A Invasão
3 Curitiba, 30 de abril de 2015.
Oceano, 30 de abril de 2015.
103 dias desde o começo da invasão. Eles nos mudaram de lugar. A nave está balançando. Sinto cheiro de sal, e de peixes. Acho que estamos no mar. Eu odeio o mar. Vomitei duas ou três vezes.
Então, este é o grande plano? Jogar-nos aqui pra morrer? Deixar-nos no meio do oceano, com o ar existente apenas dentro da nave, sem nada para comer ou beber? Ah, para beber tem, água, em todo lugar, todos os cantos, rondando-nos. O mar.
Que grande plano. Por que não meter uma bala nas nossas cabeças? Por que não colocar veneno na nossa comida? Por que não nos bater até nossas tripas saírem fora? Por que não nos colocar num forno gigante e nos cozinhar até virarmos uvas passas gigantes?
Estou começando a ficar irritado. Isso nem me assusta mais. Eu espirro o tempo todo. Eu sinto cheiro do mar. Tem uma mulher que fica rezando o tempo todo. Tem um rato que fica passando embaixo dos meus pés todo o tempo. Os americanos ficaram mais constantes, e eu juro que estão rindo de nós.
Eu odeio espirros. Eu odeio mar. Eu odeio orações. Eu odeio ratos. Eu odeio esses americanos de merda. Eu odeio risadas.
Tenho vontade de gritar, mas o espaço é pequeno demais até para isso.
A irritação paira por aqui. O ódio a si mesmo, aos outros, a raiva... É tudo constante. Não consigo explicar. Sinto uma vontade tremenda de morrer. Pela primeira vez, não tenho motivos para não fazer isso. Mas, também pela primeira vez, não tenho ideia de como fazer isso. É um nada constante, vazio, e, ao mesmo tempo, lotado. Estamos sufocando aqui, amontoados, suando, esperando alguma coisa acontecer. Esse sentimento de superlotação dificulta tudo. Nem a morte consegue entrar aqui; nem para ela tem espaço.
Devemos deixar isso ir? Devemos nos entregar ao nada? A fome, eu nem sinto mais. Não tomamos banho, convém lembrar a vocês. As vezes, chove na transferência de naves, e eu adoro isso. Faz-me lembrar que, talvez, ainda exista alguém lá em cima.
Eu achava, anteriormente, minha vida miserável. Não. A irritação... Eu a odeio. Eu não tinha raiva antes, apenas tristeza. Agora tudo é demasiado.
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