A Inútil Herança
1 São tantas ilusões
Nessa estrada
Só quem pode me seguir
Sou eu!
Sou eu, sou eu, sou eu!
Fagner
Quando o trem começou a reduzir a velocidade, James percebeu que estava segurando a mesma folha de papel havia quase uma hora.
A carta já estava amassada nas bordas de tanto ser aberta e fechada durante a viagem. Não que houvesse algo novo para descobrir nela. As palavras continuavam exatamente as mesmas desde o dia em que a recebera, secas e objetivas como costumavam ser as notícias realmente ruins. A situação da propriedade da família era insustentável. As dívidas acumuladas durante anos ultrapassaram qualquer previsão otimista. As safras recentes não tinham produzido o suficiente para cobrir os prejuízos, diversos setores da fazenda precisavam de reparos urgentes e, caso nada fosse feito nos meses seguintes, a terra seria colocada à venda para quitar parte dos débitos pendentes.
Ele conhecia aqueles campos desde antes de aprender a ler.
Conhecia os caminhos de terra, as cercas, os riachos escondidos entre os morros e os pastos onde passara boa parte da infância observando Pokémon correrem livres sob o sol. Ainda assim, enquanto o trem atravessava os últimos quilômetros até a estação, a paisagem diante da janela parecia pertencer à vida de outra pessoa. Era estranho retornar a um lugar que durante tanto tempo existiria apenas como memória. Mais estranho ainda era perceber que a memória havia sido gentil demais.
O interior de Kanto sempre teve uma beleza silenciosa. A linha dourada do horizonte ao entardecer, o cheiro de terra molhada depois da chuva, o som distante de Pokémon selvagens escondidos entre os campos. Quando criança, James acreditava que aquele mundo jamais mudaria. Agora, observando pela janela, começava a entender o quanto essa crença havia sido ingênua.
A estação era modesta, exatamente como ele lembrava. Algumas pessoas aguardavam familiares, outras carregavam caixas e mercadorias, enquanto um grupo de crianças corria de um lado para outro acompanhado por um par de Eevee particularmente animados. James desceu do trem com apenas uma mala e uma sensação incômoda de que estava chegando atrasado para alguma coisa importante.
O ar do campo era diferente do das grandes cidades. Mais limpo. Mais pesado de aromas naturais. Havia cheiro de madeira, de vegetação aquecida pelo sol e de fumaça distante. Também havia outro cheiro que despertou lembranças imediatas: milho assado.
James ergueu os olhos. Foi então que percebeu as bandeirinhas.
Elas estavam espalhadas por diversos pontos da pequena cidade, atravessando ruas e praças em longas fileiras coloridas. Algumas barracas já estavam montadas na região central, e pessoas trabalham nos preparativos para a Festa de São João. O movimento era maior do que ele esperava encontrar. Treinadores chegavam de propriedades vizinhas, acompanhados por alguns Squirtle e vários Bulbassauros; comerciantes descarregavam mercadorias e vários Pokémon ajudavam em tarefas simples. Um Machoke carregava tábuas para a montagem de um palco. Dois Furret passavam correndo com fitas coloridas presas ao corpo.
Um grupo de Pikachu parecia mais interessado em brincar com as bandeirinhas do que em ajudar qualquer pessoa. A cena fez James sorrir. Quando era menino, a Festa de São João marcava praticamente o início da melhor época do ano. Durante semanas, a região inteira se mobilizava para os preparativos. As famílias decoravam as propriedades, organizavam apresentações, montavam barracas e planejavam competições envolvendo treinadores e Pokémon.
São tantas ilusões
Perdidas na lembrança
Fagner
Então lembrou-se da carta dentro do bolso. A realidade retornou imediatamente.
A caminhada até a propriedade durou pouco mais de meia hora. Conforme deixava a área mais movimentada da cidade para trás, a paisagem tornava-se cada vez mais familiar. As colinas continuavam onde sempre estiveram. O riacho que cortava parte dos terrenos vizinhos ainda serpenteava entre as árvores. Algumas casas haviam recebido reformas, outras pareciam abandonadas. O tempo passa para todos.
Quando o portão principal surgiu à distância, James diminuiu os passos, enquanto observava o cenário com calma. A casa principal conservava a mesma estrutura elegante que sempre a distinguiu das construções vizinhas. Infelizmente, contudo, a pintura branca descascada e as marcas de desgaste denunciavam anos de dificuldades financeiras: a varanda precisava de reparos e o celeiro ao lado mostrava sinais ainda mais evidentes de abandono. A família lhe reclamou, algumas vezes, que o raro Spectrier havia fugido. Não era à toa! Será que o Spectrier retornaria um dia? James não sabia.
E para estressar ainda mais James, as dívidas não estavam apenas nos documentos; elas estavam gravadas em cada pedaço daquela terra. O homem de longos cabelos azulados atravessou o portão lentamente, ouvindo o irritante rangido das dobradiças enferrujadas. Ao entrar em casa, se surpreendeu que o interior estava limpo. O relógio da sala ainda funcionava. Graças a quem? Não fazia a mínima ideia.
Quando chegou à cozinha, encontrou um caderno de anotações sobre a mesa. Abriu-o. Os números confirmaram tudo o que a carta havia sugerido. Talvez até pior: custos de manutenção, contas atrasadas e equipamentos quebrados. Ah, o brinde? Produção insuficiente. Como conseguiram falir tudo, mesmo com uma boa equipe e ótimos pokémons ajudando? Vai entender!
James passou a mão pelos cabelos e soltou um suspiro longo. Não sabia por onde começar. Quanto mais analisava a situação, mais absurda parecia a ideia de resolver tudo sozinho.
Lá fora, os últimos raios de sol desapareciam atrás das colinas. Pouco depois, a música começou. A Festa de São João estava começando. As lágrimas, escorrendo pelo rosto de James, também…
James caminhou até a varanda. A noite havia caído quase completamente, e ao longe era possível enxergar pequenos pontos luminosos espalhados pela escuridão. Fogueiras. Lanternas. Barracas iluminadas. O som de sanfonas e conversas chegava carregado pelo vento.
Por um instante, a cena pareceu pertencer a outro mundo. Não precisava pertencer ao outro mundo. Precisava? James se perguntou, enquanto limpava as lágrimas em seu rosto.
Enquanto a cidade celebrava, sua atenção permanecia presa aos números que acabara de ler. Enquanto as famílias e seus pokémons se reuniam para dançar e festejar, ele tentava descobrir como impedir que a propriedade desaparecesse para sempre.
Talvez fosse justamente por isso que a festa chamava tanto sua atenção. James observou as luzes ao longe durante vários minutos, querendo fazer parte de um mundo normal, ao menos uma vez na vida.
Em algum momento, um grupo de Vulpix atravessou correndo parte do terreno vizinho. Mais distante, conseguiu distinguir o brilho ocasional de ataques elétricos disparados por Pokémon brincando próximos à área da festa. Risadas surgiam e desapareciam junto com o vento. James resolveu aproximar dos Vulpix, que lhe cumprimentavam de forma carismática.
Quando finalmente conseguiu se recompor, deixando a tristeza repousar no fundo do peito, James decidiu seguir para a Festa Junina da pequena cidade. Ficar trancado em casa não mudaria absolutamente nada. Precisava comer direito, recuperar as energias e, quem sabe, conhecer melhor as pessoas que agora faziam parte de sua nova realidade naquele tranquilo interior de Kanto. Afinal, se pretendia recomeçar sua vida, teria de dar o primeiro passo em algum momento.
Bandeirinhas coloridas dançavam ao sabor da brisa, fogueiras aqueciam o ambiente e o aroma de milho assado, pamonha, canjica e espetinhos tomava conta do ar, naquele arraial. Crianças corriam entre as barracas, enquanto treinadores exibiam seus Pokémon, que pareciam tão animados quanto seus donos. Havia música, risadas e conversas espalhadas por todos os cantos.
James caminhava sem pressa, observando cada detalhe. Ainda se sentia deslocado, mas era impossível não notar o clima acolhedor do lugar. Aos poucos, percebeu que a festa reunia muito mais do que apenas moradores da região. Treinadores de diversas partes do mundo haviam aparecido para prestigiar o evento.
Foi assim que acabou encontrando um rosto bastante conhecido.
Tratava-se de Steven Stone, o renomado Campeão de Hoenn. Elegante como sempre, vestia roupas discretas, porém refinadas, e mantinha a postura calma que lhe era característica. Reconhecido mundialmente como um dos maiores especialistas em Pokémon dos tipos Metálico e Pedra, Steven explicava que estava em Kanto apenas por alguns dias. Seu objetivo era aproveitar as férias para explorar montanhas da região e estudar espécies rochosas que não eram comuns em Hoenn.
Ao avistar James, abriu um leve sorriso.
— E aí, James? Alguma dica de lugar interessante para eu explorar?
James pensou por alguns segundos antes de apontar para uma cadeia de montanhas que se erguia ao longe.
— Costumo encontrar muitos Geodude por lá. Se explorar as cavernas mais profundas, talvez tenha sorte de encontrar alguns fósseis... Ah! Um Aerodactyl já foi visto naquela região. Nunca consegui capturá-lo.
Os olhos de Steven brilharam imediatamente.
— Excelente. Era exatamente esse tipo de informação que eu esperava encontrar. Muito obrigado.
A conversa, no entanto, não durou muito. Assim que agradeceu, Steven deu uma breve risada ao sentir o cheiro das comidas típicas.
— Mas antes de qualquer expedição... acho que vou atacar aquelas barracas. Até mais, James.
James apenas acenou, vendo o campeão desaparecer entre a multidão. Foi exatamente naquele instante que algo chamou sua atenção. Alguém, para ser mais específico. Do outro lado da praça, cercada por olhares curiosos, estava uma mulher que ele jamais havia visto.
Seus longos cabelos vermelhos refletiam a luz das fogueiras, adquirindo um brilho quase dourado. As roupas elegantes contrastavam completamente com o estilo simples dos moradores locais; pareciam ter sido feitas sob medida, combinando sofisticação e bom gosto sem qualquer exagero. Sua postura transmitia confiança, mas também uma serenidade difícil de explicar.
Ao seu lado encontrava-se um magnífico Zebstrika. O Pokémon exibia uma pelagem impecável, com listras negras e brancas que pareciam ainda mais vivas sob a iluminação da festa. Pequenos estalos elétricos percorriam sua crina de tempos em tempos, arrancando expressões de admiração das crianças. Mesmo parado, carregava uma imponência que fazia muitos treinadores interromperem suas conversas apenas para observá-lo.
James franziu a testa. Ela definitivamente não parecia ser de Kanto.
Havia algo em sua aparência, em seu jeito de caminhar e até mesmo na forma como tratava seu Pokémon que denunciava uma origem distante. Talvez viesse de Unova. Talvez de alguma outra região. Ele não fazia ideia.
As pessoas se aproximavam para conversar, fazer perguntas e elogiar tanto a treinadora quanto o Zebstrika. Alguns pediam para tirar fotografias; outros apenas admiravam a dupla à distância.
James cogitou se aproximar. Pensou em dizer alguma coisa. Perguntar de onde ela vinha, talvez? Só que ficou com receio de parecer muito imbecil perto dela. Falar o que, afinal, e pra quê ela daria moral para James?
Preferiu ficar afastado, misturado entre a multidão, apenas observando e escutando fragmentos das conversas que chegavam até ele. Descobriu muito pouco, embora algumas pessoas conhecessem muito bem aquela ruiva. Ainda assim, mal falavam o seu nome. Apenas que a treinadora era bastante educada, respondia às perguntas com simpatia e parecia conhecer profundamente Pokémon do tipo Elétrico.
Conforme a noite avançava, o movimento da festa aumentava, mas James sentia suas energias diminuírem. O peso emocional dos últimos acontecimentos ainda cobrava seu preço, e, por mais que o ambiente fosse alegre, ele não conseguia compartilhar completamente daquele entusiasmo.
Antes mesmo que a quadrilha principal começasse e que os fogos iluminassem o céu, decidiu ir embora. Despediu-se discretamente de quem havia conhecido, lançou um último olhar para a misteriosa mulher e seu impressionante Zebstrika e tomou o caminho de casa.
São tantas ilusões
Perdidas na lembrança
Fagner
Dois dias haviam se passado desde o arraial. Logo nas primeiras horas da manhã, James já estava do lado de fora da velha casa, organizando seus poucos Pokémon para ajudá-lo na limpeza e na manutenção da propriedade. Ainda havia muito trabalho pela frente, mas permanecer parado certamente não faria a situação melhorar.
Por sorte, contava com um dedicado Squirtle. Com seus jatos d'água, o pequeno Pokémon lavava a área externa, removendo a poeira acumulada nas paredes e no quintal. Depois, aproveitava a mesma água para regar as plantas que ainda resistiam ao abandono. Era uma ajuda simples, mas indispensável.
Na verdade, James precisaria de um verdadeiro milagre para restaurar completamente aquela fazenda. O telhado exigia reparos e parte da cerca precisava ser reconstruída. Ainda assim, manter a pequena plantação viva já era um começo. Quem sabe, dentro de alguns meses, conseguirá colher o suficiente para vender?
Ainda restavam alguns pés de lavanda espalhados pelo terreno. Ao observá-los, James não conseguiu evitar um suspiro. Kanto era uma das maiores produtoras de lavanda do mundo, e sua família havia abandonado justamente esse ramo ao deixar a região para trás. Talvez aquele fosse um bom ponto de partida para reerguer a fazenda.
Ainda assim, ele sabia que um único Squirtle não conseguiria dar conta de tudo. Growlie, Amoonguss, Inkay e Carnivine ajudavam na parte interna da casa, entretanto a bagunça era muita...
Assim que tivesse oportunidade, pretendia explorar os arredores em busca de alguns Lapras e Cloyster que habitavam as águas da região. Além de fortalecer sua equipe, poderiam ajudá-lo em diversas tarefas relacionadas ao transporte e ao manejo da propriedade. E, acima de tudo, Squirtle também merecia descansar de vez em quando; seria injusto deixá-lo carregando todo o trabalho sozinho.
Era curioso perceber como sua forma de pensar havia mudado.
Durante toda a vida, James nunca sentiu necessidade de capturar muitos Pokémon. Em parte, porque sempre acreditou que deveria cuidar muito bem daqueles que já possuía. Em parte, porque jamais enxergou seus parceiros como ferramentas ou funcionários, mas como verdadeiros amigos.
Agora, porém, a realidade era diferente. Se realmente quisesse ver aquela fazenda prosperar outra vez, precisaria da ajuda de muitos Pokémon, cada um contribuindo com suas próprias habilidades.
A dúvida que permanecia em sua mente era outra: será que conseguiria oferecer a todos o mesmo carinho, atenção e cuidado que sempre acreditou serem essenciais? Se fosse para ampliar sua equipe, queria que cada novo companheiro se sentisse parte de uma família e não apenas mais um trabalhador na fazenda.
Limpa aqui, lava acolá, improvisa um conserto onde a madeira ainda não havia apodrecido. Assim transcorreu boa parte do dia de James.
Com a ajuda de seus Pokémon, a fazenda já começava a parecer um pouco menos abandonada. O quintal estava limpo, as plantas haviam sido regadas, algumas telhas quebradas tinham sido substituídas. Faltava a velha cerca da entrada ganhar reparos provisórios. Estava longe de ser uma propriedade bonita, mas, ao menos, já deixava de transmitir a impressão de que desabaria ao primeiro vento mais forte.
O problema era que todo aquele esforço cobrava seu preço.
No meio da tarde, James passou a mão pela testa, enxugando o suor. Os braços doíam, as costas reclamavam a cada movimento e até seus Pokémon estavam cansados. Squirtle havia se jogado na sombra de uma árvore, completamente exausto, enquanto os demais aproveitavam alguns minutos de descanso.
— Acho que já fiz o suficiente por hoje...
Mal terminou a frase, ouviu três batidas firmes na porta.
Toc. Toc. Toc.
James franziu a testa. Não esperava visita alguma. Ao abrir a porta, ficou completamente imóvel. Era ela. A misteriosa mulher ruiva que havia visto na Festa Junina.
Sob a luz do sol, ela parecia ainda mais impressionante. Seus longos cabelos vermelhos desciam pelas costas como uma cascata de fogo, contrastando com o elegante conjunto preto que vestia. Havia uma confiança natural em sua postura, como se estivesse acostumada a ser recebida em qualquer lugar.
Ao seu lado permanecia o mesmo Zebstrika que roubou a atenção de todos no arraial. E desta vez, ele não estava sozinho. Uma enorme Arbok permanecia enrolada calmamente perto da entrada, observando James com olhos atentos. Mais atrás, um Seviper mantinha a cabeça erguida, exibindo as presas com um sorriso que parecia uma ameaça silenciosa.
James engoliu em seco. Ela trouxe dois Pokémon venenosos gigantes. James se questionava se isso era uma visita ou uma cobrança? Antes que pudesse perguntar qualquer coisa, a mulher sorriu discretamente.
— Quero comprar essa fazenda.
James piscou algumas vezes. Depois cruzou os braços.
— Primeiramente... boa tarde, né?
Ela arqueou uma sobrancelha, divertida.
— Boa tarde.
— Melhorou. E, em segundo lugar, minha fazenda pode estar caindo aos pedaços, mas não está à venda.
Antes de responder, a ruiva deu alguns passos pelo terreno, observando a casa com aspecto de recém-remendada. Seus Pokémon também estavam atentos à tudo. Os Pokémons de James pareciam ansiosos, com exceção de Squirtle que permanecia dormindo sob a sombra da árvore. O mundo poderia acabar que Squirtle permaneceria dormindo.
— Justamente por isso — a ruiva retoma. — Se está um caos, venda para mim.
James soltou uma risada incrédula.
— Eu nem conheço você. Por que alguém iria querer comprar justamente este lugar?
A mulher riu baixinho. Era uma risada elegante, quase provocativa.
— Acho justo me apresentar antes de fazer propostas milionárias — Ela estendeu a mão para James. — Meu nome é Jessie.
— Sou James — James apertou sua mão por educação.
— Eu sei.
Aquilo fez James franzir a testa. Jessie continuou, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
— Sou CEO de uma das maiores empresas do ramo agrícola em Kanto. Também administro diversas fazendas espalhadas pela região e sou proprietária do Lavandário, uma empresa especializada na produção de lavanda e seus derivados. Necessariamente, a mais forte do mercado. Fabricamos perfumes, cosméticos, óleos essenciais, sabonetes e diversos produtos naturais. Nossa produção cresce todos os anos... e precisamos de mais terras.
James olhou ao redor da própria propriedade. Squirtle dormia tão pacificamente, enquanto Mr. Mime até se escondia atrás de James, com medo daquela ruiva. Depois voltou os olhos para Jessie.
— Então... você quer isso aqui?
— Quero.
— Mas esta é literalmente a única casa que eu tenho.
Jessie deu de ombros.
— Comprar a fazenda não significa expulsar você.
O silêncio tomou conta do lugar. James permaneceu parado por vários segundos, tentando organizar todas aquelas informações. A CEO de uma empresa gigantesca estava em sua porta. Queria comprar uma fazenda praticamente abandonada. Sua expressão confusa era tão evidente que Jessie acabou soltando outra risada. Ela esperou pacientemente até perceber que James finalmente voltou a prestar atenção.
— Vou explicar melhor — ela caminhou lentamente pelo quintal enquanto falava. — Eu tenho dinheiro suficiente para restaurar esta propriedade inteira. Reforma da casa, equipamentos novos, expansão da lavoura... tudo.
Parou diante de um dos canteiros de lavanda. Apreciou o aroma dali, e riu ao ver que Squirtle permanecia dormindo, sendo o único calmo naquele lugar.
— Você e seus Pokémon continuariam vivendo aqui.
— Como assim?
— Como funcionários responsáveis pela fazenda.
Ela se virou para encará-lo.
— Antes de vir até aqui, procurei informações sobre você. Disseram que sempre foi um trabalhador dedicado, organizado e extremamente responsável. Eu sei, você trabalhava em outras cidades, mas todos os seus patrões te elogiaram para mim, sabia? Também fiquei sabendo que boa parte dos problemas desta propriedade vinha da sua família... e, pelo que entendi, eles não fazem mais parte da sua vida. Graças aos céus, né?
James abaixou a cabeça por um instante. Ela estava bem informada. Seus pais problemáticos já haviam falecido, mesmo. Seus irmãos sumiram e lhe deixaram toda a (inútil) herança.
— Então... — disse ele lentamente. — Você quer que eu trabalhe... para você?
Por mais absurda que aquela proposta parecesse, havia uma parte de James que reconhecia a oportunidade diante de si. Aquela mulher poderia resolver praticamente todos os problemas financeiros que o atormentavam desde que herdara a fazenda.
Mas sempre tem um mas. Parecia bom demais para ser verdade. Jessie sustentou seu olhar por alguns segundos. Então abriu um sorriso malicioso.
— Por quê? Preferiria ser meu amante? Adotaríamos um gato!
A piscadela veio logo em seguida. James simplesmente congelou, incapaz de responder. E, por um breve instante, até mesmo o vento pareceu esquecer de soprar.
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