A Invasão
24 Acampamento Militar Americano, 13 de junho de 2015.
Notas iniciais
197 dias desde que começou.
Há muita coisa que é necessário escrever. Algumas delas são assustadoras – e ficam ainda mais assustadoras quando eu percebi que eram reais, que eu estava no meio daquilo e que participei.
E que o peso continua sob mim.
Ontem, nós recebemos uma mulher. Disseram que ela era da central de inteligência militar, que ela ajudava a comandar a missão e tal. Uns quarenta e poucos anos. Alta. Cabelos castanho-escuros, olhos da mesma cor. Pálida. Vestia roupas sociais. O que me assustou foi um detalhe: ela era incrivelmente parecida com Barbara.
Nós andamos, em fila, até a saída, e eu parei para observá-la. Ela me olhou de volta.
“O quê?” perguntou, num tom cético. Inglês perfeito. Pelo menos, era o que os outros acharam. Mas eu podia ver algo diferente na voz dela. Vogais acentuadas. “Perdeu alguma coisa no meu rosto, Hempkings?”.
Eu limpei a garganta.
“Não, Sra...Clyver”.
Eu continuei andando. Mais tarde, na biblioteca (sim, eles criaram uma pequena biblioteca para não morrermos de tédio nessas semanas), eu estava contemplado O Senhor dos Anéis. Precisava levar aquilo de volta, a qualquer custo. Eu estava alisando a capa, virando as páginas, segurando forte o livro. Já estava desbotado, a capa estava suja e arranhada, mas aquilo não importava.
Eu ouvi uma voz atrás de mim.
“Patrick”.
Num segundo, imaginei que fosse Rafael. Mas eu me virei, e vi a mulher de cabelos castanhos olhando pra mim. Ela vestia uma saia preta um pouco abaixo dos joelhos, uma blusa de botões preta, e seu cabelo estava impecavelmente penteado.
Ela olhou para o livro, e arregalou os olhos.
“É você, não é?” ela perguntou.
“Eu? Eu quem?” me desesperei. “Meu nome é Douglas. Douglas Hempkings. Soldado Douglas Hempkings, senhora”.
“Você não consegue me enganar, Patrick”.
Eu encarei-a.
“Você é da inteligência, é isso? Vai me torturar?” eu perguntei.
“Torturar? Não. Eu não te lembro ninguém?”.
Minha boca ficou seca.
“Barbara?” ela sugeriu.
“Você conhece ela, não é?” eu perguntei.
“Eu sou mãe dela. E, sim, eu sou da Inteligência militar”.
Zilhões e zilhões de coisas passaram pela minha mente. Eu queria perguntar que porra estava acontecendo, quem era ela, por que estava fazendo aquilo, por que não me matava de uma vez...
“Qual seu nome?”.
“Ângela”.
“O que você está fazendo aqui?”.
“Tentando salvar vocês” ela retrucou, sentando-se numa poltrona.
“Você é da inteligência?”.
“Já disse que sim”.
“Você já trabalhava lá? Antes disso?”.
“Sim”.
“E você... Deixou acontecer?”
Ela se irritou.
“Eu sou mulher. Sou brasileira. Acha que eu podia mudar alguma coisa, moleque? Eu deixei eles fazerem todas as merdas que tinham que fazer, e fiquei quieta. E agora eu estou atrás da minha filha”.
“Como você sabe quem eu sou?”.
“Porque eu achei Barbara e as pessoas na gruta. Elas me falaram de você. E uma garota loura, Melanie... Matilda...”.
“Melissa”.
“Sim. Ela disse que você tem que voltar”.
“Eu não quero voltar agora”.
“Eu não acho que ela se importe com o que você quer” Ângela olhou para o livro. “E nem eu. Barbara disse que quer o livro de volta”.
“É um pouco mais complicado que isso. E eu não vou embora. Eu tenho coisas pra fazer”.
“Eu também, moleque. Aqui, olha...” Ângela me entregou um telefone celular. “O único contato do telefone é o celular que eu dei pra Barbara, ok? Fale com eles. Eles querem você lá”.
Depois, ela se levantou e saiu da biblioteca.
Eu pensei em discar o número, mas lembrei que os americanos provavelmente instalaram um sistema para bloquear os sinais de telefone. E, além disso, devem ter derrubado as torres de telefone.
Mas aquela mulher é inteligente. Ela deve ter bolado alguma coisa que eu não sei e que provavelmente nunca vou entender. Então, eu disquei. Não tive que esperar muito para uma voz atender.
“Alô? Oi?”.
“Barbara?”.
“P-patrick! Minha nossa senhora... Ela te achou, não foi? Ela te achou!”.
“Achou. Você nunca disse que tinha uma mãe na Inteligência militar”.
“Vocês iam me matar”.
“Eu não ia deixar”.
“Eu sou ia ser só uma americana, mesmo. Mas, escuta aqui, nós precisamos de você aqui”.
“Sou mais útil onde estou”.
“A chance de você ser morto é bem maior”.
“Shh. Eu achei meu irmão, ok? O nome dele é Rafael, e ele tá com minha mãe. Ele teve a mesma ideia que eu. Se tudo der errado, ele vai procurar vocês, certo?”.
“C-certo. Você não pode falar muito tempo aqui. Vão perceber um sinal na interferência de satélite”.
“Que seja. Eu ligo quando souber de alguma coisa. Tchau”.
Silêncio na linha.
“Pat?”.
“Oi?”.
“Você vai trazer o livro de volta, né? Você tem que trazer de volta. Você jurou”.
“Juro que vou tentar”.
“Jura?”.
“Juro. Com J maiúsculo”.
“Jura de dedinho?”.
“O que acontece se eu descumprir?”.
“Eu arranco seu dedo fora”.
“Certo. Juro”.
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