A Invasão
20 Abrigo dos Exilados, 6 de junho de 2015.
190 dias desde que começou.
Está se aproximando dos 200 dias de invasão. Eu vou hoje ao final da tarde. Já é meio dia, eu acho. Não temos relógios, mas o sol está alto e está fazendo calor. De qualquer maneira, eu conversei com Gabriel de manhã. Ele estava batendo os pés no rio, fitando a água corrente.
“Oi” eu disse.
“OI” ele respondeu.
Sentei-me ao lado dele. Tirei os tênis velhos que eu uso há 190 dias e mergulhei os pés na água. Gabriel olhou pra mim, depois abaixou a cabeça, e murmurou:
“Melissa fez um bom trabalho”.
Passei as mãos pelo cabelo.
“Hum-hum” eu grunhi. Não sabia mais o que dizer, então sugeri: “Você podia pedir pra ela cortar teu cabelo também”.
“Não quero” ele disse. “Antes disso, eu queria ficar com o cabelo igual ao do Dave Grohl. Acho que está funcionando, né?”.
Eu ri baixinho.
“Sim, está” concordei. Ele olhou pra mim, depois olhou pro rio.
“É bem confuso” ele disse.
“Não. Vários garotos querem ficar com o cabelo igual ao do ídolo”.
“Não o cabelo. Isso tudo”.
“Eu evito pensar sobre tudo”.
“Eu não. Quer dizer, fora tudo, tudo, ainda existe o que acontece aqui dentro”.
“Um BBB de fim de mundo?”.
Gabriel riu.
“Sim, acho que sim. Mas... Já teve gente gay no BBB?”.
Eu limpei a garganta.
“Não sei. Eu não assistia” eu disse.
“Nem eu” ele concordou. “Era uma merda. Mas se tivesse, a gente ia saber”.
“Provavelmente”.
Ele se virou pra mim.
“Você sabe. E eu sei que você sabe”.
“Você tentou esconder?”.
“Sim. Mas você viu que o Murilo me beijou”.
“Eu não tenho nada contra isso”.
“Não estou te acusando. É bizarro, especialmente no fim do nosso país, quando estamos nos escondendo numa gruta”.
“É bizarro, mas não porque você é gay. Seria bizarro se você fosse hétero, se você fosse bi, se você fosse trans, ou sei lá o que. É bizarro porque não é hora nem lugar. Ao menos, parece”.
Ele concordou com a cabeça.
“Eu nem sei se sou gay, Patrick” ele admitiu. “Eu não sei. Talvez eu só precisasse de alguém. Qualquer um. Por que... Como você e Melissa costumam dizer, ‘as pessoas se perdem’”.
“Sim. Mas às vezes elas se encontram. E às vezes, encontram algo que elas estavam reprimindo”.
“Está dando uma de Freud agora?”.
Eu ri.
“Sim. Mas se você é gay, seja gay. Se é hétero, seja hétero. Se é bi, ou trans, seja bi ou trans. Seja quem você quiser. Provavelmente vamos todos morrer amanhã. Depois de amanhã. Depois do depois de amanhã. A gente tem pouco tempo, especialmente aqui. Porque é só uma gruta”.
Gabriel pareceu refletir.
“A gente devia fazer uma capela. Sei lá, pedir alguma coisa pra Ele” Gabriel disse.”Você acredita em Deus?”.
“Sim”.
“É católico?”.
“Eu não sou mais nada. Só acredito, e pronto”.
“É uma ótima religião, essa de ‘só acreditar e pronto’”.
“Sim. Sim, é simples. Falando em simples, eu estou simplesmente com fome. Quer alguma coisa?”.
“Não”.
Fui até a cozinha, com os pés pingando. Na realidade, a cozinha era apenas mais um canto da gruta. Abri as caixas de papelão que alguém arranjou. Nossos mantimentos estavam acabando. Éramos trinta e três, comendo quando tínhamos fome. Não podíamos cozinhar com fogo, porque chamaria a atenção dos americanos. Então, nós pegávamos coisas prontas do depósito.
Encontrei Murilo devorando uma fruta. Ele virou o rosto pro outro lado quando me viu. Eu tentei agir com naturalidade, mas o ar parecia reprimir cada célula no meu corpo. Então, eu me virei pra ele, e perguntei:
“Por que você me odeia?”.
Ele me olhou com raiva.
“Você me lembra alguém” ele disse.
“Quem?”.
Murilo riu secamente.
“Viu? Ele era intrometido também. Arrogante. Preguiçoso. Você se parece muito com ele”.
“Ele quem?”.
“Leonardo” Murilo disse, mordiscando a fruta. “Meu ex”.
Eu não sei qual a minha expressão.
Mas eu pude entender.
Murilo não era afetado. Talvez tivesse que recolher pra si o fato de ser bi. E, fora isso, tinha a minha idade, apenas alguns anos a mais ou a menos. De qualquer maneira, ele estava sozinho, como todos nós estamos, nessa situação. E, estando sozinho, ele não tem ninguém para descontar a raiva. Leonardo provavelmente se foi, e Murilo está com raiva. Então, eu me pareço com Leonardo – ou Murilo acha isso.
Então, Murilo me detesta.
“Bom” eu disse, chutando uma pedra invisível no chão, “Eu queria sua ajuda. Independente de quem eu pareça ser”.
“Eu? Ajudar? Você?”.
“Sim. Hã... Eu quero que você esteja num ponto da floresta pra quando eu tirar alguns brasileiros das naves. Só... Receba eles. Eles provavelmente vão estar assustados”.
Murilo praguejou.
“Eu não conseguia dizer não pro Leo” ele disse.
“Bom. Acho que em duas semanas vai estar tudo certo”.
“Planeja ficar lá tanto tempo?”.
“Claro. Tem muita coisa pra fazer”.
Depois eu me virei e saí, com uma sensação de que devia ter dito alguma coisa. Porque essas palavras pesam na minha mente e elas não vão embora tão cedo.
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