumento dele. Mesmo estes sendo inteiramente verdadeiros.

– Talvez – respondeu simplesmente. Também posso ser impenetrável... – Se sua intenção é dar um chute nos seus parentes e conspirar contra todos, bem, parabéns pois está no caminho certo.

Ele balançou a cabeça mostrando-se, pela primeira vez, preocupado com o rumo da conversa.

Ou da situação.

– Minha intenção era esquecer quem sou, assim como você quis fazer – murmurou pensativo, deixando-a ligeiramente desconcertada – Na minha última missão neste continente, acabei conhecendo Rhaegal e automaticamente estabelecemos um vínculo forte. Sei que tem uma loba-gigante e considero as lendas nortenhas, principalmente dos wargs, uma realidade. Você sabe o que é ter algo lhe pedindo para fazer coisas... difíceis.

Sentiu-se desconfortável com o rumo daquilo, preferia o Aegon frio e impenetrável do que aquele preocupado que agora se revelava de forma cru. Sua idiota. Não deveria se impressionar com aquilo, era claro que o rapaz estava procurando estabelecer qualquer ligação que justificava a execução daquele plano. Ruborizou com uma imagem que sua mente formou, chamando a atenção dele.

– Sei como é – falou por falar, estava mais interessada em disfarçar o constrangimento – Mas o que está fazendo aqui? Já lhe pedi para sair, eu acho.

Silêncio.

Olhos atentos. Olhos profundos.

Quase ouvia as batidas de seu coração na garganta.

– Não, você não me pediu – observou Aegon – Me se tivesse, você teria que me obrigar.

Tum-dum. Tum-dum.

– Então pelo menos deve responder o porquê de sua presença aqui – falou sem muito tato – Está invadindo minha privacidade.

Aegon ergueu uma sobrancelha, será que era um sinal de humor ou... talvez não. A desgrama não emitia mensagens corporais para guiá-la na conversa.

– Se alguém está invadindo a vida alheia, seria você – começou sério – Terei que tomar conta de você a partir do momento que colocarem o plano em prática.

Revirando os olhos impacientemente, Arya não conseguia acreditar que alguém duvidava de sua capacidade de sobrevivência.

– Não sei se percebeu, parece que consegui minha posição com muito mérito.

Olhos penetrantes.

Sentia-se nua.

– Não duvido de suas habilidades como mercenária, mas parece não ter tato algum para lidar com pessoas do seu passado – revidou Aegon de forma sarcástica, deixando-a irada cada vez mais – Fico imaginando quando encontrar com seus familiares, parece que não sairá como você quer.

Arya cruzou os braços, não acreditava que aquele homem estava questionando sua maturidade emocional.

Tum-dum.

– E o que você tem a ver com isso?! – perguntou raivosamente.

Olhos tristes. Olhos orgulhosos.

– Muito – respondeu simplesmente – Caso não tenha notado, é minha responsabilidade cuidar do bem estar da minha... mulher. Se alguém lhe afrontar, receio que terei que desafiar quem quer que seja pois serve de ofensa à mim e o que represento. – tum-dum, tum-dum, tum-dum – É tudo mais complicado do que esse seu chilique.

Um rubor inconveniente tomou conta de suas bochechas, sua vontade era atirar aquele barril que se sentava justamente naquela face impecavelmente Targaryen. Talvez nunca conhecera alguém tão impenetrável quanto ele, e pior: compreendia que a infância de Aegon tenha sido dura e nada agradável. A pequena loba enxergava apenas uma imagem que ele criara ao redor de si, e tal pensamento tomou força em sua mente.

Será que ele procura o meu real bem estar ou por eu me tornar sua... err... propriedade.

A idéia era ridícula. Pensar que Aegon poderia preocupar sinceramente consigo não fazia muito sentido, mal haviam conversado desde... sempre. Passava direto por si nos corredores da organização, nunca fizera refeições com ela e Jaqen...

...então resolvo espioná-lo e descubro que o ‘colo’ dele sempre está disponível para mim.

Surreal demais para ser levado a sério, embora alimentava seu ego eficientemente.

O coração da lobinha batia aceleradamente, sentia-o em sua garganta e há tempos não se sentia tão nervosa. Lidar com a morte era mais fácil do que enfrentar a vida. Filosófico, mas verdadeiro.

– Não seria chilique se você realmente compreendesse, Aegon Targaryen – falou – Duvido que tenha vontade de cuidar de mim, penso que se não fosse isso, mal notaria se eu desaparecesse no meio dessa confusão.

– Eu notaria que uma menina tão orgulhosa desaparecesse, suas respostas rápidas são uma tortura para qualquer um – comentou Aegon – Faz um péssimo julgamento sobre mim, Arya. Não sou seu inimigo.

É o meu maldito noivo.

– Não parece.

Arrependia imensamente de ter procurado refúgio na Casa do Preto e Branco, era uma organização que não havia direito de escolha.

– O que eu fiz para que duvidasse de minha índole? – perguntou Aegon de forma penetrante. Era cada vez mais difícil manter sua expressão facial neutra, compenetrada e séria. Sentia uma imensa vontade de rir, mas não havia diversão alguma. Costumava rir quando se via nervosa ou em uma situação sem volta. Nem ela compreendia essa reação – Nunca estuprei nenhuma mulher, se é que quer saber.

– É que... – enrolou um pouco constrangida, não esperava um diálogo tão direto — ...nunca tivemos contato.

– Agora teremos, lobinha.