A Invasão

5 Tem muito verde aqui, 11 de maio de 2015.


Tem muito verde aqui, 11 de maio de 2015.

114 dias desde que começou.

Tudo mudou, e, ao mesmo tempo, nada mudou. Transferiram-me de nave; é igual à última. Uma das crianças foi morta porque chorou quando um guarda gritou com ela; agora, veio uma criança ainda pior. Uma velha teve uma crise de choro, porque viu o corpo do marido; mas todos aqui já tiveram crises de choro.

Mudaram-nos de lugar, e estamos no meio de uma floresta. Um bosque? Floresta Amazônica? Ninguém sabe dizer exatamente. Só sei que é muito melhor; é mais quente, tem sons de rãs e de sapos, e, às vezes, quando abrem a porta e jogam comida para nós, um vagalume entra, pairando, e pousa no meio, piscando. Eu trato de dormir imediatamente; dormir olhando um vagalume é a única coisa que não mudou.

Os guardas ficaram cada vez mais intimidantes; agora, eu me curvo e olho pra baixo, e eles olham-me de cima, como se suas armas os fizesse muito superiores. Eu apanhei de um deles; um cassetete bem no meio das costas, que me tirou o fôlego e fez-me cair de joelhos; depois, me arrastei para a nova nave, onde pude desfrutar de momentos de dor silenciosos.

Os dias tornaram-se tensos e apreensivos. Parece que, a qualquer hora, algo grande vai acontecer. Meu cansaço aumentou; estou farto desse sentimento. Antes de tudo, eu vivia esperando que algo empolgante acontecesse comigo, e agora aconteceu; mas esse sentimento está de volta, e isso está me matando. Aliás, parece estar matando todos aqui. Todos tem a sensação de que alguém importante vai fazer algo importante.