A Invasão
9 Não sei onde estou, e não sei onde ela está, 1 de maio de 2015.
155 dias desde que começou.
E faz uma semana que ela sumiu.
Nós estávamos nos entendendo muito, muito bem. Ela estava tão confusa quanto eu. Descobri muito sobre ela. Ela tinha uma irmã lésbica que foi jogada pra fora de casa, se meteu com drogas, e se matou. Melissa não pode ir ao enterro, porque os pais disseram que ela ia pro inferno se fosse.
Ela tinha seis anos.
Descobri, também, que ela veio parar aqui comigo porque Jeffrey queria “estudar o comportamento de pessoas que sabem demais”. Ao menos, foi isso que ela disse que ouviu.
E, além disso, eu percebi que ela realmente se perdeu. Digamos que a maneira dela lidar com isso é diferente da minha maneira de lidar com isso – ela procura pensar sobre tudo e sobre todos, e sobre o que está acontecendo, e resolve ser indiferente em relação ao que pensam dela; enquanto eu prefiro ficar quieto no meu canto, tremendo toda vez que penso que ouvi algo lá fora.
Bom, ninguém me disse nada sobre ela. Aliás, ninguém me disse nada sobre nada.
Melissa foi praticamente raptada. Pelo menos foi isso que Jeffrey disse quando veio me visitar, ontem.
Eu tive de perguntar onde ela estava duas vezes até ele se sentar no chão, e eu sentar na sua frente. Se iríamos conversar sobre aquilo, tinha de ser de modo civilizado. Ele ergueu os olhos cor de mel pra mim; exibiam uma preocupação extrema. Ele os abaixou de novo. Percebi que estava ele estava suando.
“Os rebeldes...” Jeffrey começou. Limpou a garganta: “Ela foi pega por eles”.
Pensei que eu ia gelar, mas foi como se minha mente fosse um carro que acelerou a velocidade. Mil perguntas surgiram: sabe onde ela está? Eles mataram ela? Por que não me pegaram também? Por que pegaram ela?
Porém, eu só verbalizei uma delas:
“Como aconteceu?”.
Jeffrey suspirou. Eu continuei perguntando,sem resposta. Por fim, explodi:
“Eu não to nem aí se vocês quiserem me matar ou me torturar, se quiserem me largar lá fora ou me jogar pra cães raivosos, mas fazer isso com ela é covardia, porra”.
Jeffrey me fitou.
“Acha que estou mentindo?” ele perguntou.
“Não. Não acho que vocês a entregaram. Acho que vocês deixaram ela ir embora”.
Jeffrey riu. Eu tive vontade de arrancar os olhos dele na base do tapa, mas me limitei a cerrar os punhos.
“Eu já fiz meu experimento” Jeffrey admitiu. “Já, sim. E olha que você passou no meu teste com louvor. Mas não, nós não a soltamos”.
Perguntei de que teste, como se não soubesse de nada, mas ele só continuou:
“Você sabe que nós conversamos com ela em outro lugar” eu fiz que sim com a cabeça. É, às vezes eles levavam ela por algumas horas ou minutos, mas nunca por tanto tempo. Ele continuou: “Eles a pegaram no caminho”.
Eu respirei fundo. Jeffrey continuou:
“Um deles era negro, magro e alto, de boné, e estava com uma arma. O outro tinha cabelo castanho-escuro, olhos marrons e era baixinho. Você os conhece?”.
“Talvez. Talvez não. Existem milhares e milhares de garotos assim no Brasil, sabia?” eu retruquei, mal humorado. Naquele momento, eu poderia matar cada um daqueles milhares de garotos, simplesmente porque haviam levado-a. Perguntei: “Vocês vão resgatá-la?”.
Jeffrey deu de ombros, e disse:
“Pra que? É só uma garota. Uma garota que sabe demais, mas só uma garota. Não vamos arriscar nossos homens por causa de uma menininha que já deve estar morta”.
Eu senti um bolo se formar na minha garganta. Arfei e mordi o lábio para não soltar umas verdades para aquele babaca. Trinquei os dentes.
Filho. Da. Puta.
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