A Invasão

22 Acampamento Militar Americano, 9 de junho de 2015.


Notas iniciais
Olá! Lamento pelo atraso de capítulos. Sabe, eu tive uma crise de inspiração recentemente que me rendeu fics e mais fics não terminadas. Detalhe: não sei escrever one-shots direito.

193 dias desde que começou.

As instalações aqui são coletivas e bem-organizadas. Escondi as fichas na fronha do travesseiro. Os banheiros parecem de uma academia. Eu roubei mais alguns uniformes por aqui... Tenho que dar um jeito no resto.

Nosso cronograma diário é:

5:00: acordar. 5:20: tomar café. 5:40 primeiro condicionamento físico. 7:00: início da tortura.

Eles me fizeram entrar novamente na floresta.

Passei tanto tempo por lá que achei que meu café da manhã reforçado ia voltar pra fora. Mas eu me controlei. Afinal, eu estava no sub-comando do grupo C para achar o abrigo dos “rebeldes”. Ouvi um soldado dizendo:

“Eles são brutos, mas são fracos”.

Fraco é o seu cu, eu pensei em retrucar. Fiquei quieto, e guardei pra dentro de mim. Novamente. Afinal, não era só eu que estava em risco. Melissa, Fernando, Gabriel, Murilo, Cássia, aquela mulher grávida, inclusive Rafael. Dependiam de mim. Na gruta, estavam me esperando. No outro grupo, Rafael provavelmente estava engolindo a própria raiva também.

E, embora pareça fácil deixar tudo isso ir e desistir, não é. Porque, afinal, toda vida é valiosa, por mais que nós digamos que não. Por mais que algumas sejam mais úteis que outra, não é justo tirar algo de alguém, sem mais nem menos. Por mais que todos a minha volta insistam em fazer isso, eu não vou ser um deles.

Nós ouvimos um farfalhar na mata. Meu coração parou, depois voltou a bater com o triplo da velocidade normal. Todos nós ficamos em posição. Não que eu saiba atirar – na verdade, não sei diferenciar uma bazuca de uma K47, mas eu podia fingir.

O que me preocupava não era isso.

Se fosse alguém da gruta, iria me reconhecer.

Só que não era alguém da gruta.

Era um índio. Com pele avermelhada, roupas esfarrapadas e cabelo preto liso. Estava hesitante, de mãos para cima. No momento, eu pensei em abaixar a arma e ir abraçá-lo. Nós não estávamos sozinhos, afinal.

Mas eu me controlei e perguntei, num tom que tentava ser sério:

“Quem é você?”.

Perguntei em inglês, e o homem tremeu. Bem, é óbvio que ele não podia falar português. Então, eu virei-me para Parker, o chefe do grupo:

“Acho que posso falar com ele”.

“Pode?”.

“Eu aprendi um pouco de português” menti.

“Isso não está na sua ficha”.

Eu limpei a garganta, mas Parker deu sinal para eu dizer alguma coisa. Pensei em dizer, baixo, para o índio correr. Mas não funcionaria, de qualquer maneira. Se aquele índio tivesse encontrado meu grupo na gruta, eu seria obrigado a correr junto com os americanos e simplesmente guiá-los até lá. E se o índio tivesse seu próprio grupo... Bem, como eu disse antes, toda vida é valiosa.

“Qual o seu nome?” eu perguntei.

“Peri” ele disse. “Você... Fala... Português” .

“Eu me viro” dei um meio sorriso nervosamente. “Agora... Precisamos que venha conosco”.

“Vocês vão me torturar pra eu falar. Eu não vou deixar. Vocês ao me torturar, não vão?”.

Limpei a garganta. A dor em meu peito quase tirou minha respiração. Porque, no fim, sim, nós iríamos torturá-lo, e eu iria acabar por ajudar os americanos, de um jeito ou de outro. E eu não podia mentir para aquele homem, e criar a ilusão de que tudo ia ficar bem, porque nada, nunca ia ficar bem.

“Não se você falar voluntariamente” eu sugeri. Peri balançou a cabeça.

“Não... Eu não vou falar”.

Eu prendi a respiração.

“Vou tentar não machucar ninguém, Peri, certo? Meu nome é...” eu hesitei. Se eu dissesse meu nome de verdade, tudo estaria arruinado. Mas eu queria construir alguma confiança com aquele homem. Eu podia não ter outra oportunidade. Porém, eu acabei por dizer: “Hempkings. Mas me chame de Douglas”.

“Dou-glas...” o homem teve dificuldade em falar por conta do sotaque americano que eu fingia horrorosamente. “Pode me levar. Mas não vai levar meu grupo. Não vai levar Gabriel”.

Meu coração simplesmente protestou para sair do meu corpo. Eu tive que usar toda a minha concentração para mantê-lo dentro de mim.

Gabriel.

Ele conhecia Gabriel.

Podia até ser pai de Gabriel.

Notas finais
O que acharam? Eu tive essa ideia de uma hora pra outra. A do índio. Ralei pra escrever esse capítulo, deem valor.