A Invasão

18 Abrigo dos Exilados, 25 de maio de 2015.


179 dias desde que começou.

As coisas, pelo menos em parte, estão se acalmando.

Cássia continua a me lançar olhares estranhos, e eu não sei o que pensar. Talvez ela ache que eu sou um traíra. Talvez ela me ache patético. Bem, eu sou patético.

Melissa parece indiferente em relação a tudo e a todos. Também é melhor assim. Murilo parece não querer falar comigo desde... Bem, desde sempre. Murilo simplesmente tem repulsa de mim.

Porém, Gabriel veio falar comigo. Gabriel é bem mais sociável.

“Nós precisamos nos reunir”.

“Nós?”.

“Você, eu e o grupo”.

Eu o segui. Porém, quando cheguei, notei que “o grupo” se definia apenas em homens. Será possível que nem com uma invasão territorial o machismo seria eliminado no nosso país? Acho que não.

Os homens estavam sentados numa roda. Alguns murmuravam, mas a maioria apenas encarava o chão. Eu e Gabriel nos sentamos. Murilo irrompeu pela abertura de onde saímos. Eu tremi. Estaria ele nos seguindo?

Sabia que estava sendo paranoico. Murilo sentou-se bem longe de mim e nem me dirigiu o olhar. Não seria essa a atitude de alguém suspeito? Eu espantei esse pensamento. Só percebi que fitava Murilo quando tive de dirigir o olhar ao primeiro Gustavo.

“Nós temos um plano pra pegar comida. Mas é meio estranho. Precisamos discutir isso” Gustavo disse. Dirigiu um olhar até Gabriel. “E precisamos saber onde fica o depósito”.

“Não importa” Gabriel rebateu. “Nós explodimos ele”.

Gustavo ficou pálido.

“Vocês explodiram o depósito?” ele gritou. Gabriel assentiu, indiferente. “Explodiram o único lugar de onde a gente podia pegar comida?”.

“Calma, velho” um garoto disse. “A gente vai dar um jeito”.

“Eu vou é dar um jeito nas suas bolas, porra” Gustavo rebateu. “Meu Deus, vocês sabem o que isso significa?”.

Ninguém respondeu. Gabriel estava lutando pra parecer indiferente, mas agora ele parecia emanar tensão. Eu não estava diferente. Afinal, eu havia ido junto. Também era minha responsabilidade botar juízo naquele bando de moleques desgovernados – ainda que eles fossem mais velhos que eu.

E era minha obrigação, também, impedi-los de matar Jeffrey.

Mas eu não o fiz. Pois, quando eu vi Jeffrey, a bomba já estava lá, pronta para ser estourada. Eu não faço ideia onde eles conseguiram uma bomba. Talvez tenham invadido o armazenamento de armas dos americanos – porque o Brasil definitivamente não tinha bombas.

Está aí. Uma coisa que deixou-nos mais vulneráveis. A falta de armamento. Bom, eu estou sendo hipócrita: eu sempre defendi a questão de que o Brasil não precisava de armamento pesado, porque o Brasil não se metia em guerras. Bom, e contraponto a minha decisão anterior, isso é uma guerra. E parece que o jogo virou, não é mesmo?

Gustavo continuou:

“Eles vão trazer os alimentos de fora” disse. “Fora daqui”.

“Eles já traziam” eu intervi. Afinal, eu era um dos poucos que realmente havia estado lá dentro e conversado com um americano. “Eles já traziam de fora”.

“Ele quer dizer que não vão mais armazenar nada aqui” Gabriel explicou. “Porque agora eles sabem que é perigoso. Que nós estamos aqui”.

“Mas... Quer dizer, eles vão construir um novo depósito, né?” um garoto que eu não sei o nome interviu.

“Não vão, não” eu expliquei. “Eles podem fazer tudo, menos construir um novo depósito”.

“E o que eles vão fazer?” outra pessoa interviu.

Gustavo suspirou. E disse:

“Talvez eles matem todos que estão nas... Como aquilo se chama?”.

“Naves” eu esclareci.

“Nas naves. Isso. Eles sabem que não vamos ter muita coisa pela qual lutar se matarem todos lá”.

Eu refleti um pouco.

“Acho que não” eu disse. Todos olharam pra mim.

“E por que você acha isso, moleque?” Murilo se manifestou pela primeira vez. Eu lancei meu olhar sobre ele.

“Eles sabem que nós estamos aqui fora. Nós somos a ameaça, e apenas nós” eu disse.

“E como você sabe que não tem outra nação lutando por nós?”.

“A invasão começou há 179 dias. Se alguém ia intervir na nossa situação, já teria feito isso.”

“179 dias” Fernando repetiu. “5 meses e meio”.

“É. Cinco meses pra intervir, e ninguém interviu”.

“E o que isso tem haver com o depósito?” Murilo perguntou.

“Nada. Mas isso significa que nós somos o inimigo, e que eles não têm ninguém mais pra combater. Nós somos fracos, porque só temos uma arma, e agora não temos de onde tirar suprimentos”.

“Isso nós sabemos. Não precisa esfregar na cara”.

“Não é isso. Por que eles matariam os outros? Eles não têm como se defender”.

“Bom, mantê-los pode custar caro” Fernando disse. “Comida, água...”.

“Mas eles ainda estão mantendo-os. Mas por que mantê-los? E pior ainda, por que matá-los?”.

“Isso ainda não explica nada” Gustavo disse.

“Eu sei. Bom... E se eles pararem de alimentar os que têm lá? Por que eles alimentavam, e era daí que nós tirávamos suprimentos. Então agora é um risco a menos pra correr”.

“Acha que eles parariam com esse sistema porque um bando de adolescentes explodiu uma garagem de comida?”.

“Acho. Nós matamos Jeffrey”.

“Jeffrey?”.

“É. Tinha um cara lá, e ele se chamava Jeffrey”.

“Como você sabe que ele se chamava Jeffrey?”.

“É complicado. Mas a questão é que os dois lados estão errados. Eles não vão construir um novo depósito, mas também não vão trazer alimentos. Eles vão deixar o que sobrou de nós... Morrer de fome”.

Fernando, Gustavo, Murilo, Gabriel, todos ficaram em silêncio.

De repente, alguém gritou. Um grito feminino. Eu imediatamente pensei em Melissa, mas logo esse pensamento se extinguiu. Eu e mais alguns homens levantaram e corremos em direção ao grito.

A bolsa d’água de uma mulher grávida havia estourado.

Melissa estava ao lado dela. Tinha as mãos molhadas, e tentava acalmar a mulher, que encostava as coisas na parede fria da gruta. Respirava pesadamente. O pânico emanava do lugar.

Um homem foi empurrado à frente.

“Você é médico” Murilo disse par ao homem, que estava apavorado.

“Eu sou auxiliar de enfermagem” ele esclareceu.

“Tudo a mesma coisa” Murilo disse, empurrando o homem pra baixo. Melissa tratou de fazer a mulher escorregar ao chão também, e ela ficou deitada. Ao invés de abrir os joelhos para, sei lá, deixar a criatura sair, ela estava de pernas fechadas, como se quisesse que o bebê voltasse pra dentro.

Eu não conseguia me mover. Era meio apavorante, embora eu não tivesse absolutamente nada haver com a aquilo. E a mulher não parava de gritar. Eu vi uma figura chegar correndo pelo outro lado: Barbara.

Ela arregalou os olhos, com o rosto pálido. Parecia incapaz de se mover, como eu.

Pessoas gritaram, reclamaram e grunhiram, mas eu apenas me afastei. Não tinha razão pra estar ali. O que aconteceu depois eu não sei. Só sei que não vi a mulher o dia inteiro.

E agora, aqui estou eu, escrevendo no meu cubículo.