A Invasão

12 Abrigo dos Exilados, 8 de maio de 2015.


Notas iniciais
Eu não fiz isso na fic inteira, mas gosto tanto dessa música que, pelo amor de Deus, ouçam ela: http://www.vagalume.com.br/bring-me-the-horizon/shadow-moses.html

162 dias desde que começou.

Eu mal consigo acreditar.

Eu não morri. Na verdade, estou bem vivo. Vivo e triste, mas vivo. Eu não sei o que é pior. Eu estou vivo, triste, aterrorizado, hesitante, estupefato, e agora o exilado sou eu.

Digamos que eu estava vagando pela floresta, com meu estômago implorando comida ou água, e nenhum rio a vista, quando eu senti que o chão se levantava para me receber. Primeiro, pensei que estava desmaiando de fraqueza. Porém, eu ainda me sentia forte. Bom, tão forte quando podia me sentir naquele momento.

Eu tive certeza que não estava desmaiado quando consegui me levantar e correr loucamente.

Porém, os garotos vieram atrás de mim. Eu sabia que não eram americanos porque eles gritavam algo parecido com “Pega o filho da puta! Pega o moleque!”. Porém, eu não parei nem disse que vim em paz. Correr me pareceu a coisa certa a fazer. Eu olhei de relance pra trás; tempo o suficiente pra ver uma arma na mão de alguém.

Foi aí que atiraram.

Não, não fui ferido. O tiro atingiu uma pássaro numa árvore. Por alguma razão, me senti culpado por deixar aquele pobre animal morrer. Enfim, eu finalmente senti que caía no chão. Mas não por um tiro: um dos garotos pulou em mim.

Ele tinha uma pele morena, olhos castanhos e um cabelo preto, meio enrolado e meio liso, até os ombros. Ele me parou, me segurando pelos braços, e olhou bem pra mim. Eu o encarei de volta. Não parecia a descrição de um dos caras que pegou Melissa, mas aquilo não diminuiu minha raiva. Eu o encarei com ódio.

O outro cara se aproximou. Era o baixinho: ele provavelmente era quem Jeffrey disse que havia raptado Melissa. Ele estava com a arma, e a apontou pra mim. Eu sabia que tinha cara de americano: cabelo louro-escuro e pele pálida. Ainda mais pálida com todo esse tempo sem tomar sol.

Eu limpei a garganta. Voltei a fitar o garoto que havia pulado em mim. Ele se levantou, com a expressão vazia. Porém, pude ver, em seus olhos, que estava cansado. Ele estava em boa forma, mas, sim, estava cansado emocionalmente. Eu me identifiquei com aquilo.

“Vou matá-lo” o garoto baixinho disse.

“Ele não parece americano” o garoto de cabelos negros disse, passando as mãos neste.

“Não sou” eu disse. O baixinho apontou mais firmemente a arma pra mim. Eu continuei, impulsionado por uma coragem que eu sabia que tinha: “Eu sou brasileiro. Eu fugi. Eu estou... Procurando uma pessoa”.

“Todos morreram” o garoto baixinho disse.

“Não podem ser só vocês” eu disse.

“Não somos só nós” o garoto de cabelo negro disse, estendendo a mão pra mim. Eu aceitei a ajuda e me levantei, ainda com a arma mirada em mim. “Nós temos um grupo. Mas quem exatamente você está procurando?”.

“Melissa” eu disse. “Minha amiga. Loira, minha idade, talvez mais. Olhos azuis”.

“Amiga?” o garoto baixinho perguntou, sarcasticamente. Eu o ignorei.

“Vocês a conhecem? Por favor, digam que conhecem ela!” eu implorei. O garoto de cabelos negros assentiu.

“Sim, é claro. Aliás, ela é nossa amiga, também”.

Aquilo simplesmente me fez recuperar toda a minha força. Eu arfei. Todas as perguntas que passaram na minha mente ocupariam tudo o que restou do meu bloco de anotações, então eu perguntei o nome deles.

O de cabelos negros chamava-se Gabriel. O baixinho era Murilo, e eu percebi que ele não se dava muito bem com Melissa. De qualquer forma, ele se recusou a tirar-me da mira de sua arma.Ele até que parecia bem patético segurando aquela arma, até porque ele devia ter uns 1,60, no máximo. Porém, eu estava tremendo. Uma arma era uma arma, afinal.

Nós chegamos numa gruta. Era uma gruta com várias pedras na entrada, e uma grande pedra redonda, que Gabriel empurrou para deixar-nos passar. A primeira coisa que notei na gruta foi o teto. Cheio de pedrinhas cor turquesa, brilhando por causa da luz do sol que se infiltrava em alguns pontos quebrados do teto.

Depois, as paredes. Úmidas, cheias de coisas indescritíveis que a mãe-natureza às vezes nos mostra, só pra nos lembrar do quão sortudos somos por estarmos vendo aquilo. De qualquer forma, eu olhei para o enorme grupo que estava sentado numa roda, no canto da gruta.

Dez, vinte, trinta, talvez quarenta pessoas. Elas haviam virado seus rostos pra nós e nos fitavam com ar de curiosidade, hesitação, surpresa, medo. Algumas delas se levantaram. Na maioria, garotos. Apenas uma garota.

“Mel” eu gritei. Corri até ela. Por surpresa ou medo, ninguém me impediu. Nem Murilo atirou em mim. Eu corri até ela, e parece bem óbvio o que eu fiz, não? Sim, eu a beijei. Eu me arrependo, sim.

Mas me pareceu a coisa mais lógica a fazer. Foi como se eu tivesse feito aquilo milhões e milhões de vezes: eu simplesmente fui até lá e beijei ela. Era algo natural, pelo menos no momento.

Mas ela me empurrou, e eu caí no chão úmido de pedra. Eu olhei pra ela, que limpava a boca na barra da blusa. Eu de repente queria desaparecer: evaporar ou correr de volta pra floresta. Um caso extremo de inexistência seria ótimo naquele momento.

Mas, de qualquer maneira, eu continuei existindo.

E ouvi Murilo rir.

“Acho que vocês se conhecem” ele disse. “Bom, esse é o Patrick, gente” Murilo disse, apontando pra mim. Melissa ficou me fitando, sem expressão. Murilo continuou: “Ele é brasileiro, se é isso que vocês estão se perguntando”.

Mais silêncio. Observei direito o grupo. Adultos, velhos, homens, mulheres, algumas crianças, poucos adolescentes, uma ou duas mulheres grávidas. Todos começaram a murmurar, até as crianças.

A vontade de desaparecer cresceu e cresceu até que eu quase explodi. Levantei-me, apesar do esforço mental pra ficar menor. Gabriel começou a me conduzir pra algum lugar. Eu o segui: ele emanava algum tipo de sensação de segurança, e eu simplesmente não consegui pensar mal dele.

“Não liga pro Murilo” ele disse, sem se virar pra mim. “Ele é um imbecil, mas é esperto”.

Concordei com a cabeça, embora ele não pudesse me ver, e não fosse verdade. De qualquer maneira, aquela gruta era enorme, tinha até um rio passando por dentro, e uma pequena ponte de madeira apodrecida, que Gabriel disse pra não se preocupar com ela. Contudo, eu só a atravessei quando ele terminou de passar.

A gruta tinha outra enorme saída, que era como um emaranhado de galhos e árvores à luz do sol. Estava tudo tão emaranhado em cima que eu já não distinguia o sol dos galhos. Por fim, ele se virou pra mim:

“Você quer ficar com a gente?” perguntou. “Não tem problema”.

“Hã...” eu gaguejei. Eu não tinha ideia de como as coisas funcionavam ali, exatamente, então simplesmente disse: “Não sei”.

Gabriel se sentou no chão de terra e folhas, de pernas cruzadas. Eu me sentei também. Ele disse:

“Nós somos os últimos, eu acho. Quer dizer, provavelmente. Pra falar a verdade, eu não tenho ideia. Mas eu acho que aqui é seguro”.

“Onde estamos? Quer dizer, o estado?”.

“Amazonas, provavelmente. Ninguém sabe. Mas tem tanto verde que eu acho que é Amazonas”.

“Não tem muitas grutas no Amazonas”.

“Não? Eu sei lá. Eu não gostava de geografia. Aliás, era a pior matéria. Mas eu daria tudo por uma aula de geografia, agora”.

Eu assenti. Parecia que toda essa exclusão que eu estava sentindo me fazia querer voltar para o mundo dos orcs que eu costumava chamar de escola. Gabriel continuou falando algumas coisas que podiam me ajudar: ele achou um grupo de cinco, depois foram achando mais gente e catando mais pessoinhas perdidas. Algumas já tinham enlouquecido.

E havia trinta e três pessoas no grupo. Vinte homens, dez mulheres e três crianças. Entre os homens, cinco eram adolescentes. Esse número diminuiu entre as garotas: apenas duas adolescentes. Melissa e outra que Gabriel chamou de “a lésbica”.

Gabriel, por fim, se levantou e perguntou se eu queria alguma coisa. Eu não tinha ideia se estava com fome: o empurrão de Melissa me tirara de órbita. Eu disse, apenas:

“Você tem uma caneta?”. Gabriel voltou, minutos depois, com uma caneta azul, praticamente nova. Eu costumo escrever com preta, mas isso parece não ter a mínima importância agora.

Então, eu estou aqui, escrevendo sobre esse lugar, e observando o céu entre os galhos.

Notas finais
Esse capítulo foi dedicado ao Pedacinho de Obsessão :v (você sabe que é você, Steff :v e desista do alargador, sua mãe nunca vai entender).