A Invasão
25 Acampamento Militar Americano, 19 de junho de 2015.
Notas iniciais
203 dias desde que começou.
Eu deixei de escrever por um tempo para fazer as coisas acontecerem. Tem várias coisas que tiram meu sono – numa situação dessas, é o mínimo que podia acontecer --, e minha vida acaba de se tornar uma merda maior ainda.
Eu preciso me esconder para falar ao telefone, e não posso falar muito, por medo que, de alguma forma, os americanos descubram meu sinal. Nessas breves conversas, eu falo do meu estado, do estado do Acampamento, sobre os planos que estou tentando descobrir, os nomes dos soldados, como as coisas funcionam, o que nós fazemos, o que vamos fazer. Pergunto rapidamente sobre as pessoas na gruta. “Sobrevivendo”, elas dizem. Sobreviver é ótimo, mas nem tanto. Não nessa merda de país.
Eu fiz uma coisa que não queria ter feito. Entrei no gabinete do major e fucei as papeladas. Eles tinham fichas de todos, e eu, naturalmente, destruí a de alguém que um dia se chamou Douglas Hempkings. Se eu não fizesse nada errado, não iam dar pela falta. Eu olhei para o garoto na foto. Tinha pouco mais de 25 anos, cabelos pretos como breu, estatura média, um nariz encurvado muito estranho. Mas eu vasculhei e vasculhei, e achei uma lista com o nome dos oficiais americanos que foram mortos. Jeffrey estava entre eles. Eu tremi, segurei o choro e guardei uma cópia da ficha dele, só no caso de... Eu sei lá. No caso de alguma coisa.
Descobri que o nome falso que meu irmão estava usando – Leonard K. Magnossa – era de um rapaz negro de 32 anos da Califórnia. Eu queimei a cópia daquela ficha, mas não sem rir muito antes.
Então, eu abri uma pasta escrito Metas, e li.
Cara, eu queria não ter feito isso.
Diz alguma coisa sobre drenagem de água, derrubamento de florestas, aniquilação da população... O resto eu não entendi, porque meu pânico era tão grande que eu estava tremendo convulsivamente. Eu enfiei a pasta numa gaveta novamente e corri para o computador. É claro que tinha uma senha, e eu não me arrisquei. Por duas razões: 1) se eu tentasse quebrar o firewall, eles notariam, me descobririam e eu finalmente morreria; 2) eu não sei quebrar um firewall.
Então, eu saí da sala e continuei andando. Alguns minutos depois, eu estava no refeitório para o almoço. Rafael entrou pela porta do outro lado e pegou sua bandeja e o prato. O examinei. Ele sempre foi mais baixo do que eu, mas cresceu um pouco. Não só em altura. ganhou um pouco de músculos nos braços, bem mais do que eu. Nunca fui especialmente magro, mas esses meses de confinamento deixaram os ossos do meu rosto mais aparentes. Não pareço muito saudável.
De qualquer maneira, combinamos nossos horários de forma que nossos turnos de vigilância se alternem quando estivermos vigiando as naves (containers, na verdade), especialmente na dúzia onde está nossa mãe. O primeiro turno é meu, o segundo é o de Rafa, o terceiro de Edward (outro soldado daqui, meio assustador, meio arrogante) e o quarto de Yohan (outro soldado, menos arrogante e mais alto do que Edward).
Não durmo direito faz um tempo, sempre tenho pesadelos com a gruta caindo em cima da minha cabeça ou a terra se movendo sob meus pés. Talvez seja assim que eu me sinto agora: sem chão, e ao mesmo tempo sufocado.
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