A Invasão
1 Curitiba, 22 de abril de 2015.
Notas iniciais
Prestem atenção em detalhes, pois estes serão importantes futuramente.
Curitiba, 22 de abril de 2015.
Faz exatos 73 dias que a invasão começou. Eu sempre tive uma boa noção de realidade, então eu tenho uma leve ideia do que está acontecendo. Não vou falar nada pra ninguém até ter certeza. Todos que nos mudam de lugar falam inglês. Eles não sabem que eu entendo o que eles dizem. Mas eu entendo. Eles sempre são rudes; curtos e grossos. Algumas vezes, nem falam, só nos batem com cacetes e nos mudam de lugar. Eu tentei saber onde estávamos. Eu sabia que, no início, eu estava no Nordeste. Foi quando eles invadiram. Depois, eu acordei, e senti um cheiro terrível de lixo, merda e gás juntos; só um lugar tem esse cheiro: o Rio Tietê. Estávamos em São Paulo. Depois, fomos ainda mais para o sul. Eu reconheci o HC por uma fresta de janela, que logo foi fechada; estamos em Curitiba. Para a maioria das pessoas, não existe o hoje nem o amanhã, nem o ontem, só existe uma imensidão de dias, e uma pequena porcentagem de coisas, as quais as pessoas se agarram, na esperança de tirá-las do tédio mortal que há muito paira entre nós. Sim, pode conter medo no tédio. O que está acontecendo é um exemplo completo disso. As pessoas já pararam de chorar, mas ninguém realmente sabe mais do que os outros. Eu acho que eu sei; sei lá, talvez eu esteja errado, talvez eu não saiba de nada. Talvez isso só seja conosco. Talvez seja uma peça, um jogo, um teste; mas alguém não impediria? Bem, e se for real, alguém teria que impedir também, não é mesmo? Ou ninguém mais liga para a gente? Bem, eu não sei por que o inglês. Sim, é a língua mais falada no mundo, mas não parece realmente ser obra dos britânicos. Ninguém aqui tem sotaque inglês, nem tem cheiro de chá. A maioria é tipicamente americana. Mas, então, o que eles querem? Porque nós estamos no sul? Eu já me acalmei, mas as viagens me irritam. Tem uma velhinha aqui que sempre acha que estamos para ser fuzilados. Acho que, se quisessem nos matar, já teriam matado. Eu sei que eles nunca deixam muita gente junta; muita gente quer dizer multidão; multidão quer dizer força; força, em algo assim, quer dizer rebelião. E ninguém quer isso, não quando, do lado de fora, está tudo bem. A comida aqui é apenas o básico: feijão, arroz, salada, e, em raras ocasiões, carne mal passada. Eles não nos obrigam a fazer nada; somos mandados de um lugar para o outro, a maioria de nós não sabe onde está, nem o que está acontecendo. Não nos escravizaram ainda, mas não nos mataram. Talvez queiram nos matar de frio. Aqui no sul é realmente muito frio. Eu sou cearense, não aguento isso. Gostaria de voltar para a linha do equador, ou pelo menos ter um cobertor. Um velhinho tentou escapar. O nome dele era Jorge. Ele pegou sua bengala e, com os últimos resquícios de força bruta, foi para cima de um dos guardas, que facilmente torceu o pescoço dele. Depois disso, o silêncio reinou por dias e dias. Isso foi há um mês. Eles nos mantêm em naves; deixe-me explicar, é um amontoado de nada. Não tem mais de nove pessoas em cada nave; como eu sei disso? Simples: eles nos mudam de nave, e, em consequência, de lugar e de grupo. Agora, nessa nave tem um paulista, um recifense, dois maranhenses, dois “barrigas-verdes”, eu, e um paranaense, que confirmou que estávamos em Curitiba. Eu acho que isso tudo é questão de dinheiro. Os americanos estavam ficando sem petróleo; a economia estava uma merda lá, o desemprego estava subindo. Porém, o Brasil estava prosperando. Dilma, em seu segundo mandato, mudou tudo: a nova leva de ministros mudou o país de uma hora para outra, e, do nada, todos haviam virado petistas. Acho que os Estados Unidos viram uma oportunidade perfeita; nós não esperávamos, nós não estávamos em guerra, e não estamos. Estamos sendo feitos prisioneiros; pra quê? Não sei. Ninguém sabe.
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