A Invasão

17 Abrigo dos Exilados, 23 de maio de 2015.


Notas iniciais
Esse capítulo é meio fraco, então acho que vou colocar um poema tapa-buraco pra ajudar na leitura, pra deixar mais interessante e tudo -- mas tem a ver. Tipo, é perfeito.

Uma Canção

Minha terra não tem palmeiras,

E em vez de um mero sabiá,

Cantam aves invisíveis

Nas palmeiras que não há.

Minha terra tem relógios,

cada qual com sua hora

Nos mais diversos instantes...

Mas onde o instante de agora?

Mas onde a palavra "onde"?

Terra ingrata, ingrato filho,

Sob os céus da minha terra,

Eu canto a Canção do Exílio.

Mario Quintana.

177 dias desde que começou.

Precisamos pegar mais comida. Não sabemos por onde começar. Explodimos o depósito, e eles provavelmente estão de olho em nós. Sabem que estamos aqui. O que faremos? Temos gente que precisamos proteger e coisas que precisamos zelar por.

As preocupações são um bolo de neve.

As crianças brincam como podem. Às vezes, alguém vai lá fora com elas, porque ninguém merece ver uma pessoinha de seis anos trancafiada numa gruta. Quanto a nós, adolescentes? Melissa conversa com todos e ajuda em algumas coisas – tirar musgo das paredes da gruta, planejar colocar uma pedra aqui e ali...

Eu passo meus dias me preocupando. É uma sensação a qual eu me acostumei. Acordar, esfregar os olhos, se preocupar, beber água, se preocupar, conversar, comer, se preocupar, pensar, escrever, se preocupar, se preocupar e se preocupar. Perto de todo o resto, isso é a coisa que eu mais faço.

Não me lembro como eu me sentia antes.

De qualquer maneira, Barbara está sendo mais útil que eu. Ela sabe fazer milhões de coisas que só as mulheres sabem fazer e que os homens nunca vão ser capazes de aprender. Como, por exemplo, fazer um bolo sem leite nem ovos. Ela ainda é calada. Mas nem tanto. Ela não puxa assunto, mas não se esquiva nem treme quando falamos com ela.

De qualquer maneira, a pressão parece estar esmagando meu peito. Principalmente porque ela é compartilhada; todos se preocupam e eu sou só mais um.

Acho que é isso que eu sempre fui. Só mais um.

Porque o mundo sempre foi grande demais pra mim. Sempre foi muito vasto; muita coisa pra explorar. E agora, mais ainda. Parece que minha mente simplesmente não capta tudo, e eu fico perdido num mar de incompreensão, olhando para todos os lados tentando assimilar tudo.